sábado, novembro 01, 2003

Hórus


Chega Novembro.
Com ele, chegam dois dias de tranquilidade, longe do burgo.
Al-Baiaz resplandece de sol e de azul.

À chegada, o tradicional "bolinho", a sair do forno de lenha; o presunto e o queijo; o vinho que já começa a sê-lo; as chamas que já se querem altas na imensa lareira da cozinha, onde os ganchos aguardam em silêncio o fumeiro que se aproxima, pacientes...

Rever os dez episódios de "Band of Brothers" em sessão contínua - é verdade. Morrerei um urbanita... Mas, aqui, basta por um pé fora de casa e tudo em volta é Natureza. Não se vê uma casa, até onde a vista alcança; apenas pinheiros, vinha e, claro, oliveiras e laranjeiras (Al-Baiaz...). Os seis gatitos vão desfazendo os canteiros das flores, para sua felicidade e desespero da minha sogra; rodopiam ao sol como panteras minúsculas, sob o olhar atento e descansado da sua mãe negra.
Uma brisa faz as folhas murmurar...

Devo ser parvo por não querer viver aqui, mas não consigo.
Amo o Porto. Nunca o deixarei.
E um grito chama o meu olhar para o infinito. Lá está ele, majestoso; dono e senhor deste espaço. E parece dizer-me "eu sei; eu sei..." Um falcão em Al-Baiaz. É um bom presságio.


Al-Baiaz, (árabe) Falcoeiro.

(edição e publicação: Web.bar - Alvaiázere)

sexta-feira, outubro 31, 2003

Cinco...


... São os "blogs do costume" de Victor Hertizel, no Dunhill King Size, após uma arrumação no seu template.
É obra. Por mim, confesso que manter a minha lista "pour le mérite" ("plm"), os blogs que mantenho em permanência na página principal d'A Sombra, é duro e frustrante. Raramente consigo ler todos a cada dia, fazendo uma ronda aleatória que culmina com a integral no fim de uma semana. Claro que alguns visito diariamente, mas não consigo distingui-los dos restantes "plm".

Ainda por cima, tenho já debaixo de olho alguns da lista completa de links d'A Sombra, as Relações Sombrias, que visito regularmente, entre os quais o próprio Dunhill. O Victor demonstra ser um homem de convicções, o que eu já sabia.
Mais um motivo de orgulho por se encontrar A Sombra entre o selecto grupo de cinco constantes do Dunhill King Size. Para mais, foi a primeira vez que vi A Sombra entre O meu Pipi e O Proletário Vermelho! É mesmo obra!

Um grande abraço ao amigo Hertizel.

Pel'A Sombra,
RS

Eco de sombra


"O sonho é o aquário da noite."
Victor Hugo

A Insensatez.

Vencer


"(...) Neste campo de batalha juncado de inocentes, onde ainda se combate bárbara e cruelmente, já só tenho um pensamento: sobreviver. Se o conseguir, quem sabe, poderei aspirar mais tarde a lutar de novo para vencer. É tudo o que espero. Iludir as lâminas com o meu nome gravado; escapar com vida.

(...) Haverá outros cadernos, como outros houvera no passado; outras páginas, mas nenhuma como estas. Ao longo delas tomei consciência da ascensão do Sol Negro e vi a sua luz, que não existe. A partir daqui, nada será igual.

Termino com uma mensagem para mim próprio
quando atingir os quarenta anos de idade:

- Que estas páginas possam ser apenas testemunho do passado; que as possas ler com a serenidade de seres diferente do que eu sou hoje e, sobretudo, quer tenhas ou não uma companheira do teu lado, que possas ser mais do que eu já fui. Que possas ser feliz. Espero, no entanto, que tenhas já contigo essa companheira. Se assim for, não faças tudo errado outra vez. Fá-lo por mim. Fá-lo por ti. Fá-lo por essa doce criatura que ainda não conheço e que não merece sofrer assim."

Rui Semblano
21 de Janeiro de 1998


Descoberto por acaso (seria?) a 28 dias do dia 28 de Novembro de 2003, dia do meu quadragésimo aniversário, na véspera da partida para Terras do Falcoeiro, onde celebrarei um outro, a 1 de Novembro. O da doce criatura que não conhecia há seis anos atrás, que espero manter como companheira enquanto viver e, talvez, um pouco mais além... O único amor é o último. Que permaneça.

Rui Semblano
31 de Outubro de 2003

Okami


Como dentro de mim, é o lobo que uiva
Nesta noite feita do negro dos teus cabelos
Mas já não posso responder-lhe

(O meu espanta-espíritos enlouquece. E eu...)

Sugiro:
Kurokami . Hirokazu Fujii
(Musiques d'Asie . Réunion des Musées Nationaux . naïve . 2001)

Okami (jap.) - Lobo
Kurokami (jap.) - Cabelos negros

Muito pessoal


Parabéns, Ângela Serralva.
(Belém, Pará, Brasil... Distante.)

