sexta-feira, janeiro 02, 2004

Está-se bem


Et me voici!
As Terras do Falcoeiro permanecem tranquilas. A viagem desde o Porto, entre a uma e as duas e trinta da manhã do primeiro dia do ano, nunca correu tão bem. Faz três anos, estava uma tempestade de respeito - de onde o título da entrada anterior.

Passado o primeiro dia do ano em paz e sossego, cá estou no Web.Café, a dar uma vista de olhos pela escrita da rapaziada (e das meninas, claro). Confesso que não consigo afastar-me demasiado da blogosfera. Um curioso campo magnético parece envolvê-la! Não é preciso investigar muito para determinar a sua origem: é gerado pelos que nela escrevem.

O ano começou mal, como diz o editorial de Nuno Pacheco, no Público de hoje. De facto, não sei porquê, parece que todos os nossos desejos para 2004 vão sair furados. Espero que não, mas pela amostra... Enfim, aguardemos a prisão preventiva de Jorge Sampaio, assim ele deixe de ter imunidade, assim como de Teresa Guilherme, João Baião, Cinha Jardim, Manuela Moura Guedes, Manuel Monteiro, Paulo Portas e outros cromos. Ah, esqueci-me de mencionar o porquê desta afirmação: é que enviei uma carta anónima a Rui Teixeira implicando-os a todos no processo, na esperança que ele os prenda por um ou dois anitos. Junto com o conteúdo desta entrada, espero que a carta seja anexada ao processo! :)

Uma coisa parece ser certa: 2004 será mais um ano "casapiano", pelo menos até ao começo do Euro. E por falar em Euro, já repararam que em inúmeras publicações estrangeiras e algumas nacionais (como o Público) o local de abertura do campeonato é apontado como sendo Lisboa? Passou-me alguma coisa ao lado ou o jogo de inauguração ainda é no Porto? Ainda vamos ter turistas à procura do estádio do Dragão em Sintra...

Antes que me esqueça, deixo uma sugestão para 2004: não se esqueçam de entrar nas auto-estradas com os depósitos cheios e a mala a abarrotar de bidões de gasolina, para o caso dos assaltos que se estão a preparar nas áreas de serviço se virem a verificar. Be prepared!

Enfim... Esta entrada já vai longa e a conversa está cada vez mais curta. Um fenómeno, n'A Sombra: uma entrada verdadeiramente nonsense. Deve ser da televisão estar sempre ligada, em casa dos pais da Lina. Não posso deixar passar este ano sem os convencer a instalar TV por cabo... É que hoje fui apanhado desprevenido e lá estava a Teresa Guilherme outra vez!! Eu a pensar que aquilo já tinha acabado! Espero que o Rui Teixeira tenha lido a minha carta - o nome dela aparece várias vezes! :)

Bom fim-de-semana a todos.

nota:
O Sol brilhou, hoje! Não está tudo perdido!
Até por ter sido dia de Inimigo Público!
(Seria do Scolari, um daqueles esqueletos?)

Edição e publicação: Web.Café, Alvaiázere.

quarta-feira, dezembro 31, 2003

Stormrider


Como já vem sendo hábito, desloco-me para Alvaiázere no Ano Novo. É uma tradição que espero poder manter por muitos anos e que me dá prazer; começar o ano na tranquilidade das Terras do Falcoeiro.
Para mais, este ano calha bem, pois aproveito o fim-de-semana e permanecerei mais uns dias. Como é costume, sempre que lá me encontro, actualizarei A Sombra desde o Web-Café local. Inch' Allah!

Para todos, votos renovados de entradas de arromba. Até então, um grande abraço desde A Sombra. See you next year! (*)

(*)
E isso não significa dentro de três quartos de hora! :)

terça-feira, dezembro 30, 2003

All Blog Stars 2003


A Sombra tem cumpridos quase seis meses de existência. A nossa primeira entrada data de 04Jul2003 e, na altura, pretendia ser um blog colectivo. Desde então, porém, os bloggers "de serviço" foram apenas três: o Pedro Couto (PC) - com o estonteante total de uma entrada publicada (!), que já se converteu no objecto do nosso "desporto" oficial: descubra a entrada de PC n'A Sombra! -, Fabien Jeune (FJ) e eu próprio.

