sábado, janeiro 28, 2006

Requiem, mas não só...

Um dia depois do dia em que se comemoraram os 250 anos do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart, a prova da existência de Deus (para os mais cépticos), aqui fica uma versão do Requiem, acompanhada de um Dhikr e da canção Golgotha, extraído ainda de Mozart in Egypt.

"Durante uma cerimónia Dhikr, os participantes repetem o nome de Allah usando um sistema de respiração hipnótico que os coloca numa espécie de transe, enquanto o Sheikh declama um poema que pode ser sagrado ou profano. Neste caso, é a canção da paz, que o Sheikh, inspirado pelas primeiras linhas de Mozart, continua numa improvisação vertiginosa, até à entrada do coro do Requiem. O solo da jovem rapariga búlgara, Vanina (10 anos de idade), é respondido pela canção copta da pequena Mónica (8 anos de idade). A tradição copta preservou as canções faraónicas. Esta melodia, dizem-nos, é a que acompanhava o processo de mumificação. É agora cantada a cada Sexta-feira Santa, e o texto reproduz as últimas palavras de Cristo aos dois ladrões."

(da descrição do tema em Mozart in Egypt, Virgin Classics, 1997)

Este tema é dedicado à Joana e ao António Baeta.
A sua duração é de 11 minutos, pelo que se exige um pouco de paciência em horas de ponta!



Dhikr/Requiem/Golgotha (Mozart, Trad. e arr. Teg, H. de Courson, N. Dalil) - Mozart in Egypt

Now what?...









Miúdos "apoiantes" do Hamas.
Gaza, Janeiro de 2006.



As reacções externas ao mundo árabe à maioria conquistada pelo Hamas nas urnas dividem-se em vários níveis, sendo todos eles, porém, gradações do mesmo sentimento: a inquietação.
Enquanto a UE manifesta "preocupação", os EUA avisam que não estão dispostos a "abrir o diálogo com terroristas" e, em Israel, há quem apele ao assassínio selectivo de "todos os membros do Hamas eleitos" (nada menos que 76).

Estas são diferentes fases da mesma ignorância relativamente à realidade árabe. Quem sempre afirmou que a democracia seria fundamental para que se estabelecessem pontes com o mundo árabe vem agora chorar sobre os resultados dessa democracia.
De facto, os europeus e os norte-americanos nunca pretenderam que os países árabes fossem democráticos, mas que fossem estáveis. Para um leitor de jornais em Lisboa, Moscovo ou Los Angeles, essa estabilidade traduz-se em democracia, no conjunto de valores que, nas nossas sociedades laicas e ocidentais, garantem a vida que conhecemos, no seu quotidiano relativamente tranquilo e no desenvolvimento que sustenta. Adaptar isto ao mundo árabe não é um erro. O que é um erro é esperar que o resultado seja o que esperamos. O erro, aliás, começa logo no "esperar" um resultado qualquer.

A democracia é o resultado de si mesma. Pretender com ela atingir outra coisa que o atingido pelos votos de quem a faz é querer algo que nada tem a ver com as nobres intenções de "levar a liberdade" aos "pobres árabes", seja no Iraque, no Afeganistão ou na Palestina.

O voto árabe não mudará tão cedo no sentido de uma estabilização como nós a vemos, isto é, na essência, no estabelecimento de relações diplomáticas com todo o mundo, incluindo os EUA e... Israel. Na Palestina, de todos os locais, é onde essa "normalização" custará mais a acontecer. Sobre os motivos que fazem com que assim seja já quase tudo se disse, mas nunca é demais sugerir uma boa fonte como introdução ao olhar ocidental e, especialmente, norte-americano ao desenvolvimento do Estado de Israel e, paralelamente, ao da Palestina, enquanto nação.

Sugiro, portanto, "Perceptions of Palestine", de Kathleen Christison, ex-analista da CIA, uma obra que analisa friamente a atitude dos EUA face aos palestinianos, de Woodrow Wilson a Bill Clinton (University of California Press, 2001 - paperback), incluindo as relações israelo-palestinianas durante o mesmo período.

Quanto ao Hamas, a sua vitória ilustrará, como escreveu Marc Semo no Libération (reproduzido no Público de ontem), como a questão é hoje a de islamizar a modernidade e já não de modernizar o islão; isto é, a bola está do lado de lá. E quanto à Europa e aos EUA, quanto mais depressa perceberem que não é possível esperar nada de um mundo árabe democrático a não ser o resultado de eleições livres, mais rápido compreenderão que a velha forma de "estabilizar" o mundo árabe não encontrará nunca a correspondência que desejavam na democratização do mesmo. E nem "dando uma mãozinha" para "ajudar" ao processo se conseguirá outra coisa que a radicalização de cada vez maiores grupos políticos, outrora minoritários ou clandestinos.