Rui

Algum correio d'A Sombra . 4 de 4


E-mail enviado por Helder Ferreira:
(bigyouth@netcabo.pt)

--- quote ---

----- Original Message -----
From: helder ferreira
To: asombrablog@clix.pt
Sent: Thursday, October 30, 2003 10:46 PM
Subject: Os americanos

caro RS,

não poderia estar mais de acordo consigo, acerca dos mortos no Iraque e das
desastrosas opções (divinas?) de G W Bush. Pouco fugindo do assunto, parece-me contudo que pelo menos numa frase deixa escapar a tradicional arrogância Europeia em relação aos americanos. Quantos Europeus sabem apontar num mapa onde fica Tikrit? O Iraque é Ásia? Que língua falam os Iraquianos? (...)

--- end quote ---



Caro Helder,

Grato pela mensagem, antes de mais.
Creio que se refere à segunda parte de "Triomacabre" ("Ramstein"), n'A Sombra.
Tem razão, apesar das minhas reservas sobre o assunto. É que tenho contacto com docentes e pessoal do equivalente aos Serviços Sociais portugueses nos EUA e o panorama é, asseguro-lhe, muito mais preocupante que na Europa.
Isto não significa, porém, que na Europa qualquer miúdo (ou graúdo!) consiga apontar Al-Fallujah no mapa mundo ou até Marselha (se não gostar de futebol, como já foi dito na Blogosfera).

Admito o meu preconceito, relativamente à cultura do cidadão médio norte-americano versus o seu homólogo europeu, mas ainda é assim, infelizmente, e isto dito por professores norte-americanos e orientadores que lidam com os miúdos das grandes cidades (Atlanta, Chicago...) que frequentam o ensino secundário nos EUA.

Claro que Harvard pouco ou nada fica a dever a Oxford, história aparte, bem como a Sorbonne nada tem que se achar superior a Yale, mas não estava a falar de universitários, embora nesse campo, lá como aqui, comece a ser preocupante, também, o nível cultural dos estudantes do Superior...

Em termos gerais, no entanto, o que torna o comum europeu mais conhecedor do mundo são os séculos de viagens e descobertas que tem no seu colectivo cultural (que nunca foi tão longe como saber onde fica Da-Nang, mas que inclui Goa e Nova Iorque, Maputo e Taipé, Dili e Belém do Pará, Sidney e Dublin) ao contrário dos norte-americanos, imensamente "etnocentrados" na América do Norte. Apenas por esse motivo ainda podemos afirmar que os tais "locais cujo nome poucos conhecem" são ainda mais desconhecidos nos EUA que noutras partes do mundo. No mundo islâmico, por exemplo, a sua cultura geográfica é mais extensa no que lhes toca, isto é, um saudita sabe onde fica Tikrit. Mas isso tem a ver com a proximidade e a afinidade religiosa e cultural.

O meu ponto é mais esse que outro qualquer.
Se sairmos da geografia, então, as diferenças de saber entre norte-americanos e outros povos ainda se esbatem mais... Infelizmente para eles, como para nós.

Um abraço,
RS

Algum correio d'A Sombra . 3 de 4


E-mail enviado por Tiago Matos (Blog sem nome):
(blog_sem_nome@hotmail.com)

--- quote ---

----- Original Message -----
From: Tiago Matos
To: semblano.rui@clix.pt
Sent: Thursday, October 30, 2003 12:01 PM
Subject: Caro Rui

Sem dúvida não partilhamos pontos de vista, não tem importância, vê o blog-sem-nome explico lá as minhas razões sumariamente(!) (...)

--- end quote ---



Caro Tiago,

Falava-se, no Blog sem nome, da diferença entre Lisboa e Porto, enquanto cidades. No geral, estou de acordo - sobretudo, como escrevi nos comentários da entrada que motivou esta troca de ideias, ao nível da oferta cultural - mas quanto à mentalidade e forma de ser dos cidadãos de ambas as cidades, mantenho o que afirmei: a "bronquite" é a mesma, apenas a "tosse" é diferente.

Quanto a Nuno Cardoso:
Quando sugeri que o Porto conhece, hoje, mudanças estruturais superiores às verificadas em Lisboa e que tal acontecia APESAR de Rui Rio, sendo tais mudanças implementadas em definitivo quando um certo autarca da Zona Metropolitana do Porto chegasse à Câmara da Invicta, não estava a falar do amigo Nuno "dos cardos", pelo qual, apesar de o considerar um "bom rapaz", não morro de amores.
Referia-me a Luís Filipe Menezes.
Um dia chegará ao Porto, não o duvido. Não será tão cedo, mas eu também não disse que seria o próximo presidente da CMP. Se Nuno Cardoso for eleito nas próximas autárquicas, não vejo grandes vantagens... É a cruz dos portuenses, mas, como bem se afirma no Blog sem nome, uma cruz que merecem bem.
Aguardam-se melhores dias...

:)

Um abraço a todos, no Blog sem nome.

