segunda-feira, julho 03, 2006

Punição Rodoviária Portuguesa - PRP




Como venho dizendo há algum tempo, a alegria de ver a selecção portuguesa chegar longe no mundial de futebol não chega para apagar a triste realidade que nos rodeia. E tão triste é ela, que faz com que tal alegria seja parca... Como se fosse um bom vinho a acompanhar comida estragada.
Os exemplos desta situação abundam, da Educação ao Ambiente, mas escolho um pequeno detalhe para esta entrada que, apesar da sua especificidade, é demonstrativo da mentalidade que impera neste que é, cada vez mais, não apenas "um" mas "O" canto da Europa.

foto:
Eu e a primeira moto, uma Suzuki GS500E.
1993 - A1 - Manif contra as portagens.




Sou motociclista.
O facto de estar sem moto desde 1998 não apaga os mais de 300.000 km que tenho em duas rodas. Nesses anos, quando o velho Talbot Horizon que então tinha ficava a ganhar pó na garagem, contactava diariamente com outros motociclistas e vi de tudo, desde os que genuinamente eram apaixonados pelas motos aos que as tiravam das garagens apenas ao domingo de manhã para "o povinho ver" - e só quando estava sol!
Era, sem dúvida, quando chegava o frio e os céus se fechavam que encontrava na estrada os melhores desta "classe" especial de gente que aprecia a liberdade só proporcionada pela moto e que tem por companheiro o vento. Participei nas campanhas pelo ajustamento das portagens ao porte dos veículos de duas rodas e pela protecção dos pilares dos rails que tantas vidas têm literalmente ceifado e tantos corpos têm estropiado todos os anos, sem necessidade alguma. Tive vários acidentes, felizmente sem consequências de maior para mim, e apenas em uma ocasião fui "ao tapete" por palermice minha, apesar de ajudado por uma dessas armadilhas tão comuns nas nossas ruas e estradas (no caso, uma falha no asfalto).



Recentemente, o Ministério da Administração Interna (MAI) tem tomado as motos "de ponta", reagindo da pior maneira às estatísticas que vão mostrando o índice de sinistralidade dos motociclos por comparação com os outros veículos.


foto:
Eu e a BMW R80R, uma Boxer com alma.
1996 - Ciudad Rodrigo - Espanha
A caminho dos Pinguinos!



Há alguns dias a RTP mostrou uma reportagem em que tal índice era exorbitado à boa maneira do tablóide sensacionalista. Dizia-se na dita peça que as forças de segurança rodoviária iam fazer incidir a fiscalização especialmente sobre os motociclos, devido à quantidade enorme de acidentes em que estes estavam envolvidos. Para ilustrar a reportagem, a RTP contratou um "artista" que se prestou a fazer uma série de barbaridades com uma câmara montada na sua moto!
Apesar de terem incluído no trabalho "jornalístico" as declarações de um motociclista digno desse nome, que pôs o dedo em várias feridas e descreveu na perfeição qual é a postura de quem usa a moto com responsabilidade, foi o inconsciente da câmara na moto que fez a notícia, transmitindo a mensagem: somos, os motociclistas, todos "selvagens", assim, como ele!
Porém, mesmo no fim da reportagem, numa frase lida a correr, lá estava a verdade:
A grande maioria dos acidentes que envolveram motos a que se referia a peça fora provocada por... automóveis.
Resposta das autoridades? Cair em cima dos "selváticos" motociclistas. Ainda ontem, um guarda da Brigada de Trânsito explicava a uma estação televisiva que estavam a fazer uma "operação-stop" numa auto-estrada (!!!!) para fiscalizar em particular as motos de grande cilindrada, pois no dia anterior haviam registado 9 acidentes, 6 dos quais envolvendo motociclos!



Certo parece ser que a "cruzada" do Estado contra um meio de transporte muito mais amigo do Ambiente que os automóveis e que, por essa Europa fora, é acarinhado pelas autarquias como forma de combate ao excesso de trânsito e poluição provocados pelo automóvel nos centros urbanos, está para durar.
Entre nós, a moto permanece um "objecto de luxo" (o selo da minha BMW ou da Yamaha eram mais caros que o de um automóvel de 1200 cc), um "devaneio", um "perigo", sinónimo de um mundo onde imperam os "malucos", os "selvagens", como aquele da reportagem, pago pela RTP para o ser.

foto:
Eu e a minha última moto,
a fantástica Yamaha XTZ 750 Super Ténéré toda negra!
1997 - Ciudad Rodrigo - Espanha
Sempre a caminho de Tordesilhas e dos Pinguins!



