sábado, julho 12, 2003

Dune, not a film by David Lynch

Ainda a propósito de Dune, desta vez, sim, o filme.

Dune era um projecto Francês, tendo como timoneiro Alexandro Jodorowsky, o argumentista e realizador chileno (El Topo, 1970 - Santa Sangre, 1989, este um êxito do Fantasporto), criador da série de Banda Desenhada "O Íncal", protagonizada por John Difool, em conjunto com Moebius (por sinal o meu desenhador favorito em BD). Moebius estava na equipa de Dune, assim como H. R. Giger, Foss e Dan O'Bannon, todos mestres da Ficção Científica. Mas não termina aqui!

Adivinhem quem interpretaria o papel de Imperador da Galáxia? Salvador Dali! (Dali pediu 100.000 dólares por hora como cachet - nos anos 70!!!) E a música original? Pink Floyd!! Esteve para ser composto um duplo álbum de nome "Dune", contendo a banda sonora do filme! Os Pink Floyd tinham acabado de gravar o eterno "Dark Side of the Moon". Um elenco de luxo.
O projecto iniciou-se em 1975, quando Jodorowsky leu o livro de Frank Herbert (Dune) e decidiu fazer o filme. Dino de Laurentis (e David Lynch) estavam longe da jogada. Muito longe. Então, o guião original e o storyboard começaram a circular em Hollywood... Ninguém sabe a origem da fuga. A partir daí, uma data de coisas correram mal e, em breve, os grandes estúdios tinham os direitos sobre a produção do filme, deixando Jodorowsky e a sua equipa de fora (embora recuperassem muitos deles; de facto, Moebius, Giger, Foss e O'Bannon estiveram todos envolvidos no "Allien" de Ridley Scott - vá-se lá saber porquê...).

O argumento de Jodorowsky era muito mais fiel ao livro de Herbert que o do filme que acabou por ser feito. Poderia ter sido um grande filme, a julgar por excertos do guião do Chileno. Se querem saber mais, existe um livro interessante, chamado "Les Mystéres de l'Incal", por Jean Annestay (Les Humanoids Associés - França) que disseca a série do Íncal (a odísseia de John Difool) e tem montes de material magnífico sobre Dune. Uma vez perdido este projecto, nasceu "O Íncal" - em que são usadas muitas das ideias dos storyboards originais de Dune, da autoria de Moebius, o artista que viria a desenhar todo o "Íncal". A este propósito, um facto curioso: o storyboard de Dune, de Jodorowsky e Moebius, é muito semelhante aos de Star Wars e Allien, só que desenhado... muito antes.
Bem vindos a Hollywood.

PREC


Está encontrada a solução para a recessão económica em que Portugal se encontra.
A anexação do Recebimento Especial por Conta ao Pagamento Especial por Conta (a sigla pode induzir em erro, apesar de se tratar de uma medida, realmente, revolucionária), que resulta no pacote PREC, muito diferente do actual pacote (salvo seja) de Manuela Ferreira Leite, a Dama de Pau (singular).
Este pacote tem o objectivo principal de fazer o País disparar para a linha da frente da Europa, mas, também, torná-lo capaz de ombrear com os EUA, se não mesmo ultrapassar a América. Consta de medidas de aplicação imediata, extremamente populares e simples de implementar, capazes de, não só proporcionar ao Governo uma melhoria do déficit para valores próximos do zero absoluto, como de restaurar os índices económicos de confiança, elevando-os para um patamar superior a qualquer dos países da CE.
Enumerar as múltiplas matizes deste pacote seria fastidioso, além de que, do ponto de vista técnico, não tendo eu formação académica em economia, não conseguiria defender uma dama tão sofisticada, mas, em linguagem de leigo nos mi(ni)stérios das finanças, trata-se mais ou menos disto:
A par de um aumento do horizonte do PEC para os três próximos anos fiscais, que se traduz no pagamento antecipado de três anos de imposto, é pago a cada contribuinte o equivalente a três anos de rendimentos. Isto traduz-se por um salto em frente até ao início de 2007, ultrapassando todos os parceiros comunitários.
Mas o melhor, é que se processa tudo isto como se a economia permanecesse em 2003, ou seja, os contribuintes recebem os seus rendimentos vindouros como se não os tivessem já recebido por conta, e pagarão os respectivos impostos na altura devida, pois três anos de PEC, para mais condensados, chegam e sobram para recuperar a normalidade (desde que Paulo Portas não se ponha a inventar com a Lockheed).
Não sei quem foi o idiota que se lembrou disto, mas mete o pacote de Manuela Ferreira Leite no bolso (o outro). Além disso, gosto da designação. A perversidade sempre me fascinou, mas não a da Dama de Pau. Essa é demasiado evidente.
Afinal, como ela diz, se um indivíduo que ganha 170 contos (é sempre uma delícia ouvir a ministra falar em escudos - tão refinadamente fora de moda...) pode ver 20 deles retidos na fonte, também as empresas o podem fazer. Um argumento de peso, peso esse em ouro, mais concretamente 13.000% mais de peso em ouro! Uma "génia", esta senhora. Mas o inventor deste novo PREC não lhe fica atrás.
Para os mais curiosos, podem procurar esta nova medida em: http://www.min-economia.pt/.

