terça-feira, junho 06, 2006

Six Six Six



Dizem que hoje é o Dia da Besta (ó diabo!) e que só se repetirá daqui por um milénio, mas temos de admitir que o Diabo nada tem de pobre e que todos os dias lhe pertencem há muito. O Rato Zinga (ou o Mickey, já agora) que o diga.

Poderia o PSD ter reparado nesta realidade e atribuir ao Diabo um diazito por ano, agora o dia do cão não lembra nem ao Diabo!

Com estas e outras, o certo é que mais ou menos dentro de 180 dias vai ser proibido fumar em cafés, bares e restaurantes com menos de 100 m2, isto é, vai ser proibido fumar em cafés, bares e restaurantes.





Se isto fosse um país a sério, os donos dos ditos estabelecimentos colocariam o Estado em tribunal para, de duas uma, ou lhes devolverem o direito à propriedade privada ou lhes comprarem os mesmos, ficando assim com uma rede pública nacional de cafés, bares e restaurantes onde, com toda a legitimidade, poderia decidir quem lá pode fumar, comer, beber ou fazer outra coisa qualquer. Assim, ninguém se poderia revoltar contra o Estado, pois estaria a aplicar a lei dentro de espaços públicos, o que acontece hoje, e legitimamente, nos edifícios que lhe pertencem já.

Alegando, porém, que a saúde pública é demasiado séria para ser deixada nas mãos (e nas cabeças) das pessoas, o Estado decide por elas o que é melhor. A um não fumador não lhe basta a decisão de entrar ou não numa casa onde se fuma, o Estado deve decidir por ele que entra sim senhor, pois o dono da casa é uma besta (que, de qualquer modo, só tem direito a um dia de mil em mil anos). Sem perder a pose, o Estado declara inconstitucional que um proprietário decida que tipo de pessoas pode entrar na sua propriedade - e sim, isto implica equivaler o acto de fumar a um crime, pois é o mesmo que lhe dizer que não pode realizar reuniões de pedófilos, pelo menos para já, enquanto não estão organizados partidariamente.

Mais: está em marcha um plano de prevenção antitabagista que tem ajudas para tratamentos em clínicas (do Estado e/ou privadas) e tudo! Não tardará muito, os fumadores serão obrigados a "tratar-se" nessas clínicas, para seu próprio bem (e dos proprietários das mesmas, claro está), pois não poderão arranjar emprego se fumarem, não poderão viver no prédio-para-não-fumadores em que se converteu aquele onde vivem, ir à praia entretanto transformada em zona-livre-de-fumadores a que iam ou, simplesmente, fazer uma refeição fora.
Não sabiam que é isso que se segue?

Isto tem um nome: SEGREGAÇÃO.

Hoje poderá não ser o Dia do Diabo, mas é um dia do diabo. Vejam só que num edifício com um pé direito de dezenas de metros e muito bem arejado, como o aeroporto Sá Carneiro ou a gare do Oriente, vão existir mais caixotes do lixo que cinzeiros. Nem ao nível do lixo o fumador é considerado. Engraçado? Nem por isso. Quando os fumadores forem obrigados a viver em Townships, como o eram os "pretos" na antiga África do Sul, longe das cidades entupidas de trânsito mas saudavelmente livres do fumo do cigarro, começarão a ser dados outros passos, como a proibição de beber isto ou aquilo a bem da saúde pública e dos amigos dos amigos dos outros, que têm fábricas de bebidas "saudáveis" e "legais".

Quanto ao Diabo... Não esgotemos neste dia as profecias bestiais.
É que, dizem, pior que o 666 é mesmo o 999 e este não tarda nada.
É já a 9 de Setembro de 2009. E, acreditem, será muito pior que este.
Incomparavelmente pior.


Rui Semblano
No Dia da Besta (Quadrada). Posted by Picasa

quinta-feira, junho 01, 2006

Combustão espontânea. (parte 2)


Esta entrada divide-se em duas partes:
Combustão Espontânea - parte um / Combustão Espontânea - parte dois



Regressemos a 1963, o ano em que nasci.
Nessa altura, um ordenado médio pagaria cerca de quatro vezes o aluguer de uma casa com quatro assoalhadas (um T3 dos dias de hoje). Quarenta anos passados, um ordenado médio mal chega para alugar um T1 e, muito pior, um ordenado mínimo não chega para alugar uma casa. Qualquer casa.
Perante este facto simples, sem entrar em campos adjacentes ligados às necessidades básicas do ser-humano (das quais, convém lembrar, o Ensino já não faz parte, sendo hoje um verdadeiro luxo - e em certa medida um verdadeiro lixo), como não vemos ainda automóveis e autocarros a arder nas cidades deste país? Talvez a razão para isso seja o burguês ambicioso e egoísta (perdoem-me as redundâncias) que se esconde no fundo de cada um de nós, sonhando em segredo passar de explorado a explorador.
Mesmo entre os sem-nome (ver a parte 1), este sonho é recorrente.

Entre os consumidores, esta oportunidade tantas vezes sonhada encontra uma janela nos investimentos em Bolsa, individualmente insignificantes e praticamente sem valor para quem os realiza, mas muito significativos se somados e mais ainda se considerarmos o que constituem. Esta quota do mercado de papel flutua ao sabor do vento dos grandes negócios e é presa fácil para os que realmente controlam o jogo, como presas fáceis são os que se esquecem de como é difícil ganhar dinheiro a sério na Bolsa e como ele é extremamente fácil de aí se perder para sempre.
Estes microinvestidores não são mais que outra espécie de consumidores, iludidos pela aparente diferença entre um bocado de papel e um televisor de LCD, que os impede de perceber o logro em que se deixam enredar. Virtualmente, estes aspirantes não fazem mais que preencher um importante nicho do sistema oportunista, raramente ascendendo à condição superior.