Eu era um desses "selvagens" (e voltarei a ser mal possa) naquela noite em que o respeitável condutor de um Mercedes saiu de uma curva em contra mão e veio embater de frente na minha querida BMW. Eu, graças aos céus, passei-lhe por cima sem um arranhão, mas a moto ficou tão maltratada que fui forçado a separar-me dela (coisas dos seguros e dos ALD's...). Nessa noite, contribuí para o número de motociclistas "malucos" que engrossam as estatísticas e terei, quem sabe, provocado a saída da GNR para a estrada, a controlar as motos todas para protecção dos automobilistas...

A estrada é perigosa, habitada por muitos demónios, mas não é perseguindo um grupo específico de utilizadores que se resolvem os problemas da sinistralidade rodoviária, muito menos um em que ser-se vítima da estrada ou de outros condutores é a norma e não a excepção. Esta mentalidade vigente no MAI, espelhada nas acções da Divisão de Trânsito da PSP e da Brigada de Trânsito da GNR, é representativa do "savoir faire" lusitano. Do nosso característico "Know How", como diria José Sócrates, agora que o Francês morreu nos nossos liceus.

Certo dia, fui mandado parar pela BT depois de um troço particularmente manhoso de estrada em que, pelo que me disseram, circulava mais depressa do que seria seguro fazer. Quando perguntei ao "senhor guarda" se, então, não seria melhor colocar a patrulha ANTES do dito troço, para alertar os condutores "menos dotados" que eu, acrescentei, meio a sorrir, estando assim a alertar os mesmos para a zona de perigo, em lugar de esperar o resultado no final da mesma, o homenzinho olhou-me com uma expressão tão vazia que me impressionou (parece que o estou a ver, a boca entreaberta...).
Para ele, como para a maior parte dos que deveriam implementar a Prevenção Rodoviária em Portugal (a dita PRP), não faz sentido nenhum evitar que se comentam excessos na estrada. O que faz todo o sentido, para eles, é permitir - encorajar, mesmo - que os excessos sejam cometidos para, depois, punir os que os cometem - caso estes consigam sobreviver a eles, naturalmente, e não matando ninguém no processo, de preferência.

Como seria tão triste este país se os condutores fossem previamente avisados dos perigos da estrada e alertados para a presença da autoridade, das patrulhas, dos radares... E como seria triste a vida de polícias da DT e guardas da BT.
Para eles, como para tantos de nós, parece muito mais divertido ficar escondido depois de uma curva perigosa a ver quem lhe sobrevive para pagar a multa mais adiante. Com um pouco de sorte, se a coisa correr para o torto, até pode ser que não venha ninguém em sentido contrário, calmamente.
Alguém a conduzir uma moto, por exemplo.

Rui Semblano
2 de Julho de 2006

nota:
"Pinguinos" é o nome da maior concentração de Inverno da Europa, que ocorre a Fevereiro de cada ano, perto de Tordesilhas. Vem daqui o meu cognome de "Pinguim" no meio das duas rodas. É que, além disso, adoro pinguins desde que me conheço. :)

13 comentários:

  1. Em vários países europeus, os automobilistas 'criam' um corredor para motos entre a segunda e a terceira faixas das autoestradas. Aqui é aquela coisa do 'este gajo vai chegar primeiro que eu? Deixa-me cá empatá-lo'.

    (não sou motociclista mas conheço que seja - e ainda tenho um equipamento completo e tudo!)