nota: Entrada reeditada na cidade dos Senhores do Templo de Jerusálem. De novo as minhas desculpas pela defeituosa edição anterior.

sexta-feira, julho 11, 2003

Desacordortográfico - A Guilda


"A guilda"? Porquê "A guilda"? Quando li este palavrão, pensei que fosse uma dessas revistas culturais, da classe "Gina" (as revistas culturais são como as corvetas, dividem-se em classes). Se fosse hoje, juraria que o vocábulo saíra da mente do Pipi, esse gigante da literatura do chavasco, para mais sabendo que o Pipi não esconde o Seven-Up (1) nem o Soft Sense (2).
Como diria JPP, - que, aliás, nunca poderia ser o Pipi, pois quem se levanta, manhã cedo, se olha no espelho e exclama "Je reviens, tel un parfum!..." não tem capacidade de autocrítica que permita uma flagelação como a exercida no Pipiblog - "apesar do contexto", apenas o meu inglês desenrascado permitiu identificar o neologismo como "Guild".
Lembro-me desta palavra de a ter lido a primeira vez, há muito, muito tempo atrás, no fabuloso Dune, de Frank Herbert (3), como identificando o grémio dos navegadores, "especiariódependentes". Olha! Aí está a palavra certa, afinal. Grémio.
Passemos às respectivas definições:

Guilda:
s.f. HISTÓRIA associação corporativa medieval, na Flandres
(do neerl. gilde, "corporação",
pelo lat. med. gilda-, "id.",
pelo fr. guilde, "id.")
in Dicionário de Língua Portuguesa 2004, p. 856, Porto Editora

Grémio:
s.m.
(1) grupo de entidades patronais que exploram ramos de comércio ou indústria mais ou menos afins;
(2) corporação; associação; assembleia;
(3) sede desse grupo (do lat. gremiu-, "regaço; seio")
in Dicionário de Língua Portuguesa 2004, p. 856, Porto Editora

Guild:
n. (used as sing. or pl.)
1 an association of people with similar interests or pursuits.
2 a medieval association of merchants or craftsmen.
in The New Penguin Compact English Dictionary, p. 391, Penguin;

e ainda,
Guild, gild, n. [O.E. gild, a payment, hence a society where payment was made for its protection and support, < gildan, to pay; D. gild, a guild.] In medieval times, an organization of merchants or artisans; an association of men having similar interests or engaged in the same business, often formed for mutual aid; ecol. a group of plants having specialized life patterns which make them in some degree parasitic or dependent upon other plants. —guild•ship, n.
(in The Portuguese Living Webster Encyclopedic Dictionary of the English Language, p. 430, Bertrand, The English Language Institute of America, Chicago, Illinois, 1974)

notas:
Na 4ª Edição, "muito corrigida e aumentada", do Dicionário de Português da Porto Editora (circa 1964), o termo "Guilda" nem aparece mencionado. Já "Grémio" via vertidos para o português corrente os seus significados em latim, "seio" e "regaço". (na obra citada, p. 755);
Na primeira edição da Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura Verbo (Lisboa, 1969), "Guilda" surge no mesmo sentido que o obtido no Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora de 2004, indo mais longe, naturalmente, e referindo a criação das hansas, etc.; o que, conjugado com a ausência da expressão no dicionário mencionado acima, de 1964, significa que "Guilda" é um termo enciclopédico, isto é, hoje em dia, usar o termo em linguagem corrente, equivale a chamar "Romança" a uma canção da Ágata (exceptuando a da Abelha Maia, mas ainda não era A Ágata).

Resumindo:
Fica demonstrado que a "Guilda", tal como hoje aparece em jornais, impressos e televisionados, não tem sentido. É mais um desses neologismos que parece ter surgido por geração espontânea, mas que, vindo do inglês (língua em que "grémio" é o seu significado principal e corrente), se trata de mais uma brasileirada aportuguesada. Como diria o Lula, "está na cara, cara!"