Veremos como os EUA e a UE descalçam esta bota.
Sem tirar os olhos de Telavive e de Gaza, naturalmente.

Rui Semblano

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Weapon of choice



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Já devem conhecer, mas podem rever.
Se não conhecem, melhor!

Ladies & Gentlemen,
Mr. Christopher Walken. :)
Have a nice weekend.

8 PARA VER, USE ESTE LINK!

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Backtracking n. 2/06

Comentário deixado no Blasfémias a uma entrada de jcd,
intitulada Hamas:

(quote)
diabinho: Anda lá! Dá-lhes!
anjinho: Calma.
diabinho: Calma o c**a**o! Então?
anjinho: Mantenhamos o nível.
diabinho: F***-s*! Escreve!
anjinho: Bem... Assim não.
diabinho para o anjinho:
Cala-te de uma vez, f*l** d* *u...
BOOOOM!!!!!

O anjinho repondeu preventivamente com um míssil ar-terra.
Ok. Não digo nada.
(unquote)

Com anjinhos apaches não se discute. ;)

There is a god...



Amadeus...


Wolfgang Amadeus Mozart - As Bodas de Fígaro (abertura) - Royal Philharmonic / Jane Glover

Nota: O Local & Blogal não costuma falhar estas efemérides. A ouvir!

Onze


The Fog Of War
Eleven Lessons From The Life Of
Robert S Mcnamara

An Errol Morris Documentary
2003

Music by Philip Glass



Lição n. 01 - Criar uma empatia com o inimigo
Lição n. 02 - A racionalidade não nos salvará
Lição n. 03 - Existe algo mais para além de nós
Lição n. 04 - Maximizar a eficiência
Lição n. 05 - A proporcionalidade deveria ser uma das leis da guerra
Lição n. 06 - Obter as informações
Lição n. 07 - Impressões e observações estão muitas vezes erradas
Lição n. 08 - Estar preparado para reexaminar raciocínios
Lição n. 09 - Para fazer o bem, pode ser necessário fazer o mal
Lição n. 10 - Nunca dizer nunca
Lição n. 11 - A natureza humana é imutável

Foi sob a janela do escritório deste homem que um cidadão norte-americano se imolou com a filha ao colo, em protesto contra a guerra do Vietname. A criança foi salva.
A sua relação com JFK e LBJ são mostradas a frio. As suas palavras valem mais se o olharmos nos olhos, enquanto as diz. Os olhos não mentem.
E só para o ouvir admitir que ele e muitos outros estariam sentados no banco dos réus para responder por crimes de guerra, caso os EUA tivessem sido derrotados na Segunda Guerra Mundial, vale a pena ver este documentário. Mas todo ele é um documento, na mais pertinente acepção do termo.
A não perder.

Nota:
A música deste documentário foi composta por Philip Glass, num registo que já tinha usado para Koyaanisqatsi.
A fotografia é excelente e o estilo irrepreensível.

Nota 2:
Se não sabe como obter este documentário, use o nosso e-mail. Our pleasure. :)

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One is much much worse than two...

Depois das duas últimas entradas, claro que a disposição tinha de mudar. Até o Blogger parece ter ficado afectado!... E prometo tentar não acusar mais o Fabien de esoterismo. É no que dá.



Aimee Mann - One - Magnolia Soundtrack

nota:
O tema escolhido por Fabien para ilustrar o Sonho Recorrente (entrada anterior)
é da banda sonora de "The Last Samurai", composto por Hans Zimmer.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Recurrent Dream...






