sexta-feira, janeiro 02, 2004

Está-se bem


Et me voici!
As Terras do Falcoeiro permanecem tranquilas. A viagem desde o Porto, entre a uma e as duas e trinta da manhã do primeiro dia do ano, nunca correu tão bem. Faz três anos, estava uma tempestade de respeito - de onde o título da entrada anterior.

Passado o primeiro dia do ano em paz e sossego, cá estou no Web.Café, a dar uma vista de olhos pela escrita da rapaziada (e das meninas, claro). Confesso que não consigo afastar-me demasiado da blogosfera. Um curioso campo magnético parece envolvê-la! Não é preciso investigar muito para determinar a sua origem: é gerado pelos que nela escrevem.

O ano começou mal, como diz o editorial de Nuno Pacheco, no Público de hoje. De facto, não sei porquê, parece que todos os nossos desejos para 2004 vão sair furados. Espero que não, mas pela amostra... Enfim, aguardemos a prisão preventiva de Jorge Sampaio, assim ele deixe de ter imunidade, assim como de Teresa Guilherme, João Baião, Cinha Jardim, Manuela Moura Guedes, Manuel Monteiro, Paulo Portas e outros cromos. Ah, esqueci-me de mencionar o porquê desta afirmação: é que enviei uma carta anónima a Rui Teixeira implicando-os a todos no processo, na esperança que ele os prenda por um ou dois anitos. Junto com o conteúdo desta entrada, espero que a carta seja anexada ao processo! :)

Uma coisa parece ser certa: 2004 será mais um ano "casapiano", pelo menos até ao começo do Euro. E por falar em Euro, já repararam que em inúmeras publicações estrangeiras e algumas nacionais (como o Público) o local de abertura do campeonato é apontado como sendo Lisboa? Passou-me alguma coisa ao lado ou o jogo de inauguração ainda é no Porto? Ainda vamos ter turistas à procura do estádio do Dragão em Sintra...

Antes que me esqueça, deixo uma sugestão para 2004: não se esqueçam de entrar nas auto-estradas com os depósitos cheios e a mala a abarrotar de bidões de gasolina, para o caso dos assaltos que se estão a preparar nas áreas de serviço se virem a verificar. Be prepared!

Enfim... Esta entrada já vai longa e a conversa está cada vez mais curta. Um fenómeno, n'A Sombra: uma entrada verdadeiramente nonsense. Deve ser da televisão estar sempre ligada, em casa dos pais da Lina. Não posso deixar passar este ano sem os convencer a instalar TV por cabo... É que hoje fui apanhado desprevenido e lá estava a Teresa Guilherme outra vez!! Eu a pensar que aquilo já tinha acabado! Espero que o Rui Teixeira tenha lido a minha carta - o nome dela aparece várias vezes! :)

Bom fim-de-semana a todos.

nota:
O Sol brilhou, hoje! Não está tudo perdido!
Até por ter sido dia de Inimigo Público!
(Seria do Scolari, um daqueles esqueletos?)

Edição e publicação: Web.Café, Alvaiázere.

quarta-feira, dezembro 31, 2003

Stormrider


Como já vem sendo hábito, desloco-me para Alvaiázere no Ano Novo. É uma tradição que espero poder manter por muitos anos e que me dá prazer; começar o ano na tranquilidade das Terras do Falcoeiro.
Para mais, este ano calha bem, pois aproveito o fim-de-semana e permanecerei mais uns dias. Como é costume, sempre que lá me encontro, actualizarei A Sombra desde o Web-Café local. Inch' Allah!

Para todos, votos renovados de entradas de arromba. Até então, um grande abraço desde A Sombra. See you next year! (*)

(*)
E isso não significa dentro de três quartos de hora! :)

terça-feira, dezembro 30, 2003

All Blog Stars 2003


A Sombra tem cumpridos quase seis meses de existência. A nossa primeira entrada data de 04Jul2003 e, na altura, pretendia ser um blog colectivo. Desde então, porém, os bloggers "de serviço" foram apenas três: o Pedro Couto (PC) - com o estonteante total de uma entrada publicada (!), que já se converteu no objecto do nosso "desporto" oficial: descubra a entrada de PC n'A Sombra! -, Fabien Jeune (FJ) e eu próprio.

Desde o início que os arquitectos Manuel da Cerveira Pinto (MCP) e Helena Ricca (HR) andam arredados da Web por razões de manifesta falta de tempo a que se tem somado, diga-se em abono da verdade, falta de pachorra!, enquanto Fernando Granjo (FG), companheiro de outras lutas e bom amigo, ainda não encontrou forma de conciliar a participação activa neste espaço com um período particularmente invulgar da sua vida, que espero seja ultrapassado de largo em 2004.

Há alguns dias, o próprio Fabien chamava a atenção para este facto insólito, em termos diplomáticos que, traduzidos, significavam "se-isto-é-um-blog-colectivo-vou-ali-e-já-venho", mas, para mim, A Sombra será sempre um blog colectivo, até porque muitos dos temas aqui retratados foram objecto de conversas com os restantes amigos, activos ou não neste espaço, o que é uma forma de colaboração, afinal.
Por esse motivo, apenas realizarei uma pequena, mas significativa, mudança estrutural no cabeçalho do blog, onde passará a existir uma distinção entre os bloggers permanentes, que já publicaram entradas, e os que ainda não encontraram o momento adequado à sua estreia.
Esperemos que 2004 seja propício às suas intervenções - em especial por se tratar de personalidades fortes de convicções precisas (e polémicas!), o que traria um gosto especial a este espaço. A ver vamos.

Quanto à Blogosfera em 2003... Talvez alguns esperassem ver nesta entrada um ranking de blogs, uma indicação das nossas preferências ou algo assim. Mas não se trata disso.

Ao longo destes seis meses, A Sombra foi destacada por alguns blogs, destacou outros, foi colocada nas listas de ligações de outros... Enfim, estabeleceu ligações de vários tipos e a variados níveis com parte da blogosfera a que pertence e alguma da que se vai fazendo por todo o mundo, que, aliás, a julgar pelo nosso tracker, tem seguido também o nosso trajecto, da Nova Zelândia à Irlanda, do Japão à Bélgica, do Brasil a Taiwan - embora tal facto, caso os internautas oriundos dessas paragens não dominem o português, seja estranho, no mínimo (além de que a aplicação de software de tradução automática a páginas com o tipo de conteúdo d'A Sombra deve ser qualquer coisa de surreal!). E, naturalmente, fomos visitados pelos amigos com domínio norte-americano dot-gov. Just in case...

Neste curto período da nossa existência, conhecemos pessoas fantásticas, algumas almas quase gémeas, estabelecemos relações curiosas, fomos protagonistas de polémicas... Muito aconteceu, de facto.
Seria injusto criar um sistema de classificação de todos os blogs que se relacionaram connosco, premiar ou destacar alguns ou atribuir categorias. Não o faremos. Em condições normais, já existem os que destacamos "por mérito", com presença nos nossos Blog Links, na coluna da direita - e mesmo esses são ordenados alfabeticamente, sem ordem de preferência. O que fazemos, nesta entrada, é colocar por uma vez na nossa página principal todos os blogs que, de alguma forma, passaram por esta Sombra ou sobre os quais ela pousou. Sem distinção, sem outra ordem que a alfabética, sem os cognomes que atribuímos a alguns ou as suas classificações internas, como a pour le mérite, sem os códigos próprios da nossa lista completa de ligações.