É sempre bom saber que, por exemplo, o canal National Geographic, na TV por cabo, verá a sua emissão em brasileiro passar a português, para Portugal, naturalmente, mas depois surgem estes abastardamentos da língua de Pessoa e, pessoalmente, fico triste.

Deixem a Guilda em paz e usem o bom velho grémio, que se isto - a junção do português com o brasileiro depois de este se ter tornado 50% brasingleiro - é o acordo ortográfico, então prefiro mesmo o desacordo ortográfico, ou, se preferirmos, um neologismo português de gema, o desacordortográfico.


(1) Vasco Graça Moura
(2) Eduardo Prado Coelho
(3) Eu escrevi "ler", não "ver", além disso, Lynch odeia Dune, o filme de Dino de Laurentis (não de Lynch, note-se!)

Click.

quinta-feira, julho 10, 2003

Lapiz Lazuli


Não se trata de uma referência geológica, antes um jogo de palavras.

--- início de transcrição ---

(...)
Pela censura. Um aspecto interessante de algumas reacções ao que escrevi sobre os incidentes com Berlusconi é a clara, evidente, quase explicita, sugerida vontade de censura. Aquilo que escrevi irritou muita gente que preferia que o incidente Berlusconi não fosse conhecido no contexto, mesmo quando eu nunca o justifiquei pelo contexto. Que bom que seria, que cómodo, se eu não tivesse escrito o que escrevi, ainda por cima citado pelo Público.

Há um aspecto sinistro de algum debate em Portugal que é a vontade de censura do outro. Não se trata de critica-lo, de discordar, de até irritar-se com o que ele diz, trata-se de ter uma vontade indisfarçável de que ele não fale, de que ele não possa falar. Há gente que muito mais do que irritar-se com o que eu digo, irrita-se por eu o poder dizer. Há muita gente, demasiada gente, que não gosta mesmo da liberdade, que se dá mal com a liberdade.
Posted 09:25 by JPP

(in Abrupto)

--- fim de transcrição ---



Caro José Pacheco Pereira,

Como lhe dou razão! Há por aí muito boa gente com uma tremenda nostalgia do lápis azul ou de coisas piores, mas permitir-me-á um curto e fino comentário: não me conto entre tal gente. De facto, acho positivo em extremo que opiniões como as suas encontrem porto de abrigo e entreposto em meios de comunicação da importância do Público. Veja o caso de outro José, o Manuel Fernandes, cuja prosa me deleita na forma como, tão eloquentemente, enche as entrelinhas, permitindo ler muito mais do que teve espaço para escrever e, com isso, tornando a sua opinião mais cristalina.
Já no seu caso, perdoar-me-á, o estilo (não empregarei o termo "escola", tão desagradável) é similar, mas as suas entrelinhas, José Pacheco Pereira! Que entrelinhas! São como um bom Yves Saint-Laurent ou um Dior. As notas de "entrada" parecem denunciar uma fragrância inferior, alcoolizada, volátil, mas depressa chega o "coração" e essa impressão passageira é desvanecida por um sinal sofisticado, de tom árido ou temperado, agreste ou doce, é impossível determiná-lo, mas é essa a sua beleza, o seu mistério, a sua elegância, e a essência permanece longo tempo, familiarmente agradável, embora se torne um pouco enjoativa, por vezes, tal o seu corpo, para se desvanecer em notas de "saída" leves e descontraídas, a recordar o êxtase anterior.
Adoro perfumes assim, mas só cheirá-los, pois a maior parte, se usados, deixa na roupa marcas indeléveis, difíceis de eliminar, mesmo se postos sobre a pele, como manda a regra, e não nos tecidos. Como já deve ter compreendido, da leitura deste humilde blog, não me agrada mudar de camisa, pelo que se torna complicado fazer mais que cheirar o seu "perfume".
Mas agrada-me que exista. A não existir, o seu e o de outros, como poderia eu preferir um diverso?

A franqueza, como a diversidade, é algo que muito prezo, por isso permitir-me-á dizer-lhe como não gosto da generalidade do que pensa, embora me consiga surpreender num ou noutro particular; não significando isto que chegue ao ponto de o desprezar ou, muito pior, menosprezar. De onde o subtítulo sob o link que direcciona os internautas para o Abrupto, à direita, sem ofensa, na página d'A Sombra.