A way of life







Era a incredulidade nos olhos da Criança. E ela disse:
- Passei mil infernos neste forno esquecido por Deus para que tu pudesses ser. E agora regressas... E tudo me parece ter sido em vão.
- Regressei por ti, meu amor.
Ela riu, entre as lágrimas que se tornavam em sulcos de luz no seu rosto coberto de cinza, sangue e terra, e cerrou os dentes, olhando-me fulminante.
- Maldito. Maldito sejas...
Uma flecha rasgou os céus, elegante, leve... Cravou-se abaixo do peitoral de aço da Criança, com um ruído surdo, ensurdecedor. Ela baixou a cabeça, deixando a No-Dachi tocar o solo com a sua ponta, ao mesmo tempo que procurava o meu ombro. Amparei-a. O seu nome morreu na minha garganta...
Ela voltou a cabeça para mim, devagar. Não havia nos seus olhos outra dor que a minha... Senti uma gota de água a desprender-se das minhas pestanas. Caiu, inevitável, sobre a armadura dela.
E perdeu-se.
O silêncio de todos aqueles sons era brutal. Os cascos dos cavalos no solo negro e vermelho; o ferro contra o couro; os urros animais dos danados que voltavam; o silvo das setas... E aqueles sóis. A luz daqueles sóis que julgava esquecida...
- Que estás a fazer?... - perguntou-me, num suspiro.
- O nosso tempo acabou.
Um sorriso nasceu nos seus lábios. Falara no plural.
- O quê?
- Não há lugar para nós.
A Criança ficou séria, fechando os olhos, largando com isso mais algumas lágrimas. Então, sentiu a ponta de aço serrilhado dentro de si. Olhamos os cavaleiros do Nada que se aproximavam; sólidos; determinados. Era a hora.
Endireitando-se, apoiada em mim, ela ergueu a cabeça, majestosa, os cabelos negros ao vento norte.
- O que podíamos ter sido... - começou.
- Fomos tudo.
Ela soluçou. Não podia quebrar. Não naquele momento. Olhou-me nos olhos.
- Fomos tanto. Mas...
- Nada resta, minha querida. Somos uma memória perdida no fundo de um saco que ninguém sabe onde está. Tu e eu somos só tu e eu. Mais nada.
- Mas havia tudo!
- Havia tanto... Agora nada. Apenas tu.
- E tu...
Com um movimento da cabeça, concordei, desviando o olhar para o horizonte vermelho.
- E os nossos demónios. - completei.
Erguemos as nossas lâminas pela última vez, a pé firme. Os cavalos estavam em cima de nós. Víamos os olhos dos nossos medos.
- Fabien...
Não respondi.
Enfim... Um pouco de paz.


Porque a um sonho, com um sonho se paga... E as memórias são já tantas.

FJ

Fantasconto 1998 . The Smoker


Fantasporto 1998
Inspirado em
Alien Ressurrection

Carlos Alberto
23 de Fevereiro de 1998
primeiro fantasconto




Os restos de vários sonhos ganham uma dimensão estranha, mal se acende a luz da mesa de cabeceira. Suava copiosamente, ainda. Afastou a roupa da cama e sentou-se, apoiando a cabeça entre as mãos.
Havia uma antiga namorada que regressava, apesar da mãe. Havia um rosto novo e uma voz reconfortante. Restava uma sensação insuportável, não havendo uma memória precisa dos detalhes, como quando se regressa de umas férias bem passadas e se retoma a realidade do quotidiano.
Maquinalmente, estendeu o braço, agarrando o maço de Luckies. Vazio.
- Fuck...

No relógio, eram quatro e dez da manhã. Vestiu-se. Ao apertar os cordões das botas olhou para a Smith & Wesson automática, sobre a cómoda. Levantou-se e pegou nela, verificando se estava carregada e abrindo ligeiramente a câmara. Perfeito. Ao enfiá-la nas calças, junto às costas, o polegar sentiu a posição da segurança. Ajeitou a camisola de lã, agarrou o casaco e apagou a luz, saindo do quarto. Momentos depois estava na rua.

Não havia luar, mas o céu estava limpo. Frio. Voltou os olhos para o fim da rua, levantando o colarinho do casaco de couro negro. Ninguém. Havia uma estação de serviço perto que tinha uma máquina de tabaco. Não ter um cigarro para fumar enquanto se dirigia até lá era enervante. Fez a distância que o separava da bomba de gasolina em passo acelerado. Não era bem a estação que recordava, estava algo mais limpa, mas estava lá. A máquina de tabaco também.

Ignorando o gasolineiro, enfiado no seu aquário a ver as televendas, dirigiu-se a ela, enfiando os dedos no bolso das moedas das 501. Faltava dinheiro. Puxou da carteira e foi até ao guichet do aquário. Havia um aviso. "Vidro à prova de bala".
- Boa noite. - saudou.
- Boa noite...
- Pode trocar-me dinheiro para a máquina de tabaco, por favor?
- Não tenho.
- Como não tem?
- Lamento.
- Escute, a próxima bomba de gasolina aberta a esta hora fica a cinco quilómetros daqui. Veja lá se não tem moedas.
- Já lhe disse. - ignorou-o o homem, sem tirar os olhos do pequeno televisor.

