sábado, dezembro 13, 2003

Ghost ships & Ocean liners


Existem blogs que vogam na world wide web como navios fantasmas. A data do último post é longínqua e nada indica que seria o último. Encontramos a mesa posta, objectos pessoais como esquecidos, cadernos abertos junto a tinteiros onde repousam penas como que temporariamente, à espera que as empunhem de novo e continuem o diário... Alguns têm teias de aranha e muito pó, mas ganham uma estranha vida quando remexidos; outros estão impecavelmente limpos, como se os seus administradores lá passassem todos os dias, mesmo não dando outro sinal de vida. Outros ainda há que pulsam de vitalidade, apesar da certeza da morte dos seus autores ou da impossibilidade do seu regresso. E em alguns há mesmo sons de música, como se uma banda fantasma ainda tocasse no convés de recreio ou no salão de dança...

Depois temos os navios de cruzeiro, sempre actuais e vivos, plenos de actividade e visitantes, em rumo para mais um porto, sempre para mais um porto.

Visitante esporádico da blogosfera (e blogger esporádico, também), a minha nostalgia é notória ao usar tantas linhas para descrever os navios fantasmas e apenas uma frase para os transatlânticos... Se eu tivesse um blog, seria um navio fantasma? Ao encontrar uma data antiga no meu último post escrito teria ânimo para escrever um novo? Ou apenas arrumaria um pouco a casa e espanaria as teias de aranha?

Eu tenho este transatlântico para escrever. Aqui chegado, decido fazê-lo ou não de acordo com o rumo actual que toma ou a música que uma orquestra bem viva toca, no momento. Não creio que este seja um blog colectivo; aliás, acho que o Semblano deveria mudar algumas coisas, a esse respeito. Vejo-o como um blog individual em que tenho licença para entrar, de vez em quando, e repousar na sua Sombra.

Não era minha intenção fazer um balanço de 2003, do meu ponto de vista da blogosfera, mas constato que foi o que fiz. Está feito, portanto.

A todos, comandantes de transatlânticos, piratas das Caraíbas, espíritos e holandeses voadores (bem como a todos os leitores), desejo um feliz Natal e um bom Ano Novo.

Até sempre,

Fabien
13.12.2003

sexta-feira, dezembro 12, 2003

Novo e-mail


Finalmente está activo o e-mail novo d'A Sombra.
Passará a constar do cabeçalho do blog e da coluna da direita.
Aos que nos pretendem contactar, agradecemos façam copy-paste do endereço para os seus programas de correio electrónico.

O novo e-mail:
a-sombra@sapo.pt

Depois de andar a receber 40 e-mails por dia a "oferecer" produtos para aumentar consideravelmente certas partes da minha anatomia (o que não é, em todo o caso, necessário...) decidi acabar com os links directos nos e-mails deste e de todos os blogs que administro. mais uma vez peço desculpa pelo inconviniente, mas estou certo de que compreenderão a razão deste novo processo.

Um abraço a todos,

Pel'A Sombra,
RS

nota:
Os e-mails pessoais ainda não estão resolvidos, mas alerto para o facto de ter terminado as contas anteriores na Clix, pelo que agradeço não enviem mais e-mails para os antigos endereços.

Sekanevasse faziassekaski


Lido no Jaquinzinhos:

--- quote ---

(...)
2. O Crítico explica-me que cada bilhete para a ópera custaria cento e tal contos por espectáculo sem os subsídios. Acontece que não está disposto a pagar o real valor: prefere pagar apenas meia dúzia de contos e exige que os outros portugueses (os incultos) sejam obrigados a pagar-lhe o resto do bilhete. Senão, diz ele, acaba-se a ópera em Portugal. Note-se: não se acaba por falta do subsídio: acaba-se porque ELE que quer assistir à ópera não está disposto a suportar o devido valor. Eu, inculto como todos os liberais, gosto mais de ski. Não acha escandaloso que para fazer ski em Portugal seja necessário pagar cento e tal contos? Não deve ser subsidiado para o meu saltinho à Sierra Nevada?
(...)