Pel'A Sombra,
RS

Algum correio d'A Sombra . 2 de 4


E-mail enviado por Lourenço (LAC) (O Projecto):
(blog_oprojecto@hotmail.com)

--- quote ---

----- Original Message -----
From: O Projecto blog
To: asombrablog@clix.pt
Sent: Thursday, October 30, 2003 10:13 AM
Subject: Livro Aberto

Caro Rui,

Como A Sombra não tem sistema de comentários exige-se este mail. O horário "original" Livro Aberto (que desde já lhe recomendo) é às 10 da noite de terça-feira na NTV. De facto a essa hora passam concursos e novelas.
(...)
Já viu o que anda a perder? (...)

--- end quote ---



Amigo Lourenço,

É sempre um prazer ter notícias d'O Projecto.
De facto, na entrada "Um livro aberto vs. Televendas", apenas menciono a RTP 1. Ainda há tempos, Eduardo Prado Coelho, no Público, fez um comentário semelhante, rebatido depois por Francisco José Viegas (FJV), em termos aproximados aos que o Lourenço usa.
Só me referi, porém, aos canais de sinal aberto, pois no caso da televisão por cabo, a concorrência a "Um Livro Aberto", de FJV, não é apenas feita de telenovelas e concursos, mas antes de mais de 40 canais, entre os quais o Arte, a M5, a National Geographic, a MTV, o Discovery, o TCM... (só para mencionar concorrência séria, não indo para SIC's Radicais ou Telecines...).

É uma pena que o programa de FJV passe àquela hora num canal verdadeiramente nacional e de sinal aberto. Acho boa a aposta da NTV, em horário mais decente, mas a maior parte da sua grelha de programas sugere que ainda terá o cognome de Ninguém Te Vê por muito tempo... Quer se queira quer não, a RTP tem mais audiência a qualquer hora que a NTV.

Mas fica o registo, naturalmente, com dois abraços;
um para LAC e outro para FJV.

Pel'A Sombra
RS

Algum correio d'A Sombra . 1 de 4


E-mail enviado por Emílio Semblano:

--- quote ---

----- Original Message -----
From:
(endereço omitido por razões óbvias) [1]
To: asombrablog@clix.pt
Sent: Thursday, October 30, 2003 3:25 AM
Subject: solicitação

Prezados Senhores
Tomo a liberdade de solicitar o endereço electrónico do Sr Rui Semblano, desde que por ele autorizado.
Atenciosamente grato
Emílio Semblano
Rio de Janeiro

--- end quote ---



Uma nota pessoal, que também existe n'A Sombra, para saudar nesta página este parente distante, literalmente e em mais que um sentido, a quem já respondi em privado. É sempre um prazer ser lido no Brasil (país responsável por 4,8% das visitas únicas à Sombra) mais ainda por um Semblano. :)

Um abraço, Emílio.
RS

[1]
Este leitor pretende uma informação pessoal e não descobriu o meu e-mail na página principal d'A Sombra. O conteúdo da sua mensagem não é privado, até por ter sido enviado para o endereço geral deste blog, mas achamos por bem omitir o seu endereço de e-mail, dada a natureza da comunicação.
As mensagens de conteúdo mais geral, relacionadas com entradas n'A Sombra, costumam ter o remetente das mesmas completamente identificado, especialmente as enviadas para asombrablog@clix.pt.

quinta-feira, outubro 30, 2003

Triomacabre . 3 . Dover


Não compreendo a miséria de espírito que faz alguém sorrir ao dizer "Ontem morreram mais três!", referindo-se a soldados norte-americanos mortos no Iraque. Desprezo os que exteriorizam assim os seus sentimentos - esses sim, verdadeiros antiamericanos; os que pensam que um "bom americano" é um "americano" morto.

Veremos o que demonstrarão caso a GNR seja enviada para o Iraque... Veremos se manifestarão a sua satisfação e entusiasmo se algum dia chegar o primeiro caixão português a Figo Maduro, como hoje chegam os norte-americanos a Dover. Veremos se cuspirão nas fardas dos guardas, nos aeroportos. Este tipo de gente revolta-me. Claro que sei que os guardas que morrerem (e espero bem não lhes aconteça mal algum, se forem enviados) serão o passaporte de saída do poder político para Durão Barroso, Paulo Portas e companhia. E depois? Vou ficar radiante por causa disso?

É por estas (e por outras...) que me indigno ao ver a revolta de alguns palhaços "radicais chiques" contra o envio da GNR para o Iraque. É que, no seu íntimo, nada lhes daria mais prazer. Canalhas.

nota:
Dover Air Force Base
Delaware 19902-5000, EUA
Comando: Military Airlift Command (MAC)
Est.: 1941 (encerrada em 1946, reactivada a Fev. 1951)
dados de The Illustrated Directory of the
United States Air Force
, por Michael Roberts,
Guild Publishing, 1989

Triomacabre:
1. Andrews
2. Ramstein
3. Dover

Triomacabre foi inspirado pelo editorial de Amílcar Correia,
"A prova de Dover", no Público de 30Out2003, p. 4 (ver aqui).
Esta trilogia é uma extensão da entrada
"Give me somebody to bomb and I'll win", n'A Sombra.

Triomacabre . 2 . Ramstein


Os mortos que vão chegando aos EUA, via Ramstein e outros locais idênticos, significam, geralmente, um número maior de mortos em locais de que poucos conhecem os nomes, principalmente nos Estados Unidos.