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  2. 100nada:
    Catarina!
    Acabas de "ganhar" uma volta na minha próxima moto (quase certo que será uma SuperTénéré de novo).
    Mal a tenha, seja lá quando for, estás "feita"! (hehehe)

    Um beijo grande! (welcome back!)
    RS

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  3. Olá Rui, tudo bem?
    É com agrado que recebo a novidade de seres um Motard. Eu ainda não sou (nem sequer tenho carta de mota), mas hei de ser!! Tenho 2 amigos, que são verdadeiros motards(um deles deves conhecer porque também é amigo do teu primo). Um deles quer chova, neve ou faça sol, anda sempre de mota, não gosta de andar de carro. Eu adoro motas, mas por falta de tempo (entenda-se tempo por euros), não tirei ainda a carta nem tenho uma mota. Mas isto não quer dizer que já não tenha feito viagens de mota. Eu também já fui aos Pinguins e ainda por cima numa Super Teneré 750 azul!!! Só fiquei triste porque os gorros já estavam esgotados... Foi uma viagem lindissima, apesar de no regresso ter rapado o maior frio da minha vida, cheguei a casa congelado, pois viemos por chaves e estava a nevar (e eu não tinha equipamento adequado)... Hei-de lá voltar, mas com a minha mota, quem sabe combinamos os dois e mais um ou dois amigos e vamos todos... Seria o máximo...
    Quanto à perseguição das nossas autoridades, mais do mesmo, é sempre a mesma merda!! Punir em vez de prevenir, arranjar bodes expiatórios para a sinistralidade, em vez de procurar soluções. Claro que a culpa é dos bandidos dos motards e não das estradas e da falta de civismo e preparação dos condutores, mas disto já falámos num post anterior...
    Um grande Abraço,
    Nuno.

    P.S - Espero que nos saia o Euro milhões para podermos comprar as nossas 159 e as motas, hehehe :D

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  4. Outsider:
    Com que então já foste aos Pinguinos, hein? Espero que os nossos desejos se tornem realidade e lá regressemos em breve. Depois de ter sido forçado a deixar a XTZ 750, pensei em aguardar e comprar a moto que sempre quis (uma BMW GS - que já foi 1150 e agora é 1200), mas isto começa a ser muito demorado e ainda há muito a fazer para que possa gastar os quase 20.000 euros que ela custa com todo o equipamento. Em compensação, ainda tenho todo o equipamento da Yamaha e uma Super Ténéré, hoje, ronda os 2.500 euros. Esperar por esperar, que seja montado! Além do mais, é uma moto fantástica, apesar de antiga, e conheço-a de olhos fechados, pelo que o "reboot" após quase 8 anos apeado será mais rápido.

    Quanto ao Euromilhões, caro Nuno, se cantar, podes contar com a tua sw159 e uma simpática Transalp (acho que deves começar com calma nas duas rodas) novinhas em folha.
    Está prometido!

    Grande abraço,
    RS

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  5. Eu também não sou motard e realmente discordo de quem diz que são os motards os causadores de acidentes. Pura treta! OS disparates que tenho visto são feitos pelos meus comparsas das 4 rodas. O motard geralmente sabe que tem de dar o corpo ao manifesto e refreia-se, mas claro que há excepções como em todo o lado.
    As autoridades querem é facturar para encher os bolsos ao estado. Isso já não é novidade...

    E vieste tu recordar-me os tempos do Talbot Horizon!!! Ehehe! Sim, também eu conheci essa dura e agreste máquina em tempos idos! O tractor, como lhe chamava. O meu pai chegou a ter dois, mas um deles acabou por ficar parado e só servir para fornecer peças ao outro. Que tempos! Aquilo era um carro de rali, para um miudo tipo " maluco acabado de tirar a carta"! Uma vez até desci uma ribanceira com ele, quando ultrapassei junto de numa ponte em construção e me apareceu um TIR de frente... Ups... Maluquices! Aquilo era uma máquina de guerra!


    abraço!

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  6. Bem amigo Rui… grande post.
    Grande pelo que revela, pela defesa que faz das duas rodas, pelo desvendar das reais intenções das nossas autoridades e pela saudade que aviva a quem também gostou de motos, embora não tenha passado de um “ignóbil” pendura e hoje tente que os filhos nem sonhem em ter esse sonho.

    Adorei.

    Grande abraço.

    PS: O Outsider que vá devagar. Grande bomba em mão inexperiente, dá problemas na certa.

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  7. Meu caro Rui: muito obrigada pela oferta de uma voltinha, mas a opção de deixar de andar de moto foi minha. Há muitos anos, passei alguns meses a fazer de 'enfermeira' em S. José. Bastou-me.
    E depois de ter um filho (embora o pai seja também motard), arrumei de vez o meu Arai Giga. :)
    beijinhos!

