sábado, outubro 11, 2003

Cuba Libre


O "presidente" W. Bush começou a "correr".
Agora, encontrou a solução para "el problema de Cuba".
A mesma pode ser encontrada no Público de hoje (11Out2003), pela junção de duas notícias:
"Cruz Vermelha critica indefinição das detenções em Guantanamo" (p.14) e "EUA anunciam sanções mais apertadas a Cuba" (p.17).

Guantanamo é mais que um "centro de investigação"; é uma base de condicionamento psicológico, em que os prisioneiros, todos perigosos terroristas islâmicos, são convencidos de que se encontram nos próprios Estados Unidos. Em breve, ser-lhes-á permitida a "fuga", esperando com isso que soltem a sua raiva no território cubano, que julgarão ser norte-americano, quais cães raivosos mantidos num quarto escuro por longo tempo e soltos de repente.
Washington espera que os actos terroristas destes homens, junto com as novas sanções económicas, das quais a mais terrível é a quebra na exportação de charutos (agora que Schwarznegger deixou de comprar cubanos!), faça cair Fidel, finalmente!
Dará resultado?

Edição e publicação na cidade dos Senhores do Templo de Jerusálem.

Bredaguês


Pronto! O inevitável aconteceu.
A geração de doutores bacocos chegou aos centros de decisão do Ensino. Incapazes, eles mesmos e ainda hoje, de digerir Eça, Camões ou Camilo, ainda traumatizados pelos contactos com Redol ou Sophia, encalhados para sempre no Canto II d'Os Lusíadas e na página 16 d'Os Maias, ei-los que se preparam para fazer história, aprovando livrinhos escolares cheios de matéria mais palpável ao vulgo pupilo do Secundário, onde é suposto aprender a língua portuguesa.

Qual Pessoa, qual Florbela!
Venha de lá o Tomé e a Flauzina, o regulamento do "Big Breda" e a "Testenovela" com cruzinhas!
Só de pensar no tempo que perdi a ler o que me impingiram como literatura... Que um dia me sugeriram que, também eu, poderia ser um Álvaro de Campos ou um Miguel Torga... Que tristeza. Que desperdício!
Já estes novos aprendizes não são enganados.
Para eles não haverá ilusões de grandeza, mas certezas! Sim, que agora sabem o que podem, realmente, almejar! Ser um Zé Maria, um Marco, uma Flauzina! Não é o que lhes sugere aquele calhau com olhos que berra ao megafone que estão abertas as inscrições para mais um "Ganda Breda"? E não é o que lhes dirão os novos "manueis" de "bredaguês"? Em breve, num quiosque perto de qualquer um deles?

Para fechar (ou abrir) com chave d'ouro, só resta acrescentar os textos de referência que todos deviamos saber de cor; como os assinados por Catarina Furtado ("Tu também podes ser uma loira foleira") ou Manuela Moura Guedes ("A minha boca é maior que a tua").
Viva Bredagal! Viva!

nota:
ver Público, 11Out2003, p.26/27

Edição e publicação na cidade dos Senhores do Templo de Jerusálem.

sexta-feira, outubro 10, 2003

Ostlogie


Pois é.
Vão lá ver. :)

nota:
Mais uma vez estarei em terras d'O Falcoeiro pelo fim-de-semana. Como habitualmente, tentarei actualizar A Sombra desde Tomar. :)
E, já agora, um óptimo fim-de-semana a todos!

quinta-feira, outubro 09, 2003

Parecia um príncipe...

... e era mesmo.

Comentário da minha mãe ao circo mediático que rodeou a libertação de Paulo Pedroso:
"Que coisa tão exagerada!
Parece um príncipe, com aquela gente toda atrás dele!"


De facto, o rapaz tem uma máquina de propaganda de respeito ao seu serviço. Toda a gente devia saber que o facto de ter sido posto em liberdade não significa nada mais que isso; não é prova de coisa nenhuma.

Para um inocente, porém, cai muito mal fazer tanto espalhafato à volta do fim da prisão preventiva. É que, realmente, quem viu o Paulo Pedroso Show pode ficar com a impressão que o rapaz saiu de um julgamento coberto de razão e inocência.
Nah. É como aqueles que gritam bingo quando afinal... era linha.

A ver vamos.

But - at last!