Sempre muito atentamente, pel'A Sombra,

Rui Semblano

(e-mail enviado para jppereir@mail.telepac.pt)

quarta-feira, julho 09, 2003

Linces


(*) Entrada actualizada com texto referente a Lince II (no final)


Lince I - Do Lince Ibérico

Regista-se com agrado a anunciada tentativa de reprodução em cativeiro do lince ibérico. De acordo com o Público ("Espanha vai tentar reprodução do lince-ibérico em cativeiro", p30, 09Jul2003), o Parque Natural de Doñana contratou um biólogo especialista neste campo, o da reprodução de espécies ameaçadas em cativeiro, e espera conseguir o prodígio com três fêmeas e três machos do simpático e raro felino. Que esta iniciativa resulte e sirva de exemplo a Portugal; não aos seus biólogos, que muito fazem em condições inacreditáveis, mas aos seus governantes, que nos têm brindado com mimos de consciência ecológica e ambiental, como sucedeu no Alqueva há bem pouco tempo, zona que, aliás, se inclui no habitat do lince ibérico no nosso País. Espero que nenhum desses pobres animais tenha perecido na catástrofe, como sucedeu com inúmeros outros de outras espécies, aprisionados em ilhotas provocadas pelo enchimento da albufeira, condenadas a imergir... Apesar de não ser adepto da pena de morte, não encontro outra punição adequada para os imbecis responsáveis por este crime do que o seu abandono numa dessas ilhotas, amarrados de pés e mãos.

Lince II - Do Lynce

A lei de Autonomia Universitária sempre foi uma lei de "borracha", existindo para permitir às Faculdades atirar as responsabilidades para as Reitorias e estas para o Ministério e este para as Faculdades e... A propósito das alterações a esta lei, propostas pelo Governo, dois pontos de vista surgem no Público de hoje ("Reitor do Porto diz que lei da autonomia é 'uma manta de retalhos"', p30, 09Jul2003):
O primeiro vem desse mentiroso que dá pelo nome de José Novais Barbosa, reitor da UP, que afirma que a proposta foi "pescar" ideias ao CRUP (Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas), como se tal coisa fosse um crime, mas omite que alterações fulcrais foram inspiradas em ideias defendidas pelos estudantes, como a avaliação pedagógica dos docentes TAMBÉM pelos alunos (o "também" em destaque é para os mais distraídos e para os idiotas), realizada no quadro das competências dos Conselhos Pedagógicos (Jornal de Notícias, "O ensino em tribunal", por J. M. Paquete de Oliveira, 16Jun2001). Que um Reitor assuma o corporativismo docente, passaporte para mais um mandato (que saudades de Alberto Amaral!), não espanta.
O que nos leva ao segundo testemunho, o de Nuno Mendes, presidente da FAP (Federação Académica do Porto), que tem esta afirmação, ela sim, espantosa: "Isso (a avaliação pedagógica dos docentes TAMBÉM pelos alunos - este "também" é para ti, ó Nuno) só pode ser uma brincadeira de mau gosto. Os estudantes nunca pediram para avaliar os professores; o que sempre reivindicaram foi que (os professores) fossem formados pedagogicamente."
Que grande dirigente estudantil! Mais um que pensa que a Universidade apareceu quando ele lá entrou. Uma das principais questões que moveu a luta que travamos, no tempo em que eu era presidente da Associação de Estudantes da FBAUP (Belas Artes do Porto), foi a capacidade de avaliação pedagógica dos docentes pelos alunos, o que levou a processos contra alguns de nós em tribunais; processos que ganhamos, para espanto e terror dos defensores da mediocridade na docência, não só na FBAUP como em todas as Universidades de Portugal (Diário de Notícias, "Estudantes já podem julgar professores", 12Jun2001).
Mas isso era no tempo em que os dirigentes associativos estudantis ocupavam as escolas e tinham um judite em cada telemóvel e eram atirados para os tribunais, como arguidos em processos crime intimidatórios, pelos professores que eram obrigados a escolher e que os queimavam nas fogueiras dos exames, quanto mais não fosse por terem perdido os julgamentos.
Olha, Nuno, dedica-te mas é à Queima, que, isso sim, é que vale a pena. Pode ser que te venham a convidar para dirigente de um clube de futebol, às custas disso. Agora de política educativa, faz um favor aos estudantes da tua Academia: está mas é caladinho, que assim não envergonhas ninguém e, para mais, fazes um favor ao teu pai, coitado.