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  8. Rui estou completamente de acordo contigo, como maçarico tenho que começar por uma mota não muito potente e com pouca cavalagem, para não cair em tentação... 650 cc e 53 cavalos parecem-me suficientes para quem está a começar. Depois de uns anitos de treino, aí já posso pensar em algo com mais de 100 cavalos... Talvez uma Sprint ST...
    Nos carros já é diferente... Se não for pedir muito, gostaria que a 159 SW viesse com o motor 3.2 JTS de 260 Cv e já agora uns euritos para gasolina... hehehe
    Rui, se me sair a mim também podes contar com a GS e com a 159. Ahhhh, sonhar é tão bom...
    Um grande Abraço,
    Nuno

    P.S. ~ Acho que já vou começar a fazer as encomendas... :)

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  9. Sá Morais:
    Vejo que partilhamos recordações no que toca aos automóveis. Sim, o Talbot era pau para toda a obra! Bons tempos. Quanto à tua descida vertiginosa pela ribanceira, "tell me about it"! Comecei com um Fiat 126 e creio que não estaria aqui se fosse um 911 Carrera o meu primeiro carro (e uma MV Agusta a primeira moto!). Toda a gente comete excessos e faz asneiras nos primeiros tempos "de carta". Mesmo com as limitações em vigor, continuará sempre a depender de cada um (e em especial dos pais em relação aos filhos) escolher um veículo "dócil" para iniciar a condução, em 2 ou 4 rodas.

    Um abraço, caro Samurai.
    RS

    PiresF:
    Amigo Pires,
    Mais um bocado da minha vida se revela, é verdade. A minha experiência das motos permite-me falar delas com à vontade. Senti na pele aquilo de que falo. Compreendo a tua preocupação com os teus filhos, mas se o "bichinho" lhes surgir, estás feito! E acredita que os riscos são grandemente exagerados, pois a atenção de quem conduz evita os acidentes em 99,9% dos casos. Quanto ao 0,1% restante, não deixa de ser um factor, mas também o é ser-se atropelado a pé, por exemplo. Quanto a seres um "ignóbil" pendura (hehehe) devo dizer-te que não poderias sê-lo. Os penduras só são ignóbeis se forem também condutores. Acredita que não há pendura mais irritante que aquele que "faz as curvas" no assento de trás!
    Quanto ao Outsider, creio que uma tranquila 650 de família como a Transalp é adequada, conhecendo-o um pouco, como eu o conheço.
    A não ser assim, teria recomendado algo menos potente, como uma 250.

    Grande abraço,
    RS

    100nada:
    Com que então um Arai Giga, hein? Let me guess... A moto era uma VFR 750? Compreendo o teu receio, por isso não insisto na "voltinha", mas o convite está de pé. Decides na altura, que espero seja breve, mas que não sei quando será!
    De qualquer modo, os meus 42 anitos já me tornam perfeitamente capaz de assumir a condução tipo "pai de família", embora me permita alguns devaneios a solo, por isso estarás em boas mãos, caso decidas aceitar a "vega".

    Um beijo,
    RS

    Outsider:
    260 Cv, JTS, 3.2... Já está.
    Preferência pela cor?

    (hehehe),
    RS

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  10. O primo porque não pores uma fotografia do teu pinguim de pequenito...isso sim.....além de mítico era uma prova da rua paixão aos pinguins.

    Abraço.

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  11. Barbatuning:
    Hugo,
    Vou ver se encontro, mas o pinguim de que falas (de peluche) era da tua mãe e não meu! Ainda te lembras dessa história? Realmente, é um mito! (hehehe)

    Grande abraço,
    RS

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  12. Anónimo1/8/06 02:46

    Olá Rui, estou teclando do Brasil e sou proprietário de uma Super Teneré 750 e daqueles que anda no sol e na chuva, até porque aqui não temos neve !! (hehehe) muito legal esse site e um grande abraço para os amigos motociclistas (nossos irmãos) de Portugal. meu e-mail: pauloalves@osite.com.br Abraços. Paulo Alves

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  13. Anonymous/Paulo Alves:
    Caríssimo Paulo,
    Obrigado pela tua visita e boas curvas na tua XTZ! (Que inveja!)

    Um grande abraço e volta sempre a esta Sombra.
    RS

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