Desde o início que os arquitectos Manuel da Cerveira Pinto (MCP) e Helena Ricca (HR) andam arredados da Web por razões de manifesta falta de tempo a que se tem somado, diga-se em abono da verdade, falta de pachorra!, enquanto Fernando Granjo (FG), companheiro de outras lutas e bom amigo, ainda não encontrou forma de conciliar a participação activa neste espaço com um período particularmente invulgar da sua vida, que espero seja ultrapassado de largo em 2004.

Há alguns dias, o próprio Fabien chamava a atenção para este facto insólito, em termos diplomáticos que, traduzidos, significavam "se-isto-é-um-blog-colectivo-vou-ali-e-já-venho", mas, para mim, A Sombra será sempre um blog colectivo, até porque muitos dos temas aqui retratados foram objecto de conversas com os restantes amigos, activos ou não neste espaço, o que é uma forma de colaboração, afinal.
Por esse motivo, apenas realizarei uma pequena, mas significativa, mudança estrutural no cabeçalho do blog, onde passará a existir uma distinção entre os bloggers permanentes, que já publicaram entradas, e os que ainda não encontraram o momento adequado à sua estreia.
Esperemos que 2004 seja propício às suas intervenções - em especial por se tratar de personalidades fortes de convicções precisas (e polémicas!), o que traria um gosto especial a este espaço. A ver vamos.

Quanto à Blogosfera em 2003... Talvez alguns esperassem ver nesta entrada um ranking de blogs, uma indicação das nossas preferências ou algo assim. Mas não se trata disso.

Ao longo destes seis meses, A Sombra foi destacada por alguns blogs, destacou outros, foi colocada nas listas de ligações de outros... Enfim, estabeleceu ligações de vários tipos e a variados níveis com parte da blogosfera a que pertence e alguma da que se vai fazendo por todo o mundo, que, aliás, a julgar pelo nosso tracker, tem seguido também o nosso trajecto, da Nova Zelândia à Irlanda, do Japão à Bélgica, do Brasil a Taiwan - embora tal facto, caso os internautas oriundos dessas paragens não dominem o português, seja estranho, no mínimo (além de que a aplicação de software de tradução automática a páginas com o tipo de conteúdo d'A Sombra deve ser qualquer coisa de surreal!). E, naturalmente, fomos visitados pelos amigos com domínio norte-americano dot-gov. Just in case...

Neste curto período da nossa existência, conhecemos pessoas fantásticas, algumas almas quase gémeas, estabelecemos relações curiosas, fomos protagonistas de polémicas... Muito aconteceu, de facto.
Seria injusto criar um sistema de classificação de todos os blogs que se relacionaram connosco, premiar ou destacar alguns ou atribuir categorias. Não o faremos. Em condições normais, já existem os que destacamos "por mérito", com presença nos nossos Blog Links, na coluna da direita - e mesmo esses são ordenados alfabeticamente, sem ordem de preferência. O que fazemos, nesta entrada, é colocar por uma vez na nossa página principal todos os blogs que, de alguma forma, passaram por esta Sombra ou sobre os quais ela pousou. Sem distinção, sem outra ordem que a alfabética, sem os cognomes que atribuímos a alguns ou as suas classificações internas, como a pour le mérite, sem os códigos próprios da nossa lista completa de ligações.

Estes são, assim, aqueles que À Sombra disseram respeito ou da parte dela mereceram atenção. Aqueles de entre os presentes que atingiram um patamar superior na nossa consideração, incluindo os de algumas pessoas em que gosto de pensar como amigas, não precisam de o ver expresso aqui. Sabem-no bem.

Eis, portanto, os All Blog Stars de 2003, n'A Sombra. Alguns são já apenas uma memória, outros estão em pleno, outros ainda agora mesmo começaram... E há aqueles que jamais poderão voltar. Mas todos aqui se encontram.
Que a eles, sem excepção, 2004 traga fortuna, paz, bom senso e, afinal, felicidade. E que para o ano cá estejam todos, acompanhados por mais alguns!
Bem hajam por partilharem deste espaço. Boas entradas.