Claro que não tenho motivo algum para ficar satisfeito com isso, mas não o teria ainda que tal coisa fosse mentira e se falasse, apenas, de mortos norte-americanos. George W. Bush não será reeleito por causa dessas mortes? E depois? Isso é motivo para ficar satisfeito? Os norte-americanos, como os iraquianos, não são pessoas como nós? Será que é assim tão impossível ver o jovem de dezanove anos dentro do camuflado e de M16 na mão? Eu vejo-o claramente. E não é ele o meu inimigo, nem nunca foi contra ele a minha raiva e a minha indignação.

Lamento cada soldado norte-americano morto no Iraque e transportado discretamente para sítios como Ramstein, em trânsito para a sua última morada. E mais o lamento por terem morrido em vão e por razões que ignoravam.
Disseram-lhes, talvez, que iam defender a democracia... E talvez o tenham feito, de facto, pois cada uma dessas mortes mais afasta do poder a administração personificada em G. W. Bush.
Estranha forma de morrer pela democracia.

nota:
Ramstein Air Base
Alemanha
(APO New York 09012-5000)
Comando: United States Air Forces in Europe (USAFE)
Est.: não mencionada data de estabelecimento
dados de The Illustrated Directory of the
United States Air Force
, por Michael Roberts,
Guild Publishing, 1989

Triomacabre:
1. Andrews
2. Ramstein
3. Dover

Triomacabre foi inspirado pelo editorial de Amílcar Correia,
"A prova de Dover", no Público de 30Out2003, p. 4 (ver aqui).
Esta trilogia é uma extensão da entrada
"Give me somebody to bomb and I'll win", n'A Sombra.

Triomacabre . 1 . Andrews


Ninguém pode regozijar com o falhanço da política norte-americana para o Iraque. Os seus resultados são demasiado terríveis. Já escrevi, n'A Sombra, que cada soldado norte-americano morto no Iraque é um prego no caixão político de George W. Bush, mas não fico satisfeito, e muito menos entusiasmado, por tal coisa.

O erro da administração protagonizada pelo "presidente" W. Bush não é motivo de jubilo; é um engano trágico que provocou, provoca e provocará muitas vítimas, norte-americanas, por certo, mas muitas mais iraquianas, afegãs, europeias... Se é com base na quantidade de soldados norte-americanos em caixões, acumulados em sítios como Andrews, que os cidadãos dos EUA percebem quem está na Casa Branca, continuamos mal.

Rejubilar com os mortos ou contá-los para medir índices de popularidade, não me parecem atitudes muito democráticas.

nota:
Andrews Air Force Base
Maryland 20331-5000, EUA
Comando: Military Airlift Command (MAC)
Est.: 1942
dados de The Illustrated Directory of the
United States Air Force
, por Michael Roberts,
Guild Publishing, 1989

Triomacabre:
1. Andrews
2. Ramstein
3. Dover

Triomacabre foi inspirado pelo editorial de Amílcar Correia,
"A prova de Dover", no Público de 30Out2003, p. 4 (ver aqui).
Esta trilogia é uma extensão da entrada
"Give me somebody to bomb and I'll win", n'A Sombra.

"Give me somebody to bomb and I'll win."


Seis meses e mais de cem vítimas mortais e milhares de feridos depois da anunciada "missão cumprida" e do início da "reconstrução" do Iraque, o comando militar norte-americano reconhece um movimento organizado de guerrilha que combate a ocupação.
Até aqui, eram uns quantos "selvagens" isolados que cometiam acções "desesperadas", não se sabendo se eram libaneses, sauditas, iranianos, sírios ou... iraquianos; não se sabendo se eram civis, militares, membros da Al-Qaeda, unidades do escol da Guarda Republicana ou... soldados iraquianos desmobilizados à força.
Agora, continuam os norte-americanos sem saber de onde vêm e a quem obedecem os autores dos atentados, mas já lhes reconhecem o estatuto de guerrilheiros e admitem que estão organizados.

Se, no início deste conflito, era impensável a comparação do Iraque de hoje ao Vietname de ontem, agora isso parece inevitável.
Os guerrilheiros iraquianos, como os vietcong, usam métodos que nos habituamos a chamar de terroristas (ou já se esqueceram que os vietcong realizavam atentados deste tipo em Saigão e outras cidades do Vietname do Sul?), mas que são a resposta lógica ao poderio militar norte-americano. E que qualquer um que lê isto afirme que, se ameaçado por um atacante bem mais forte, não recorrerá a um golpe baixo para o derrotar, preferindo ser espancado em nome da honra. Balelas.

Com base diária e em número de dezenas por dia, os atentados contra as tropas ocupantes sucedem-se, desaparecendo os seus autores. Isto significa que uma grande parte da população os apoia.
A partir desta conclusão lógica, só restam duas alternativas aos norte-americanos; ou tentam reeditar o fracasso que foram as aldeias estratégicas controladas do Vietname (os tristemente célebres Hamlets), transformando o Iraque num gigantesco campo de concentração, ou reduzem as perdas e dão o dia por perdido, abandonando o Iraque à sua sorte.