Estes são, assim, aqueles que À Sombra disseram respeito ou da parte dela mereceram atenção. Aqueles de entre os presentes que atingiram um patamar superior na nossa consideração, incluindo os de algumas pessoas em que gosto de pensar como amigas, não precisam de o ver expresso aqui. Sabem-no bem.

Eis, portanto, os All Blog Stars de 2003, n'A Sombra. Alguns são já apenas uma memória, outros estão em pleno, outros ainda agora mesmo começaram... E há aqueles que jamais poderão voltar. Mas todos aqui se encontram.
Que a eles, sem excepção, 2004 traga fortuna, paz, bom senso e, afinal, felicidade. E que para o ano cá estejam todos, acompanhados por mais alguns!
Bem hajam por partilharem deste espaço. Boas entradas.

Pel'A Sombra,

Rui Semblano
Vila Nova de Gaia, 31 de Dezembro de 2003


  • 100nada

  • 500.000

  • A Aba de Heisenberg

  • A Origem do Amor

  • A Pedra e a Espada

  • Abram os olhos

  • Abrupto

  • Aviz

  • A Coluna Vertebral

  • A pente fino

  • A Praia

  • AANES

  • Absurdo Testamento

  • Acanto

  • Ai jasus!

  • Algarveglobal

  • Almocreve das Petas

  • amonarquiaemportugal

  • Analiticamente incorrecto

  • Anarca constipado

  • Assembleia

  • Avatares de um desejo

  • Blog de Esquerda

  • Barnabé

  • Bekbekbek

  • Blog sem nome

  • Blogdemocracia

  • Bomba inteligente

  • Brandos costumes

  • Castelo de Cartas

  • Cataláxia

  • Crítico

  • Cruzes Canhoto!

  • Cabo Raso

  • Castor de Mármore

  • Cidadão livre

  • Citador

  • Conversa da teta

  • Conversas de Café

  • Crónicas matinais

  • Dicionário do Diabo

  • Daedalus

  • Descrédito

  • Dunhill King Size

  • Eis o Triumvirato

  • El Coronel

  • Encapuzado extrovertido

  • Eu Vou Mas Volto

  • Extravaganza

  • Faccioso

  • Gato Fedorento

  • GANG - Grupo de Arquitectos No Gang

  • Glória fácil

  • Grande Superfície

  • Hora Absurda

  • Homem a dias

  • Icosaedro

  • (Indis)Pensáveis

  • Janela para o rio

  • Jaquinzinhos

  • João Hugo Faria

  • Little Black Spot

  • Local e Blogal

  • Lamentos de um pessimista

  • Leitura partilhada

  • Lugar Efémero

  • Método Eleitoral

  • Musana

  • Maizumpomonte

  • Mephistopheles

  • Miniscente

  • O meu diário

  • O meu pipi

  • O País Relativo

  • O Projecto

  • O Bisturi

  • O Carimbo

  • O Comprometido Espectador

  • O Divã de Portugal

  • O Jumento

  • O Merdas

  • O Mundo da Rata Maluka

  • O Proletário Vermelho

  • O quarto do pulha

  • O Suspeito do Costume

  • Oliveira de Figueira

  • Ouvido de Barman

  • Pegada na Areia

  • Ponto Media

  • Pequena superfície

  • PickPocket

  • Pintainho

  • Ponto e Vírgula

  • Probabilidade subjectiva

  • Professorices

  • Quarta Vaga

  • Reflexos de Azul Eléctrico

  • Resistência Islâmica

  • Realidade Virtual

  • Retorta

  • SolidariedadeBlog

  • Santa Ignorância

  • Sem Certezas

  • Semiramis

  • Terras do Nunca

  • Textos de Contracapa

  • The Serendipitous Cacophonies

  • Tolentino

  • Ter voz

  • Trezentos mil

  • Universos Críticos

  • Valete Fratres!

  • Vamos lixar tudo

  • Vastulec

  • Ver

  • Viva Espanha

  • Zapping


  • nota:
    Blogs em que participo de forma directa ou indirecta
    e páginas auxiliares d'A Sombra:

    Arquivo Manual d'A Sombra . Ano I
    Links Completos d'A Sombra

    Cinema para Indígenas (CpI)
    Fantasblog (Jason's Blog)
    Panorama (Blogarquivo do suplemento do Miradouro)

    A Sombra © Rui Semblano, 2003/2004

    Efeméride...


    Já há muito tempo não me acontecia dar com um blog fresquinho, acabado de nascer. Aconteceu-me hoje com o Lugar Efémero. E soube bem encontrar um pequeno lugar assim, como um dia todos nós fomos, a terminar 2003; que, afinal, em Portugal sempre teve um acontecimento político e social digno de nota bem positiva: o estabelecimento de uma Blogosfera Lusa sem Papas (desses e das outras) e viveiro/reserva de ideais democráticos que há muito julgava perdidos no remoínho do quotidiano em que a maior parte de nós está mergulhada.

    Do Lugar Efémero, nascido na noite de Natal, à 1:49 da manhã do dia 25 de Dezembro, retiro este pensamento do seu blogger, de quem desconheço a identidade:

    --- quote ---

    Não tinha sido assim
    que tinha pensado começar este blog. Aguardou tanto tempo, tantas hesitações da minha parte, e na noite de Natal teve de ser,
    es muss sein!
    O início está! O que virá não sei, nem quero saber neste momento. É um percurso efémero... quão efémero? who knows...

    --- end quote ---

    Ninguém sabe, de facto. Mas espero que esta efeméride seja asinalada para o ano, por esta altura. Porquê? Não sei explicar. É como quando simpatizo com alguém antes mesmo de trocarmos palavras.
    Para mim, no que toca à blogosfera, chama-se isto terminar o ano with a cherry on top... Que a este novo Lugar, de Efémero lhe baste o nome e a ideia de como é efémera a nossa própria existência, como seres-humanos.

    Suerte!


    nota:
    E agradecidos estamos ao Lugar Efémero por nos ter dado a honra de pertencer à pequena lista de "Blogs Perenes", como lhes chama, com que iniciou a sua listagem de ligações permanentes. :)

    segunda-feira, dezembro 29, 2003

    Professorices...


    A propósito de um blog que descobri recentemente, feito por um docente a pensar nos problemas da docência, o Professorices, de João Vasconcelos Costa - a quem aproveito para agradecer a gentileza da colocação d'A Sombra entre as suas ligações -, aproveito para dedicar aos professores algumas palavras, em jeito de "fim de ano".