--- end quote ---


Convenhamos que, para quem tem um visto permanente de entrada nos EUA, pedir um subsídio para esquiar na Sierra Nevada é um pouquinho provinciano. Então e Aspen, ó Jaquim? Já se imaginou a descer em direcção à Snowmass Village com a Nessun Dorma no Discman a abrir? E ainda dizem que o ski e a ópera são incompatíveis...

nota:
Acho que o Crítico e o Jaquim precisam de um novo jantar para acalmar os ânimos. Sem subsídio de alimentação, naturalmente. :)

Ilusões de grandeza...


Um almoço com três madeirenses pode ser muito complicado - principalmente quando grande parte do seu futuro continua ligado à sua ilha, o que significa, no caso da Madeira, um alinhamento pela cartilha de Alberto João, mais ou menos subconsciente.
Isto é um dado adquirido: ser opositor de Alberto João, para um madeirense, implica a ausência de futuro - ou a emigração.

Para dizer a verdade, já não me recordo de como a conversa foi para esse campo, mas, de repente, estávamos a falar dos miúdos que foram afastados das zonas turísticas madeirenses por andarem a pedir esmola. Bastou mencionar tal coisa para me acusarem de não saber o que estava a dizer e que até parecia que tinham enfiado os miúdos num campo de concentração! Sorrindo, admiti nunca ter estado na Madeira e, como tal, não ter testemunhado o processo de "limpeza", mas o certo é que não obtive esclarecimentos quanto ao método realmente empregue para conseguir tal façanha. Será que pediram às crianças, delicadamente, para deixarem de pedir esmola e ir para casa? Não sabiam. Ainda procurei fazer humor e afirmei estar plenamente convencido que se Alberto João fosse presidente da Câmara Municipal do Porto teríamos o problema dos "arrumadores" resolvido há anos, mas já não havia vontade de rir naquela mesa.

Como a questão dos miúdos se tornou insustentável, voltaram-se para os pais deles, "os tóxicodependentes de Câmara de Lobos". "Eles é que são os culpados!" - afirmaram - "Deviam era tirar-lhes os filhos!" - mas não explicaram o que fariam com os pais, depois disso feito, nem tão pouco o que aconteceria aos filhos. Foi então que tudo descambou! Que o Alberto João tinha transformado a Madeira num paraíso e que se fosse primeiro ministro resolvia os problemas todos em três tempos (!!!); que o dinheiro enviado pelo Estado não tinha importância quase nenhuma, porque o PIB da Madeira é tão grande que já nem podem receber subsídios da UE; que, claro, "a República" os tratou muito mal... Coitados. Perante tamanha demonstração de orgulho insular e solidariedade com o seu Governo regional, restou-me perguntar quanto haviam pago pela passagem aérea que os trouxe da Madeira para o Continente e se sabiam (ao menos) quanto eu pagaria pela mesma. Realmente, "a República" trata muito mal os madeirenses; como quando acumula as bolsas de estudo às que já recebem da Madeira, por exemplo.

"Alto lá!" - indignaram-se - "Vocês ganham mais que nós! As ajudas são justas!" Mas, afinal, em que ficamos? Precisam ou não de ajuda? Então o PIB madeirense não é superior à média nacional, com excepção de Lisboa e Vale do Tejo? Não "produzem mais que os continentais", os madeirenses?
Ah, o complexo da insularidade; o isolamento involuntário; a necessidade de "vir ao Continente"... É um facto. Já estive no meio do Atlântico e não gostaria de viver numa ilha. Estar condicionado pelo oceano; não poder sair e fazer quilómetros a sério, respirar outro ar, ouvir outra língua... Eu amo o mar e não conseguiria viver longe dele, mas não me agradaria nada ser seu refém.
Compreendo e aceito os benefícios da insularidade em termos de ajudas concedidas pelo Continente para diminuir essa realidade, mas que não me venham com histórias de PIB's e de como "a República" os maltratou (não percebi o tempo verbal - então agora são bem tratados?).

Felizmente, chegou a conta e a conversa mudou de rumo. É que estava mesmo a ponto de perguntar aos meus caros interlocutores quem eles achavam que contribuía mais para o aumento brutal do PIB da Madeira: se eles e os seus ordenados, impostos e produtividade, se um colombiano que use a ilha como plataforma para mover os seus tostõezitos livres de impostos, "AJ style".