Tudo indica que escolham a última hipótese.
Não existe o equivalente ao ARVN, o exército da Republica do Vietname (do Sul), no Iraque. Estupidamente, os norte-americanos dissolveram o exército iraquiano, pelo que os únicos combatentes são eles próprios e os ingleses, na prática. Os EUA não desistem de tentar criar o seu "ARVN" no Iraque com soldados de outros países, especialmente europeus, via ONU, mas já se tornou evidente o que pretendem e ninguém é parvo; desde os paquistaneses aos alemães, todos querem evitar enviar tropas para o "passador de carne" iraquiano.
Em "casa", sectores que apoiam tradicionalmente a política musculada de Washington, como as famílias dos militares, começam a ficar demasiado nervosos. Afinal, aquela ridícula cena do porta-aviões, em Maio, não era o fim feliz de Top Gun. Era o princípio do pesadelo. Um pesadelo que, tudo indica, terminará com a queda de George Walker Bush em 2004. A somar a isto, o anúncio do encerramento de bases nos EUA funciona como uma lâmina de dois gumes, transformando os típicos "hill Billies" em eleitores menos receptivos à política personificada por G. W. Bush ao mesmo tempo que reduz as possibilidades de manter grandes contingentes de tropas mobilizados, preterindo o número de efectivos em favor dos chorudos contratos "high tech" com o complexo militar e industrial; mais tecnologia, menos soldados. Neste momento, isto é um erro tremendo, para Washington.

Como relembrava Eduardo Prado Coelho na sua crónica do Público, a 29Out2003, os EUA contavam ter 30.000 soldados no Iraque, em Outubro; e Outubro chega ao fim com 140.000 efectivos no terreno, que se revelam insuficientes para controlar a situação. Uma "boa altura", portanto, para cortar no factor humano das forças armadas dos Estados Unidos. As tropas norte-americanas no Iraque têm o moral abaixo de zero e não vêem maneira de ser substituídas, quanto mais reforçadas, e já perceberam que o seu comando não faz a mínima ideia do que está a acontecer.

Quanto aos europeus, se os EUA não têm forma de assegurar a rotação das suas tropas no Iraque, o que podem fazer? Enviar 150.000 homens de oito ou nove países e deixá-los lá por dois anos? Se nem a NATO tem este tipo de efectivos integrados numa força coerente e auto-suportada, com que efectivos vai contribuir a Europa? Se os EUA estão prestes (não se pense o contrário) a retirar do Iraque, não o controlando com 140.000 soldados, como e porquê haveria a Europa de substituir os Estados Unidos, com ou sem mandato da ONU? E sob comando de Washington? Não me parece.

Como sucede no Afeganistão, Washington pretende reforçar o seu contingente, para depois o subtrair. Significa isto que os EUA pretendem arranjar, literalmente, outra carne para canhão que a sua, mas mantendo o controlo das operações. Apesar da resolução aprovada de emergência no CS da ONU, ainda estou à espera de ver a Europa levantar-se em armas para ir para o Iraque - e teria de se levantar em armas mesmo, dada a quantidade de efectivos necessária. Isso nunca vai acontecer.

A política desastrosa dos EUA conduziu-nos a este ponto. Desacreditou a ONU e as ONG's, como a Cruz Vermelha e os Médicos sem Fronteiras ou a AMI, hoje banalizados como "infiéis ocidentais" e transformados em alvos legítimos para quem não consegue já ver para além das aparências - porque, para além delas, viram com os seus olhos homens de uniforme e M16 a distribuir comida e medicamentos; porque viram com os seus olhos agentes paramilitares misturados com observadores independentes. Para os EUA é o vale tudo; porque não haveria de valer tudo para os iraquianos? Assim morreu Sérgio Viera de Mello, tal qual como continuam a morrer soldados e civis de todas as nacionalidades, no Iraque.

Só quem não quer não vê que a situação está completamente fora de controlo, e não é difícil imaginar o caos que se seguirá a uma retirada das tropas norte-americanas. Será o que tiver de ser. É no que dá brincar com a História.
Torna-se dolorosamente evidente que os EUA não compreendem o mundo islâmico, mas há mais; é agora mais óbvio que nunca o estado de embriaguez em que Washington se encontrava quando avançou para Bagdad. E a ressaca começa a ser insuportável.

Do outro lado da moeda, temos a Palestina. Tendo em consideração que os pseudoestrategos de Arlington e de Washington fazem passar por Bagdad o caminho para Jerusalém, nada de bom se pressagia.
Os israelitas já devem ter explicado mil vezes aos norte-americanos como resolver a situação no Iraque, mas não estou a ver o exército dos EUA a seguir as tácticas de choque do Tsahal. Para conseguir o que Israel consegue na Palestina, os norte-americanos teriam de ir para além dos hamlets e assumir a ocupação como conquista; negar a independência ao Iraque; estabelecer uma complexa e dispendiosa rede de bases militares no país; colocar meio milhão de homens no terreno; e, sobretudo, considerar o Iraque como território norte-americano, explicando isto tudo à sua opinião pública. Nada disto vai acontecer. Começou a contagem decrescente para a retirada norte-americana do Iraque. Resta saber se ocorrerá antes, durante ou após 2004. E o que deixará para trás.