Pel'A Sombra,

Rui Semblano
Vila Nova de Gaia, 31 de Dezembro de 2003


  • 100nada

  • 500.000

  • A Aba de Heisenberg

  • A Origem do Amor

  • A Pedra e a Espada

  • Abram os olhos

  • Abrupto

  • Aviz

  • A Coluna Vertebral

  • A pente fino

  • A Praia

  • AANES

  • Absurdo Testamento

  • Acanto

  • Ai jasus!

  • Algarveglobal

  • Almocreve das Petas

  • amonarquiaemportugal

  • Analiticamente incorrecto

  • Anarca constipado

  • Assembleia

  • Avatares de um desejo

  • Blog de Esquerda

  • Barnabé

  • Bekbekbek

  • Blog sem nome

  • Blogdemocracia

  • Bomba inteligente

  • Brandos costumes

  • Castelo de Cartas

  • Cataláxia

  • Crítico

  • Cruzes Canhoto!

  • Cabo Raso

  • Castor de Mármore

  • Cidadão livre

  • Citador

  • Conversa da teta

  • Conversas de Café

  • Crónicas matinais

  • Dicionário do Diabo

  • Daedalus

  • Descrédito

  • Dunhill King Size

  • Eis o Triumvirato

  • El Coronel

  • Encapuzado extrovertido

  • Eu Vou Mas Volto

  • Extravaganza

  • Faccioso

  • Gato Fedorento

  • GANG - Grupo de Arquitectos No Gang

  • Glória fácil

  • Grande Superfície

  • Hora Absurda

  • Homem a dias

  • Icosaedro

  • (Indis)Pensáveis

  • Janela para o rio

  • Jaquinzinhos

  • João Hugo Faria

  • Little Black Spot

  • Local e Blogal

  • Lamentos de um pessimista

  • Leitura partilhada

  • Lugar Efémero

  • Método Eleitoral

  • Musana

  • Maizumpomonte

  • Mephistopheles

  • Miniscente

  • O meu diário

  • O meu pipi

  • O País Relativo

  • O Projecto

  • O Bisturi

  • O Carimbo

  • O Comprometido Espectador

  • O Divã de Portugal

  • O Jumento

  • O Merdas

  • O Mundo da Rata Maluka

  • O Proletário Vermelho

  • O quarto do pulha

  • O Suspeito do Costume

  • Oliveira de Figueira

  • Ouvido de Barman

  • Pegada na Areia

  • Ponto Media

  • Pequena superfície

  • PickPocket

  • Pintainho

  • Ponto e Vírgula

  • Probabilidade subjectiva

  • Professorices

  • Quarta Vaga

  • Reflexos de Azul Eléctrico

  • Resistência Islâmica

  • Realidade Virtual

  • Retorta

  • SolidariedadeBlog

  • Santa Ignorância

  • Sem Certezas

  • Semiramis

  • Terras do Nunca

  • Textos de Contracapa

  • The Serendipitous Cacophonies

  • Tolentino

  • Ter voz

  • Trezentos mil

  • Universos Críticos

  • Valete Fratres!

  • Vamos lixar tudo

  • Vastulec

  • Ver

  • Viva Espanha

  • Zapping


  • nota:
    Blogs em que participo de forma directa ou indirecta
    e páginas auxiliares d'A Sombra:

    Arquivo Manual d'A Sombra . Ano I
    Links Completos d'A Sombra

    Cinema para Indígenas (CpI)
    Fantasblog (Jason's Blog)
    Panorama (Blogarquivo do suplemento do Miradouro)

    A Sombra © Rui Semblano, 2003/2004

    Efeméride...


    Já há muito tempo não me acontecia dar com um blog fresquinho, acabado de nascer. Aconteceu-me hoje com o Lugar Efémero. E soube bem encontrar um pequeno lugar assim, como um dia todos nós fomos, a terminar 2003; que, afinal, em Portugal sempre teve um acontecimento político e social digno de nota bem positiva: o estabelecimento de uma Blogosfera Lusa sem Papas (desses e das outras) e viveiro/reserva de ideais democráticos que há muito julgava perdidos no remoínho do quotidiano em que a maior parte de nós está mergulhada.

