quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Afinal o que é um burguês?...

Escrevia RS:
"Se ainda não viram, têm de ver.
Mas admito que a escolha de alguns seja a de permanecerem burgueses... É justo."
(a propósito disto)

Afinal de contas, o que vem a ser um burguês?
Fará sentido falar de burguesia nos dias de hoje, em que nem o proletariado existe mais? Será a "classe" um estado mental, nos tempos que correm? "Mentalmente, sou um proletário!", ou "Mentalmente, sinto-me burguês!"... Mas vejamos como faz ainda sentido, e muito, acusar alguém de tal sorte:

burguês: s.m. 1 na Idade Média, natural ou habitante livre de um burgo, que gozava de certos privilégios < adj. 2 relativo, pertencente ou próprio do burgo < adj.s.m. 3 relativo à burguesia ou indivíduo pertencente à classe média, cujo mister não é manual (como o dos operários e camponeses), e que goza de situação, social e economicamente confortável 3.1 pej. que ou aquele que não tem grandeza nem abertura de espírito por revelar um excessivo interesse por segurança, êxito material, bem-estar etc. 4 pej. que ou o que demonstra contar com horizontes estreitos: ser antiprogressista, preconceituoso, reaccionário, ou nada entender das coisas do bom gosto e da arte, ou ter inquinações e sentimentos pouco elevados (todos considerados como características dos burgueses) N cf. pequeno-burguês (...)

Assim, podemos dizer que, de acordo com 3, 3.1 e 4, o que não falta por aí são burgueses.
A todos eles, em meu nome e no do poeta, dedico este poema.


A gravata de fibra como corda
amarrada à camisa mal suada
um estômago senil que só engorda
arrotando riqueza acumulada.

Uma espécie de polvo com açorda

de comida cem vezes mastigada
de cadeira de braços baixa e gorda
de cómoda com perna torneada.

Um baú de tolice. Uma chatice

com sorriso passado a purpurina
e olhos de pargo olhando de revés.

Para dizer quem é basta o que disse
é uma besta humana que rumina
é um filho da puta

é um burguês.


José Carlos Ary dos Santos in O Sangue das Palavras, 1978, Lisboa


Burguês. Ó burguês.
Não finjas que estás a ler o jornal!...
Sim, tu! É contigo que falo.

FJ

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