Aí, no topo, o que realmente importa é acumular riqueza e esta, como disse (ver parte 1), nunca é suficiente - e não chega para todos, segundo consta. No cimo da cadeia, os que controlam o jogo são cada vez menos, pois não existe classe mais autofágica - entre os consumidores, a autofagia está ainda em fase embrionária, tal como existe mais acima, e os seus efeitos manifestam-se de outra forma, mas o burguês já percebeu que o dinheiro nunca chega e que quanto mais dividido menos terá. O resultado desta percepção é evidente.

Portugal é um país demasiado pequeno e cabotino para os movimentos discretos que o grande capital tem por norma executar, pelo que as suas manobras são mais visíveis que em outros locais, o que revela duas coisas: a pouca inteligência dos executores e a perversão em que mergulhámos. Não é por acaso que Portugal é reconhecidamente o país do mundo em que os administradores dos bancos são melhor remunerados e em que mais dinheiro se aposta no Euromilhões - dois excelentes indicadores da degradação social existente em Portugal e de que, segundo algumas almas que vão lendo jornais (incluindo um antigo administrador da General Electric), deveríamos ter vergonha.

Em 1993, trinta anos depois do meu nascimento, um administrador bancário ganhava milhares de contos por mês e milhões de contos de prémios semestrais. Quantos milhões? Que importa? Se fosse apenas um milhar de contos por mês e um milhão de contos de seis em seis meses já seria escandaloso, num país onde o ordenado mínimo ainda hoje não chega aos 100 contos mensais - e era bem mais que isso (em alguns casos, só em prémios, cerca de 10 milhões de contos por ano...).
E o consumidor lá continua, embrenhado na sua tragédia nada cómica, que é a de ser não mais que consumido, afinal. Deixou de fazer parte do motor que movia o antigo capitalismo; esse motor há muito que se tornou autosuficiente e apenas necessita de uma coisa para funcionar: combustível.

Sendo assim, o capitalismo de que nos falavam Marx e Engels já não existe (o de Hardt e Negri também, embora não claramente autopsiado). O pesadelo consumou-se. Este novo sistema, o oportunismo, assente no consumismo, substituiu-o por completo. O capital já não precisa do capitalismo para se reproduzir, apenas precisa de consumir, de consumo; consumir os produtos e bens e consumir o combustível que, por seu turno, os consome: nós, uma vez mais.
Resta-nos a esperança mais ténue e desgraçada de todas: a de, como todo o combustível, sermos inflamáveis. E será o sinal do fim do sonho, do terrível despertar e de um novo início. Em direcção a quê? Não sei. Ninguém sabe; nem os que sabem que em 2010 o barril de petróleo estará a 40 dólares. Sei que será muito pior e por muito tempo, pois os que primeiro deixarão de sonhar e provocarão o despertar de todos os outros estarão entre as fileiras dos sem-nome, e estes nada pretendem ao revoltar-se que não seja a própria revolta.

Como em França e no Brasil, serão os "vagabundos" de Sarkozy e de Lula da Silva a iniciar a revolução que se aproxima; uma revolução paradoxal, pois a nada serve, nada procura atingir e é vazia de ideias, mas poderosa, violenta e, quem sabe, inexorável. As qualidades do fogo purificador, enfim. Consumirá tudo e todos, excepto os controladores do jogo, nessa altura a salvo e bem longe do monte de merda que criaram, possivelmente numa ilha artificial de algum país árabe. Mas talvez nem aí estejam seguros e a justiça os apanhe um dia, se calhar sob a forma de um crescente explosivo. Inch'Allah!

Nós, apesar de tudo, sobreviveremos.
É que existe vida para lá do écran de plasma.
Muito mais do que se julga.

Rui Semblano
31 de Maio e 1 de Junho de 2006




Dead Can Dance - The host of Seraphim - Serpent's Egg
(a propósito de Manuel da Cerveira Pinto - Boassas - melhor ilustração seria impossível)

quarta-feira, maio 31, 2006

Combustão espontânea. (parte 1)



Como se pode ainda acreditar que o sistema em que vivemos é o capitalista? E, não o sendo, como negar que Marx não se encaixa neste quadro? E como não rir ao verificar que os que defendem esta última tese permanecem convictos de ainda viverem num sistema capitalista? O que se alterou na nossa sociedade nos últimos vinte anos? E, mais importante, como pode tanta coisa ter sucedido debaixo dos nossos narizes sem que reagíssemos?

Estamos em permanente combustão, mas controlada.
A espontaneidade, porém, surgirá quando menos se esperar.
Ou assim o espero.

Entrada completa abaixo. 666



A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção e, por consequência, as relações a ela relativas e todas as relações sociais. A conservação, na sua forma pura, dos velhos métodos produtivos foi, por contra, a condição fundamental para a existência de todas as formas iniciais de industrialização. Revoluções permanentes na produção, alterações ininterruptas de todas as condições sociais, contínua incerteza e agitação, distinguem a época burguesa das que a antecederam. Todas as relações fixas, de rápida consolidação, com o seu cortejo de preconceitos e opiniões veneráveis, são varridas; todas as que se lhes assemelham tornam-se velhas à nascença. Tudo o que é sólido se desvanece, tudo o que é sagrado é profanado e o homem é, enfim, compelido a encarar a frio a sua verdadeira condição e as suas relações com o seu semelhante.