    Dos professores que tive, muito poucos me merecem o tratamento de Mestres, aqueles cuja vocação para o ensino e o gosto de ensinar e, especialmente, de formar eram visíveis para além de qualquer dúvida. Era como se o respirassem numa manhã fria...
    Desses, felizmente para mim, o mais excelente foi o meu professor da escola primária, então assim designada, que me acompanhou da primeira à quarta classe, na hoje ainda existente escola da Serra do Pilar, a dois passos da casa de meus pais. Chamava-se Valentim Ferreira Almeida, para mim (e para tantos outros) o professor Valentim.

    O seu exemplo como mestre ficou marcado para sempre na minha memória e as suas lições de disciplina e método, o respeito que nos incutia pelo próximo, fosse ele o próprio professor ou o colega da carteira ao lado, e o rigor, o gosto e clareza com que nos passava os conhecimentos não seriam nunca esquecidos - nem ultrapassados.

    Ao longo do tempo, verifiquei, consternado, como o nível de qualidade pedagógica dos docentes por quem fui passando diminuía à medida que aumentava o grau de ensino. Fiz todo o secundário num Colégio privado, o que me deu em academismo o que perdi em experiência de vida durante esses anos, ou melhor, o que me proporcionou uma experiência de vida muito diferente do comum estudante liceal. Pagaria mais tarde com uma inusitada rebeldia a "libertação" do rigoroso ambiente em que passei os que, ainda assim, vejo hoje como os melhores anos da minha vida. Dessa rebeldia resultaria um intervalo razoável entre o Secundário e a Universidade, mas isso são outras histórias.

    Certo é que esse tempo "de espera" fez com que entrasse na Faculdade com uma maturidade diferente dos que transitam para a Universidade directamente; o que somado à educação clássica que tinha me deu uma capacidade de avaliação pedagógica que eles simplesmente não possuíam. Demais, o Secundário começava a estar saturado de professores "de ocasião" ou, pior, "de necessidade", pelo que os termos de comparação dos meus jovens colegas não eram nada de especial... Para mais, entrando a destempo, fi-lo percorrendo o longo caminho dos exames Ad-Hoc, que incluíam uma prova de Português mais os exames específicos ao curso que pretendia, estes orientados e avaliados por um júri de docentes que, em alguns casos, encontraria depois nas salas de aula. Foram dias de provas, da História da Arte ao Desenho Gráfico, da Geometria à Figura Humana. Algo que os meus colegas não precisariam de fazer para entrar e que, caso o necessitassem, impediria a maior parte de ter entrado, como depois constatei. Os bons resultados das minhas provas de acesso, assim obtidos, mais autoridade me davam para exigir o melhor dos que me ensinariam. Eu não precisava do curso, verdadeiramente, mas estava ali para aprender e, supostamente, com os "mestres". A desilusão foi imediata e demolidora.

    Salvo raras e honrosas excepções, os docentes universitários que conheci deviam ser tudo menos professores, do ponto de vista estritamente pedagógico e não pondo nunca em causa a sua competência científica. O que me impressionou mais, foi o número de recém-licenciados que começava imediatamente a dar aulas, por vezes aos 4º e 5º anos! Num ano eram finalistas, no outro estavam a ensinar finalistas. Reconheço que pode acontecer semelhante coisa, em circunstâncias verdadeiramente excepcionais, mas não era o caso. Para mim, aliás, ser docente numa Faculdade implica um trajecto de ensino e uma experiência pedagógica prévios, por mínimos que sejam. Mas nada disso acontecia e, ao que vejo, nada disso acontece. A mediocridade derrotou a excelência em toda a linha, seguindo o trajecto inverso ao que experimentei; isto é, degradando o Ensino Superior, depois o Secundário e, finalmente, o Básico... É o pandemónio instituído, para mais com a benção do Estado, incapaz de pôr fim a esta situação.

    Não é raro encontrar textos escritos por professores cheios de palavras como "próssimo" ou "assima". Os livros editados com anedotas sobre a sapiência dos nossos estudantes deviam dar mais vontade de chorar que de rir, pois muitos deles serão os professores dos nossos filhos. Até no recente "Ao correr da memória", de Diogo Freitas do Amaral, existe um episódio deste tipo, datado de 1984, em que um estudante universitário respondia por escrito à pergunta "Qual foi a Revolução que derrubou o Estado Novo?" da seguinte forma: "Foi a Revolução do 25 da Bril."
    Onde estará a dar aulas este cromo?
    Um parêntesis é aqui necessário para evidenciar a fraca qualidade da pergunta, pois o que aconteceu a 25 de Abril de 1974 foi um golpe de Estado e não uma revolução, mas dá-se o desconto dos meros dez anos volvidos sobre a ocorrência para justificar a forma como foi feita a questão - embora acredite que ainda hoje se ensine isto nas escolas...

    A avaliação docente é extremamente necessária e poder-se-ia iniciar por aí mesmo, pela avaliação dos conhecimentos de Português falado e escrito. Tenho a sensação que metade dos docentes em actividade dariam a vaga. Depois viria a avaliação pedagógica - e esta é a mais complicada, pois exige uma fiscalização independente da própria escola e fiscais idóneos... A depender das próprias escolas, com o recente e escandaloso exemplo das colocações de última hora "a dedo", como podem os docentes confiar no processo? E como será o perfil do inspector? E como excluir ou diminuir o papel do número de alunos com sucesso na forma de avaliação? Uma equipa de inspectores é necessária, actuando em conjunto. Um grupo de pessoas é mais difícil de corromper que uma só, além de que ajuíza melhor.
    De qualquer forma, é como as inspecções automóveis. Todos sabemos que existem casos de corrupção e que passam na inspecção alguns veículos que deveriam ir direitinho para a sucata, mas alegar que seria melhor não existir inspecção de todo é fraco argumento.

    Olha; ponham a Maria José Morgado a controlar o processo de inspecção dos docentes e das escolas - pode ser que funcione!

    Caros professores,

    Se não têm vocação para dar aulas, ponham a mão na consciência e tentem arranjar a breve trecho uma ocupação menos prejudicial para o país. Eu sei que todos temos de comer, mas a continuar assim, estarão a impedir os meus filhos de comer um dia...
    Quanto aos inconscientes, que são a maioria dos que nunca deveriam ser professores e ainda gozam com isso, façam de conta que não leram nada. Mesmo que tudo corra pelo pior, as hipóteses de irem parar a uma "sucata" não são tão poucas como isso. O que é uma boa notícia, apesar de tudo.

