sexta-feira, julho 11, 2003

Desacordortográfico - A Guilda


"A guilda"? Porquê "A guilda"? Quando li este palavrão, pensei que fosse uma dessas revistas culturais, da classe "Gina" (as revistas culturais são como as corvetas, dividem-se em classes). Se fosse hoje, juraria que o vocábulo saíra da mente do Pipi, esse gigante da literatura do chavasco, para mais sabendo que o Pipi não esconde o Seven-Up (1) nem o Soft Sense (2).
Como diria JPP, - que, aliás, nunca poderia ser o Pipi, pois quem se levanta, manhã cedo, se olha no espelho e exclama "Je reviens, tel un parfum!..." não tem capacidade de autocrítica que permita uma flagelação como a exercida no Pipiblog - "apesar do contexto", apenas o meu inglês desenrascado permitiu identificar o neologismo como "Guild".
Lembro-me desta palavra de a ter lido a primeira vez, há muito, muito tempo atrás, no fabuloso Dune, de Frank Herbert (3), como identificando o grémio dos navegadores, "especiariódependentes". Olha! Aí está a palavra certa, afinal. Grémio.
Passemos às respectivas definições:

Guilda:
s.f. HISTÓRIA associação corporativa medieval, na Flandres
(do neerl. gilde, "corporação",
pelo lat. med. gilda-, "id.",
pelo fr. guilde, "id.")
in Dicionário de Língua Portuguesa 2004, p. 856, Porto Editora

Grémio:
s.m.
(1) grupo de entidades patronais que exploram ramos de comércio ou indústria mais ou menos afins;
(2) corporação; associação; assembleia;
(3) sede desse grupo (do lat. gremiu-, "regaço; seio")
in Dicionário de Língua Portuguesa 2004, p. 856, Porto Editora

Guild:
n. (used as sing. or pl.)
1 an association of people with similar interests or pursuits.
2 a medieval association of merchants or craftsmen.
in The New Penguin Compact English Dictionary, p. 391, Penguin;

e ainda,
Guild, gild, n. [O.E. gild, a payment, hence a society where payment was made for its protection and support, < gildan, to pay; D. gild, a guild.] In medieval times, an organization of merchants or artisans; an association of men having similar interests or engaged in the same business, often formed for mutual aid; ecol. a group of plants having specialized life patterns which make them in some degree parasitic or dependent upon other plants. —guild•ship, n.
(in The Portuguese Living Webster Encyclopedic Dictionary of the English Language, p. 430, Bertrand, The English Language Institute of America, Chicago, Illinois, 1974)

notas:
Na 4ª Edição, "muito corrigida e aumentada", do Dicionário de Português da Porto Editora (circa 1964), o termo "Guilda" nem aparece mencionado. Já "Grémio" via vertidos para o português corrente os seus significados em latim, "seio" e "regaço". (na obra citada, p. 755);
Na primeira edição da Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura Verbo (Lisboa, 1969), "Guilda" surge no mesmo sentido que o obtido no Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora de 2004, indo mais longe, naturalmente, e referindo a criação das hansas, etc.; o que, conjugado com a ausência da expressão no dicionário mencionado acima, de 1964, significa que "Guilda" é um termo enciclopédico, isto é, hoje em dia, usar o termo em linguagem corrente, equivale a chamar "Romança" a uma canção da Ágata (exceptuando a da Abelha Maia, mas ainda não era A Ágata).

Resumindo:
Fica demonstrado que a "Guilda", tal como hoje aparece em jornais, impressos e televisionados, não tem sentido. É mais um desses neologismos que parece ter surgido por geração espontânea, mas que, vindo do inglês (língua em que "grémio" é o seu significado principal e corrente), se trata de mais uma brasileirada aportuguesada. Como diria o Lula, "está na cara, cara!"

É sempre bom saber que, por exemplo, o canal National Geographic, na TV por cabo, verá a sua emissão em brasileiro passar a português, para Portugal, naturalmente, mas depois surgem estes abastardamentos da língua de Pessoa e, pessoalmente, fico triste.

Deixem a Guilda em paz e usem o bom velho grémio, que se isto - a junção do português com o brasileiro depois de este se ter tornado 50% brasingleiro - é o acordo ortográfico, então prefiro mesmo o desacordo ortográfico, ou, se preferirmos, um neologismo português de gema, o desacordortográfico.


(1) Vasco Graça Moura
(2) Eduardo Prado Coelho
(3) Eu escrevi "ler", não "ver", além disso, Lynch odeia Dune, o filme de Dino de Laurentis (não de Lynch, note-se!)

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