Guardou a carteira. Talvez se alguém viesse meter gasolina pudesse trocar o dinheiro que precisava. Voltou a olhar o homenzinho do outro lado do vidro.
- Por acaso não tem um cigarro?
- Não fumo. - replicou o gasolineiro, indiferente.
- Não fuma... - murmurou, olhando a avenida deserta. Então, um ruído familiar aproximou-se. Era um A4 que descia a avenida. Fez pisca na direcção do posto de gasolina e entrou, parando junto das bombas. O homenzinho saiu do aquário, talvez por verificar a natureza do condutor recém-chegado, dirigindo-se ao Audi. O fumador acompanhou-o. Antes que se aproximassem, a porta do automóvel abriu-se e uma morena de feições duras e uma beleza fora do comum ficou frente a eles. O depósito já estava aberto.
- Cheio, por favor.
O gasolineiro foi cumprir a sua obrigação e o fumador acercou-se da jovem exótica.
- Winona, por acaso não me trocas quinhentos paus?...
Ela mostrou o cartãozinho verde que tinha na mão, sorrindo friamente.
- Só o Amex. Lamento.
- Por acaso...
- Não fumo. - interrompeu ela, adivinhando o pedido.
- Não fuma... - murmurou, olhando a avenida.
Entretanto, o gasolineiro terminou de encher o depósito e chamou a mulher para ir ao terminal dos cartões. O fumador olhou para o interior do A4. As chaves estavam na ignição. Uma voz dura arrancou-o dos seus pensamentos.
- Nem penses, menino.

Olhou na direcção dela. Winona apontava-lhe uma ZW20 automática, uma arma pessoal de tiro rápido e munições perfurantes antiblindagem que é o armamento padrão dos andróides daquela série.
- OK, código, OK... - disse o gasolineiro, como que anestesiado, os olhos colados na arma e a consola ATM esticada; e acrescentou: - Menina?
Ela continuava com os olhos postos no fumador, alinhado com a mira da ZW20. Ele teve um movimento descontraído, voltando a olhar para as chaves e levando as mãos à cintura. Quando baixou os braços, a 45 automática apareceu-lhe na mão direita, e apontou-a na direcção da andróide.
Era bom. Foi muito rápido.
- Oh, estou a pensar nisso, sim. - retorquiu então.

Era um impasse. Ficaram assim uns segundos. Ele sorriu.
- A próxima bomba fica a cinco quilómetros. Não me estou a ver a fazer dez klicks a pé com este grizo, metade dos quais sem tabaco... Agora, nesta beleza, podia ir e vir em cinco minutos.
- Já te disse. - repetiu ela, impassível - Nem penses.
- Suponho que uma boleia está fora de questão.
- Absolutamente fora de questão.
Ele levantou a Smith & Wesson, abrindo a mão, e continuou:
- E este calibre não te fará mais que um buraquinho...
- Estou a ver que tens ido ao cinema. - finalmente, um sorriso.
O fumador, aparentemente resignado, baixou o braço. Ela fez o mesmo, baixando também a sua arma. O gasolineiro suspirou de alívio, e repetiu:
- Menina? OK, código, OK.

Ela olhou-o e, nesse instante, o fumador apontou e disparou um só tiro.
Na mesma fracção de segundo, a andróide elevou a ZW20 na direcção do atirador, mas era demasiado tarde. O seu vestido ficara cheio de sangue. Vermelho sobre negro.
- Fuck me! - exclamou ela.
O fumador levantou os braços, sorridente.
- Noutra altura. - e colocou a 45 atrás das costas, enfiada nas Levi's.
Aproximando-se, ajoelhou junto ao gasolineiro que tremia de uma das pernas, estatelado no chão. Abriu a bolsa de dinheiro que ele trazia à cinta. Estava cheia de moedas.
- Eu sabia. Cabrão de merda.
Tirou a quantia exacta para o Lucky Strike, dirigiu-se à máquina de tabaco e comprou um maço, que abriu de imediato, colocando um cigarro na boca. Ao fazer estalar o Zippo, olhou Winona, a chama nos olhos. Continuava na mira dela.
- OK, duas vezes. Suponho que é a crédito, não? - disse, acendendo o cigarro.
Ela escondeu a arma na sua bolsa e apanhou a consola, meio pegajosa do sangue do infeliz gasolineiro. Fez o pagamento e deixou cair o aparelho sobre o cadáver. Depois olhou o fumador. A chama desaparecera.
- Essas coisas vão matar-te, um dia. - disse ela.
Ele teve um esgar de complacência.
- Possivelmente. - e acrescentou - Sorry about the dress.

Voltou-lhe as costas e regressou a casa, saboreando o cigarro, sem pressas.
Ao chegar à porta do prédio, atirou a beata para o chão; entrou e subiu até ao seu andar. Em casa, dirigiu-se ao seu quarto, colocou o maço de tabaco na mesa de cabeceira com o Zippo em cima, despiu-se e deixou-se cair na cama. Adormeceu de imediato, mas não por muito tempo.

Acordou. Acendeu a luz. Os restos dos sonhos ganham uma dimensão estranha quando se acende a luz, a meio da noite. Suava. Maquinalmente, estendeu a mão na direcção do maço de Luckies sobre a mesa de cabeceira. Agarrou-o. Nem um cigarro.
- Fuck...