    Do Lugar Efémero, nascido na noite de Natal, à 1:49 da manhã do dia 25 de Dezembro, retiro este pensamento do seu blogger, de quem desconheço a identidade:

    --- quote ---

    Não tinha sido assim
    que tinha pensado começar este blog. Aguardou tanto tempo, tantas hesitações da minha parte, e na noite de Natal teve de ser,
    es muss sein!
    O início está! O que virá não sei, nem quero saber neste momento. É um percurso efémero... quão efémero? who knows...

    --- end quote ---

    Ninguém sabe, de facto. Mas espero que esta efeméride seja asinalada para o ano, por esta altura. Porquê? Não sei explicar. É como quando simpatizo com alguém antes mesmo de trocarmos palavras.
    Para mim, no que toca à blogosfera, chama-se isto terminar o ano with a cherry on top... Que a este novo Lugar, de Efémero lhe baste o nome e a ideia de como é efémera a nossa própria existência, como seres-humanos.

    Suerte!


    nota:
    E agradecidos estamos ao Lugar Efémero por nos ter dado a honra de pertencer à pequena lista de "Blogs Perenes", como lhes chama, com que iniciou a sua listagem de ligações permanentes. :)

    segunda-feira, dezembro 29, 2003

    Professorices...


    A propósito de um blog que descobri recentemente, feito por um docente a pensar nos problemas da docência, o Professorices, de João Vasconcelos Costa - a quem aproveito para agradecer a gentileza da colocação d'A Sombra entre as suas ligações -, aproveito para dedicar aos professores algumas palavras, em jeito de "fim de ano".

    Dos professores que tive, muito poucos me merecem o tratamento de Mestres, aqueles cuja vocação para o ensino e o gosto de ensinar e, especialmente, de formar eram visíveis para além de qualquer dúvida. Era como se o respirassem numa manhã fria...
    Desses, felizmente para mim, o mais excelente foi o meu professor da escola primária, então assim designada, que me acompanhou da primeira à quarta classe, na hoje ainda existente escola da Serra do Pilar, a dois passos da casa de meus pais. Chamava-se Valentim Ferreira Almeida, para mim (e para tantos outros) o professor Valentim.

    O seu exemplo como mestre ficou marcado para sempre na minha memória e as suas lições de disciplina e método, o respeito que nos incutia pelo próximo, fosse ele o próprio professor ou o colega da carteira ao lado, e o rigor, o gosto e clareza com que nos passava os conhecimentos não seriam nunca esquecidos - nem ultrapassados.

    Ao longo do tempo, verifiquei, consternado, como o nível de qualidade pedagógica dos docentes por quem fui passando diminuía à medida que aumentava o grau de ensino. Fiz todo o secundário num Colégio privado, o que me deu em academismo o que perdi em experiência de vida durante esses anos, ou melhor, o que me proporcionou uma experiência de vida muito diferente do comum estudante liceal. Pagaria mais tarde com uma inusitada rebeldia a "libertação" do rigoroso ambiente em que passei os que, ainda assim, vejo hoje como os melhores anos da minha vida. Dessa rebeldia resultaria um intervalo razoável entre o Secundário e a Universidade, mas isso são outras histórias.

    Certo é que esse tempo "de espera" fez com que entrasse na Faculdade com uma maturidade diferente dos que transitam para a Universidade directamente; o que somado à educação clássica que tinha me deu uma capacidade de avaliação pedagógica que eles simplesmente não possuíam. Demais, o Secundário começava a estar saturado de professores "de ocasião" ou, pior, "de necessidade", pelo que os termos de comparação dos meus jovens colegas não eram nada de especial... Para mais, entrando a destempo, fi-lo percorrendo o longo caminho dos exames Ad-Hoc, que incluíam uma prova de Português mais os exames específicos ao curso que pretendia, estes orientados e avaliados por um júri de docentes que, em alguns casos, encontraria depois nas salas de aula. Foram dias de provas, da História da Arte ao Desenho Gráfico, da Geometria à Figura Humana. Algo que os meus colegas não precisariam de fazer para entrar e que, caso o necessitassem, impediria a maior parte de ter entrado, como depois constatei. Os bons resultados das minhas provas de acesso, assim obtidos, mais autoridade me davam para exigir o melhor dos que me ensinariam. Eu não precisava do curso, verdadeiramente, mas estava ali para aprender e, supostamente, com os "mestres". A desilusão foi imediata e demolidora.