Na The Economist n. 40, de 4/10Out2003, a capa diz tudo: Tony Blair e G. W. Bush com expressão de quem "deita contas à vida" sob a esmagadora chancela: "Manipuladores de decepção em massa" [1].
Mas no interior há mais:

"Seis meses e uma guerra depois, os inspectores chefiados pelos norte-americanos deviam dizer ao Congresso [dos EUA] que os programas de mísseis e os esforços de aquisição [de material bélico] de Saddam Hussein violaram, de facto, as resoluções da ONU, oferecendo provas da sua duplicidade. No entanto, nenhuma arma de destruição em massa [ADM] foi encontrada, quanto mais o aterrorizador arsenal de cuja existência o mundo foi avisado.
Mesmo muitos dos que se opuseram à guerra estão chocados e abismados
[por esta circunstância], especialmente pela aparente ausência de armas químicas que Saddam Hussein teria, supostamente, em seu poder.
Como inquisidores condenando uma bruxa, alguns argumentam que este fracasso
[em encontrar tal arsenal] simplesmente confirma a astúcia de [Saddam] Hussein. Isto não chega.
Ao acrescentar as suas próprias alegações, com base em informações dos serviços secretos, às dos inspectores da ONU, os senhores
[G. W.] Bush e [Tony] Blair transferiram parte do ónus da prova de [Saddam] Hussein para eles próprios."

E conclui a The Economist:

"A guerra, ainda o pensamos, foi justificada. Mas ao construir a sua justificação, os senhores [G. W.] Bush e [Tony] Blair não foram correctos com os seus povos."

Well, well... Um "mas", finalmente, nas páginas da The Economist.
Ao que isto chegou; está tudo perdido.

[1]
No original "Wielders of mass deception"; sendo wield o acto de manejar eficazmente uma arma, mas, também, manipular. Um trocadilho interessante.

Apaches e Falcões


Sobre a recusa de alguns pilotos da Heyl Ha'Avir (Força Aérea Israelita) de participar em missões de retaliação sobre os territórios ocupados da Cisjordânia e de Gaza, sabe-se hoje a identidade de um dos principais signatários dessa acção:
Yiftah Spector, hoje General na reserva, instrutor da Heyl Ha'Avir. Spector é um dos meus heróis; como amante da aviação, não podia deixar de o ser (ver entrada "Um Kuffiyeh longe de mais... ", n'A Sombra, a propósito da minha relação com as FDI). Foi um dos pilotos do famoso ataque ao reactor nuclear de Osirak, no Iraque, a 7 de Junho de 1981, uma das manobras mais espectaculares da aviação de combate de todos os tempos [1].

Os homens e mulheres que servem na Heyl Ha'Avir são dos profissionais mais competentes do género e têm, mais do que quaisquer outros nas forças armadas de Israel, a responsabilidade de assegurar a sobrevivência do seu país. Mesmo em 1948, a arma aérea israelita foi importante e, desde então, não fosse a Heyl Ha'Avir e Israel já teria desaparecido há muito.
O que nunca pensei, foi que, um dia, considerasse as suas acções ao nível das de alguns desvairados extremistas do Tsahal. Mas esse dia chegou e já há muito...

No passado, a Heyl Ha'Avir participou em algumas missões duvidosas, do ponto de vista da ética militar (veja-se o Líbano, por exemplo), mas as suas "águias" sempre cumpriram as suas ordens sem colocar problemas de maior - e nunca com a dimensão que hoje assumem. Ser militar é isso; cumprir ordens. Mas não é só. Se fosse apenas isso, ainda hoje teríamos capitães em Abril, Maio ou Novembro, a combater no Ultramar.
Israel atingiu o ponto de ruptura e esse facto é sublinhado pela revolta dos melhores e mais competentes oficiais das suas forças armadas: a élite da Heyl Ha'Avir.

Não sou pacifista. Um dia, como sabem os que lêem A Sombra, quis ser piloto-aviador. Se o fosse hoje e o meu Governo me ordenasse disparar um míssil contra um prédio cheio de civis, só porque lá dentro estaria um terrorista que daria muito trabalho a capturar por métodos convencionais (mesmo que ele fosse o pior canalha à face da Terra), esse seria o dia mais triste da minha vida. Sê-lo-ia porque seria aquele em que me veria obrigado a entregar as minhas asas, abandonando o serviço.