Rui Semblano
The Smoker - Fantas 1998

Este é dedicado à Cat, no seguimento deste outro. Estava prometido. ;)

Nota post(erior):
O Picasa tem destas coisas. A imagem foi carregada às 20h de dia 25, mas a entrada completa só foi editada por volta da uma e meia de 26. Raramente altero uma data, mas esta tem de ser. ;)
Além disso, fiz umas alterações ligeiras no texto. Já não o lia desde 98 e parece-me melhor assim.

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quarta-feira, janeiro 25, 2006

Stretching...



Tenho a impressão que o Alan Parsons (79.7%) ainda vai ganhar ao Mcnamara (90.6%). Deve ser do nevoeiro... Já o Totoro (9.3%) está fora da corrida, encostado a uma árvore qualquer... Enfim.
Também nunca esperei de uma mula o andamento de uma égua.


Nota:
Sim, que o exclusivo das entradas esotéricas não é do Fabien.



Ilustração de Alberto Vargas (1940) Posted by Picasa

À mesa com...

Gostava de me poder sentar à mesa com
Mahatma Ghandi, Che Guevara e Adam Smith.

Talvez um dia me façam o gosto...

FJ

Vícios & Virtudes - Channel no. 5

Resta-nos o quê, quando tudo o resto falhou?
Quando deixamos de ter dinheiro para pagar o fundo de garantia que nos aumentaria um pouco a parca reforma?... Quando passamos do T2+1 para um quarto sem janelas, deixando de poder pagar o primeiro e mal tendo com que alugar o segundo?... Quando percebemos a quantidade de meias que deitámos ao lixo por uns borbotos e o estado em que estão as que restam?... Quando o único emprego que arranjamos, apesar de digno, não chega para satisfazer as necessidades mínimas, quanto mais fazer esquecer a formação que temos ou o que gostaríamos realmente de fazer?... Esperar um milagre?

Resta-nos o quê, quando nos estendem uma folha de papel que, uma vez assinada, nos vai enviar para longe, onde tudo será ainda pior, porque lhes seria demasiado caro dizerem-nos, simplesmente, "acabou"?... Quando somos forçados a tirar os filhos da escola ou do infantário, hipotecando o seu futuro a troco de nada?... Quando uma ida por mês ao mais paupérrimo dos minimercados para encher meio frigorífico é tudo o que conseguimos?... Quando os anos que passámos a trabalhar para alguém que deveria pensar no nosso futuro, como nós pensávamos no desse alguém, do qual dependíamos, se transformam em pó no fundo de um balão de vidro... Que nos resta, então?

Do alto da arrogante burra que conhecemos por Sabedoria, mas que tem outro nome, desviamos o olhar desses desgraçados, tão diferentes de nós que mal parecem merecedores de respirar o mesmo ar.
Às vezes, quando um deles tem a infelicidade de tocar as nossas vidas, a repulsa é de tal ordem que o nosso olhar, se pudesse, o transformaria ali mesmo num monte de cinzas, que o vento se encarregaria de fazer esquecer.
São gente menor, sem fibra, sem vontade e sem força. Dejectos. À razão pela qual o Governo permite que as suas imagens passem nos telejornais, de longe a longe, chamamos tolerância. Quanto à caridade, isso era no tempo da outra senhora; agora somos democratas, não temos pachorra para esses tiques reaccionários.

Se ao menos acabasse o rendimento mínimo... Se aquele preto do Bangladesh não se tivesse lembrado do microcrédito (e ainda lhe deram um Nobel, quando lhe deviam era ter dado um tiro!)... Isso não serve para nada. Só lhes permite arrastarem-se um pouco mais, enlameando os passeios por onde andamos.
Devia era haver um engano qualquer num daqueles laboratórios de garagem, a ver se ao menos os drogados iam todos de vela. Qualquer dia já nem podemos sair à rua...

Enfiaram-nos em condomínios fechados, é verdade, mas que podemos fazer? Viver na Baixa? Sem polícia que se veja? A mesma que é incapaz de espantar um simples arrumador? Não. E o Estado só empata, só empata... Talvez agora mude alguma coisa; um pouco de autoridade consegue prodígios, mas não nos entusiasmemos.
Seria preciso um milagre... Um murro na mesa; resolver o problema de uma vez por todas... Ou, pelo menos, arranjar um sítio qualquer onde enfiar essa gentinha. Longe.
De onde não viesse o cheiro.

Rui Semblano

(Perdoem-me o tom em que acaba esta trilogia, mas
estava farto de estatística, planeamento e filosofia...)