    To be continued...
    (ou como diria uma candidata a docente: "continuédê"...)

    nota:
    O Professorices passa a estar referenciado nos Links Completos d'A Sombra, sendo outro dos fortes candidatos a ligação permanente nesta página. Mérito já o tem, espaço é que não há muito. Fica a promessa de rever os blogs que actualmente fazem parte dos nossos Blog Links permanentes, à direita. Talvez haja surpresas em Janeiro!
    Ao João Vasconcelos Costa, que não me parece um dos que anda a exercer uma profissão que não condiz consigo, um grande abraço!

    domingo, dezembro 28, 2003

    O Passado Imperfeito - Parte 1


    Não me desagrada o politicamente correcto "Person of the year" que desde há alguns anos vem substituindo a designação típica "Man of the year" na revista Time. De facto, o último "Homem do ano" na Time foi Andrew Grove, um dos fundadores da Intel, em 1997; em 1998, a distinção foi atribuída a dois homens: Bill Clinton e Kenneth Starr, protagonistas do evento do ano: as aventuras extraconjugais do presidente dos EUA. Foi o último ano em que a designação foi usada, dessa feita no plural, "Men of the year", sendo o contexto quase insultuoso para o género em causa e transformando a adopção do título assexuado, no ano seguinte, numa anedota. Aliás, a informática regressaria em 1999, com Jeff Bezos, administrador da Amazon.com, como primeiro detentor do título "Person of the year".

    É uma designação mais lógica, dado estar em causa a personalidade que mais destaque mereceu no ano que passou, do ponto de vista da Time, seja ela masculina ou feminina ou... uma máquina, como em 1982, ano em que o Computador Pessoal levou o troféu e foi usada a designação "Machine of the year" (Time, January 3, 1983).

    A decisão da Time, ao atribuir a distinção de 2003 ao soldado norte-americano, apanhou-me de surpresa, mas suponho que a sua razão de ser é clara, tanto mais que, em termos de individualidades, em especial ligadas à política, este ano foi muito mau. Para além dos cromos repetidos, como o de 2000, no que respeita aos EUA as figuras de proa da administração do Estado encontram-se em "low profile mode", à espera de melhores dias - e a essas, a captura de Saddam Hussein não foi suficiente para fazer surgir à luz dos media como protagonistas de coisa alguma. São demasiado experientes para isso.
    Quanto à ONU, estamos conversados. Desde 1993 (o ano de Rabin, Arafat, de Klerk e Mandela) que a cena internacional não tem estadistas ou diplomatas que se destaquem pelo seu papel positivo - e mesmo nesse ano, Arafat foi à boleia, para equilibrar a foto. Hoje como ontem, apesar da "abertura" da administração Clinton e do "multilateralismo" que o actual Governo dos EUA diz perfilhar, inclusivamente na pedra de toque da sua política: a Estratégia de Segurança Nacional, de 2000, a ONU atravessa um período apagado, inglório e humilhante, reduzida a um simbolismo tão deprimente quanto evidente.

    Quanto a figuras europeias, os sucessivos escândalos relativos ao dossier iraquiano eliminaram Tony Blair da corrida ao título muito cedo, ao passo que os restantes protagonistas da Europa nunca poderiam fazer parte dela - os "amigos" dos EUA por demasiado apagados e os seus opositores por isso mesmo, para além de nada de realmente relevante terem feito, no sentido positivo.
    Do resto do mundo, que personalidade política destacar? Ninguém com real impacto no "mercado ocidental" fez nada digno de nota, pelo menos que mereça um destaque como o dado à "Pessoa do ano".
    Pensando bem, politicamente, 2003 foi um ano para esquecer; desde o peru de G. W. Bush ao autismo paranóico de Kim Jong Il, passando pela actuação de Paris e Berlim na (des)constituição da Europa. Quanto ao Oriente Médio, neste momento a competição entre Arafat e Sharon é mais para "Asno do ano" que para "Pessoa do ano"...

    Para mim, aliás, o homem do ano seria Michael Schumacher, pelo seu feito desportivo sem precedentes. Mas é alemão, além de que atribuir uma distinção a um desportista profissional num ano de guerra e de tensões seria fugir ao problema - e de que a Fórmula Um permanece uma curiosidade conhecida de meia dúzia de norte-americanos, num país onde fazer um circuito com mais de duas curvas é um delírio.
    A opção da Time não foi fruto desta pobreza em matéria de destaque individual político e/ou empresarial positivo. Ao ver a capa da sua edição de 29 de Dezembro, já à venda, não consegui lembrar-me de outra ocasião em que tal se tenha passado, isto é, em que o destaque fosse para o G.I. Joe (ou será G.I. Person?). Não me recordava de tal coisa com razão; a única outra vez que tal sucedeu foi em 1950, a propósito da guerra da Coreia. Não precisei de fazer nenhuma pesquisa; a própria Time esclarece este ponto nesta edição, numa pequena nota em que faz eco da notícia de há 53 anos.

    Hoje, a capa tenta ser politicamente correcta, representando dois homens (um deles negro) e uma mulher no uniforme dos Old Ironsides, a 1ª Divisão Blindada dos EUA. Chamam-se Whiteside, Buxton e Grimes; fazem parte dos Tomb Raiders, um pelotão de Old Ironsides que a Time acompanhou em detalhe no artigo "Portrait of a platoon" - a escolha de um pelotão com este cognome, aliás, demonstra que os norte-americanos continuam tão subtis como elefantes numa loja de porcelanas. O fantasma do resgate da soldado Lynch percorre-me a espinha, mas ao ler o artigo, parece-me legítimo e verdadeiro. Mas esta é apenas uma secção da parte da revista dedicada à "Pessoa do ano". Antes, uma introdução justificativa da escolha e uma série de fotos dramáticas; depois... Donald Rumsfeld.

    A tentação de colocar Donald Rumsfeld como "Person of the year" deve ter existido. É a única forma de explicar a presença de um artigo tão exaustivo como o dedicado aos soldados, com o secretário da Defesa norte-americano, incluído na secção dedicada à "Pessoa do ano". Depois de ter sido chamado de "herói dos nossos dias" nos jornais, chega a consagração na Time. Uma consagração tímida, mas uma consagração. Os Tomb Raiders estão ali apenas para preparar o terreno, como tantas vezes o fazem, mas desta vez é para o próprio "patrão".

    De um modo geral, o conjunto é uma peça banal do ponto de vista jornalístico, sendo os artigos dedicados aos soldados uma mera introdução a Rumsfeld. O artigo dos Tomb Raiders podia até encontrar-se em qualquer uma das edições da Time, com um título do género "Um dia na vida dos Old Ironsides" ou coisa parecida. Claro que a maior parte das pessoas, incluindo os soldados norte-americanos, simbolicamente representados pelos Old Ironsides, "agraciados" pela distinção, jamais conhecerá o interior desta revista, isto é, será a capa que lhes ficará na memória. Por esse motivo, o fim é parcialmente atingido: elevar o moral das tropas e, em particular, das suas famílias.

    Se a invasão do Iraque se justificasse, tendo Saddam Hussein atacado um país vizinho ou se fosse provado para além de qualquer dúvida (e não apenas da razoável) que estava a desenvolver um arsenal de armas nucleares ou biológicas ou químicas com intenção de as usar ou vender a potenciais terroristas, talvez fizesse sentido colocar na capa desta Time capacetes azuis, dando-lhes o título de "Pessoas do ano".
    Demais, se pensarmos no número de missões ainda existentes que envolvem capacetes azuis e mesmo nos casos em que soldados europeus e de outros continentes estão envolvidos em missões de estabilização - como é o caso da NATO nos Balcãs e no Afeganistão, por exemplo, a capa e a distinção da Time chegam a ser insultuosas.