    Salvo raras e honrosas excepções, os docentes universitários que conheci deviam ser tudo menos professores, do ponto de vista estritamente pedagógico e não pondo nunca em causa a sua competência científica. O que me impressionou mais, foi o número de recém-licenciados que começava imediatamente a dar aulas, por vezes aos 4º e 5º anos! Num ano eram finalistas, no outro estavam a ensinar finalistas. Reconheço que pode acontecer semelhante coisa, em circunstâncias verdadeiramente excepcionais, mas não era o caso. Para mim, aliás, ser docente numa Faculdade implica um trajecto de ensino e uma experiência pedagógica prévios, por mínimos que sejam. Mas nada disso acontecia e, ao que vejo, nada disso acontece. A mediocridade derrotou a excelência em toda a linha, seguindo o trajecto inverso ao que experimentei; isto é, degradando o Ensino Superior, depois o Secundário e, finalmente, o Básico... É o pandemónio instituído, para mais com a benção do Estado, incapaz de pôr fim a esta situação.

    Não é raro encontrar textos escritos por professores cheios de palavras como "próssimo" ou "assima". Os livros editados com anedotas sobre a sapiência dos nossos estudantes deviam dar mais vontade de chorar que de rir, pois muitos deles serão os professores dos nossos filhos. Até no recente "Ao correr da memória", de Diogo Freitas do Amaral, existe um episódio deste tipo, datado de 1984, em que um estudante universitário respondia por escrito à pergunta "Qual foi a Revolução que derrubou o Estado Novo?" da seguinte forma: "Foi a Revolução do 25 da Bril."
    Onde estará a dar aulas este cromo?
    Um parêntesis é aqui necessário para evidenciar a fraca qualidade da pergunta, pois o que aconteceu a 25 de Abril de 1974 foi um golpe de Estado e não uma revolução, mas dá-se o desconto dos meros dez anos volvidos sobre a ocorrência para justificar a forma como foi feita a questão - embora acredite que ainda hoje se ensine isto nas escolas...

    A avaliação docente é extremamente necessária e poder-se-ia iniciar por aí mesmo, pela avaliação dos conhecimentos de Português falado e escrito. Tenho a sensação que metade dos docentes em actividade dariam a vaga. Depois viria a avaliação pedagógica - e esta é a mais complicada, pois exige uma fiscalização independente da própria escola e fiscais idóneos... A depender das próprias escolas, com o recente e escandaloso exemplo das colocações de última hora "a dedo", como podem os docentes confiar no processo? E como será o perfil do inspector? E como excluir ou diminuir o papel do número de alunos com sucesso na forma de avaliação? Uma equipa de inspectores é necessária, actuando em conjunto. Um grupo de pessoas é mais difícil de corromper que uma só, além de que ajuíza melhor.
    De qualquer forma, é como as inspecções automóveis. Todos sabemos que existem casos de corrupção e que passam na inspecção alguns veículos que deveriam ir direitinho para a sucata, mas alegar que seria melhor não existir inspecção de todo é fraco argumento.

    Olha; ponham a Maria José Morgado a controlar o processo de inspecção dos docentes e das escolas - pode ser que funcione!

    Caros professores,

    Se não têm vocação para dar aulas, ponham a mão na consciência e tentem arranjar a breve trecho uma ocupação menos prejudicial para o país. Eu sei que todos temos de comer, mas a continuar assim, estarão a impedir os meus filhos de comer um dia...
    Quanto aos inconscientes, que são a maioria dos que nunca deveriam ser professores e ainda gozam com isso, façam de conta que não leram nada. Mesmo que tudo corra pelo pior, as hipóteses de irem parar a uma "sucata" não são tão poucas como isso. O que é uma boa notícia, apesar de tudo.