Leonard Cohen - Waiting for the miracle - The Essential Leonard Cohen

Outras entradas do mesmo grupo:

Introdução:
Safety first!
Trilogia Vícios & Virtudes:
1.
O Combústivel
2. Sociopatia
3. Channel no. 5

terça-feira, janeiro 24, 2006

Filosofando



"Quem nesta sala tem cartão de crédito?" (1)


Para concretizar a questão (tentando não a eternizar), tomemos o caso da Filosofia.
Se a razão de ser do ensino superior da filosofia é a manutenção do quadro docente das respectivas faculdades do Ensino Superior Público (ESP), está muito mal. Acredito que assim seja, infelizmente. Venho de uma faculdade onde se passa o mesmo em relação a algumas das suas cadeiras, mas adiante.

Que assim seja não significa que não devia existir o curso em causa, nem nada nos garante que o sector privado esteja mais apto a desenvolver o ensino do mesmo. Tendo em conta a saída profissional da Filosofia, o mais certo era que o sector privado nem lhe tocasse - por muito que outras áreas de ensino pudessem cobrir as despesas com este tipo de filantropia, ela nunca será objecto de outro interesse privado que a fuga aos impostos.

Que existam Universidades privadas que são consideradas o padrão máximo do ensino nas suas áreas é óptimo. O que é mau é que o Estado não tenha por princípio basilar a excelência em qualquer dos níveis de ensino que ministra.
Usar a constatação do facto mencionado acima para argumentar a favor do fim do ESP é que não colhe, pelo simples facto de ser o Ensino uma pedra de toque do Estado, na medida em que possibilita aos seus cidadãos o acesso a todas as áreas do conhecimento; todas, e não apenas as mais rentáveis, as de maior saída profissional ou as da moda.

Como todos os serviços prestados pelo Estado, na perspectiva do Estado Social, da Saúde à Defesa, da Energia à conservação do património e ambiente, o Ensino não depende de interesses individuais e destina-se ao benefício de todos. A forma como este serviço é prestado não é indiferente porque nenhum empresário no seu perfeito juízo permitirá ao Estado ou a quem quer que seja determinar a sua área de intervenção, o que, no entanto, é diferente da imposição das regras do jogo, mais conhecidas por "leis".

Como quase todos os sectores essenciais que referi, o Ensino, por si mesmo, não gera outra riqueza que a potencial, a ser concretizada individualmente pelos seus beneficiários em qualquer área que escolham, privada ou pública, no que se conhece por nível de vida (em todas as vertentes: cultural, económica, profissional, etc.). É um investimento verdadeiramente desinteressado do ponto de vista do lucro imediato.

Se estabelecermos um paralelo com o ambiente, é fácil perceber como é estúpida a assimilação dos valores empresariais privados pelo Estado; basta ver quanto tempo demoram a crescer um eucalipto, um pinheiro e uma oliveira ou um sobreiro.
Nas áreas de interesse público, apenas o Estado pode garantir a continuidade de um padrão elevado de serviço, pois a maioria delas não deve, nem pode, ter por objectivo a rentabilidade directa e, muito menos, imediata ou a curto prazo.

Por esta razão, a combinação dos sectores públicos e privados é essencial, mantendo em cada um dos campos o que lhe é devido. Como em tudo o mais, a promiscuidade entre sectores é nociva, a complementaridade é benéfica.
Resulta daqui, portanto, que não é uma questão de atribuição de tarefas, mas antes de execução das mesmas. E voltamos às pessoas, aos seus interesses e aos seus anseios. Por mim, nem gostaria de ter um Ferrari no meio do lixo, nem de possuir uma ilha paradisíaca à custa do entulho que deixei para trás. Mas ainda há muita gente que não se importa de viver à grande e à francesa no meio da miséria ou que, para iludir a sua consciência, consegue viver luxuosamente longe da pobreza que criou.

Chacun à son goût... comme à son mettier.

No seguimento das entradas:
Acquisto, ma non troppo!... e Universalidades

(1) Pergunta de um insigne docente da FBAUP aos alunos, numa aula de apresentação.

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Universalidades

Refraseando:

"(...) a diferença é entre quem pensa "que todos temos direito à oportunidade de ingressar no Ensino Superior Público" e quem pensa "que todos temos direito à oportunidade de ingressar no Ensino Superior". (...)"

Já n'A Sombra deixei expressa a minha opinião sobre o privado e o público no domínio do Ensino Superior. Nada como regressar ao passado, neste caso bem presente; esperemos nós que não um regresso ao futuro, embora a confusão de Bolonha não augure nada de bom...

Ver:

Índice deste tema, n'A Sombra:

1. Qual o Ensino Inferior? O público ou o privado?
2. CRUP - Opus Ensemble
2.a Anexo: Autonomia Universitária para que te quero!
3. Universidade e Emprego
nota. Considerações finais

Estas entradas sempre estiveram disponíveis através do link para a inicial, na coluna da direita, em algumas Sombras. Um eco de 2003, ainda actual. Pouco mudou, infelizmente.