Um militar não é um político, mas não pode cumprir ordens destas com a consciência tranquila. Mesmo missões leais, por vezes, custam a digerir, pois a guerra não é uma empresa limpa, mas isto é demasiado ignóbil.
Há limites que não devem ser ultrapassados.
Israel, como os palestinianos, há muito os ultrapassou.

Rui Semblano
Porto, 9 de Outubro de 2003


[1]
O ataque da Heyl Ha'Avir ao reactor de Osirak, em 1981, foi realizado por uma esquadrilha de F-15's e F-16's (ainda frescos), que Yiftah Spector integrava, voando de Israel para o Iraque em formação tão cerrada que os radares os confundiam com um voo comercial, para o que contribuiu uma planificação excepcional, pois usaram tempos e rotas de um desses voos, evitando detecção em altura e à vista. O resultado foi a destruição do reactor. Não se perdeu um único caça-bombardeiro nessa missão, apesar de já não existir surpresa no trajecto de volta a casa.
Outro piloto que integrou essa missão foi Ilan Ramon, o astronauta israelita que morreu na explosão do Columbia, a 1 de Fevereiro deste ano.

nota:
Em Haifa, a 04Out2003, uma jovem advogada palestiniana fez-se explodir, matando cerca de vinte pessoas. Os palestinianos há muito que se tornaram bestas, como resposta à bestialidade sionista.
É esta reacção à bestialidade que define o ser-humano. Ou se escolhe sofrer e conquistar, duramente, a paz ou se escolhe o caminho da besta e se perde tudo, a começar pela humanidade. Não existem opções para o Oriente Médio. As bestas imperam em ambos os campos.
Deus tenha piedade de todos os inocentes.

nota2:
Este tema é retomado da entrada "Isenção e recusa", em que abordei a aproximação d'A Aba de Heisenberg ao mesmo. Um abraço ao João Carvalho e ao Paulo César.

Blogger.com vs. Weblogs.pt


Cada vez que a Blogger.com resolve fazer melhoramentos no Blog*Spot fico com os cabelos em pé. Claro que tenho toda A Sombra guardada, incluindo html e páginas web completas, mas a trabalheira que daria refazer um blog destes é mesmo obra.

Como não nasci ontem, pedi ao "Paulo Querido" para experimentar o Movable Type (MT) em Weblogs.pt com um blog mais simples: o CpI.
A mudança do Cinema para Indígenas (CpI) não se verificou ainda, estando em fase de estudo. As conclusões a tirar são várias, das quais destaco ser necessário um estudo aprofundado do funcionamento do Movable Type (que conjuga várias linguagens, incluindo html, mas não tem nada a ver com este).

Como está, a mudança implica ter o "Paulo Querido" como administrador do blog, sendo os seus autores os utilizadores. Como a sua experiência no MT é grande, isto é muito bom, para quem só pretende escrever, mas num blog cheio de designers, pintores, arquitectos e escritores... Não dá. O controlo é importante, mas assumimos a nossa ignorância em MT, agradecendo ao Paulo os seus esforços - e que não se julgue que este comentário é negativo para ele, muito pelo contrário, é negativo para nós que somos picuinhas e gostamos de controlar tudo e ter as chaves todas na mão.

Tenho assistido à mudança de outros blogs para o Weblogs.pt e o Paulo é incansável na ajuda que lhes presta. Merece todo o nosso respeito.

Dado que o CpI pode tornar-se um bom teste para o desenvolvimento dos nossos conhecimentos de MT, e porque existem mais projectos na calha, a migração deste para Weblogs.pt terminará por se verificar, mas com calma e, de todo o modo, mantendo o original em linha, sendo o blog em MT um espelho mais sofisticado do original.

Portanto, A Sombra permanece no Blogger.com, com sustos e tudo.
Quando entrarmos na banda larga, e arranjarmos uma máquina decente, logo veremos o que se pode fazer, embora se pretenda manter, no caso d'A Sombra, a sobriedade editorial - nem imagens nem fundos jpeg nem nada que torne a vida difícil aos que se movem a 56k. Optimizaremos sempre pelo mínimo.

A calma impera. (digo eu)

Pel'A Sombra,
RS

Incerta Sombra


Foi com prazer que verificamos ter A Sombra sido um dos cinco blogs a inaugurar a escolha dos "Cinco Melhores da Semana" no Cataláxia.