Marx e Engels, Collected Works, Vol. 6, p. 487. Moscow, Progress Publishers, 1976.
Marx, Capital, Vol. 1, p. 457. Moscow, Progress Publishers (s/ data).
(tradução d'A Sombra)


Eu nasci em 1963, a 28 de Novembro.
Por volta desse dia, C. L. R. James, um Trotskysta convicto, empenhado no que considerava ser o movimento revolucionário negro nos EUA, dava uma conferência em Londres, denominada "O Marxismo para o nosso tempo", que se tornaria o título de um curioso estudo sobre estratégia revolucionária (profundamente teórico e inócuo, mas interessante por isso mesmo), em que caracterizava a sociedade de então como a concretização da ideia que transcrevi acima: fruto burguês em constante mutação.

Quando eu nasci, portanto, a profecia de Marx sobre o fim do proletariado era ainda uma visão apocalíptica projectada para diante, sobre a qual C. L. R. James e outros teóricos construíam teses mais ao jeito de Trotsky e da sua revolução (não burguesa) permanente - única forma de manter o "espírito" do proletariado. Mas este já não era, em 1963, o que fora em 1938.

Nos EUA como na Europa (com excepção dos países a Leste da Cortina de Ferro e a Oeste dos Pirinéus - embora a Espanha de Franco rapidamente se abrisse aos EUA, deixando-nos orgulhosamente sós) o pesadelo de Marx começou a desenhar-se desde 1944. Desta circunstância nos dá boa conta um obscuro estudo de Conrad Lodziak, trinta anos mais tarde (1), isto é: da conversão em massa dos produtores (o proletariado) em consumidores (a burguesia). Resulta, assim, que o lugar antes ocupado pelo proletário ficou vago, já que ninguém o ocupou. Surgiu um novo tipo social, incaracterizável, indistinto e anónimo, composto pelos que não fazem mais que tentar aceder ao consumismo, seja ele qual for. É uma legião de desempregados, trabalhadores temporários e sem qualificações e de pseudoestudantes, muitos deles deslocados (os imigrantes), que constituem o patamar mais baixo da cadeia consumista: os sem-nome. Mas lá chegaremos.

Morto o proletariado, morta a luta de classes.
A burguesia, guarda avançada do Capital, jamais se revoltaria contra quem a alimenta e, ganha a luta pela capitulação do proletariado que a ela se juntou não a podendo vencer, engorda um pouco por todo, até assimilar a lógica da classe superior: não há riqueza que seja suficiente.
A esta ideia voltaremos mais tarde.

Esta realidade, em que nos encontramos hoje, criou apenas duas classes sociais, já que abaixo delas nada existe de nominável ou distinto (a tal legião de que falei acima), sendo elas constituídas pelos que consomem e pelos que satisfazem os que consomem. Aos primeiros facilmente se chamará consumidores; aos segundos dificilmente se poderá chamar capitalistas e, irónica e cinicamente, fácil seria dar-lhes o nome de produtores, embora esta designação atinja aqui um nível de enorme perversidade. De determinado ponto de vista, ambas as classes são capitalistas, pelo que a designação perde sentido, como o perdeu como identificadora do sistema sócioeconómico vigente nos países onde nasceu e vingou o capitalismo. Como os seus componentes mudaram, também o sistema mudou, forçosamente. Marx devia ter previsto isso, mas talvez o seu terror perante a premonição do fim do proletariado o tenha impedido de querer ver mais além.

Esta cadeia de consumo não é piramidal, embora seja tão vertical quanto possível, e a gradação entre os seus componentes essênciais é claríssima e chega a ser bruta, de tão simples e básica. No topo encontram-se os que detêm os bens de consumo produzidos e os próprios meios de produção - muitos deles meros instrumentos financeiros, desenhados tanto para suportar o escoamento dos produtos como para controlar o seu fluxo (os antigos capitalistas e alguns aristocratas). No meio, verdadeira base do sistema, os consumidores (a antiga burguesia e parte do antigo proletariado, bem como a maior parte da aristocracia) e esta assenta na tal mole indistinta que não chega a ser uma classe, os sem-nome, e em boa medida depende deles.

A pedra de toque deste neocapitalismo, mais apropriadamente neoliberalismo, é um sonho: o de cada sem-nome chegar a consumidor e o de cada consumidor chegar a ser senhor do que consome. Como é de oportunidades que falamos, darei ao sistema vigente, que sucedeu ao Capitalismo, o nome de Oportunismo.

E como estas ideias já chegam para iniciar a reflexão que espero provocar em quem visita esta Sombra, deixo a segunda parte desta exposição para a próxima entrada, a editar oportunamente, claro.

Rui Semblano


(1)
Conrad Lodziak, Manipulating Needs - Capitalism and Culture
London, Pluto Press, 1995.


Esta entrada divide-se em duas partes:
Combustão Espontânea - parte um / Combustão Espontânea - parte dois

quinta-feira, maio 18, 2006

Keep On!



Caros amigos e visitantes,

Por motivos que nada têm de graves mas tudo de aborrecidos, por me afastarem do teclado, A Sombra estará um pouco intermitente, nos próximos tempos, algo que me deixa "piurso" por serem tempos em que, das "novas" imagens do vôo 77 a bater no Pentágono à carta de Ahmadinejad a G. W. Bush, passando por uma promessa que fiz a Malou e não pude ainda cumprir (não está esquecida!), muito teria a dizer e a aqui escrever.

