segunda-feira, setembro 29, 2003

Blogsense


Em troca de e-mails do Semblano (RS) com uma leitora d'A Sombra, homónima de Maria João Pires, foi feito um comentário ao meu post "O hábito da escrita", em que referi uma situação que consideramos desagradável, ocorrida com o blog de João Hugo Faria (JHF), entretanto desactivado.

Fruto desse comentário, que me foi enviado por RS, quero acrescentar algo ao que já escrevi, não como resposta a Maria João, até porque não me foi dirigido o e-mail que referi, mas a seu propósito.

Embora concordando com o princípio que exponho no meu post "O hábito da escrita", a Maria João faz notar que o blog de JHF tinha um conteúdo, digamos, "pouco inocente". Não o diz por palavras, mas inclui no seu e-mail um post da autoria de JHF que ilustra a sua ideia. Refere, ainda, que tinha esse texto em arquivo por em tempos o ter enviado noutro e-mail, comentando o mesmo com indignação, na altura.

O que me sugere isto?
Que o blog de JHF mereceu uma notoriedade que, possivelmente (só conheço o post referido), não devia ter sido dada às suas reflexões. Que foi referenciado por vários blogs, a grande maioria dos quais, pelo que neles li, não comentou as suas ideias, limitando-se a enxovalhar o autor e pouco mais. Que este, inclusivé, teve honras de divulgação e reprodução dos seus escritos via e-mail, entre bloggers e/ou não só.
Ou seja, algo que, provavelmente, não merecia destaque algum, acabou por se tornar num "mini-caso" da blogosfera.

Nas minhas deambulações por este espaço virtual, tenho encontrado blogs inomináveis; alguns abomináveis, mesmo. Pouco falta para ostentarem a Hakenkreuz como imagem de marca. Nunca os enxovalhei; mas também nunca os nomeei ou referenciei de outro modo - dentro ou fora da blogosfera. Ainda não encontrei um único blog desse género, isto é, que expressa e pretende divulgar ideais repulsivos, sejam eles quais forem (a Hakenkreuz foi um exemplo), que mereça da minha parte um comentário ou uma crítica às teses que se propõem divulgar. São devaneios inconsequentes de espíritos menores.

Mas...
Se um dia encontrar um desses blogs com um conteúdo bem estruturado, escrito com calculismo e sagacidade, podem estar certos que lhe responderei à altura; nunca, porém, através do insulto fácil, mas antes procurando desmontar as suas teorias.
O recente exemplo do blog dedicado ao caso da pedofilia em Portugal nunca chegou a enquadrar-se nesta classe. Aliás, foi alvo merecido de sátiras hilariantes da parte de outros blogs - que nunca insultaram o seu autor, note-se. Não me deu para isso, mas podia ter dado. Sem nunca mencionar expressamente o alvo, como seria natural.

Não foi nada disto o que sucedeu com JHF.
Supondo que todos os seus posts eram do mesmo teor e calibre do enviado pela Maria João a RS, caso tivesse encontrado o blog de onde foi extraído não lhe teria dado importância. Já li bem pior, na blogosfera.
Os que lhe deram importância, no entanto, não o fizeram confrontando as ideias de JHF, mas, quase exclusivamente, enviando-lhe mensagens mais ou menos "suaves" sobre os seus atributos intelectuais.

Noam Chomsky foi um dia acusado de apoiar a causa de um revisionista, uma espécie de pequeno neonazi, por ter colocado a sua assinatura no abaixo assinado que protestava contra o seu possível silenciamento por parte das autoridades. Mesmo tratando-se de um sinistro personagem, eu assinaria por baixo de Chomsky, após pensar duas vezes, um abaixo assinado assim.
Sou um dos que lutará até ao último suspiro para que os meus inimigos tenham assegurado o direito de falar mal de mim.

Existem princípios pelos quais vale a pena lutar, ainda que, ao fazê-lo, se pareça estar a defender causas terríveis. A liberdade de expressão é um deles. Continuemos a falar e a escrever sobre o que tem real interesse ou é, simplesmente, divertido - e esqueçamos o que não importa.

Que o blogsense não seja nunca nonsense.

Fabien
Setembro 2003

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