Continuo, solenemente, "na minha".
É dar-lhes a independência. Já! (*)

nota:
No próximo almoço é melhor restringir a conversa ao estado do tempo. Em Portugal continental, claro...

(*) entrada "A bosta da III República", n'A Sombra.

(don't just) Blame Canada...


França, Alemanha, Rússia e Canadá Excluídos de Contratos no Iraque

Os EUA Divulgaram Ontem Uma Lista de 63 Países Autorizados a Concorrer a Contratos para a Reconstrução do Iraque com a Verba Recentemente Aprovada pelo Congresso, e Que Exclui Os Que Se Opuseram à Guerra, Nomeadamente a França, a Alemanha, a Rússia e o Canadá. Portugal Está Entre Os 63 Autorizados a Competir. Ao Fim do Dia, a Casa Branca Veio Anunciar Que para Os Excluídos "as Circunstâncias Podem Mudar Se Se Juntarem ao Esforço" Norte-americano no Iraque.

(in Público on line, 2003/12/11)

Sem comentários.

Ver notícia completa aqui.

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Tigerland


Verifiquei com satisfação que o Miguel está de volta "a casa".
Como amante dos felinos (guardião de uma e padrinho de mais uns trinta de ambos os sexos...) não podia deixar de fazer notar o regresso à actividade d'A Origem do Amor em grande estilo ("Eu e o Tigre")!

There's (really) no place like home...

Um abraço ao amigo "Migalhas". Bem vindo de volta!

terça-feira, dezembro 09, 2003

As pérolas do Adriático...


"Homens e nações agirão racionalmente apenas quando esgotarem todas as outras possibilidades."

Franjo Tudjman
The Impasses of Historical Reality - 1989

(Franjo Tudjman foi eleito presidente da Croácia em 1990 e seria reconduzido no cargo por mais dois mandatos, afastando-se no terceiro por motivos de saúde em 1999, vindo a falecer semanas depois - curiosa frase para um revisionista)

nota:
Esta citação não pretende, de modo algum, ilustrar a nossa opinião da entrada anterior ("Paradoxos"), mas calhou bem.
É que Franjo Tudjman ficou também notório pela publicação de Wastelands of History (1988), em que proclamava que Sérvios e Judeus haviam inflaccionado os números das vítimas da Segunda Guerra Mundial, desvalorizando o Holocausto. Trata-se, de facto, de um só livro: "Bespuca povjesne zbilje", título que tem sido traduzido de diversas maneiras, desde Wastelands of History a The Impasses of Historical Reality, passando por The Impasse of Historical Veracity, variando as datas apontadas como de publicação entre 1988 e 1989.
Pode ler-se algo mais sobre esta "pérola" do Adriático em Balkania.net, na rúbrica "Tudjman and the Genocide Apology", um excerto de "The New World Order And Yugoslavia", de Gerard Baudson.

nota2:
Aos mais curiosos, recomendo "Yugoslavia's Bloody Collapse - Causes, Course and Consequences" (edição de 1995), de Christopher Bennett (Hurst & Co. Publishers, Ltd - London; ou University Press - NY), de onde extraí a citação que abre esta entrada.

Paradoxos


Acabo de verificar que na ordenação dos seus blog links, o Descrédito nos cataloga na "esquerda"; não sei se tal se ficou a dever ao Pedro ou ao Mário, mas trata-se de mais uma tentativa de rotulação d'A Sombra que, normal e naturalmente, agradecemos e rejeitamos. Não, não somos de "esquerda" (sim, já sabem: "seja lá o que isso for"...).

Se o Pedro e o Mário assim o entenderem, lá ficaremos nós com a etiqueta naquele blog, mas se nos derem algum crédito, como parte interessada, e uma vez que a categoria "Paradoxal" não existe no Descrédito, ao menos que nos coloquem sob "Hetorodoxia", onde nos encontraremos mais à vontade.

Para o Descrédito, o nosso crédito habitual.
Um abraço,

Pel'A Sombra,
RS

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Words indeed...


While I sit here trying to think of things to say
Someone lies bleeding in a field somewhere
So it would seem we've still got a long long way to go
I've seen all I wanna see today...