Hoje, a prioridade foi para o 4º desafio literário, abaixo, ao qual faltei e só agora pude corresponder.
Em breve, espero, regressarei a 200%.
Para já, limito-me a cavalgar o tigre.
A todos os que me enviaram mensagens ou que, simplesmente, aqui passaram, os meus agradecimentos e sinceras desculpas.

Rui Semblano

Desvanecer...










Conto participante no
4º desafio de criação literária
interblogs (a destempo!)

O mote era esta imagem da Beatriz.





Desvanecer

Teria chegado demasiado cedo? Não estava ninguém por perto e o local, assim deserto, mais se assemelhava àquele que em sonhos despertos sempre visitava. O passar do tempo alterara um pouco o aspecto do velho banco de madeira e ferro. Tinham passado trinta anos... Quase trinta e um, de facto.
Não se sentou. Tendo chegado primeiro, teria o privilégio de a ver chegar. Acendeu um cigarro, inspirando o fumo profundamente. O seu olhar fixou-se nas réguas de madeira do banco, a descascar do sol e da chuva, do frio e do vento... Relembrou a imagem que vira no espelho, essa manhã, quando se barbeava; aqueles trinta anos haviam sido tão gentis quanto impiedosos, permitindo-lhe recordar cada dia passado como se fosse sempre o anterior àquele em que ali estivera pela última vez, a cada manhã que se olhava no espelho. Ilusões. Agora, ali, mais fortes eram, quase reais; quase palpáveis. Então, trazido pela brisa, o perfume dela chegou.

Os anos passados desvaneciam-se a cada passo que aquela mulher dava na sua direcção. Ao chegar junto dele, tinham desaparecido por completo, todos os trinta.
- Perdoa a espera.
Ele sorriu.
- Acabo de chegar. - e indicou-lhe o banco.
- Entre todos os bancos deste parque, é mesmo este?
- Já não te recordas?
Ela não respondeu. Como poderia?
- Desculpa. - pediu ele, desviando o olhar daquelas íris que jamais saberia se azuis se verdes...
Sentaram-se.
Permaneceram em silêncio, por momentos. Ele tinha pensado e repensado mil vezes tudo o que tinha para lhe dizer, mas nada do que quisera dizer-lhe nos últimos trinta anos lhe ocorria, agora. Teria ela conseguido, de facto, anular o tempo e, com isso, todas as suas palavras por dizer? Teria o tempo, além de desvanecido, parado?
- Se tudo fosse diferente - começou ela - eu nunca estaria aqui, agora.
- Assim é.
Os olhares de ambos encontraram-se e, com isso, as suas almas também.
- Não vejo arrependimento em ti.
- Porque nenhum existe. - afirmou ele, num tom de voz sereno e verdadeiro.
Nos lábios da jovem nasceu um sorriso e a sua mão tocou o rosto do homem, que a tomou na sua, beijando-a.
- E, no entanto, - continuou ela - sinto que sem ti eu não seria quem sou. Seria, certamente; mas não eu. Não é estranho?
- Não para nós.
- Devo ouvir-te.
Sim; para isso fora ali a pedido dele. Mas o que lhe poderia dizer? Tudo o que pretendia dizer-lhe estava já nos olhos dela. Talvez o melhor fosse aproveitar aquele momento a seu lado, simplesmente. Desviou o olhar para o bosque. Continuavam sós. Apenas uma ligeira brisa e o perfume dela, ainda. Sempre.
- Tu és tudo o que poderia dizer-te. - e nada mais.
Ficaram assim, sentados em silêncio, como há trinta anos, ouvindo as árvores e os pássaros e a água a correr, mais abaixo. Ocorria-lhe agora que foi graças a essa circunstância que agora lhe era dado estar ali com ela. O mistério revelado, enfim. E fez-se tarde.

A noite chegaria, em breve. Sem uma palavra, levantaram-se, abraçando-se, e ele ficou ali, a vê-la partir pelo mesmo caminho por onde chegara; exactamente como há trinta anos. Não lhe tinha dito adeus.
Nunca lhe diria adeus.


Rui Semblano


nota:
Por circunstâncias a que a minha vontade é alheia, apenas hoje publico o meu conto. Aos que participaram neste desafio e aos que visitaram A Sombra na expectativa de o ler mais cedo, as minhas desculpas.

nota2:
Os contos participantes nesta edição encontram-se nas entradas dos seguintes blogs e autores:

Ashfixia (Raquel): A História perdida no orvalho,
Wisdom, that's what i've aspired (Beatriz): Aquele banquinho de madeira,
Realidade Torta (Bill): Doces Sonhos,
Instantes Clarissa (Clarissa): Instantes XLVII,
Conteúdo Manifesto (Conteúdo Latente): Parque,
Do Lado do Mar (Doladodomar): Conto do banco,
Espreitador (PiresF): Trono dos meus sonhos (in A Rua dos Contos),
Tetros (Ipslon): Pirralho,
A quilómetros de mim (Maite): A Catedral Verde,
Incomplete (Parrot): Local de encontro,
Poetando (Pedro Pinto): s/ título,
Pedaços de Papel (Vanessa): Banco de Jardim: Aquele, o único.