    To be continued...
    (ou como diria uma candidata a docente: "continuédê"...)

    nota:
    O Professorices passa a estar referenciado nos Links Completos d'A Sombra, sendo outro dos fortes candidatos a ligação permanente nesta página. Mérito já o tem, espaço é que não há muito. Fica a promessa de rever os blogs que actualmente fazem parte dos nossos Blog Links permanentes, à direita. Talvez haja surpresas em Janeiro!
    Ao João Vasconcelos Costa, que não me parece um dos que anda a exercer uma profissão que não condiz consigo, um grande abraço!

    Dark bird of truth


    E eu a pensar que era o pássaro da desgraça de serviço! Depois da parte 1 (ver "O Passado Imperfeito", abaixo), nem quero imaginar a continuação. Mas, claro, concordo que 2003 foi especialmente deprimente e decepcionante, façanhas "draconianas" e "ferraristas" excluídas, para além de ter sido um dos mais negros da história da humanidade.

    Ficará para ser recordado como exemplo do que não deveria ter sido feito, mais que para ser esquecido. "Study the Past..."

    domingo, dezembro 28, 2003

    O Passado Imperfeito - Parte 1


    Não me desagrada o politicamente correcto "Person of the year" que desde há alguns anos vem substituindo a designação típica "Man of the year" na revista Time. De facto, o último "Homem do ano" na Time foi Andrew Grove, um dos fundadores da Intel, em 1997; em 1998, a distinção foi atribuída a dois homens: Bill Clinton e Kenneth Starr, protagonistas do evento do ano: as aventuras extraconjugais do presidente dos EUA. Foi o último ano em que a designação foi usada, dessa feita no plural, "Men of the year", sendo o contexto quase insultuoso para o género em causa e transformando a adopção do título assexuado, no ano seguinte, numa anedota. Aliás, a informática regressaria em 1999, com Jeff Bezos, administrador da Amazon.com, como primeiro detentor do título "Person of the year".

    É uma designação mais lógica, dado estar em causa a personalidade que mais destaque mereceu no ano que passou, do ponto de vista da Time, seja ela masculina ou feminina ou... uma máquina, como em 1982, ano em que o Computador Pessoal levou o troféu e foi usada a designação "Machine of the year" (Time, January 3, 1983).

    A decisão da Time, ao atribuir a distinção de 2003 ao soldado norte-americano, apanhou-me de surpresa, mas suponho que a sua razão de ser é clara, tanto mais que, em termos de individualidades, em especial ligadas à política, este ano foi muito mau. Para além dos cromos repetidos, como o de 2000, no que respeita aos EUA as figuras de proa da administração do Estado encontram-se em "low profile mode", à espera de melhores dias - e a essas, a captura de Saddam Hussein não foi suficiente para fazer surgir à luz dos media como protagonistas de coisa alguma. São demasiado experientes para isso.
    Quanto à ONU, estamos conversados. Desde 1993 (o ano de Rabin, Arafat, de Klerk e Mandela) que a cena internacional não tem estadistas ou diplomatas que se destaquem pelo seu papel positivo - e mesmo nesse ano, Arafat foi à boleia, para equilibrar a foto. Hoje como ontem, apesar da "abertura" da administração Clinton e do "multilateralismo" que o actual Governo dos EUA diz perfilhar, inclusivamente na pedra de toque da sua política: a Estratégia de Segurança Nacional, de 2000, a ONU atravessa um período apagado, inglório e humilhante, reduzida a um simbolismo tão deprimente quanto evidente.

    Quanto a figuras europeias, os sucessivos escândalos relativos ao dossier iraquiano eliminaram Tony Blair da corrida ao título muito cedo, ao passo que os restantes protagonistas da Europa nunca poderiam fazer parte dela - os "amigos" dos EUA por demasiado apagados e os seus opositores por isso mesmo, para além de nada de realmente relevante terem feito, no sentido positivo.
    Do resto do mundo, que personalidade política destacar? Ninguém com real impacto no "mercado ocidental" fez nada digno de nota, pelo menos que mereça um destaque como o dado à "Pessoa do ano".
    Pensando bem, politicamente, 2003 foi um ano para esquecer; desde o peru de G. W. Bush ao autismo paranóico de Kim Jong Il, passando pela actuação de Paris e Berlim na (des)constituição da Europa. Quanto ao Oriente Médio, neste momento a competição entre Arafat e Sharon é mais para "Asno do ano" que para "Pessoa do ano"...