    Para os países que envolveram tropas no Iraque - em especial para o Reino Unido - a Time "Person of the year" chega a ser uma bofetada na cara. Em Itália, as famílias dos Carabinieri que morreram no Iraque também devem ter achado imensa graça à capa desta Time. De facto, internacionalmente (e convém não esquecer que é uma distinção internacional), esta escolha da Time é descabida, arrogante e insultuosa.
    Já nos Estados Unidos ela vem mesmo a calhar, numa altura em que existiram já muitas centenas de cadeiras vagas ao redor das mesas de "Thanks Giving" - é preciso não esquecer os feridos, cujo número não é publicitado. Nem a captura de Saddam Hussein elevou o moral, pois as mortes continuam, como esperado. Já Miguel Sousa Tavares, no Público, avisava que só um imbecil esperaria o contrário...

    O unilateralismo dos EUA não consegue disfarçar-se. A visão do mundo que é hoje a de Washington, condensada de forma evidente no parágrafo da Estratégia de Segurança Nacional que escolhi para ombrear com o que define o porquê da escolha da Time (ver entrada "Strategy makes the Person", abaixo, já traduzida), permanece messiânica e tão autista como a de Kim Jong Il que, se fosse governante da única megapotência à face da Terra, já se encontraria às portas da Europa, no seu esforço para levar o culto do pai (e o seu) aos "ignorantes infelizes" do resto do mundo...

    Há muitos anos, via os EUA como bastião da democracia e da liberdade. Havia saído de uma ditadura e encontrava na junção dos ecos ainda fortes da Normandia com a inegável abominação soviética uma boa razão para os ver assim. Depois cresci. Veio o Vietname que encontrei nos livros, fossem eles escritos por adeptos fervorosos da veracidade do incidente do Golfo de Tonkin ou pela mão de Bertrand Russel, e nas imagens, fossem elas protagonizadas por John Wayne ou por Martin Sheen. Veio a América Latina de Che a Allende, de Fidel a Pinochet, de Roosevelt a Kennedy... Veio a Palestina, de Golda Meir a Rabin, de Arafat a Darwish.
    As ilusões foram ficando para trás; romances desfeitos por uma realidade impiedosa que fui encontrando sozinho, sem guias iluminados, em textos escritos por muitos punhos e ditados por variadas cabeças. E é a realidade que hoje se impõe ao sonho, ironicamente apoiada em imensas fábricas de miragens... Como a Time, precisamente.

    Se o mundo não abrir os olhos, a começar pelos próprios norte-americanos, agora apostados no desenvolvimento de armas nucleares tácticas e plataformas militares flutuantes gigantescas, em breve não restarão outras opções que as de escolher viver sob a Stars and Stripes... ou não. O problema é que nesse "não" se encontram, desgraçada e inevitavelmente, todos os que se opõem à "democratização" do mundo pelos EUA - desde o fanático muçulmano mais empedernido até eu próprio. Assim, como já é apanágio de alguns intelectualóides da nossa praça, acabaremos todos por passar de "antiamericanos primários" a "fanáticos terroristas". Já faltou mais.

    Para trás ficarão as tentativas egoístas de alguns para adquirir mais poder para si mesmos, como é o caso da Alemanha; o encolher de ombros dos que pensam ainda poder viver isolados nas suas fortalezas, como a Suíça; os que desenvolveram um instinto de sobrevivência apurado e se tentam enganar com processos de segundas intenções que nunca serão atingidas, como a Líbia...

    O que nos resta, então?
    Talvez a "esperança dos loucos"... A única que existe para lá da de Pandora, que essa já há muito se perdeu. Mas continuo um romântico, apesar de tudo. Continuo convencido que, globalmente, estamos condenados ao entendimento, sob pena de não sobreviver.

    A isto estamos reduzidos, portanto.
    A única esperança de entendimento da humanidade está no seu instinto mais básico, alimentado pela mais vã das ilusões: a de que, como ela, também nós sobreviveremos. Nós, que estamos condenados a morrer desde que nascemos.


    Rui Semblano
    Porto, 28 de Dezembro de 2003


    ver O Passado Imperfeito - Parte 2

    sábado, dezembro 27, 2003

    Strategy makes the Person

    (*) entrada traduzida no final.

    (...)
    For uncommon skills and service, for the choices each one of them has made and the ones still ahead, for the challenge of defending not only our freedoms but those barely stirring half a world away, the American soldier is TIME's Person of the Year.
    (...)


    Person of the year - The american soldier
    Time Magazine (Europe), 29 December 2003

    (...)
    Finally, the United States will use this moment of opportunity to extend the benefits of freedom across the globe. We will actively work to bring the hope of democracy, development, free markets, and free trade to every corner of the world.
    (...)


    The National Security Strategy of the United States
    New York Times, 20 September 2002

    nota:
    Este saiu expontâneo e, para já, fica assim.

    (*) Tradução:

    A Estratégia faz a Pessoa

    (...)
    Por aptidões e serviço invulgares, pelas escolhas que cada um teve de fazer e pelas que os aguardam ainda, pelo desafio de defender não só as nossas liberdades mas as que apenas se começam a desenhar a meio mundo de distância, o soldado Americano é a Pessoa do Ano na Time.
    (...)


    Pessoa do ano - O soldado americano
    Revista Time (Europa), 29 Dezembro 2003

    (...)
    Finalmente, os Estados Unidos usarão este momento de oportunidade para espalhar os benefícios da liberdade pelo mundo fora. Trabalharemos activamente para levar a esperança da democracia, desenvolvimento, mercado livre e comércio livre a todos os cantos do mundo.
    (...)


    Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos
    New York Times, 20 September 2002

    quinta-feira, dezembro 25, 2003

    Meia-noite...


    Oh the weather outside is frightful
    But the fire is so delightful
    And since we've no place to go
    Let it snow, let it snow, let it snow!

    It doesn't show signs of stopping
    And i brought some corn for popping
    The lights are turned way down low
    Let it snow, let it snow, let it snow!

    When we finally kiss goodnight
    How i'll hate to go out in the storm
    But if you really hold me tight
    All the way home i'll be warm.

    The fire is slowly dying
    And my dear, we're still goodbying
    But as long as you love me so,
    Let it snow, let it snow, let it snow!


    Pronto.
    Agora, os presentes! :)

    quarta-feira, dezembro 24, 2003

    Noël...


    Nestes dias que antecederam o Natal, A Sombra parou um pouco. Ao trabalho, juntaram-se os preparativos para a véspera de Natal, as compras, os jantares da época, as visitas, todo o rodopio que é, também ele, sinónimo de alegria, por ser provocado pela família e pelos amigos.