Como no Vietname, o desespero de Washington vem de nada valer o seu poderio militar contra um inimigo fantasma. O sonho do comando militar norte-americano é que os guerrilheiros se juntem todos no meio do deserto para poder acabar com eles do ar.
O seu pesadelo é que isso só acontecerá... em sonhos.

Rui Semblano
Porto, 29/30 de Outubro de 2003

nota:
Sobre o título desta entrada:
"Hold them and I'll kill them with airpower.
Give me somebody to bomb and I'll win."

Major General James Hollingsworth, Senior U.S. Adviser,
ARVN III Corps, April, 1972
"Eu elimino-os do ar se os aguentarem.
Dêem-me alvos para bombardear e vencerei."

Major General James Hollingsworth, Conselheiro Militar norte-americano,
III Corpo do Exército da República do Vietname, Abril, 1972

nota2:
Ver entradas "Triomacabre" 1, 2 e 3, n'A Sombra.
Primeira entrada da trilogia macabra AQUI.
(Links para a trilogia em cada uma das suas entradas)

Um livro aberto vs. Televendas


Interrompo a arrumação do meu escritório (sim, ainda dura...) para registar esta curiosidade:

Ao passar perto da sala de estar, chegou-me a voz do Mestre. Olhei o relógio. Eram duas e trinta da manhã. Não pode ser. A essa hora, já para não dizer a todas, não vejo televisão, mas deixei-a ligada depois do telejornal, pelo que verifiquei, entrando na divisão, que se tratava, de facto, do "livro" aberto por Francisco José Viegas (FJV). Lá estava, entre os convidados, uma blogger: Teresa Corujo (espero não ter confundido o nome do seu blog).

Ao terminar mais um programa, FJV deseja boa noite e assegura que já sabemos que ali encontraremos sempre livros, quando nos outros canais estiver a passar uma telenovela ou um concurso.

Caro FJV, a esta hora, mesmo que a concorrência só passe Televendas, quem vê o seu programa?...
Estamos condenados a ter programas culturais para alguns; sim porque a esta hora, praticamente, só quem não trabalha cedo ou quem se está a borrifar para livros vê televisão. E o pior é que o primeiro conjunto se integra quase totalmente no segundo.

nota:
Como quase não vejo a televisão portuguesa, à excepção das notícias (e mesmo essas...), nem me tinha apercebido do horário do programa de FJV, na RTP 1.

Mobiliário de Autor


O Divã de Portugal é um blog colectivo que, entre outras coisas, comenta a Sétima Arte. Escrito por amantes do cinema (e da BD, e de...), é já um ponto de paragem nas nossas viagens pela Blogosfera lusitana.

Ao Pedro M., que nos encontrou via Cinema para Indígenas, o que diz bem da sua paixão pelos filmes, agradecemos aqui os simpáticos e-mails que nos enviou e a referência à Sombra e ao CpI, no Divã onde se reclina; um Divã que se encontrará, em breve, no nosso grupo de incontornáveis, encontrando-se desde já, porém, nas nossas Relações Sombrias e, em destaque, no CpI, na secção "in the sphere" dos seus Movie Links. :)

Espero que os bloggers d'O Divã de Portugal continuem a passar bons momentos à Sombra e com os Indígenas, pois nós sempre temos prazer em descansar um pouco no seu Divã. Um forte abraço ao Pedro M. e companhia.

Pel'A Sombra,
RS

O blog do Método


O blog Método Eleitoral, que agrega muitas das entradas de diversos bloggers que discutiram este tema na Blogosfera lusa, encontra-se já bem recheado. O trabalho do Francisco Mexia Alves, do Blog sem nome, é um exemplo de como todos nós (e não apenas alguns) fazemos a Blogosfera.

As ligações para o Método Eleitoral encontram-se activas aqui (em Blog Links) como em todos os blogs com ligações que têm origem n'A Sombra.

Ao Francisco, uma vez mais, os nossos parabéns por um trabalho bem feito. Um abraço,
RS

nota:
As entradas colocadas no Método Eleitoral respeitam a sua ordem de publicação original, de onde se deve "descer", passando as entradas iniciais do Francisco, para visualizar as mesmas.

terça-feira, outubro 28, 2003

Fresh news...


Ao arrumar os jornais do escritório, em casa, deparo-me com esta:

"GNR só deverá ir para o Iraque em Setembro"
in Público, primeira página, 24Jul2003

Estava mesmo a precisar de arrumar esta barafunda...
Hoje não há mais entradas para ninguém... :)

(ver entrada "Give me somebody to bomb and I'll win", n'A Sombra.

Tarantino à sombra


Esta foi de palmatória!
Valeu-me o Nuno (nuno1001@clix.pt), que me alertou para o facto de Tarantino não ter nenhum "e", nos comentários da entrada relativa a Kill Bill - vol. 1, no Cinema para Indígenas! E se n' A Sombra o erro se repetiu várias vezes (já está corrigido) imaginem no CpI!! Gracias, Nuno.