Agradecemos, como não podia deixar de ser, assinalando a entrada "em serviço" desse guia pessoal de preferências do Cataláxia, passando a indicar os quatro blogs que acompanharam A Sombra nesta estreia:

- Bloguítica Nacional
- Desesperada Esperança
- Janela Para o Rio
- Mata-Mouros

É caso para dizer que quem lê assim não é míope! :)
Um abraço ao Rui.

quarta-feira, outubro 08, 2003

Darling, we have a problem...


O inevitável aconteceu.
Desde ontem que não tenho acesso aos blogs que temos alojados na Blogger.com.
A Sombra, o Panorama e o Cinema para Indígenas, assim como as páginas de apoio d'A Sombra, como os Links Completos. All systems down.
Verifiquei que o mesmo aconteceu a muitos dos blogs que costumo visitar e, como outros estão disponíveis, mas são versões plus, tudo indica que deu qualquer coisa má ao servidor da blogspot.com.
Assim não vamos lá.

Calmamente, sem pânico, preparamos a mudança.
A passagem do Cinema para Indígenas para a Weblogs.pt foi já pedida ao "Paulo Querido". Se a migração decorrer sem problemas, em breve estaremos à Sombra em Weblogs.pt. Aguardemos serenamente.

Pel'A Sombra,
RS

Crescer


Um dia, sob dois sóis vermelhos,
Desembainhei as minhas lâminas
Acompanhado da Criança

Juntos, por mais tempo que o medido,
Suportámos as cargas dos danados,
Uma após outra, sem ceder terreno,
Sem triunfo que nos fosse concedido
E ainda hoje aí me encontraria,
Não fosse a minha fuga protegida
Pela lâmina firme da infanta só,
Que nesse campo infame a vida deixaria
Pela minha

E então cresci.
Sobre o seu sangue...

Fabien
Outubro 2003

segunda-feira, outubro 06, 2003

Todos podemos ser Lynce...

... e todos podemos ser Martins da Cruz.

Quantos de nós não estiveram já no papel de um "Lynce"? E quantos mais de nós não foram já um "Martins da Cruz"?

Quando pedimos ao nosso amigo "Lynce", que trabalha no nosso banco, para receber um depósito sem ter de esperar uma hora na fila, somos um "Martins da Cruz" ou não?
Quando pedimos ao nosso amigo "Lynce", que tem um lugar no Governo Civil, para eliminar o registo daquela multa de estacionamento, somos um "Martins da Cruz" ou não?
Quando pedimos ao nosso amigo "Lynce", que trabalha no hospital onde um familiar ou amigo está internado, para nos dar entrada fora das horas normais de visita, somos um "Martins da Cruz" ou não?
E quando, estando nós em posição que o permita, o nosso amigo "Martins da Cruz" nos pede um qualquer favorecimento, somos um "Lynce" ou não?

Poderemos ser. Um ou outro.
Só não o seremos nunca se não tivermos um amigo "Lynce" ou nunca estivermos na sua posição. A diferença está em que nem nós nem os nossos amigos (pelo menos para a maioria dos casos) somos ministros.
Ser um responsável dos mais altos que o Estado tem exige um nível de comportamento muito acima daquele que será esperado de qualquer cidadão comum; e mesmo que não se esteja tão alto, basta um mero lugar de funcionário público para que quem o ocupa redobre as cautelas e controle as suas acções. Tudo para evitar, tão só, que caia sobre quem ocupa tais lugares a sombra da suspeita.

É difícil avaliar do que motivou esta situação, sobretudo ao vermos tanta gente com telhados de vidro a atirar pedras na mesma direcção, mas é na diferença de nível e de exigência que está a questão.
Ao demitir-se, Pedro Lynce cumpriu a sua obrigação. E penso que Martins da Cruz tenta tapar o sol com uma peneira. Não creio que fale verdade ao dizer que fez o pedido ao ministério sem consciência de incorrer em ilegalidade. Se fosse um vizinho meu a fazê-lo, talvez, mas nunca Martins da Cruz. E se até um vizinho meu tem obrigação de saber as leis que lhe dizem respeito, quanto mais um ministro.