Um cheirinho:

(...) No dia em que entendermos que entrar numa Universidade é, apenas, uma opção entre muitas começará a verdadeira reforma do Ensino em Portugal. Até lá, continuaremos a assistir às cínicas tentativas dos Governos, do CRUP, dos docentes universitários e dos estudantes em geral (que a febre começa no Secundário!) para tornar mais e mais acessível a entrada na Universidade aos filhos de todos os portugueses. Porque todos temos o direito e o dever de ser doutores. É neste processo que reside a história do triste Ensino Superior que temos hoje - público e privado.

A constatação deste facto, porém, não significa que a Universidade esteja condenada em Portugal. Claro que a média cultural dos discentes universitários é cada vez mais baixa; claro que bem para cima de metade dos docentes universitários o são por necessidade (a sobrevivência obriga) ou por dinheiro (que ainda é um aliciante, no sector público, onde a reforma é factor de peso). Mas esta junção incrível de ignorantes, necessitados e mercenários não pode ser o futuro da nossa Universidade.
É preciso depositar alguma esperança nos que entendem que o problema está longe de resolvido - alunos, professores, pais e governantes - e estão na disposição de tentar que o Ensino Superior público e privado retomem a dignidade e o crédito que perderam.

Uma e outra vez mais é preciso ser realista.
E exigir o impossível.

Rui Semblano
Setembro e Outubro de 2003

"Seamos realistas, exijamos lo impossible"
Ernesto Che Guevara (1928-1967)


Pronto. Agora vão lá ver o resto. ;)

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Acquisto, ma non troppo!...

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E-mail enviado por João Caetano Dias (Blasfémias), para A Sombra:

(quote)
"A diferença entre um ultraliberal, um liberal e um neoliberal é que o ultraliberal considera que todos temos direito ao Ensino Superior Público, o liberal pensa que todos temos direito à oportunidade de ingressar no Ensino Superior Público e o neoliberal pensa que o Ensino Superior Público não devia existir."

E o que é alguém que acha simplesmente que "todos temos direito ao Ensino Superior",
sem adjectivos à frente?

jcd
(unquote)

Caro jcd,

Antes de mais, bem vindo de novo a esta Sombra. Recordo bem o Jaquinzinhos e sou assíduo leitor do Blasfémias, o que já aqui referi.

Então os adjectivos.
Embora a pergunta seja pertinente, ela não se enquadra devidamente com a ideia que explorei na entrada a que se refere (Vícios & Virtudes - Sociopatia, 22Jan2006), isto por não ser o Ensino Superior um direito garantido. Aliás, acontece o mesmo com os Ferrari, passe o exagero comparativo, mas tendo em conta que a Universidade é o Ferrari do Ensino.

Não podemos generalizar o direito ao Ensino como abrangente de todos os seus graus. Seria natural, então, dizer-se que "todos têm direito ao doutoramento", por exemplo, ao terminar uma licenciatura. Como é evidente, o doutoramento é consequência do desempenho académico durante a licenciatura, logo, apenas o direito à oportunidade de acesso deve estar assegurado. Do mesmo modo, o acesso à Universidade é consequência do desempenho do estudante durante o Secundário, pelo que é errado considerá-lo um direito social. A Universidade, como os Ferrari, não é para todos, mas para quem consegue lá chegar por via do seu esforço individual. O que deve estar garantido é o direito de acesso à oportunidade, não excluindo ninguém por motivo algum.

Quanto a ter falado no Ensino Superior Público, em lugar de Ensino Superior tout court, é evidente que o fiz por ser o objecto desta trilogia, dedicada ao Estado Social. Além do mais, acho perfeitamente razoável que o acesso ao Ensino Superior Privado tenha filtros específicos, sejam eles quais forem; em minha casa, também, só entra quem eu quero.
Quanto a cursos apenas existentes no sector privado, poderia desenvolver o que acho ser sensato, mas não é esse o objectivo desta análise e, demais, o caso do Ensino foi um mero exemplo. Podia ter falado da Saúde, também.

Portanto, "alguém que acha simplesmente que "todos temos direito ao Ensino Superior", sem adjectivos à frente", será, quanto a mim, um simples demagogo.

Espero ter esclarecido.
Um abraço,

Rui Semblano

Sintonia/s

Não podia deixar de responder aqui à reflexão pós-eleitoral de António Baeta. Até porque a letra deste clássico do Jazz, da autoria de Johnny Burke, é deliciosa.