A todos os participantes, de novo as minhas desculpas e a promessa de voltar a cada um para ler com calma as vossas palavras, como merecem ser lidas. Um abraço, RS.

nota post(erior):
Por lapso, a responsabilidade do mote foi atribuida à Clarissa, quando na realidade foi por iniciativa da Beatriz que escrevemos sobre esta sugestiva imagem. Está corrigido, com as minhas desculpas!

quinta-feira, maio 11, 2006

Burn motherfucker. Burn.


Às vezes dá vontade de iniciar a revolta armada, deixar de ver filmes
sobre assaltos a bancos e tomar a iniciativa. Afinal, o dinheiro não é exactamente dos
depositantes e existem seguros para isso, além de que ladrão que rouba a ladrão...

O telhado já está a arder e está. Quem precisa de água?

...
You Know it...

terça-feira, maio 09, 2006

Status report...

Já há muito que devia ter actualizado as Relações Sombrias e os Blog Links d'A Sombra, estes aqui à direita, mas só agora o faço, pelo que me penitencio junto dos que agora estão neles referenciados. Como podem não estar a par da "política de integração" d'A Sombra, passo a resumir:

Para evitar uma lista longa de blog links na página principal, tenho todos os blogs relacionados com A Sombra nas Relações Sombrias, ficando reservada a inserção na página principal (esta) apenas aos blog links que uso muito regularmente (alguns diariamente).
É um processo que se destina a "consumo interno", por isso o estruturei assim.
Quanto à divisão entre Sp (Specials), plm (Pour le mérite) e sem classificação, os últimos são os que só aparecem nas Relações Sombrias, os plm os que constam da página principal e os Sp aqueles que, também aqui, se destacam por motivos de amizade ou simpatia (ou empatia!) mais profunda.

Passemos à actualização:


Para os Blog Links Sp um velho amigo entra directamente. Esteve para ser um dos bloggers d'A Sombra nos idos de 2003 (e mais não digo). Irreverente incondicional, aguardo com expectativa a sua entrada na blogosfera, agora que decidiu entrar. Veremos se é desta!
O Gasparzinho diz Ide p'ra Fátima! (e eu acrescento: "Já!")



Pour le mérite (plm), temos entradas já há muito merecidas e uma directíssima (coisa rara, pois normalmente só acontece depois de um período apenas nas Relações Sombrias), a saber:

O pungente Caderno de Corda, do amigo e companheiro de lutas Davi Reis, que conquistou a minha admiração pela forma como está na blogosfera, de peito aberto. Coragem, sinceridade e raiva, por vezes, temperadas com humor inteligente. Tudo isto feito com o pêlo do cão. Já cá devias estar há muito, amigo.




As Ideias Fixas do Sá Morais (a que dei o epíteto de Samurai/s) é outra das agradáveis surpresas que tive recentemente e que já deveria ter entrado para os plm. A justiça é feita hoje a este excelente recanto, onde somos desafiados a usar o cérebro de várias maneiras (incluindo com imaginação). Bem vindo de novo, amigo Sá.




O Paredes Brancas, da Fatma, chegou até mim pela mão segura do António Baeta e está tudo dito. Lá vou sempre que preciso acalmar um dos meus demónios. E resulta. Não se tratando de uma entrada directa (já estava nas Relações Sombrias), conseguiu por mérito a inclusão na página principal d'A Sombra. É que começo a ir lá mais vezes...
Os demónios...



E, last but not the least... Sophia's. Às vezes as primeiras impressões são marcantes. Foi o que me aconteceu com o blog da Sofia. A primeira imagem que lá vi disse-me (quase) tudo. E fui voltando. E voltando. Depois a página 115 do Poesias Completas de Alexandre O'Neill... Mas a cerejinha foi o "sr. Rui". Pronto. Rendi-me.
Acho que me perdi na tradução. :)


E agora os blogs que passam a integrar as Relações Sombrias, junto com os que referi acima, que descobri recentemente e me ficaram na retina:

O Atento, de Manuel Gomes, que é isso mesmo; o Espumadamente, onde o Espumante convida a visitas demoradas (e de flute na mão!); O Homem do Leme, de João Melo Alvim (com que simpatizei de imediato - o Leme, na Foz, era a minha praia de infância!) que conseguiu captar-me (muito) para além do título e, finalmente, o Tempo Suspenso, de Pedro Nogueira, com quem partilho a paixão da sétima arte.

Agora as más notícias:

A Ana Anes "adormeceu" o seu Um Blog de Ana Anes. Espero que acorde em breve.
O Little Black Spot está em Stand-by, mas não adormecido! Calamidade! Aguardemos.

E pronto.
Também os Arquivos Completos d'A Sombra estão actualizados.
Apenas o Cinema para Indígenas está mal. Não consigo chegar lá e já estou em falta com quatro filmes... Miséria!

Um abraço a todos e bom trabalho.
RS

sábado, maio 06, 2006

Entusiasmos...






Speed is not how fast you can drive
But how fast your mind works

Rui Semblano




A sinistralidade nas estradas portuguesas já fez verter muito mais tinta do que sangue e, ainda assim, a maior parte dela quase se esgotou numa palavra: velocidade.
Ainda há pouco tempo, n'A Fábrica, recordava ao Filipe Pinto que o resultado de um choque entre dois veículos que se movem a 50 km/h cada é igual ao choque de um deles a 100 km/h contra um obstáculo imóvel. Culpar a velocidade pela desgraça que é a condução em Portugal é demasiado fácil.