(*) actualização

Carta enviada ao jornal Público, por altura da decisão dos tribunais acima referida, que dava razão aos alunos no processo de difamação que lhes foi movido por alguns docentes da FBAUP:

Porto, 12 de Junho de 2001

A força da razão

Não acontece muitas vezes, neste País, mas desta vez aconteceu. Quatro anos depois, os Tribunais de Instrução Criminal e da Relação do Porto absolveram os estudantes das Belas Artes dessa cidade que três dos seus docentes haviam processado por difamação. O processo foi instaurado por se terem esses estudantes insurgido contra a fraca qualidade pedagógica desses professores, o que, como ficou demonstrado em ambas as instâncias, provaram cabalmente, não com meras afirmações suas, mas, pasme-se, graças a elementos factuais das cadeiras desses docentes fornecidos pela própria Faculdade de Belas Artes do Porto.
Ao Tribunal causou estranheza o facto de alunos se exporem daquela forma, denunciando docentes de que dependiam para concluir as suas licenciaturas... É de admirar, de facto, que neste País ainda exista alguma coragem e vontade de lutar, tão acostumado está ao "laissez faire". Como presidente da Associação de Estudantes das Belas Artes do Porto na altura em que este processo se iniciou, e por ter sofrido pessoalmente as consequências da exposição a que me submeti de vontade própria, não só no caso da avaliação pedagógica dos docentes como na de toda a FBAUP, no processo da Sindicância que o senhor Reitor da UP, Novais Barbosa, boicotou, regozijo-me com esta decisão dos tribunais e com as possibilidades que este precedente vem trazer à vida Académica e Social.
Saibam os actuais dirigentes estudantis aproveitar esta oportunidade única para melhorar o Ensino Universitário e saiba o Estado corresponder às exigências de quem, arriscando o seu futuro, clama por justiça.
Um Estado de Direito não pode fechar os olhos a esta situação, que é a de ter centenas de docentes sem qualidade a formar futuros licenciados. É a penhora do nosso futuro sem hipótese de resgate.
Uma jornalista, na FBAUP, perguntava, ingénua, se tinhamos conhecimento de casos de incapacidade pedagógica em outras faculdades... É caso para perguntar a essa senhora se ela frequentou o Ensino Superior neste País.
Da qualidade da docência na FBAUP, para finalizar, basta lembrar a afirmação generalizada dos professores dessa Escola relativamente a este processo:
"Os alunos não têm capacidade científica para avaliar da qualidade pedagógica dos docentes!" Lapidar!

Rui Semblano
ex-presidente da AEFBAUP
e do Grupo Autónomo de Trabalhadores-Estudantes da AEFBAUP
ex-membro discente dos Conselhos Directivo e Pedagógico da FBAUP
e da Assembleia de Representantes da FBAUP

Paz


Enviado por Elias Abu-Saba
(endereço omitido por se tratar de um e-mail pessoal)

--- iní­cio de transcrição ---

Peace is a state of mind.
It reaches those who believe
That the planet is for us to share,
Not holding it as mine
And you to exclude.

Peace is a heart full of hope
Caring for the little and the great,
For the white and the black,
Christian, Muslim or a Jew,
Or whatever a belief one does dare.

Peace, a candle shedding a flicker,
Turns the ocean of darkness into light.
Yea! Its work never stops or wanes
In the hearts of men and women
Seeking to speak and act as human.

Nay, I will say to the warrior.
Enough of your ways across the centuries.
Now let us begin in peace to say
"Con Arvore" bear fruit and sway.

Elias Abu-Saba

(I wrote this poem in response to your effort to dissiminate peace globally. You can publish it, read it to others considering as if it is yours. Once a poet writes a poem, the poem becomes a public domain.)



--- fim de transcrição ---


Um poema, uma vez escrito, deixa de pertencer ao poeta...
Talvez esta verdade me leve a publicar algumas das páginas que fui borrando de tinta, ao longo dos anos, mas não agora. Este poema é um excerto de um e-mail de um amigo, fora do contexto d'A Sombra, até aqui, pelo que me perdoarão não facultar o seu endereço.

O doutor Elias Abu-Saba é de origem Libanesa e reside nos EUA, onde, juntamente com a esposa, Mary Abu-Saba, participa na organização Global Campaign to Rebuild Palestinian Homes (GCRPH), para a reconstrução de casas palestinianas. Uma vez que me encontro a colaborar com eles, em breve afixarei elementos relativos a esta iniciativa, que se propõe reconstruir mil casas palestinianas, destruídas pelo exército de ocupação israelita.
A GCRPH trabalha em colaboração com israelitas e palestinianos envolvidos localmente neste esforço.