Sarah Vaughan - Misty - Sarah Vaughan's Finest Hour

Em sintonia com o instrumental do mesmo tema, por Bob Brookmeyer & Friends, a rodar no
Local & Blogal por esta altura. Um abraço ao amigo Baeta, em reflexão.

domingo, janeiro 22, 2006

Upside Down...

Na sequência da entrada anterior (e condizendo com o resultado das eleições de hoje para PR) a disposição d'A Sombra alterou-se. Again!... :)



Emir Kusturika & The No Smoking Band - Upside down - Unza Unza Time

Vícios & Virtudes - Sociopatia

Claro que o Estado Social tem defeitos mas, como os próprios neoliberais se fartam de dizer acerca da democracia, permanece o menos mau dos sistemas. É na sociedade tal como a concebemos, e não como é concebida pelos teóricos, que reside a razão de ser do Estado Social; isto é, a sociedade de que somos parte só funciona com um forte Estado Social.

Se existe algo que é indiscutível nesta sociedade, é o conjunto de valores liberais que se construiu ao longo do último século, quase todos de carácter individual, mas com reflexo imediato e incisivo nos valores do colectivo. E se lhes chamo liberais é porque o são e sempre foram. O neoliberalismo é tão parecido com o liberalismo como o nazismo era parecido com o socialismo. Por isso nunca o trato de outro modo e acho piada à quantidade de pessoas (e blogs, já agora) que se intitulam "liberais" quando, de facto, são retratos acabados do que o demi-monde tem de mais conservador.

Esses valores, ao contrário do que alguns nos querem fazer crer, não colidem com o Estado; aliás, enquanto caracterizadores da natureza do indivíduo, são mesmo os pilares em que o Estado assenta. Falo, entre muitos outros, de propriedade, de comunidade, de partilha, de necessidade, de poder, de equilíbrio. A este propósito (e nem de propósito!), Ralf Dahrendorf opinava sobre "desigualdade e descontentamento", no Público de ontem, 21 de Janeiro.
"(...) A exclusão social e o poder individualizado através da riqueza são sempre inaceitáveis. Mas, se queremos a liberdade, então as desigualdades sociais e económicas são um preço legítimo e necessário que temos de pagar por ela. (...)" - escreve Dahrendorf.

O que me parece aborrecer seriamente os neoliberais, como aliás me aborrece a mim profundamente, é a "igualdade" tão querida ao sector mais teimoso da "Esquerda". É certo que, como afirmam tão claramente os franceses como os norte-americanos, a igualdade de direitos e oportunidades é fundamental, mas partir daqui para a "tendência para a igualdade", em que "igualdade" é entendida no seu sentido lato, aplicada a tudo e todos, nem é inteligente nem faz sentido nenhum.

A diferença entre um ultraliberal, um liberal e um neoliberal é que o ultraliberal considera que todos temos direito ao Ensino Superior Público, o liberal pensa que todos temos direito à oportunidade de ingressar no Ensino Superior Público e o neoliberal pensa que o Ensino Superior Público não devia existir.
Ralf Dahrendorf, apesar de tudo, ainda considera que "(...) as desigualdades existem porque isso é um factor de esperança para muitos sobre aquilo que eles próprios podem conseguir com habilidade e com sorte - ou, talvez, apenas com sorte (...)", mas, quer para os ultra como para os neoliberais, a habilidade não é um factor (para nem falar da sorte, aliás uma ironia - espero eu - de Dahrendorf).

Enquanto que, para os ultraliberais, a inscrição na Universidade devia ser feita junto com o registo de nascimento, para os neoliberais a capacidade económica dos indivíduos é o factor determinante no acesso à mesma, enquanto demonstrativo da capacidade de integração e sucesso no seu esquema social (embora "social" seja aqui algo eufemisticamente hiperbólico...).
À conjugação dos interesses da parte com os do todo, e vice-versa, chama-se sociedade. Por este motivo, o Estado Social é feito de vícios e virtudes de privados. Nem Camões ousou projectar numa figura só todo um povo. Lenine tentou. Hitler e Stalin tentaram outra coisa.

Ainda hoje, há quem tenha novos e radicais sonhos de uma sociedade mais "evoluída", mas tudo o que desequilibre os pratos da balança, para qualquer dos lados, nada mais é que sociopatia. Quase nunca assumida, diga-se; de onde o tal esquecimento sistemático dos prefixos...
A ver se passa.

RS

Outras entradas do mesmo grupo:

Introdução:
Safety first!
Trilogia Vícios & Virtudes:
1. O Combústivel
2. Sociopatia
3. Channel no. 5

Ora então muito bom dia...

... agora levantem-se dessa cadeira,
ponham o computador em Standby e...

TOCA
A IR VOTAR!

É o que eu vou fazer. Até mais logo. ;)