    Apesar disso, é com prazer que anuncio que o Panorama nº 1 está pronto, encontrando-se em fase de revisão. Desta feita, após a Palestina, o tema será o Douro. Deverá sair em Janeiro, junto com o Miradouro, semanário regional de que é suplemento, sendo publicado na íntegra no blogarquivo onde já se encontra o nº zero, antes mesmo da distribuição nas bancas. Este foi outro dos motivos que me afastaram d'A Sombra, por estes dias. :)

    A todos os amigos d'A Sombra e a todos os que nela repousam ocasionalmente, renovados votos de uma Noite Feliz.

    nota:
    Como prometido, os próximos dias serão dedicados ao projecto de reconstrução de casas na Palestina. Para evitar novo período de "acalmia" n'A Sombra, farei um acompanhamento do trabalho neste local, de modo que poderão conhecer melhor esta iniciativa de israelitas e palestinianos que promove a Paz de forma sublime.

    sexta-feira, dezembro 19, 2003

    Campeão de ténis de mesa


    No Público de ontem, José Pacheco Pereira (JPP) disparata sobre as reacções à captura de Saddam Hussein (18Dez2003, p. 7, "Nem duplicidade nem propaganda").
    Lapidarmente, acusa quase todos (ou todos mesmo?) os que condenam a agressão ao Iraque ("articulistas"; "bloguistas" (!!!); "comentaristas" e todos os outros "istas") de "antiamericanismo" ou, "se quiserem" (como ele diz), de "antibushismo" (a verborreia neologística de JPP ainda vai dar cabo dos nervos à Academia de Ciências...).

    Afirma o abrupto intelectual que, depois de "ditas as proclamações rituais contra o ditador sanguinário", os "istas" que referiu passam à ofensiva, desencantando "uma nova linha de ataque contra os EUA" ou minorando o sucedido. Antes, faz notar bem que essas "proclamações rituais" são acrescentadas "a despachar", dizendo com isso explicitamente (e não apenas sugerindo) que quase todos (ou todos?) os que analisam a captura de Saddam Hussein de outra forma que o constatar da "grande vitória" conseguida por Washington e Londres são, na verdade, defensores do ditador iraquiano.
    Faz lembrar o tempo em que vociferava contra o Forum TSF, dizendo que 99% dos participantes eram contra a guerra no Iraque porque a estação de rádio os "escolhia a dedo" - lembram-se?

    Lá para metade do texto, JPP (que se mostrou irritadíssimo quando a Al-Jazeera mostrou as imagens dos prisioneiros norte-americanos) justifica as imagens do exame médico a Saddam Hussein dizendo que na guerra (como no amor...) vale tudo! Se essas imagens, diz ele, evitarem um "morto americano", e acrescenta (a despachar?), "ou iraquiano", então valeu a pena mostrá-las. O abruptamente preventivo JPP ao seu melhor estilo, portanto.

    A sentença do pensador é simples:
    "O que isto não é certamente é um jogo de pingue-pongue (pinGUE!? ponGUE!?) com o nosso ego e o dos outros."

    Caro Pacheco Pereira,

    Compreendo perfeitamente a sua confusão ao ver tanta gente jogar ping-pong à sua volta e tantas bolas a cair ao chão. Afinal, quem são estes "ping-ponguistas" comparados consigo?
    No entanto, devo confessar que prefiro o ping-pong deles ao seu. É que jogar ténis de mesa contra uma parede torna-se monótono ao fim de algum tempo, pelo menos para o observador, e o Pacheco Pereira há anos que está a jogar contra a parede.
    Parabéns. Pode levantar a taça no guichet número nove.
    Diga que fui eu que o mandei.

    nota:
    Não deixou de ser delicioso ver o título "Nem duplicidade nem propaganda" em corpo gordinho sobre a imagem de JPP, no Público. Ainda por cima do seu próprio punho. Há ironias...

    quinta-feira, dezembro 18, 2003

    O troféu


    Desde que foi confirmada a captura de Saddam Hussein que se multiplicam os vaticínios de bom augúrio para a dita "administração Bush". Muitos afirmam mesmo que é o troféu que fazia falta a G. W. Bush (e a Tony Blair), chegando mesmo a transformar o ditador capturado no passaporte para a reeleição do "presidente" Bush em 2004 (isto a quase um ano de distância!).

    Não será tanto assim.
    Não é no plano internacional que se ganham eleições presidenciais norte-americanas, embora muitas aí se tenham perdido. Serão os norte-americanos a votar, chegado Novembro, e ter apanhado Saddam Hussein só serve para retirar a Washington uma das razões de peso que invocava para manter a presença militar no Iraque.
    "Ok, dirão os norte-americanos, we got him. Now what?" Ou seja, vamos trazer os nossos militares para casa? Não me parece.
    A tentativa de retirar o máximo de efectivos do terreno continua, da parte de Washington, mas está condicionada à sua substituição por tropas de outras nacionalidades, até agora em número manifestamente insuficiente. Aliás, sem participações de peso, de nada servirá arranjar efectivos militares para ocupar o Iraque, pois nada é mais prejudicial para uma operação militar do que um exército constituído por muitas meias dúzias de soldados de nacionalidades diferentes. Simplesmente não funciona. Os que poderiam enviar largos contingentes, como a Turquia ou o Paquistão, já tiraram o corpo fora; quanto aos "amigos" dos EUA, como Portugal, Espanha e o Japão, os seus contingentes são de um simbolismo confrangedor... Para mais se pensarmos o tipo de situação em que vão operar - não deixa de ser curioso que o contingente japonês seja colocado no Iraque com a condição de não se envolver em combates. É como atirar alguém à água com a condição de não se molhar.

    Mas o Pentágono sabe o resultado que terá o envio cada vez mais consistente de "guerreiros de fim-de-semana" (as unidades da National Guard) para substituir os profissionais da 82ª ou da 101ª aerotransportadas, ou dos Marines, por isso continuam à procura de mais voluntários estrangeiros para os substituir. No entanto, é pouco provável que reunam as dezenas de milhar de efectivos necessários para o controlo real da situação - algo que nem os EUA conseguem, apesar do elevado número de militares no Iraque. Esses efectivos deverão lá permanecer, portanto, o que é exactamente o oposto do que a opinião pública norte-americana espera que aconteça, uma vez apanhado Saddam Hussein. Em boa verdade, seria uma consequência lógica, caso a população odiasse mais o ditador que os norte-americanos... O problema é mesmo esse. A teoria (teologia?) da libertação e democratização não se confirmou. Na prática, os iraquianos não querem a democracia; isto é, poderão vir a adoptá-la, um dia, mas não agora e, sobretudo, não imposta à baioneta e muito menos pelos amigos de Israel. Enquanto país democrático e defensor da liberdade e dos direitos individuais, os EUA não têm crédito nenhum no mundo árabe. Por mais palavras bonitas que se digam e escrevam - como as de Colin Powell no seu lírico texto do especial "The World in 2004", da revista The Economist - nada apagará meio século de jogos de poder no Oriente Médio, que 99,9% das vezes favoreceram os israelitas e desprezaram os palestinianos.
    É preciso não esquecer que estamos a falar de uma civilização que ainda não esqueceu as Cruzadas e os "feitos" dos Cavaleiros da Fé, o que não pressagia nada de bom quanto à forma como os EUA serão vistos pelo mundo árabe nos próximos séculos. Pois é.