O que não se diz, mas é a pura realidade, é que o verdadeiro motivo para tanto acidente é a distracção; a total despreocupação com que se encara o acto de conduzir. De facto, conduzir um veículo automóvel tornou-se tão banal como ver televisão ou falar ao telemóvel, sendo encarado como algo simples, fácil, corriqueiro. Algo que qualquer um pode fazer. As razões para tanto sangue derramado na estrada começam aqui.

Quantos de nós não ouviram já a desculpa "estava distraído" aplicada à condução? E quantos de nós não a usaram já? Eu já a usei, embora a minha distracção seja algo diversa, 99% das vezes. Em determinadas alturas, estou tão concentrado na condução que falho uma saída, um desvio no trajecto. Nesses momentos, não tento "corrigir" o "erro", o que poderia resultar numa manobra muito perigosa; antes deixo-me ir no fluxo. Por contra, a maioria dos condutores pensa demasiado no seu trajecto e quase nada na condução. E a maior parte dos que estão ao volante viaja como se fosse um passageiro, alheios à estrada em si e tão atentos à paisagem como os que com eles viajam no automóvel.

Milhares de vezes a minha esposa não consegue evitar um "olha isto" ou "olha aquilo", ao que invariavelmente respondo "olha tu", quando conduzo. Adoro conduzir, automóveis ou motos, mas quando conduzo só a estrada me importa. No final de uma viagem, recordo esta ou aquela curva, o pior asfalto aqui e o paralelo acolá, aquele cruzamento manhoso, mas não tenho memória de castelos, de aves nos céus ou de qualquer ponto de interesse nas paisagens que atravessei. Não me lembro de nada nem de ninguém que não estivesse directamente relacionado com a minha condução ou no meu campo visual.
E a minha prioridade é sempre a mesma em toda e qualquer viagem: chegar vivo e em segurança. Para mim, a estrada é um local perigoso e os veículos que nela circulam são verdadeiras armas, prontas a disparar. Tendo consciência de que a maior parte dos condutores não faz a mínima ideia do que está a fazer, conduzindo como quem está a ver o Travel Channel, isto é, como quem está a fazer outra coisa qualquer, obrigo-me a ter atenção por mim e por eles.
Um exemplo:
Em condições de perfeita visibilidade, vejo um camião TIR que se desloca em sentido oposto a mim com um automóvel colado a ele. Eu vejo-os ambos e eles devem ver-me, mas reajo como se não fosse assim porque sei que a maior parte das vezes não é assim. A possibilidade de um dos condutores ir completamente distraído é assustadoramente elevada para que a ignore. O TIR dá sinal que vai encostar à berma e abranda; estou a aproximar-me e "sei" o que vai acontecer. O condutor do automóvel atrás do camião, apercebendo-se da sua eminente paragem, sai da sua traseira como se não houvesse mais ninguém na estrada. Se eu não "soubesse" que ele ia fazer aquilo, teríamos chocado frontalmente.

É um processo esgotante e que requer toda a concentração. Não atendo telemóveis, mesmo com o sistema de mãos livres, e raramente converso. Sinto-me como um piloto de caça em ambiente hostil e, a cada vez que chego ao destino, fico feliz por ter conseguido escapar mais uma vez, agradecendo aos céus e ao carro ou moto que conduzi (falo com eles como se fossem capazes de me entender).

Um veículo automóvel é uma arma.
Enquanto não se agir em conformidade, continuarão a morrer muitas pessoas nas nossas estradas, porque conduzem como se não fosse assim, porque não sentem que têm uma arma nas mãos e, com ela, a responsabilidade inerente ao porte e uso de arma. Conduzir nas estradas de Portugal é como ir à caça com um bando de distraídos que não faz ideia do que é uma caçadeira ou uma carabina e que, de vez em quando, disparam sem saber como e matam alguém, dizendo "Oops! desculpem lá! Estava distraído!".

Da próxima vez que conduzirem em viagem, mesmo curta, lembrem-se de que estão a atravessar uma zona de guerra, cheia de gente armada e inconsciente. Se assumirem essa atitude poderão não recordar nada das paisagens que percorreram, mas as probabilidades de chegarem vivos aos vossos destinos aumentarão dramaticamente.
E se quiserem ver as vistas ou conversar muito pelo caminho, por favor, vão de combóio.

Rui Semblano




So let's be careful out there.
Keep your eyes on that road.




Sukhwinder Singh, Sapna Awasthi feat. Panjabi Mc
Chaiyya Chaiyya Bollywood Joint - Inside Man ost

sexta-feira, maio 05, 2006

O bom vizinho...



Todos deveriam ter tido um vizinho assim.
Ao menos uma vez.



Joe Hisaishi - The Path of Wind - Tonari No Totoro [ost]


Ontem desapareceu mais um velho amigo.
O tempo não pára...
Já aproveitaram o vosso, hoje?

terça-feira, maio 02, 2006

Dorothy, tu é que tinhas razão!

Seja lá como, onde ou quanto tempo esteja fora,
não há nada como chegar a casa. :)

Uma boa semana a todos.

segunda-feira, maio 01, 2006

Mayday! Mayday!


A data de hoje tem um significado cada vez mais insólito, dadas as alterações que se deram no mundo do trabalho.
Há quem afirme que o fim dos contratos de trabalho estáveis, a conversão dos sindicatos em clubes de campo e a globalização aplicada ao livre trânsito de empresas e trabalhadores mais que a bens e serviços veio terminar de vez com o conceito de "classes". Talvez Marx fosse incapaz de reconhecer as classes sociais de hoje, mas que existem ainda é um facto.
Têm é outros nomes.
As finalidades, porém, mantêm-se.
Agora cruzem os bracinhos e repitam:
- Está tudo bem. Está tudo bem.