(Phill Collins . Long long way to go . No Jacket Required)

Olá João,

Compreendo a razão de ser da tua crítica inicial. Raramente recorro ao cinismo como "figura de estilo" e o que escrevi na entrada "Cauchemar" era cínico a valer e não apenas "figurativo". Era uma resposta ao cinismo dos que aplaudiram a iniciativa de Genebra e só podia ser dada na mesma moeda.

Estou cansado destes eventos, João; não pelo que pretendem, mas pelo modo como são encarados e pelos resultados que produzem. Se analisarmos bem a proposta de Genebra, verificaremos que é tirada quase a papel químico de Camp David (como bem faz notar a revista The Economist desta semana) - e todos sabemos como terminou Camp David.
Sei que os responsáveis que de facto contam nesta matéria se estão a marimbar para Camp David e para Genebra. A democracia converteu-se nesta miséria; o chavão "todos têm direito a expressar a sua opinião" e o pensamento que sempre o acompanha ("mas estamos a borrifar-nos para isso") tem dominado toda e qualquer forma de fazer política, das propinas às pescas - no plano nacional, do Iraque a Kyoto - internacionalmente. Israel e a Palestina não são excepções.

Desde a leitura das tuas primeiras palavras sobre o Oriente Médio que percebi estarmos de acordo "no essencial", como dizes. Talvez até mais que isso. Do que escreveste em "Words, not deeds." fazem-se os meus sonhos - e os de muitos que pretendem uma paz verdadeira entre israelitas e palestinianos.
Logo à cabeça, um só Estado laico que agregue os dois povos como um único. O maior e mais belo de todos os sonhos; a exclusão do factor "Deus" (claro que pelo menos 55.000 portugueses não sonham com nada disso, mas ao menos são só 55.000... o que ainda é de mais para o meu gosto).
Depois, o aviso balcânico. A ex-Jugoslávia devia ser um "case study" para demonstrar ao mundo como não se deve proceder a uma reorganização geopolítica - entenda-se: do preço a pagar quando se mexe no que deve estar quieto.

Quanto ao que chamas (e muito bem) de "injustiças históricas", costumo dizer que só passarei a usar o Kuffiyeh por motivos puramente estéticos quando Israel cumprir as resoluções da ONU que o levarão às fronteiras de 1967 e desmantelarão os colonatos, mas o ideal seria mesmo o regresso a 1947 sem os ingleses.

Quanto aos "actos" que exigi no lugar das palavras, em "Deeds not words", na entrada "Cinismos", referia-me às direcções políticas "de topo", como lhes chamas, mas não só. Enquanto as soluções para este problema (e tantos outros) forem apenas apresentadas em forums, cimeiras e congressos não oficiais de intelectuais e "afins", tudo permanecerá na mesma.
É na rua que se forçam as direcções políticas a tomar uma atitude concreta. E nas urnas, naturalmente.

Não tenho tido muito tempo livre para me dedicar a um projecto que abracei este ano e que já aqui referi (ver entrada "Paz", n'A Sombra), mas tenciono aproveitar a semana entre o Natal e o Ano Novo para o retomar. O projecto global está no site da Global Campaign to Rebuild Palestinian Homes (GCRPH), que se encontra direccionado em permanência, n'A Sombra, em Links Geral, à direita.

Mais que o apoio internacional, é apenas isto que é necessário incentivar: palestinianos e israelitas a trabalhar juntos, no terreno, pela paz. Quanto a mim, essa será a última esperança para a Palestina e para Israel.
Por esse motivo, este Natal, vou agir, não apenas escrever. Porque as palavras devem conduzir aos actos e desde há muito que não é assim.

Um forte abraço,

Rui


nota:
Obrigado pela dica sobre o interessante ponto de vista do Rui Tavares. Vale a pena reflectir sobre as suas palavras.

nota2:
Já há muito tempo que não se regista uma entrada nova na nossa lista permanente de Blog Links, nesta página (os blogs que nos mencionam ou a que fazemos referência têm presença assegurada na página de Blog Links completos d'A Sombra, que tento manter o mais actualizada possível, ajudado pelo Technorati).
Pois o Castelo de Cartas, pelo seu valor, como todos os que lá se encontram, passa a estar direccionado em permanência nos nossos Blog Links permanentes.
Words indeed, João. Words indeed...