    A captura de Saddam Hussein pode bem ser um presente envenenado para Washington, pois o povo entende facilmente a necessidade de capturar o "chefe", a "cabeça". As comparações com Adolf Hitler iam nesse sentido. Para a dita estratégia de política externa norte-americana, ter "maus da fita" a monte ajuda a explicar ao povo o porquê de manter um exército a milhares de quilómetros de casa, mas uma vez estes capturados, já não é tão fácil justificar o gasto de milhões de dólares e a perda de centenas de vidas para eliminar uns tantos "Hussein" e "Mohammed", numa lista extensa que ninguém percebe e cujos nomes ninguém conhece.

    No Iraque, era o "Ás de Espadas" que era preciso apanhar. As outras cartas eram importantes, mas de importância incomparável para o norte-americano comum, martirizado e catequizado pelo papel absolutista de Saddam Hussein como leader do Iraque, secundado pelos dois filhos mais velhos, agora mortos.
    Só assim se percebe que, apesar das condições humilhantes, ridículas, em que Saddam Hussein foi encontrado, se chame ainda "decapitação" à sua captura. Decapitação de quê? Era um velho enfiado num buraco infecto, a comer barras de Mars, com uma mala de dólares ao pé. A guerrilha e o terrorismo (duas realidades distintas que coexistem no Iraque de hoje) não dependiam dele e da sua mala de dinheiro. A sofisticação das acções, a sua frequência e o número de envolvidos, sugerem que se trata de algo mais - ou mesmo de vários "algos". De qualquer das formas, seria impossível coordenar essas acções a partir de um buraco no solo, no quintal de um casebre, sem comunicações excepto as mantidas por estafetas.
    Que "troféu" é este?

    A máquina de propaganda norte-americana e dos que apoiaram esta guerra tenta convencer o mundo de como foi óptimo apanhar Saddam Hussein, mas isso é inteiramente desnecessário. Praticamente todo o mundo suspirou de alívio ao saber que o ditador fora apanhado e se sentiu feliz com isso - isto não implica que praticamente todo o mundo se tenha esquecido de como começou esta guerra e porquê.
    De facto, o que se pretende com tanto entusiasmo, como se Saddam Hussein fosse capturado num bunker cheio de armas químicas e comunicações state of the art, defendido até à morte por um batalhão de pretorianos, é esconder que sucedeu uma das duas coisas que Washington mais temia, precisamente por não ser o "Ás de Espadas" o mentor da guerrilha e do terrorismo no Iraque.

    A primeira era capturá-lo morto, transformando-o num mártir islâmico; a segunda era capturá-lo vivo, criando um "Mandela" árabe. Qual das duas a pior? Desgraçadamente, para todos nós, a que aconteceu. Saladino acorrentado.
    Saddam Hussein devia ter desaparecido, pura e simplesmente. A História pode bem com mitos sebastianinos, mas lida muito mal com mártires, mortos ou vivos, principalmente se forem árabes.

    Quanto ao que penso de tudo isto, devo dizer que fiquei feliz com a notícia. O título da minha entrada "Good news?" era interrogativo porque não tinha ainda sido confirmada a captura de Saddam Hussein quando a escrevi, além de que os factores que agora expus já andavam na minha cabeça.
    Para os que amam a liberdade e a justiça, a captura de Saddam Hussein é uma boa notícia, mas para todos os que pensam que liberdade e justiça são valores subjectivos, esta é, em definitivo, a pior notícia que podiam ter. E entre eles se conta a linha dura da administração norte-americana. Veremos como vão descalçar esta bota.

    Yes, you got him.
    Now what?



    Rui Semblano
    Porto, 17 de Dezembro de 2003

    Não tão cedo como esperava, mas...

    ... já está.

    Um rio místico em que Nemo não se encontra e que Zatoichi nunca veria. Tudo no Cinema para Indígenas, naturalmente.
    Está assim pronto o terreno para o regresso de sua majestade, que testemunhei em primeira mão, ontem de madrugada.

    nota:
    Tipicamente, no Público de terça-feira, 16Dez2003, a notícia que enchia duas páginas sobre o terceiro capítulo de O Senhor dos Anéis apenas mencionava a ante-estreia de O Regresso do Rei em Lisboa... De Gaia, onde vi o filme à mesma hora que muitos felizardos alfacinhas, nada.
    Depois dizem que o Menezes isto e o Menezes aquilo... Pois é.

    A incerteza regressa?


    Será? Esperemos que sim!
    Never say never again!

    Aguardamos confirmação!!

    terça-feira, dezembro 16, 2003

    O Rei regressa


    Hoje à noite, quando se iniciar a quarta-feira, o Rei regressa!
    A expectativa é grande e a esperança de não sofrer uma decepção também.

    Fica a promessa de actualização do Cinema para Indígenas ao longo deste dia, com as últimas fitas vistas ("Mystic River"; "Finding Nemo"; "Zatoichi"), para que a crónica da terceira parte da trilogia do Senhor dos Anéis possa ser feita "a quente".

    Depois... O Hobbit!

    O melhor café é o da Brasileira


    Enfim!
    E que saudade!
    Não tem o carisma da antiga Brasileira, mas está digna e mantém aquele sabor especial que vem de tomar o café paredes meias com o coração da Baixa.

    Um local de pouso diário, possivelmente um bom sítio para iniciar o dia com o jornal "da manhã". Feito o "reconhecimento", no dia da abertura ao público (ontem), fica a certeza da recuperação sólida de um espaço que fazia falta no centro do Porto e a esperança de que contribua para a revitalização do mesmo.

    Só o triste teatro Sá da Bandeira, hoje transformado em palco de "raves" duvidosas, causa algum mal-estar. Que bom seria se fosse recuperado como teatro de excelência, com produções nacionais e estrangeiras. E que bom seria voltar a conviver com os actores e as actrizes que outrora povoavam a Brasileira...

    Quem sabe?...

    domingo, dezembro 14, 2003

    One track mind...


    O Jaquim fez um pequeno apanhado de algumas reacções da blogosfera lusa à captura de Saddam Hussein, esta manhã. Na sua visão/comentário do que leu n'A Sombra (ver entrada abaixo "Good news?"), pode ler-se:

    "6. É pá, isto pode ser muito mau para os americanos,
    agora é que eles vão ver..."


    O que significa que:
    a) Não leu até ao fim e não percebeu.
    b) Leu até ao fim e não percebeu.
    c) Não leu até ao fim e não quis perceber.
    d) Leu até ao fim e não quis perceber.
    e) Já tinha lido antes de ler.
    f) Nenhuma das anteriores.

    Mas que se pode fazer? Pronto, Jaquim.
    Leve lá os esquis.

    Good news?


    Saddam Hussein parece ter sido capturado em Tikrit, segundo a agência noticiosa iraniana (que não costuma enganar-se...). Será que foi desta? Será que foi capturado o primeiro sósia de Saddam? Os norte-americanos não confirmam nem desmentem e os britânicos pensam que é verdade.

