sexta-feira, novembro 28, 2003

Te souviens-tu...


Quando nos conhecemos estava vento.
Levou-te as folhas brancas em que escrevias a negro, como sempre fazes, e diverti-me a observar como as apanhavas. E pensei que quem assim é escolhido pelo vento para a brincadeira não pode ser mau demónio.

Disseste-me, nesse dia:
"Busca a verdade dentro de ti.
Escuta bem as vozes que trazes dentro."

Recordas?
Mas esqueceste que eu, mais que tu, permaneço o mesmo.
Talvez por ainda poderes dizer que estás igual ao que foste.

Talvez o teu segredo seja o meu.
Talvez seja por saberes, como eu, que esta concha já está morta, que ela permanece jovem. Mas não te iludas, irmão.
O teu nome é Semblano, não Jeune. Como o meu.

Parabéns.

Fabien
28Nov2003

post scriptum:
Só o teu aniversário para quebrar o meu "retiro espiritual"...

Dorian


É verdade. Já lá vão quarenta Invernos.
O que me continua a surpreender (e aos meus amigos de longa data) é que ainda me dizem - não sei até quando - "estás exactamente na mesma!" (exclamação que só pode respeitar ao meu aspecto físico, dado que a mudança é permanente a outros níveis). E surpreende-me, sobretudo, por não poder dizer o mesmo em relação a nenhum deles.

Devo ter um retrato meu, com vinte anos, esquecido algures.
Oxalá não o encontre nunca.

Aproveito esta data para enviar a todos os visitantes d'A Sombra um abraço e lhes desejar um excelente fim-de-semana. :)

nota:
A FNAC (devo dizer as FNAC - agora são três no Grande Porto) decidiu marcar um "Dia e Noite Aderente" precisamente para hoje, 28 de Novembro.
Pontaria, hein?!...

nota2:
Já a primeira página do Público de hoje veio estragar o que teria sido um dia perfeito. Passa a quase perfeito. (Bolas, José Manuel Fernandes! Nem no meu dia de anos!)

Incertezas genuínas


Hoje, 28 de Novembro, é o dia do meu aniversário. A abrir este dia uma notícia inesperada e, para mim, má. O Cataláxia chegou ao fim.

A 26 de Novembro (data do nascimento do meu pai...), o Rui anunciava o termo da "Genuína Incerteza", como identifico o seu blog, n'A Sombra. Fê-lo ao atingir as 20.000 visitas, como um dia pensara.

Dado o teor das datas em questão, não me esquecerei da altura em que ocorreu este evento, mas para além das datas, não me esquecerei nunca do Cataláxia e dos seus excelentes textos e oportunas farpas. A blogosfera ficará mais pobre, mas resta-me esperar que a vida do Rui fique mais rica, não por ter terminado o seu blog, mas por prosseguir outros caminhos, que espero lhe sejam proveitosos.

Não sei se o Rui voltará à escrita, na blogosfera, mas a ligação para o Cataláxia, n'A Sombra, permanecerá intocável; até um possível regresso ou, de todo o modo, como ponte para um espaço de referência, que será enquanto estiver acessível.

Permito-me, assim, a incerteza deste fim.
Genuinamente.

Até sempre, Rui.

Pel'A Sombra,

Rui Semblano

quinta-feira, novembro 27, 2003

Lone Wolf and Cub


Há muito tempo atrás, escrevi sobre um guerreiro que encontrou uma criança num caminho de floresta. Permaneceriam juntos para sempre. Sempre estiveram juntos.

Graças ao Nuno (nuno1001@clix.pt), e aos seus comentários na entrada relativa a Kill Bill, no Cinema para Indígenas, encontrei outro guerreiro e outra criança: Ogami Itto e Daigoro. O Lobo Solitário e a sua Cria. É uma série de BD nipónica já velha de mais de trinta anos (foi editada inicialmente em 1970) passada no Japão do século XVII, em pleno Período Edo (1603-1867), após o Sengoku Jidai, o Período do País em Guerra (1475-1615), durante o qual o clan Tokugawa consolidou o domínio que haveria de manter por 250 anos, até à modernização do Japão.

(Curiosidade: o filme que aguardo mais ansiosamente, junto com o Return of the King, é The Last Samurai, de Edward Zwick, que retrata a última tentativa de ascensão da velha ordem: a revolta Satsuma, liderada por Saigo Takamori, em que o seu exército de Samurai foi esmagado pelas modernas tropas do novo exército imperial, em 1877.)

O Lobo Solitário e a sua Cria começam a ganhar espaço nas minhas estantes; uma tarefa de respeito e que arrisca tornar-se longa, pois trata-se de uma colecção de 28 volumes, cada um composto por vários episódios. Lidos os dois primeiros, já nada há a fazer a não ser arranjar todos os outros. Já não me viciava assim numa BD desde a saga do Incal, de Moebius e Jodorowski. Felizmente, todos os volumes de Lone Wolf and Cub estão já editados, pelo que a agonia da espera pela edição de novas aventuras (o Incal demorou anos a fazer...) será substituída pela frustração de não poder gastar de uma só vez os muitos euros necessários para comprar a totalidade dos livros. Em compensação, é como se estivessem a ser editados, pois a aquisição de um ou dois de cada vez aguça o apetite pelos próximos. :)

Ao Nuno, o meu obrigado pela introdução ao mundo de Ogami e Daigoro.
Domo arigato gozaimashita, Nuno-san.