    Para mim, aliás, o homem do ano seria Michael Schumacher, pelo seu feito desportivo sem precedentes. Mas é alemão, além de que atribuir uma distinção a um desportista profissional num ano de guerra e de tensões seria fugir ao problema - e de que a Fórmula Um permanece uma curiosidade conhecida de meia dúzia de norte-americanos, num país onde fazer um circuito com mais de duas curvas é um delírio.
    A opção da Time não foi fruto desta pobreza em matéria de destaque individual político e/ou empresarial positivo. Ao ver a capa da sua edição de 29 de Dezembro, já à venda, não consegui lembrar-me de outra ocasião em que tal se tenha passado, isto é, em que o destaque fosse para o G.I. Joe (ou será G.I. Person?). Não me recordava de tal coisa com razão; a única outra vez que tal sucedeu foi em 1950, a propósito da guerra da Coreia. Não precisei de fazer nenhuma pesquisa; a própria Time esclarece este ponto nesta edição, numa pequena nota em que faz eco da notícia de há 53 anos.

    Hoje, a capa tenta ser politicamente correcta, representando dois homens (um deles negro) e uma mulher no uniforme dos Old Ironsides, a 1ª Divisão Blindada dos EUA. Chamam-se Whiteside, Buxton e Grimes; fazem parte dos Tomb Raiders, um pelotão de Old Ironsides que a Time acompanhou em detalhe no artigo "Portrait of a platoon" - a escolha de um pelotão com este cognome, aliás, demonstra que os norte-americanos continuam tão subtis como elefantes numa loja de porcelanas. O fantasma do resgate da soldado Lynch percorre-me a espinha, mas ao ler o artigo, parece-me legítimo e verdadeiro. Mas esta é apenas uma secção da parte da revista dedicada à "Pessoa do ano". Antes, uma introdução justificativa da escolha e uma série de fotos dramáticas; depois... Donald Rumsfeld.

    A tentação de colocar Donald Rumsfeld como "Person of the year" deve ter existido. É a única forma de explicar a presença de um artigo tão exaustivo como o dedicado aos soldados, com o secretário da Defesa norte-americano, incluído na secção dedicada à "Pessoa do ano". Depois de ter sido chamado de "herói dos nossos dias" nos jornais, chega a consagração na Time. Uma consagração tímida, mas uma consagração. Os Tomb Raiders estão ali apenas para preparar o terreno, como tantas vezes o fazem, mas desta vez é para o próprio "patrão".

    De um modo geral, o conjunto é uma peça banal do ponto de vista jornalístico, sendo os artigos dedicados aos soldados uma mera introdução a Rumsfeld. O artigo dos Tomb Raiders podia até encontrar-se em qualquer uma das edições da Time, com um título do género "Um dia na vida dos Old Ironsides" ou coisa parecida. Claro que a maior parte das pessoas, incluindo os soldados norte-americanos, simbolicamente representados pelos Old Ironsides, "agraciados" pela distinção, jamais conhecerá o interior desta revista, isto é, será a capa que lhes ficará na memória. Por esse motivo, o fim é parcialmente atingido: elevar o moral das tropas e, em particular, das suas famílias.

    Se a invasão do Iraque se justificasse, tendo Saddam Hussein atacado um país vizinho ou se fosse provado para além de qualquer dúvida (e não apenas da razoável) que estava a desenvolver um arsenal de armas nucleares ou biológicas ou químicas com intenção de as usar ou vender a potenciais terroristas, talvez fizesse sentido colocar na capa desta Time capacetes azuis, dando-lhes o título de "Pessoas do ano".
    Demais, se pensarmos no número de missões ainda existentes que envolvem capacetes azuis e mesmo nos casos em que soldados europeus e de outros continentes estão envolvidos em missões de estabilização - como é o caso da NATO nos Balcãs e no Afeganistão, por exemplo, a capa e a distinção da Time chegam a ser insultuosas.

