quinta-feira, janeiro 26, 2006

Recurrent Dream...






A way of life







Era a incredulidade nos olhos da Criança. E ela disse:
- Passei mil infernos neste forno esquecido por Deus para que tu pudesses ser. E agora regressas... E tudo me parece ter sido em vão.
- Regressei por ti, meu amor.
Ela riu, entre as lágrimas que se tornavam em sulcos de luz no seu rosto coberto de cinza, sangue e terra, e cerrou os dentes, olhando-me fulminante.
- Maldito. Maldito sejas...
Uma flecha rasgou os céus, elegante, leve... Cravou-se abaixo do peitoral de aço da Criança, com um ruído surdo, ensurdecedor. Ela baixou a cabeça, deixando a No-Dachi tocar o solo com a sua ponta, ao mesmo tempo que procurava o meu ombro. Amparei-a. O seu nome morreu na minha garganta...
Ela voltou a cabeça para mim, devagar. Não havia nos seus olhos outra dor que a minha... Senti uma gota de água a desprender-se das minhas pestanas. Caiu, inevitável, sobre a armadura dela.
E perdeu-se.
O silêncio de todos aqueles sons era brutal. Os cascos dos cavalos no solo negro e vermelho; o ferro contra o couro; os urros animais dos danados que voltavam; o silvo das setas... E aqueles sóis. A luz daqueles sóis que julgava esquecida...
- Que estás a fazer?... - perguntou-me, num suspiro.
- O nosso tempo acabou.
Um sorriso nasceu nos seus lábios. Falara no plural.
- O quê?
- Não há lugar para nós.
A Criança ficou séria, fechando os olhos, largando com isso mais algumas lágrimas. Então, sentiu a ponta de aço serrilhado dentro de si. Olhamos os cavaleiros do Nada que se aproximavam; sólidos; determinados. Era a hora.
Endireitando-se, apoiada em mim, ela ergueu a cabeça, majestosa, os cabelos negros ao vento norte.
- O que podíamos ter sido... - começou.
- Fomos tudo.
Ela soluçou. Não podia quebrar. Não naquele momento. Olhou-me nos olhos.
- Fomos tanto. Mas...
- Nada resta, minha querida. Somos uma memória perdida no fundo de um saco que ninguém sabe onde está. Tu e eu somos só tu e eu. Mais nada.
- Mas havia tudo!
- Havia tanto... Agora nada. Apenas tu.
- E tu...
Com um movimento da cabeça, concordei, desviando o olhar para o horizonte vermelho.
- E os nossos demónios. - completei.
Erguemos as nossas lâminas pela última vez, a pé firme. Os cavalos estavam em cima de nós. Víamos os olhos dos nossos medos.
- Fabien...
Não respondi.
Enfim... Um pouco de paz.


Porque a um sonho, com um sonho se paga... E as memórias são já tantas.

FJ

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