domingo, julho 20, 2003

Enfrentar o Passado


A reacção da Alemanha ao infeliz comentário de Berlusconi no Parlamento Europeu é típica de quem não tem o passado resolvido. As realidades não se podem iludir. Claro que existiu nazismo na Alemanha; claro que existiu fascismo em Itália; claro que os alemães de origem judaica optaram pela fuga em massa perante a ascensão da besta nazi, como afirmou RS (ver post Demissionário, mais abaixo). Poderia ter sido de outro modo? Pode sempre. As razões que impediram que fosse de outro modo continuam a apaixonar milhares de estudiosos e historiadores, mas nenhum dos resultados produzidos por tais estudos pode alterar o passado. Resta enfrentá-lo e aprender a viver com ele. Ou, teimosa e autisticamente, ignorá-lo.

Veja-se Portugal e o 25 de Abril, por exemplo. Ainda hoje se usa a expressão "revolução dos cravos", quase esquecendo a mais correcta "Movimento das Forças Armadas", relativamente ao 25 de Abril de 1974. Já Oriana Fallaci, em "Entrevista com a História" (1976), confrontava Álvaro Cunhal com a realidade: a dita "revolução" foi, de facto, um Golpe de Estado. Mais ainda, uma acção cuja origem esteve mais ligada com a guerra colonial do que com o desejo de instaurar a democracia. Tal facto tornou-se dolorosamente visível durante o processo de descolonização. Quase ninguém relembra isto e começa a tornar-se evidente que um distanciamento de 30 anos não é suficiente para analisar os factos do ponto de vista do historiador, tal como o trauma nazi tem impedido uma análise depurada da incapacidade de reacção dos alemães (especialmente os judeus) à instalação do NSDAP no poder.
(nota: convém relembrar que só entre 1929 e 1939, o período em causa, a Palestina acolhe mais de 60.000 imigrantes judeus oriundos da Alemanha, entre um total de 250.000 de todo o mundo - in "Israël-Palestine, une terre, du sang, des larmes", Le Monde, Librio, 2002)

Os recentes desenvolvimentos da situação interna nos EUA, com os constantes avisos de que algo de grave está a suceder com a democracia norte-americana, passam por este processo. Para bem dos norte-americanos, como de todos nós, dada a influência que os EUA exercem no mundo, espero que não se chegue ao ponto de perguntar, um dia, como foi possível que ninguém fizesse algo para impedir que um Governo supostamente democrático se transformasse numa ameaça para o seu país e para o mundo. Todos temos um papel a desempenhar para que o pior não se concretize, dada a influência da opinião pública mundial nos dias de hoje, mas serão os norte-americanos quem terá de reagir a esta ameaça, como ontem seriam os alemães face ao nazismo ou os iraquianos face ao Baasismo, como hoje são os palestinianos face ao sionismo, os iranianos face ao absolutismo dos ayatollahs ou os portugueses face à mediocridade.

Os outros cidadãos, de outros países, podem ser solidários, mas, até que tais perigos os ameacem, de facto e não apenas supostamente, são meros espectadores. Exactamente o oposto do que define a estratégia norte-americana de "prevenção", apenas possível por já não existir mais nada no outro prato da balança que o bom senso dos que acreditam, ainda, ser possível pensar por si.

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