Lone Wolf and Cub
de Kazuo Koike e Goseki Kojima
Dark Horse Comics

Impressão das pranchas invertida (latina)
Legendagem em inglês e japonês
Início de publicação desta edição em 2000



nota:
Curiosamente, a primeira vez que vi uma referência a Lone Wolf and Cub foi num comic da Dark Horse, o número 4 da série Devil's Legacy, de Grendel, de Junho de 2000, mas ao Nuno devo o encontro com este soberbo trabalho gráfico. Chris Warner, editor chefe da Dark Horse, apresentava então o que chamou de "talvez o nosso projecto mais ambicioso até à data: vinte e oito volumes mensais, cada um com aproximadamente 300 páginas!" e terminava com as palavras que escolho para dar esta entrada por concluída:

"For lovers of the real thing... well, it doesn't get much
better than this."

quarta-feira, novembro 26, 2003

O império


Nós, no nosso jardim queimado à beira mar plantado;
nós, que da desgraça alheia não sabemos mais que o lido nos jornais;
nós, para quem a desgraça própria é uma calamidade imensurável apenas porque é a nossa;
nós, os arrogantes e intolerantes restos de um império construído por espertos, mantido por inaptos e desbaratado por imbecis;
nós, os maiores da nossa rua deserta;
nós, agarrados a uma esperança a crédito mal parado;
nós, os sem espelhos;
nós, os cegos histéricos;
nós, os senhores e príncipes;
nós, por oposição a eles...

Eles, os que poluem a nossa paisagem pelo simples facto de estar ali;
eles, que se arrastam no nosso lixo à procura do inimaginável;
eles, que vivem dos restos do nosso excesso;
eles, os que não ousam olhar-nos por cansaço ou resignação ou medo;
eles, por comparação a nada.

Hoje não coloquei o meu jornal diário para reciclar. Veio um velho curvado e levou-o. Não o pode ler. Juntou-o a um monte de outros jornais e de cartões, no cimo de um pequeno carro, e foi-se, a empurrá-lo, sempre vergado.
Fui eu quem o quebrou, aquele velho.
Eu e o meu império, cujos estandartes ele não verá jamais, por estar proibido de elevar os olhos do chão. Do chão que vou permitindo que pise, à força de o ignorar.


Rui Semblano
Porto, 25 de Novembro de 2003

domingo, novembro 23, 2003

Camelot 2003 . 2 . anexo c

(continuação da publicação deste ensaio)
Ver entrada inicial "Camelot 2003", nos Arquivos d'A Sombra, de 16Jul2003)

2. O eixo Atlântico (cont.)
A humilhação de uma ocupação dos EUA
por uma potência estrangeira


Todos os países europeus, em determinado momento da sua história, foram invadidos e seriamente ameaçados de perda de soberania, sendo ocupados por outro Estado, perderam-na efectivamente ou perderam territórios. Mesmo recentemente, essa dura realidade foi sentida pela maior parte da Europa, na primeira metade do século XX.

Apesar de humilhante, é uma experiência edificante no sentido de, por um lado, se adquirir a noção exacta de quanto valem liberdade e soberania e, por outro, entranhar na cultura do submetido a noção do que deve ser feito, após recuperada a integridade do Estado, para que tal desgraça não se repita.
Haverá muito observador, professor, intelectual e até mesmo cidadão comum que compare tal coisa à luta que os norte-americanos travaram para ser independentes. Só que não eram, ainda, norte-americanos. Eram colonos. Súbditos de um império que se rebelaram e criaram um Estado. Eles foram, de facto, a potência ocupante, enquanto asseguravam a conquista do território. Uma vez expulsos os britânicos, quem sentiu isto na pele tinha-a vermelha. E não haveria de recuperar o que perdeu.

Desde 1776, nem levemente a soberania dos EUA esteve ameaçada - nem durante o mais grave período da Guerra Fria, quando ocorreu a crise dos mísseis em Cuba. O que pesava na balança, então, e mantinha os pratos nivelados, era o medo da destruição total - caso em que a perda de soberania passaria a ser um mero pormenor técnico sem importância.

Estes factores, ao longo do tempo e, em particular, após a queda do muro de Berlim (a verdadeira charneira entre a velha e a nova ordem mundial e não o 11 de Setembro de 2001), contribuíram e contribuem para um sentimento de quase invulnerabilidade, mais que de invencibilidade, por parte dos Estados Unidos - e é graças a esse sentimento que, a cada dia que passa, as consequências do 11 de Setembro de 2001 se tornam mais favoráveis à instauração do despotismo na administração norte-americana do que à libertação do mundo árabe oprimido - em teoria, a julgar pela cartilha de Estado norte-americana, o fim último da "guerra ao terror".

(in Camelot 2003 © Rui Semblano - Porto - Janeiro e Fevereiro de 2003)

Para a frente: a publicar, em Camelot 2003 . 2 . termo do capítulo
(Conclusões do capítulo 2)
Para trás: ver entrada Camelot 2003 . 2 . anexo b
(Os efeitos de uma guerra em território dos EUA) de 26Ago2003