    Será?
    Aguardemos.

    nota:
    A captura de Saddam Hussein não é tão favorável a Washington como poderá parecer, mas sempre seria menos um canalha a monte, se fosse verdade. As consequências de tal coisa são, como de costume no Golfo e no mundo árabe, imprevisíveis. Tanto pode ser muito bom como muito mau. E será, em todo o caso, um teste para a resistência - que pode demarcar-se de Saddam de forma inequívoca. Ou não.

    nota2:
    Ouvi a notícia às 11:00 horas, na Antena 2.

    sexta-feira, dezembro 12, 2003

    Novo e-mail


    Finalmente está activo o e-mail novo d'A Sombra.
    Passará a constar do cabeçalho do blog e da coluna da direita.
    Aos que nos pretendem contactar, agradecemos façam copy-paste do endereço para os seus programas de correio electrónico.

    O novo e-mail:
    a-sombra@sapo.pt

    Depois de andar a receber 40 e-mails por dia a "oferecer" produtos para aumentar consideravelmente certas partes da minha anatomia (o que não é, em todo o caso, necessário...) decidi acabar com os links directos nos e-mails deste e de todos os blogs que administro. mais uma vez peço desculpa pelo inconviniente, mas estou certo de que compreenderão a razão deste novo processo.

    Um abraço a todos,

    Pel'A Sombra,
    RS

    nota:
    Os e-mails pessoais ainda não estão resolvidos, mas alerto para o facto de ter terminado as contas anteriores na Clix, pelo que agradeço não enviem mais e-mails para os antigos endereços.

    Sekanevasse faziassekaski


    Lido no Jaquinzinhos:

    --- quote ---

    (...)
    2. O Crítico explica-me que cada bilhete para a ópera custaria cento e tal contos por espectáculo sem os subsídios. Acontece que não está disposto a pagar o real valor: prefere pagar apenas meia dúzia de contos e exige que os outros portugueses (os incultos) sejam obrigados a pagar-lhe o resto do bilhete. Senão, diz ele, acaba-se a ópera em Portugal. Note-se: não se acaba por falta do subsídio: acaba-se porque ELE que quer assistir à ópera não está disposto a suportar o devido valor. Eu, inculto como todos os liberais, gosto mais de ski. Não acha escandaloso que para fazer ski em Portugal seja necessário pagar cento e tal contos? Não deve ser subsidiado para o meu saltinho à Sierra Nevada?
    (...)

    --- end quote ---


    Convenhamos que, para quem tem um visto permanente de entrada nos EUA, pedir um subsídio para esquiar na Sierra Nevada é um pouquinho provinciano. Então e Aspen, ó Jaquim? Já se imaginou a descer em direcção à Snowmass Village com a Nessun Dorma no Discman a abrir? E ainda dizem que o ski e a ópera são incompatíveis...

    nota:
    Acho que o Crítico e o Jaquim precisam de um novo jantar para acalmar os ânimos. Sem subsídio de alimentação, naturalmente. :)

    Ilusões de grandeza...


    Um almoço com três madeirenses pode ser muito complicado - principalmente quando grande parte do seu futuro continua ligado à sua ilha, o que significa, no caso da Madeira, um alinhamento pela cartilha de Alberto João, mais ou menos subconsciente.
    Isto é um dado adquirido: ser opositor de Alberto João, para um madeirense, implica a ausência de futuro - ou a emigração.

    Para dizer a verdade, já não me recordo de como a conversa foi para esse campo, mas, de repente, estávamos a falar dos miúdos que foram afastados das zonas turísticas madeirenses por andarem a pedir esmola. Bastou mencionar tal coisa para me acusarem de não saber o que estava a dizer e que até parecia que tinham enfiado os miúdos num campo de concentração! Sorrindo, admiti nunca ter estado na Madeira e, como tal, não ter testemunhado o processo de "limpeza", mas o certo é que não obtive esclarecimentos quanto ao método realmente empregue para conseguir tal façanha. Será que pediram às crianças, delicadamente, para deixarem de pedir esmola e ir para casa? Não sabiam. Ainda procurei fazer humor e afirmei estar plenamente convencido que se Alberto João fosse presidente da Câmara Municipal do Porto teríamos o problema dos "arrumadores" resolvido há anos, mas já não havia vontade de rir naquela mesa.

    Como a questão dos miúdos se tornou insustentável, voltaram-se para os pais deles, "os tóxicodependentes de Câmara de Lobos". "Eles é que são os culpados!" - afirmaram - "Deviam era tirar-lhes os filhos!" - mas não explicaram o que fariam com os pais, depois disso feito, nem tão pouco o que aconteceria aos filhos. Foi então que tudo descambou! Que o Alberto João tinha transformado a Madeira num paraíso e que se fosse primeiro ministro resolvia os problemas todos em três tempos (!!!); que o dinheiro enviado pelo Estado não tinha importância quase nenhuma, porque o PIB da Madeira é tão grande que já nem podem receber subsídios da UE; que, claro, "a República" os tratou muito mal... Coitados. Perante tamanha demonstração de orgulho insular e solidariedade com o seu Governo regional, restou-me perguntar quanto haviam pago pela passagem aérea que os trouxe da Madeira para o Continente e se sabiam (ao menos) quanto eu pagaria pela mesma. Realmente, "a República" trata muito mal os madeirenses; como quando acumula as bolsas de estudo às que já recebem da Madeira, por exemplo.

    "Alto lá!" - indignaram-se - "Vocês ganham mais que nós! As ajudas são justas!" Mas, afinal, em que ficamos? Precisam ou não de ajuda? Então o PIB madeirense não é superior à média nacional, com excepção de Lisboa e Vale do Tejo? Não "produzem mais que os continentais", os madeirenses?
    Ah, o complexo da insularidade; o isolamento involuntário; a necessidade de "vir ao Continente"... É um facto. Já estive no meio do Atlântico e não gostaria de viver numa ilha. Estar condicionado pelo oceano; não poder sair e fazer quilómetros a sério, respirar outro ar, ouvir outra língua... Eu amo o mar e não conseguiria viver longe dele, mas não me agradaria nada ser seu refém.
    Compreendo e aceito os benefícios da insularidade em termos de ajudas concedidas pelo Continente para diminuir essa realidade, mas que não me venham com histórias de PIB's e de como "a República" os maltratou (não percebi o tempo verbal - então agora são bem tratados?).

    Felizmente, chegou a conta e a conversa mudou de rumo. É que estava mesmo a ponto de perguntar aos meus caros interlocutores quem eles achavam que contribuía mais para o aumento brutal do PIB da Madeira: se eles e os seus ordenados, impostos e produtividade, se um colombiano que use a ilha como plataforma para mover os seus tostõezitos livres de impostos, "AJ style".

    Continuo, solenemente, "na minha".
    É dar-lhes a independência. Já! (*)

    nota:
    No próximo almoço é melhor restringir a conversa ao estado do tempo. Em Portugal continental, claro...

    (*) entrada "A bosta da III República", n'A Sombra.