Aos interessados, aqui fica o contacto.
(a GCRPH encontra-se direccionada em permanência, n'A Sombra, em Links Geral como "GCRPH Rebuilding Homes")

Mary Bentley Abu-Saba, Ph. D.
Director of Outreach

Global Campaign to Rebuild Palestinian Homes
513 Willow Street
Alameda, CA 94501
510 748 9374


info@rebuildinghomes.org

Pena suspensa

Como suspeitava, a ausência dos comentários no Blog de Esquerda era uma anomalia técnica. As minhas desculpas aos bloguistas, com a transcrição do meu último comentário.

--- início de citação ---

lido no Blog de Esquerda

DO SUCESSO INEQUÍVOCO DOS BLOGUES. É impressionante o número de pessoas a quem não disse onde ia passar férias e que me perguntam, com um ar cúmplice: «então e Paris?»
posted by José Mário at 14:59

o meu comentário:

Com ar cúmplice? Porquê cúmplice? E porquê perguntar ao Zé Mário "então e Paris?" se leram as suas crónicas completas? Era uma pergunta de retórica? Como esta? E onde estava a GNR quando o Zé perdeu os médios? E qual a velocidade média que fez a partir do momento em que os perdeu? Adoro este blog. Suscita imensas dúvidas.

Fabien

--- fim de citação ---


The power of blogs... Realmente, quem tem um blog tem tudo e quem não tem não tem nada.

Sorry, no comments.

Acabo de verificar que os comentários desapareceram no Blog de Esquerda... Logo agora que começava a aquecer e que fiquei a saber que o José Mário ficou sem médios ao regressar de Paris. Não há direito (nem canhoto!).

Deve ser uma anomalia técnica, penso eu. Então um blog de esquerda radical não permite a discussão interactiva e expontânea das ideias que nele são expressas? Hmmm... Será que a afirmação expressa d'A Sombra de ser um blog editorial afectou a canhotosfera?

De castigo, já não digo qual o comentário que ia publicar lá sobre o número impressionante de pessoas que o José Mário não conhece e lhe perguntam, com ar cúmplice: "então e Paris?". Mas podem crer que tinha piada.

terça-feira, julho 08, 2003

Mais cinefilia

O exemplo de Oskar Serti deveria ser seguido por Manoel de Oliveira.

Panorama

O Panorama, um miradouro das artes e das letras, é o recente suplemento do Miradouro; um "semanário independente defensor dos interesses dos Concelhos de Castelo de Paiva, Cinfães e Resende", como reza o rodapé das suas primeiras páginas, há quase quarenta e um anos.
Ironicamente, edita o novo suplemento dedicado às artes e às letras quando o Estado lhe retirou o porte pago (parcialmente), em vésperas de mais um aniversário, o que pode bem significar o fim de uma publicação regional de referência, na zona em que se insere, que serve ainda muitos assinantes residentes fora dos concelhos que representa, mas que deles são oriundos ou que a eles estão ligados por laços familiares, profissionais ou outros.

Como descendente das gentes de Cinfães, espero que o Miradouro não desapareça agora, soçobrando com a democracia depois de ter sobrevivido ao fascismo e à censura, como escreveu Manuel Cerveira Pinto, no editorial do número zero do Panorama. Espero, ainda, que o apelo de José da Cruz Santos, impresso na primeira página do último Miradouro, para a criação de um grupo de amigos e apoiantes do jornal que o ajudem a superar esta situação, dê frutos.
A Sombra solidariza-se com esta iniciativa do notável editor portuense e, ou não estivesse ligada ao Panorama, aqui protesta o seu apoio à mesma.

O Panorama está disponível na Internet em formato de blogarquivo, em www.panorama-miradouro.blogspot.com, e lá se encontrarão todas as suas edições, a começar pelo número zero, de Junho de 2003, único até esta data, dedicado à Palestina, e em que se pode ler, entre outros artigos, o apelo à ONU de Urbano Tavares Rodrigues, Óscar Lopes e José da Cruz Santos, que se pode subscrever no site via e-mail e que foi publicado no Panorama e em mais nenhum jornal, até agora.

Aqui fica o registo.

PS: O link para o blogarquivo do Panorama encontra-se, em permanência, neste blog, em Links Media.

Cinefilia

Já agora, para que não se gere um mito qualquer, tipo "A Sombra não é um blog da canhotosfera" ou "A Sombra é um blog da canhotosfera" ou "A Sombra embirra com o Blog de Esquerda", aqui fica uma pérola de Paris, encontrada no dito blog (fossem todos assim, em vez de nos elucidarem sobre "as mais compridas ruas de Paris"...).