:)

nota:
Como escrevi na resposta ao comentário do Nuno, "write it like you spell it and that's what you get..." - a propósito, veja-se a entrada "Errare humanum est...", n'A Sombra - a publicar.

Zero


Um dos principais inconvenientes dos leitores de DVD é a sua limitação à Zona 2, impossibilitando a leitura de discos comercializados, por exemplo, nos EUA, o equivalente à dificuldade dos leitores de VHS comercializados na Europa com o sistema NTSC dos vídeos norte-americanos.
As grandes marcas optam por vender aparelhos limitados ao código da zona onde são comercializados (a Sony, por exemplo, beneficia de a Zona 2 ser a mesma para Europa e Japão), mas existem pequenas jóias que podem fazer as delícias dos cinéfilos, sobretudo os poliglotas, em especial agora que a compra de produtos audiovisuais se popularizou na Internet, possibilitando a compra de discos vindos de qualquer parte do mundo.

Uma dessas jóias é o Roadstar DVD-2501X.
Desde o photo CD ao Super VCD, do mp3 ao CD audio, do VCD ao... DivX. É verdade. Lê formato DivX em CDR ou CDRW e com legendas! Todas as edições em mpeg4, como os CD's interactivos da CinéLive, por exemplo, se conseguem ler, inclusive com acesso aos conteúdos por menu!
Quanto ao DVD, bom, Zona Zero - isto é, lê qualquer edição de DVD. Além disto tudo, é compatível com os sistemas PAL e NTSC, naturalmente, e possui ligações completas para vários tipos de hardware audio e vídeo.

Claro que quase nada disto é anunciado pelos vendedores, pois uma máquina capaz de tudo isto custa muito dinheirinho e esta custa... 119,00 €. Incrível. Ilegal? Nem por isso. O desbloqueamento e o software que faz o upgrade da máquina encontram-se disponíveis no site da própria Roadstar!

Ok. Vão lá ver se encontram um. :)

Duas surpresas


Eu bem tento, mas desde que a FNAC está na baixa do Porto as possibilidades de me "desgraçar" aumentaram desmesuradamente... Quando tinha de ir a Matosinhos, de propósito, ainda dava para controlar a coisa, mas ter uma FNAC num local onde passo quase todos os dias é "terrível". É como um magneto! Num minuto estou a passar na Santa Catarina ou em Passos Manuel e noutro encontro-me no piso inferior da loja, no meio dos CD's, dos DVD's e dos livros - e não faço ideia do que sucedeu entre esses dois minutos! É como um buraco negro!

Hoje (25Out2003) aguardavam-me duas surpresas.

A primeira:
Em busca (sempre) da versão completa de Shichinin no Samurai (Os sete Samurai), de Akira Kurosawa (207 minutos de filme), deparo-me com um pack com apresentação de Francis Ford Coppola que há muito desejava ter. Koyaanisqatsi e Powaqqatsi. A primeira e segunda partes da trilogia Qatsi de Godfrey Reggio. (Exemplar único, na altura, e Zona 1 - sem legendas em português) Foi-me apresentada por alguém especial, numa dimensão fora deste Espaço e deste Tempo. A oportunidade era imperdível. Naqoyqatsi, a última parte, será publicada em breve. Sorri. Outra coisa ficaria por conseguir: a bela banda sonora de Bend it like Beckham, que tive de encomendar do circuito de importação. Entre outras coisas: Nusrat Fateh Ali Khan, Malkit Singh, Hans Raj Hans, Bally Sagoo e uma versão interessante de Nessun Dorma, de Turandot, por Tito Beltran. Chouette! Apesar de o Kazaa me ter proporcionado todos estes temas, sempre preferi adquirir os originais - ou não fosse eu um autor.

A segunda:
Luís Filipe Menezes.
Ao vivo, no Forum, para falar sobre o seu livro "Sulista, elitista e liberal q.b.".
Luís Filipe Menezes é o presidente da Câmara da cidade onde vivo e, também por isso, desperta em mim sentimentos contraditórios.
Capaz das atitudes mais descabidas como das mais nobres, é o mais próximo que conheço do adversário político perfeito (não existem políticos perfeitos). Vencer Menezes, lealmente, é sinónimo de excelência.
Por um lado, sinto admiração por quem, apesar de político, fala o que sente e o que sente tem de ser dito; por outro, sinto alguma tristeza por iniciativas tomadas na zona metropolitana de Gaia (a desgraça que foi a intervenção no Mosteiro da Serra do Pilar; o corte da marginal Gaia-Espinho junto da Casa Branca; o desaproveitamento da ponte D. Luís I em favor, exclusivamente, do metro; a inauguração da ponte das Fontaínhas à sorte...). Será ele o genuíno "fundamentalista-moderado"? Ainda hoje não sei o que o faz correr, apenas o adivinho, mas continuo a seguir o seu percurso com interesse e continuarei a segui-lo até à minha cidade berço - o seu destino iniludível.