Um cargo público obriga a que se abandonem as facilidades a que o cidadão comum tantas vezes recorre e enquanto os "Lynces" e os "Martins da Cruz" ministros não se abstiverem deste tipo de comportamentos continuará a parecer justo aos "Lynces" e aos "Martins da Cruz" comuns fazerem igual. Mais uma vez, o exemplo veio de cima.
Martins da Cruz não assumiu a sua responsabilidade, pelo que os "Martins da Cruz" comuns não terão de se interrogar sobre se atitudes semelhantes estão certas ou erradas, na hora de as assumir.
Da próxima vez, não se inibirão de pedir um favor ao seu amigo "Lynce", mas, dado o sucedido, talvez esse pense duas vezes antes de os favorecer. Oxalá seja assim. Já não se perdia tudo.

(in)Verso


O blog senso impera


PS:
Verso, singular.

PS2:
Vem uma pessoa com um saco cheio de amendoins e cai no meio de uma metapolémica blogosférica... Estou a ver que tenho leitura. Bom, ao menos não falta o que comer... Vou ver se ainda tenho uma cervejinha. Hmmm...
Ou duas.

Faculdades financeiras


O financiamento do Ensino Superior público tem sido um verdadeiro quebra-cabeças. Se é certo que a Universidade, naturalmente, não sendo parte da escolaridade obrigatória nem básica, não deve ser isenta de propinas, também é certo que estamos longe de poder considerar as mesmas como justificadas. Bem longe.
É a história do "croquete" e do "bife", sempre pertinente.

Como será de esperar que o Estado legisle globalmente para o Ensino, não é por se terem tornado menos graves alguns casos (algumas Universidades podem ter melhorado a sua qualidade, mas tê-lo-ão conseguido para todas as suas licenciaturas?) que se justifica a aplicação da propina.
A aplicação de tal princípio deve ser universal e não caso a caso, de onde, dado o estado do Ensino Superior público, não se justifica a existência de propinas; muito menos as que agora são implementadas.

As propinas não servem para garantir a qualidade de ensino de forma directa, isto é, o financiamento da Universidade pública não pode ser construído a partir da propina. Podem e devem servir as propinas para complementar tal financiamento, libertando verbas do OGE para aplicação em sectores básicos que, esses sim, devem ser gratuitos na totalidade.

E aqui começam os equívocos: as propinas não podem entrar nos planos orçamentais do Estado a não ser a posteriori, ou seja, como suplementos.
Se o orçamento para o Ensino Superior é de "mil" e as propinas são "cem", isso significa que podem ser aplicados "cem" do orçamento projectado em outras áreas.
Não é um desvio de verbas - a verba consagrada ao financiamento da Universidade, definida sem considerar o encaixe das propinas, tem que ser mais do que suficiente para garantir o ensino de qualidade.
Se o factor propina for considerado como integrante do financiamento desde a projecção do orçamento, isso significa a introdução de uma variável perversa na operação. Imaginemos um ano em que o número esperado de matriculas no Superior fica muito abaixo da expectativa e teremos um orçamento reduzido drasticamente.

Outro equívoco: fala-se em "aumento" das bolsas de estudo para o valor mínimo da nova propina. mas mesmo que esse "aumento" fosse pontualmente aplicado, bolseiro por bolseiro, de acordo com a propina em vigor nas suas Faculdades, não se trata de aumento nenhum.

As bolsas são, por definição, ajudas de custo, que permitem aos estudantes carenciados suportar despesas relativas ao seu estudo - como material didáctico, alimentação e estadia (estas últimas, principalmente, ao nível dos deslocados, fatia maior dos bolseiros). Desde que a propina foi instituída como a conhecemos hoje que isto é uma grande treta.
As bolsas existem apenas para que o estudante carenciado pague as propinas (na maior parte dos casos nem isso...). Ou seja, não recebe um cêntimo que o ajude a comprar um livro, a pagar uma refeição ou a completar o aluguer do seu quarto.

Para cúmulo, a "bolsa" que, supostamente, paga a propina é entregue pelo Estado ao estudante carenciado e não ao seu estabelecimento de ensino - apenas e só para que não se diga que os bolseiros não recebem um chavo. Isto é obsceno.

Qualquer bolseiro teria direito ao pagamento integral das suas propinas - mas pago pelo Estado directamente ao estabelecimento de ensino que frequenta. Esse dinheiro nunca deveria entrar na conta pessoal de um bolseiro e nem sequer devia fazer parte da bolsa de estudo. Deveria ser chamado pelo que é: um subsídio para o pagamento de propina - nada mais.
A bolsa, essa sim, deveria ser entregue ao estudante carenciado, para as despesas que este tem de enfrentar, que descrevi acima.