--- início de transcrição ---

ESTÉTICA RADICAL. No café do cinema MK2 “Biblithèque”, em Paris, os tabuleiros têm um curioso papel, do tamanho de uma folha A4, onde se pode ver um rectângulo branco sobre fundo negro. Ao lado vêm este texto inacreditável:

«Au printemps 1937, Oskar Serti fut appelé à Hollywood par la Metro-Goldwyn-Mayer pour réaliser un film sur les amours passionés de Sandor Ferenczi (Miskolc, 1873 - ?, 1933).
Après trois années de travail intensif, Serti acheva son film, qui retraçait dans les moindres détails la vie mouvementée du célèbre pionnier hongrois de la psychanalyse.
Mais, lors de l’avant-première, les producteurs refusèrent de distribuer un film de plus de sept heures et sommèrent Oskar Serti de le réduire à un maximum de deux heures dix minutes.
Oskar Serti ne pouvait accepter de voir son œuvre ainsi amputé pour une simple question de minutage. Après le départ des producteurs, il resta seule en salle de projection pour visionner une dernière fois son film dans l’état où il l’avait conçu. Il en profita au passage pour photographier l’écran avec un appareil dont le temps de pose correspondait à la durée de son film. Après quoi, il détruisit toutes les copies existantes de son film.
Le lendemain, il laissa sur le bureau des producteurs un exemplaire de la photographie de son film, en leur signifiant qu’elle constituait le seul résumé valable de son oeuvre.
Patrick Corillon, Ferenczi, 1992, court. Galerie in SITU»

Depois de ler uma coisa destas, entra-se no cinema com outros olhos...
posted by Manuel at 16:39

(in Blog de Esquerda)

--- fim de transcrição ---


E, já agora, Fabien aceitou ser blogger d'A Sombra.
Já começava a ficar farto de editar as suas entradas.

Bienvenu, Fab.

PS: Mais fosse necessário para provar sermos um blog da ambidestrosfera!

Ambidestrosfera

Enviado por Fabien
fabien.jeune@clix.pt

--- início de transcrição ---

Lido no Blog de Esquerda:


(...)
PS: Constatámos com agrado que a maioria destes blogs se situa politicamente à esquerda. A relação de forças na blogosfera tem vindo a mudar muito rapidamente e agora já há, at last, um largo e variado espaço de discussão “à esquerda”. As nossas boas-vindas a toda esta “canhotosfera” em expansão.

posted by Manuel at 19:19

O meu comentário:

Canhotosfera? Porquê canhotosfera? Prefiro a ambidestrosfera. Não me levem a mal, mas isto de direitas e esquerdas sempre me foi alheio. Deve ser um tique motociclistico. É no que dá andar anos a fio a cortar caminho por onde se passa melhor. Mas não, não se trata de virar casacas; antes de seguir em frente quando se fica entupido, seja à direita, seja à esquerda. Resumindo: trata-se de evitar as casacas. Click.

Fabien

--- fim de transcrição ---


Um amante do Blog de Esquerda, este Fabien...

Another star is born?

José Manuel Durão Barroso tem honras de fotografia na "The Economist" desta semana ("Portugal's public sector - I'm going to gut it") (1). A reforma do funcionalismo público é apresentada como se fosse a pedra de toque do Governo. Apontado como uma estrutura típica do século XIX, onde uma posição era invejada por qualquer "euroburocrata" (vitalícia, despedimento impedido por lei, promoção automática, ordenado acima da média e com aumentos regulares garantidos, avaliação dez em dez assegurada), o nosso sector público vai sofrer uma reforma sensacional, assegura-nos a "The Economist". Curioso, na expectativa de encontrar mais uma "idée au lait", percorri o pequeno artigo, mas nada de mais encontrei ("idées au lait" só na "Business Week").
Continuo a interrogar-me se acabar com a promoção automática será boa ideia.
Os 708.000 funcionários públicos portugueses eram, até aqui, promovidos indiscriminadamente, isto é, a par com 9 asnos era promovido um eficiente. Conhecendo as avaliações "independentes" em Portugal, estou a ver o panorama e, francamente, não vejo qual a vantagem de promover "por mérito" apenas cinco dos dez funcionários públicos mencionados acima, se entre eles o eficiente não se encontrar.

(1) The Economist n.27, July 5th-11th 2003, p.32

segunda-feira, julho 07, 2003

Brincar às cidades - II

Como portuense, pois apesar de viver em Gaia, a meio minuto da ponte D. Luís, nasci em Massarelos e passei meia vida no Porto, as notícias relativas à Invicta tocam-me fundo. Ultimamente, as polémicas em torno do novo estádio das Antas (que não me vejo a chamar de Dragão apesar de ser simpatizante do FCP), das obras arrastadas e mal amanhadas de 2001, da Casa da Música e mais algumas, têm produzido uma imagem negativa desta cidade, que o facto de não ser um caso isolado nada atenua.