Zeca Afonso - Maio Maduro Maio - Cantigas do Maio



.....Editado e publicado em Al-Baiaz, cortesia de Gil Marques Carvalho.

domingo, abril 30, 2006

My God! It´s full of stars!

É o que sinto ao olhar o céu em noites como esta, por Terras do Falcoeiro!
Sempre fantástico! São milhares. Milhões!

Já tinha saudades.

(Um abraço aos que por aqui passam!)

Editado e publicado em Al-Baiaz, cortesia de Gil Marques Carvalho.

sábado, abril 29, 2006

Weekend...




Lá vou eu com os boiões de vidro para a minha sogra encher de fruta e da aguardente do meu sogro! Estarei por Terras do Falcoeiro até segunda-feira, mas andarei por perto, graças ao meu cunhado.
E darei um pulo a Tomar, naturalmente, para o habitual café no Paraíso.

Bom fim-de-semana!

Ah! A disposição mudou.
Listen to Shadow's Mood (updated).

Entre Abril e Maio...


Trabalhar mais anos, descontar
mais e receber menos reforma
manchete do Público, 28 de Abril 2006

O socialismo em vésperas de Maio...
Que os olhos das crianças nos inspirem a tornar
o mundo melhor que isto.




....Na imagem: Link para A Idade da Pedra, cortesia de Fabien Jeune, em 2003. Click. A música dispensa apresentações.

quinta-feira, abril 27, 2006

Masks...



Quando um rapaz de catorze ou quinze anos
descobre a sua inclinação para a introspecção
e a análise de si próprio é mais nítida que nos
rapazes da sua idade, é inevitável a tentação
de pensar que é mais maduro do que eles.
No meu caso, um tal raciocínio era
completamente errado.

Yukio Mishima
Confissões de uma Máscara



Léo Ferré - Claire de Lune - Léo chante Verlaine



Todos temos as nossas máscaras.
Se entre vós existir algum que afirme não as ter engana-se, e que pense sobre isto: como poderá retirar algo que não sabe ter posto? Aqui, no espaço virtual onde partilhamos o que somos mesmo que alguns julguem fazer o contrário, as máscaras existirão, porventura, mais que no exterior, onde o vento uiva.
Não imagino um mundo sem máscaras.
Que lugar horrível deveria ser, um onde os segredos seriam não mais que mitos e os mistérios ilusões vãs. A vida sem as máscaras perde o sabor que lhe é próprio: o de podermos escolher quando, onde e por quem deixamos cair a que temos posta.

[A partir de hoje, eu e o Fabien decidimos que imagens nos identificarão nos respectivos perfis.]

Off the record? Never.


O 25 de Abril de 1974 continuará disponível n'A Sombra, junto a este ícone na coluna da direita, onde as entradas a ele relativas serão enumeradas, cada link contendo a ordem (anexos marcados no fim, ordem geral em maiúsculas e de anexo em minúsculas) e o ano de publicação.
Infelizmente, A Sombra foi inaugurada após Abril de 2003 e estava offline em Abril de 2004 e 2005... Entradas relativas a esta data, mesmo que editadas em outras ocasiões, serão acrescentadas posteriormente.
Disso darei conta aqui, a cada acrescento.

Aos que quiseram passar nesta Sombra a 25 de Abril deste ano, obrigado.

terça-feira, abril 25, 2006

Entrevista com a História - 2




E todos os que hoje respiraram algo pior
vão sentir-se melhor, dentro de alguns minutos.
Nem sei porque se preocupam tanto.
O 25 de Abril já é como o Natal há muito.
Uma vez por ano.




Paulo de Carvalho - E depois do Adeus





Que demónio tem este Abril que tanto apoquenta esta gentinha? Que faz com que um cravo na lapela de alguém seja tão notado? E que tão notado seja se lá não está? E que palavras são estas? Eu sei quem é o Dioguinho, mas o presidente desta merda não sabe, e a puxar à emoção espera que tenha crescido "bem"? E quando se fala na oportunidade e no sonho, porque olham para nós de olhos vazios os que possibilitaram um e o outro? O seu sonho seria o de condenar milhões para sua própria paz? A sua oportunidade era apenas e só isso: a sua vez de ser como "eles"?

Hoje, sem problemas, a Madeira desistiu de ser Portugal - mas nunca do nosso dinheiro. Hoje, 23 anos depois, o 25 de Abril chegou ao Marco, sabe-se lá como. Hoje, 32 anos depois, resta uma ideia de futuro quase impossível, desprezada por todos, dos betinhos da geração 26 aos semi-chiques do BE: a de uma criança que não existe, calando uma arma com um cravo.

Existirá alguma coisa, depois do adeus?...

Rui Semblano, 25 de Abril de 2006

The making of...



O presidente da República, Cavaco Silva, interrogava-se hoje, no seu discurso na Assembleia, sobre a forma como teria crescido "aquela criança que enfiava um cravo numa G3" naquele cartaz do 25 de Abril que tanto o sensibilizou.

Pois caro senhor presidente, eis a resposta, para seu descanso:
Chama-se Diogo Bandeira-Freire, tem hoje 35 anos e vive em Londres, onde estudou na London School of Economics...
Acha que a vida lhe correu mal? Ou era uma figura de estilo?...