O financiamento da Universidade pública pelo Estado pode ser complementado por programas de investimento privado específicos (muito precisos e regulamentados) ou por uma política consistente e atractiva de mecenato, em que as empresas que doassem grandes somas à Universidade seriam beneficiadas por consideráveis abatimentos aos seus impostos. Tais doações seriam feitas ao Estado e não à Faculdade A, B ou C, e este as trataria como as propinas.
Supondo o mesmo orçamento de "mil" e os tais "cem" de propinas, acresceriam, por exemplo, "quinhentos" de doações pelo mecenato, pelo que o projecto de orçamento ficaria reduzido a "quatrocentos" reais, libertando "seiscentos" para outras áreas.

Poder-se-á argumentar que, assim, não existe verdadeiro investimento nem real melhoria, mas apenas a manutenção de um orçamento já estabelecido.
Terei de concordar, caso os orçamentos continuem a ser projectados como até aqui, isto é, com valores de miséria, destinados a manter (e mal!) o que já existe. Mas um orçamento de verdade deve contemplar desde logo valores que permitam a melhoria constante e sustentada do seu objecto.
O erro tem sido esse. Faz-se um orçamento de "cem" e espera-se que os restantes "novecentos" necessários caiam do céu. Como normalmente não caem, não há dinheiro para a "educação"...
Está mal.

O pagamento da propina, nos moldes que descrevi, serve para mais que isto.
Serve, sobretudo, para responsabilizar os estudantes universitários; para os preparar desde cedo para uma sociedade em que devemos pagar os serviços extraordinários que o Estado nos presta, para que todos possamos usufruir gratuitamente dos que nos são por ele prestados ordinariamente.
Porque não temos um país de excelência - e nem teremos, a continuar assim.

Universidade pública gratuita? Talvez.
Mas antes, uma Saúde verdadeiramente universal e gratuita; uma Segurança Social universalmente justa e digna; serviços públicos (como o Ensino Básico, a Protecção Civil, a Segurança Pública, etc.) de universal excelência.
Depois, talvez, um financiamento integral do Ensino Superior público - e, ainda assim, com a obrigatoriedade de cada licenciado pagar de volta ao Estado o investimento que este nele realizou.

Em alternativa, mas só para os "idealistas", poderiam os licenciados assinar um compromisso de honra em como, a troco do Rendimento Mínimo Garantido, trabalhariam pro bono publico na área do seu curso, sendo assim concretizado, de facto, o investimento de todos nós na sua formação.
Como é?
Ou são idealistas ou são oportunistas.
Decidam-se!

Rui Semblano
Porto, 5 de Outubro de 2003

Hertizel


Ao abrigo do direito de resposta, publicamos na íntegra um e-mail enviado por Victor Hertizel, blogger do Dunhill King Size, a propósito da nossa entrada "Joke for Free".
Os comentários seguem após o mesmo.

E-mail enviado por Victor Hertizel:
(Victor Ramos hertizel@hotmail.com)

--- quote ---

Caro Rui Semblano,

Em resposta ao seu post n'A sombra, e visto não possuírem um sistema de comentários - afinal a direita sempre foi avessa a críticas - tenho a dizer-lhe o seguinte:

- De facto não sou gago, nem anónimo - Hertizel é o meu apelido, mas se preferir, Victor de primeiro nome - apesar de por vezes me engasgar com algumas barbaridades que ouço por ai.

- A resposta à sua pergunta está nos comentários de dunhillkinsize, bem como contida em posts anteriores. Procure-os.

- O tom jocoso e irónico que atravessa todo post não me choca ou enerva. Acho piada a cavaleiros de pena em riste sempre prontos a esgrimir umas figuras de estilo. Eu sou onanísta, não necessito de público. São posturas.
Serve igualmente para disfarçar a falta objectiva de argumentos. Que não concorda comigo já eu percebi. Mas paternalismos despropositados apenas servem para o seu prazer ao lê-los. Quem é o onanísta aqui?

- Concretamente, alguém lhe disse que tinha piada ou chegou a essa brilhante conclusão por si mesmo? E alguém lhe disse que era o dono da razão ou chegou a essa brilhante conclusão por si mesmo? E alguém lhe atribuiu o título de "supremo elucidador do povo em questões de ensino superior"? É o que se depreende dos seus conselhos. ( É para juntar à estatística.)