    Para os países que envolveram tropas no Iraque - em especial para o Reino Unido - a Time "Person of the year" chega a ser uma bofetada na cara. Em Itália, as famílias dos Carabinieri que morreram no Iraque também devem ter achado imensa graça à capa desta Time. De facto, internacionalmente (e convém não esquecer que é uma distinção internacional), esta escolha da Time é descabida, arrogante e insultuosa.
    Já nos Estados Unidos ela vem mesmo a calhar, numa altura em que existiram já muitas centenas de cadeiras vagas ao redor das mesas de "Thanks Giving" - é preciso não esquecer os feridos, cujo número não é publicitado. Nem a captura de Saddam Hussein elevou o moral, pois as mortes continuam, como esperado. Já Miguel Sousa Tavares, no Público, avisava que só um imbecil esperaria o contrário...

    O unilateralismo dos EUA não consegue disfarçar-se. A visão do mundo que é hoje a de Washington, condensada de forma evidente no parágrafo da Estratégia de Segurança Nacional que escolhi para ombrear com o que define o porquê da escolha da Time (ver entrada "Strategy makes the Person", abaixo, já traduzida), permanece messiânica e tão autista como a de Kim Jong Il que, se fosse governante da única megapotência à face da Terra, já se encontraria às portas da Europa, no seu esforço para levar o culto do pai (e o seu) aos "ignorantes infelizes" do resto do mundo...

    Há muitos anos, via os EUA como bastião da democracia e da liberdade. Havia saído de uma ditadura e encontrava na junção dos ecos ainda fortes da Normandia com a inegável abominação soviética uma boa razão para os ver assim. Depois cresci. Veio o Vietname que encontrei nos livros, fossem eles escritos por adeptos fervorosos da veracidade do incidente do Golfo de Tonkin ou pela mão de Bertrand Russel, e nas imagens, fossem elas protagonizadas por John Wayne ou por Martin Sheen. Veio a América Latina de Che a Allende, de Fidel a Pinochet, de Roosevelt a Kennedy... Veio a Palestina, de Golda Meir a Rabin, de Arafat a Darwish.
    As ilusões foram ficando para trás; romances desfeitos por uma realidade impiedosa que fui encontrando sozinho, sem guias iluminados, em textos escritos por muitos punhos e ditados por variadas cabeças. E é a realidade que hoje se impõe ao sonho, ironicamente apoiada em imensas fábricas de miragens... Como a Time, precisamente.

    Se o mundo não abrir os olhos, a começar pelos próprios norte-americanos, agora apostados no desenvolvimento de armas nucleares tácticas e plataformas militares flutuantes gigantescas, em breve não restarão outras opções que as de escolher viver sob a Stars and Stripes... ou não. O problema é que nesse "não" se encontram, desgraçada e inevitavelmente, todos os que se opõem à "democratização" do mundo pelos EUA - desde o fanático muçulmano mais empedernido até eu próprio. Assim, como já é apanágio de alguns intelectualóides da nossa praça, acabaremos todos por passar de "antiamericanos primários" a "fanáticos terroristas". Já faltou mais.

    Para trás ficarão as tentativas egoístas de alguns para adquirir mais poder para si mesmos, como é o caso da Alemanha; o encolher de ombros dos que pensam ainda poder viver isolados nas suas fortalezas, como a Suíça; os que desenvolveram um instinto de sobrevivência apurado e se tentam enganar com processos de segundas intenções que nunca serão atingidas, como a Líbia...

    O que nos resta, então?
    Talvez a "esperança dos loucos"... A única que existe para lá da de Pandora, que essa já há muito se perdeu. Mas continuo um romântico, apesar de tudo. Continuo convencido que, globalmente, estamos condenados ao entendimento, sob pena de não sobreviver.

    A isto estamos reduzidos, portanto.
    A única esperança de entendimento da humanidade está no seu instinto mais básico, alimentado pela mais vã das ilusões: a de que, como ela, também nós sobreviveremos. Nós, que estamos condenados a morrer desde que nascemos.


    Rui Semblano
    Porto, 28 de Dezembro de 2003


    ver O Passado Imperfeito - Parte 2