A última nova é já velha: a decisão de demolir o Centro Comercial Cidade do Porto, ao Bom Sucesso, em plena Boavista. Ao que tudo indica, a não ser que o apelo de Rui Rio ao Supremo resulte, desta vez não há volta a dar. Mais uma vez, andam a brincar às cidades com o nosso dinheiro. (ver "Brincar às cidades - I" mais abaixo)
Sempre considerei aquele edifício um mamarracho, tipo Amoreiras do Porto, e veria com bons olhos a sua demolição... quando estava a ser construído. O que não aceito é que falem na sua demolição como se fosse uma obra, quando se trata de um local muito frequentado e onde trabalham centenas de pessoas. Que a decisão seja para cumprir, acho muito bem, mas só quando existir, aprovado, um projecto com garantias de execução e, sobretudo, com exploração e manutenção asseguradas.
Estou a ver os responsáveis a dizer que nem poderia ser de outro modo, bla, bla, bla... Mas temos visto como as coisas funcionam na realidade e, desde a Cordoaria ao Castelo do Queijo, desde Carlos Alberto ao Cinema Batalha, desde o edifício da Pedreira ao Transparente, não faltam exemplos de verdadeiros infernos que começaram cheios de boas intenções.

Falem-me do que vai acontecer naquele espaço após a demolição do camafeu; digam-me quando vai estar pronto tal projecto e, sobretudo, como vão ser tratados os que vão ser prejudicados pelo fim do Centro Comercial - e não falo de Zaras e afins, mas dos que lá trabalham e dos proprietários de pequenos negócios. Depois de me falarem disso, podem dizer em que dia vão deitar abaixo o mono, que eu lá estarei para aplaudir de pé. Mas nunca antes.
Nunca antes, porque me recuso a considerar positivo que se destrua um local pleno de actividade e, depois de aplaudido o acto, se vá para casa pensar durante anos no que fazer naquela cratera.

Ouvir Rui Rio a lamentar não ter 125 milhões para cumprir a sentença, o queixoso a protestar que a factura será apresentada à Soares da Costa e não à autarquia e o juiz a afirmar que 125 milhões é uma quantia "desprezível" se com ela se pode devolver a qualidade de vida aos cidadãos da zona, é alucinante.
Quem os ouve falar assim, fica convencido que basta demolir a aberração que das ruínas nascerá um paraíso sem gastar mais um cêntimo. E ainda dizem que a bananada se serve fria...

domingo, julho 06, 2003

Brincar às cidades - I

Demolição do Shopping Cidade do Porto

A ver. Para já estou a digerir. São seis da manhã e ainda não dormi... Talvez seja um pesadelo.

nota: o link acima remete para a notícia no Primeiro de Janeiro de hoje.

JPP orgânico

José Pacheco Pereira (JPP) continua a estarrecer-nos com as suas diatribes em prol de valores caros ao Sistema. As suas opiniões sobre a invasão do Iraque ficaram tristemente célebres, mas que dizer da sua crónica sobre o mais recente caso Berlusconi? (Público, 04Jul2003 e Abrupto)
No encerramento da série de conferências dedicadas a Urbano Tavares Rodrigues, que decorreu entre 1 e 4 de Julho na Cooperativa Árvore, no Porto, Miguel Veiga lembrou como vai mal o intelectual no limiar do novo século, quando se confina ao discurso alinhado com o poder, sistematicamente.
A dúvida que me assalta é qual o poder com que JPP se alinha. Inteligente, culto, informado, JPP deve ter entendido há muito que os nichos de Poder denominados Governos, não são mais que os altares dos santinhos nas igrejas. Alguns há que, supostamente, são milagreiros, mas isso são tretas de sacristia. O Poder que importa é o que está no altar-mor, ao fundo da nave central, que alberga as relíquias. Não que em Bruxelas esteja tal coisa, mas que fica mais próximo do que Lisboa é um facto.
Tal como os que dizem servir a Deus são recompensados sem que saibam de onde lhes vem o prémio, também aos servos do Sistema não importa saber do benfeitor mais que as grandes linhas orientadoras. Mas, como todo o bom beato, ao intelectual orgânico convém não esquecer por umas velinhas nos nichos dos santinhos subalternos. Sobretudo dos que dizem capazes de fazer milagres.