- Quanto ao ensino livre, gratuito e de qualidade, sugiro que consulte a constituição. Bem sei que é um documento desactualizado, escrito por essa obscura seita, os marxistas, e tem de ser alterado rapidamente, mas ainda assim é, hoje, a lei máxima neste país. Mas o que é a lei para a direita?

- Mais uma vez a velha classificação do estudante bêbado, borguista, borlista e rebarbado. Diga-me uma coisa, como chegou a esse maravilhoso estereotipo? Costuma fazer trabalho de campo? Ou qual papagaio repete o que lhe dizem sem questionar? Ou quiçá está a pensar nos seus tempos de faculdade. Olhe que os tempos mudaram. Deixe de simplesmente reproduzir a imagem que lhe dá jeito para a sua prosaica argumentação. Pense.


Cordiais saudações,

Victor Hertizel

--- end quote ---



Caríssimo Victor,

Antes de mais nada, as minhas desculpas por o ter confundido com um anónimo. Convirá que Hertizel é um apelido invulgar. A falta é grave e sem desculpa.

Agora, alguns pontos curiosos:

"Eu sou onanísta, não necessito de público. São posturas."

Então para quê enviar as suas entradas para o Blog de Esquerda? Para quem se quer "masturbar" em privado, é um pouco invulgar, não acha?

"(...) paternalismos despropositados apenas servem para o seu prazer ao lê-los."

Há cerca de cinco anos que me afastei da Universidade, ao mesmo tempo que deixei a presidência da Associação de Estudantes da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Se existem colegas com quem não ousaria ser paternalista são, entre outros, para além da minha equipa de trabalho na AEFBAUP, Rui Franco, Guilherme Cartaxo, João Ferro, Afonso Costa e tantos outros que, na AEFA/UTL foram consequentes na sua luta - até às últimas consequências. No entanto, com os que persistem no erro crasso de balir "não pagaamos, não pagaamos", dou-me ao luxo de ser paternalista, sim. E a qualquer dia da semana e duas vezes ao Domingo, quando tenho mais tempo.

"Concretamente, alguém lhe disse que tinha piada ou chegou a essa brilhante conclusão por si mesmo? E alguém lhe disse que era o dono da razão ou chegou a essa brilhante conclusão por si mesmo? E alguém lhe atribuiu o título de "supremo elucidador do povo em questões de ensino superior"? É o que se depreende dos seus conselhos. ( É para juntar à estatística.)"

Concretamente, não respondeu à minha pergunta, a não ser que considere a referência à nossa Constituição como a resposta. Lamento, mas é uma resposta demasiado básica, sobretudo para um revolucionário. Ou o amigo Victor não se considera um revolucionário?
Mas eu respondo às suas:

Nunca cheguei à brilhante conclusão que tinha piada, mas alguns, como o Victor, já mo disseram antes. E não me tem adiantado de nada dizer-lhes que falo a sério.
Não me tenho por dono da razão e espero que o Victor também não, mas tenho cinco anos de experiência de luta estudantil - como em "chegar-ao-fim-e-ser-chumbado-a-todos-os-exames-com-nove-valores-como-prémio-de-mau-comportamento" - e isso dá-me direito a tecer alguns comentários com conhecimento de causa.
(Acho o nove um número particularmente redondo, e o Victor, não acha?)

Pode juntar estes dados à estatística. Os outros estão à sua disposição na Internet, basta inserir num qualquer motor de busca o meu nome e "Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto".

"Mais uma vez a velha classificação do estudante bêbado, borguista,
borlista e rebarbado. Diga-me uma coisa, como chegou a esse maravilhoso
estereotipo?"


Não faço a mínima ideia de quanto tempo tem de Universidade, caro Victor, mas se ainda não tem a sua conta de estudantes bêbados, borguistas, borlistas e rebarbados, ainda tem muito que andar. Antes não tivesse...
E repare que nunca afirmei que o Victor era um deles, apesar do trocadilho "onanista", aliás bem e claramente assumido por si próprio.

Finalmente, a "direita"...
Como recém-chegado à blogosfera, penso que não conhecerá o suficiente d'A Sombra para dizer semelhante barbaridade, mas descontando a sua inexperiência no campo, sugiro a leitura da nossa entrada "Obscuro".