Gosto de o ouvir. De o ouvir dizer que as mulheres devem conquistar o seu lugar na política a pulso e por mérito, no lugar de o encontrar à sua espera na bandeja das quotas; de o ouvir dizer que as juventudes partidárias já ultrapassaram o seu tempo útil de vida, sendo hoje viveiros de pequenos políticos profissionais, que o são com vinte aninhos apenas, para se tornarem inteiramente politico-dependentes aos trinta, capazes de qualquer coisa para evitar a saída da cena política, emparedados em vida nos respectivos aparelhos partidários; de o ouvir dizer que o TGV é um erro crasso, pois a nível nacional não se justificam gastos de 700 e 200 milhões do nosso dinheiro para chegar mais cedo, respectivamente, 28 minutos ao Porto ou a Lisboa, partindo de uma ou de outra cidade, e 12 minutos a Vigo, partindo do Porto; de o ouvir dizer que a si se deve a presidência de Rui Rio. Gosto.

Luís Filipe Menezes está longe de ser o político perfeito, mas bem mais perto de conseguir os seus objectivos do que aparenta - sejam eles quais forem, sei que não excluem a vida pública, pois reconheço um "animal político" quando vejo um.

Rui Semblano
25 de Outubro de 2003

segunda-feira, outubro 27, 2003

A sombra de Tarantino


Kill Bill deveria ser um só filme.
Tarantino devia ter mantido a sua intenção original, a do tal épico de três horas e meia, mas suponho que a junção da falta de paciência das produtoras pelos filmes com mais de hora e meia com a necessidade de realizar capital ainda este ano de Tarantino falaram mais alto. Infelizmente.

Ao factor económico, de facto, parece ficar a dever-se a decisão da redução de uma película como Kill Bill em dois volumes. Dois filmes rendem mais que um, sobretudo quando a expectativa é grande.
Assim se vende - e se diminui - a arte.

A entrada correspondente a Kill Bill - vol. 1 já está publicada no Cinema para Indígenas, como sempre acontece quando vejo um filme, mas o tema é retomado aqui, onde o cinema também é motivo de reflexão, embora noutro contexto. Neste caso, o mote é o próprio Tarantino.
Conheci-o graças ao Fantasporto, numa época em que ninguém sabia quem era "aquele maluco genial", por via daquela que é, para mim, a sua obra-prima (em todos os sentidos): Reservoir Dogs. A partir de então, Quentin Tarantino permaneceu na minha lista de "obrigatórios", mesmo quando não chega onde eu gostaria - como nos casos das participações em Four Rooms e From Dusk till Dawn.

Aparentemente, pois é impossível analisar decentemente Kill Bill apenas com o volume 1 visto, Tarantino filma dentro do seu cérebro, a começar com o estafado "provérbio klingon" e a acabar no recurso Stoniano à animação, no caso a Anime, passando pelos "seus" ícones pop - e digo "seus" por serem mesmo dele, não dos personagens - mas estas opiniões pecam por não ter visto o filme todo... E não se pense que o volume 1 de Kill Bill é cinematograficamente comparável a The Matrix ou a The Brotherhood of the Ring! Não se trata de uma primeira parte, mas antes de um filme cortado a meio. E esse pormenor mata o volume 1 de Kill Bill.

Aliás, o resultado deste meio filme, se não for visionado sob a influência de estupefacientes, é uma amálgama de flashes a que a divisão por títulos à Tarantino (e, sobretudo, não só) acrescenta tanto como uma legenda identificadora da passagem da ingestão de um estimulante sintético a outro. Inglória, ineficaz e desnecessária.

Portanto, sem o benefício da visualização do volume 2 de Kill Bill, a sair em 2004, qualquer análise ao volume 1 que o classifique de mais que normal (até banal) se torna escrava da predilecção de quem a faz por Tarantino. Eu gosto imenso do seu género de realização, mas não caio nessa asneira.

Reservo a minha análise de Kill Bill para a altura em que dispuser dos dois volumes em DVD e puder vê-los como aquilo que são: um só filme. Mas Tarantino não quis assim, provocando a desilusão que tive, como se a fita se tivesse partido a meio da projecção.

O que penso de Kill Bill?
Quando o projeccionista resolver o problema e retomar a passagem do filme logo se vê. Até então, do que vi, a expectativa não foi sequer atingida, quanto mais superada. "O melhor filme de acção de todos os tempos"? Veremos, assim se complete a projecção. Para já, porém, não me parece. Bem longe disso.

nota:
Até a punch line do filme é uma anedota...
"In the year 2003, Uma Thurman will kill Bill"?
I don't think so...

domingo, outubro 26, 2003

Trilogia da vida


Desequilíbrio, transformação e guerra.
É uma sugestão. Para os adeptos da globalização neoliberal como para os globalizadores alternativos. Ambos beneficiarão de uma visualização atenta.

The QATSI trilogy:

Koyaanisqatsi . Life out of balance
Powaqqatsi . Life in transformation
Naqoyqatsi . Life as war

de Godfrey Reggio

nota:
Os DVD's das partes 1 e 2 já se encontram disponíveis. (Zona 1)
A terceira parte será editada em Novembro, com legendas em português. (Zona 2)

(ver entrada "Duas surpresas")