O Diogo é filho de Pedro Bandeira-Freire que, juntamente com Sérgio Guimarães, engendrou a foto mais célebre e emblemática do 25 de Abril. Como tantas fotos célebres e emblemáticas, é uma fraude. O menino da foto, o Dioguinho, era tudo menos um menino da rua; foi descalço e sujinho para a fotografia e a G3 foi emprestada "por um minuto" a um qualquer magala que ia a passar.

Ficará o senhor presidente mais contente, ao saber que, afinal, o tal menino cresceu muito bem, obrigadinho, e que deu o salto para o Reino Unido mal atingiu a maioridade, como se escreve numa entrevista que o próprio deu há dois anos ao Correio da Manhã, não restando muitas dúvidas do que o "menino de Abril" pensava deste pobre país. E com toda a razão.
Mas, sabendo isto, senhor presidente, o que acha? Que foi graças ao 25 de Abril que o Diogo foi para Londres? Talvez, talvez... Mas teria ido na mesma, mesmo sem 25 de Abril. Ou talvez não.
Dá que pensar, não dá?

Quanto à fotografia, a ideia foi brilhante e o resultado foi estupendo.
Que importa se foi forjada? O espírito era exactamente aquele.
E será sempre uma bela imagem; ainda que saibamos que o Diogo se está a cagar para a política portuguesa e que nunca na sua vida votou - em Portugal ou numa das suas embaixadas.
A vida é assim.
Feita de pequenos nadas.

Rui Semblano
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nota:
...
Para ler a entrevista do Diogo ao CM,
use a sua verdadeira fotografia. Esta!



nota post(erior):
O amigo Pires retomou este tema, que menciono na entrada seguinte, no seu Espreitador.
Realmente há coisas que irritam!
...
nota post(erior) 2:
O Espumante, alertado pela Catarina, também falou neste caso, no seu Espumadamente.
Nos comentários das suas entradas Poster e Poster II foi-se dizendo algo mais.

Entrevista com a História - 1


Mas o que se celebra hoje,
exactamente?

O 25 de Abril de 1974 não foi um movimento popular de raíz, mas um golpe militar que visava, antes de qualquer outra coisa, terminar com a guerra colonial.
Por este motivo a revolução veio depois da queda da ditadura e não antes. O que somos hoje, estabilizados em relativa prosperidade, foi o que se salvou de uma promessa que está ainda por cumprir.
E é muito pouco.

Entrada completa, abaixo. 6

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Oriana Fallaci: Oiça, Cunhal, aqui não se faz mais nada que falar de revolução. Que revolução? As revoluções produzem-se quando participa o Povo. O 25 de Abril foi um golpe de Estado, não uma revolução.
Álvaro Cunhal: Nada disso! E se considera o M.F.A. como um grupo de conspiradores que um dia se reuniram para dar um golpe não compreende nada do que aconteceu em Portugal. Não foi um golpe; nós os comunistas declarámo-lo imediatamente. Foi um movimento de forças democráticas no seio do Exército, com reuniões de 400 oficiais de cada vez, que discutiam o modo de mudar o regime. (...)

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“Nós, os comunistas, não aceitamos o jogo das eleições (...) Se pensa que o Partido Socialista com os seus 40 por cento de votos, o PPD, com os seus 27 por cento, constituem a maioria, comete um erro. Eles não têm a maioria”.
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“Estou a dizer que as eleições não têm nada, ou muito pouco, a ver com a dinâmica revolucionária (...) Se pensa que a Assembleia Constituinte vai transformar-se num Parlamento comete um erro ridículo. Não! A Constituinte não será, de certeza, um órgão legislativo. Isso prometo eu. Será uma Assembleia Constituinte, e já basta (...). Asseguro-lhe que em Portugal não haverá Parlamento (...)”
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“(...) Nós, os comunistas, já tínhamos afirmado aos militares que o PPD não devia estar presente [nas eleições], que não se podia conduzir o país ao socialismo por meio de uma ampla coligação democrática. Mas eles quiseram juntar socialistas, comunistas, sociais-democratas e as diversas correntes do MFA... Tínhamo-los avisado de que as eleições constituiam um perigo, que eram prematuras, que se não se tomassem precauções as perderíamos”.
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“(...) A solução dos problemas depende da dinâmica revolucionária; ao contrário, o processo democrático burguês quer confinar a revolução aos velhos conceitos do eleitoralismo (...). Democracia para mim significa liquidar o capitalismo, os monopólios. E acrescento: não existe hoje em Portugal a menor possibilidade de uma democracia como as da Europa Ocidental (...)”
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Extractos da entrevista de Oriana Fallaci a Álvaro Cunhal.
O ‘Jornal do Caso República’ – jornal de luta ligado ao PS editado pelos directores e redactores do ‘República’ após este jornal ter sido tomado pela comissão de trabalhadores controlada pelo PCP – publicou esta entrevista, em 27 de Junho de 1975, intitulando-a ‘Oriana Fallaci põe Cunhal a nu’.
Curiosamente, no (hoje) meu "Entrevista com a História", edição de Novembro de 1975 do Círculo de Leitores, esta entrevista não aparece a não ser parte dela, impressa na própria... capa! Um pormenor delicioso.

Nas entradas seguintes, voltaremos aos Cravos de Abril.
Até então e um bom Dia da Liberdade.

Rui Semblano, 25 de Abril de 2006