(Eu sabia que alguém me ia tentar colocar esta etiqueta mais... Já estou habituado. No pasa nada.)

Antes de me despedir, atrevo-me a mais uma sugestão:
Leia atentamente a entrada seguinte a esta ("Faculdades financeiras") e, já que é tão afirmativamente a favor da Universidade gratuita, saia do armário e assuma-se marxista e revolucionário; explique-nos como todos seriamos mais felizes num mundo sem capital, sem Coca-Cola e sem Zara, advogue a destruição do Estado democrático para que das suas cinzas nasça o esplendoroso socialismo.

Se o fizer, apesar de não concordar consigo, terá o meu respeito.
Se não, olhe... Será mais um igual aos que berravam pela solidariedade com os Chiapecos nas Assembleias Gerais de Alunos em que eu tentava alertar para a péssima qualidade do Ensino Superior público... em Portugal.
É chic q.b., mas muito rasteirinho.

Um abraço,
Rui Semblano

nota:
"Onanista" não leva acentos.
Como entusiasta que é, achei que o devia saber

nota2:
Como é público e notório, A Sombra é um blog editorial.
Comentários, só por e-mail.
(E, como se demonstra, sem complexos.)

domingo, outubro 05, 2003

Inesquecível


Será que hoje José Manuel Fernandes se irá recordar de Belgrado?
I wonder...


nota:
ver entrada "x" (ainda sem título) - a publicar

Joke for Free


Lido em Dunhill King Size:

--- quote ---

Nunca pensei em 1995 ter que retomar hoje a luta por um ensino superior público livre, gratuito e de qualidade. Enganei-me.

--- end quote ---


Wow...
Temos de reconhecer que não é gago, mesmo sendo anónimo.
Antes de mais, uma perguntinha que deixei no blog do onanista Hertizel, como assina.

"Caro Hertizel,
E se o Ensino Superior Público fosse financiado a 100% pelo Estado (sim porque só poderia ser de graça se os professores e tudo o resto fosse de graça) e não lhe custasse um cêntimo, estaria na disposição de devolver esse dinheiro ao Estado, uma vez a trabalhar na área em que se licenciará?"


Devo confessar que já não encontrava ninguém a masturbar-se na blogosfera há algum tempo... (ver a nota2 de "O Mestre parte sem remorsos" e ainda "Masturbações") E logo no cabeçalho do seu blog, nem mais!

Caro Hertizel,

Então já apareceu, em plena refrega, na TVI? Parabéns, está um homenzinho. Já agora, depois de responder à minha pergunta (que lhe deixei nos seus comentários), gostaria de saber algo mais.
Concretamente, se alguém lhe disse que a Universidade grátis era um dos seus inalienáveis direitos democráticos ou se chegou a essa brilhante conclusão por si mesmo. (É para juntar à estatística.)

Antes de responder, se quiser, passe os olhos pelas entradas que se referem ao Ensino Superior, n'A Sombra, que começam aqui (lá encontrará as ligações para as restantes entradas relativas ao tema - sugiro que se demore algo mais nesta, quem sabe possa transmitir-lhe alguma coisa que o ajude, não que precise disso!).

"Livre, gratuito e de qualidade"!
Espantoso! E com direito a residências universitárias com cabo, armários refrigerados cedidos pela Super Bock e uma avença com um grupo de meninas jeitosas, daquelas que fazem massagens, já agora.
Sempre ajudava a combater o tédio. E o onanismo.

Pel'A Sombra
RS

nota:
Tanta gente nova a imaginar coisas antigas...
E tanta gente velha sem imaginação nenhuma.
Até dói.

nota2:
É caso para perguntar, de novo, "Quem paga o quê?"

The latest jobs


A não perder, em breve, numa sala perto de si:

Uma Thurman will Kill Bill! (Quentin's back! Lucy's back! Yes!) (*)
The Touch of Michelle Yeoh. (just for fans)
Bad Boys II mess with. (Heeere's Will! - again!)

E, a não esquecer:
O regresso do rei e as revoluções. CLARO!

Já sabem... Quando me ponho a falar de filmes é porque
o Cinema para Indígenas foi actualizado. Ok. Vão lá ver.
São duas novas entradas - good knews and bad. :)

(*) Just Volume 1. For now!... :)