segunda-feira, fevereiro 20, 2006

A Arte da Guerra.




No próximo dia 19 de Março completam-se três anos sobre o início da guerra do Iraque.
A partir de então, A Sombra fará um flashback diário, tendo como base o primeiro caderno do meu "Illegal War Journal",
de 19 de Março a 9 de Abril de 2003.
Porque recordar como tudo começou é preciso.


Entretanto, vejamos porque razão
os EUA perderam a guerra do Iraque.





Entrada completa, abaixo. Posted by Picasa



"Escrevia Li Ch'uan, em 'Anais da Primavera e do Outono':
'A guerra é igual ao fogo. Aqueles que não mais querem depor as armas, acabarão por elas consumidos.'
Assim, quem for incapaz de entender os perigos inerentes ao emprego de tropas, é igualmente incapaz de entender as formas de as empregar vantajosamente."

Sun-Tzu, in A Arte da Guerra



1.
Comecemos pelo mobile.
Hoje, quando o próprio G. W. Bush admite ter iniciado a guerra no Iraque com base em várias mentiras, é evidente que se tratou de executar um ponto mais da estratégia neoconservadora delineada no tempo da presidência de seu pai, pelos que hoje ocupam destacados lugares na administração norte-americana.
A desculpa (sem aspas) proporcionada pelo 11 de Setembro de 2001, não foi perfeita. Saddam Hussein e Osama Ben Laden eram tudo menos aliados, nunca amigos, e a relação do Iraque com o ataque ao WTC só resultou por serem os EUA um país onde o cidadão comum não hesita em apontar a Austrália no mapa como sendo o Iraque ou a Coreia do Norte.
Agora, por incrível que pareça, um presidente responsável por iniciar uma guerra sem razão válida alguma permanece incólume no poder, onde ontem foi deposto outro por ter um caso com uma estagiária...
Shit really happens.

2.
O falhanço inicial no envolvimento da comunidade internacional neste conflito deriva do ponto anterior - não somos todos parvos, mas nem é esse o caso.
Nunca é de mais repetir que o catalisador da invasão do Iraque foi a ousadia de Saddam Hussein ao pretender indexar o petróleo iraquiano ao euro, tornando o dólar tão importante como a libra. Foram mais as frustrações europeias por este facto eminente não consumado do que uma visão mais esclarecida do problema, o que levou a então chamada "Velha Europa" a não aderir à invasão.
Uma vez iniciado o conflito, porém, não custou muito envolver a ONU, pois do ponto de vista humanitário era de esperar que esta não ficasse de braços cruzados. Não ironicamente, o facto que mais contribuiu para esse envolvimento foi a morte de Sérgio Vieira de Mello, no próprio Iraque.
Humanitarismos à parte, são os EUA e, em medida menor, o Reino Unido que tentam controlar ao máximo a intervenção no Iraque, tornando-se mais claro o porquê disso à luz do conhecimento existente sobre os lucros directos e indirectos com a ocupação.

3.
Militarmente, o maior erro dos EUA foi o desmantelamento da estrutura militar e de segurança iraquiana. É um erro tão crasso que só pode ter sido cometido propositadamente, para aumentar o caos e prolongar o conflito - de outro modo, teremos de acreditar que as chefias militares dos EUA estão entregues a perfeitos idiotas, o que não acredito.
A este "erro" se seguiram muitos outros, desde o ignorar ou desprezar dos mecanismos e composição da sociedade iraquiana à tentativa de "importação" de exilados notórios, como Ahmad Chalabi (entretanto caído em desgraça), para posições chave das novas cúpulas do pseudo-poder iraquiano.
A ocupação efectiva do Iraque só seria possível recorrendo a um número muitíssimo maior de tropas estrangeiras no terreno. Impossível, mas ainda que o não fosse, ocupar efectivamente o Iraque não levaria a lado algum e seria, demais, uma situação também impossível de manter.

4.
O Iraque está pronto para a sua guerra civil.
Ela terá de acontecer - é inevitável. O Irão (e a Arábia Saudita, não se esqueçam) terá interesse em apoiar os extremistas shiitas e o "Ocidente" apoiará quem lhes fizer frente. Passará um período terrível e um pós-guerra que poderá ser perverso e penoso (como sucedeu em Espanha, por exemplo), mas esse é um problema iraquiano.
A tentativa "ocidental" (mesmo "ocidentalizante") de evitar tal descalabro, não tem por base motivos nobres ou altruístas - é o petróleo que move tais acções, junto com mais uns poucos interesses económicos, relativamente insignificantes.
Com a intervenção no Iraque, tudo o que se conseguiu foi pará-lo no tempo. Enquanto o impasse se mantiver (à custa do sangue de todos os envolvidos) não haverá mudança alguma.

5.
No calor do disparatado "Missão cumprida!" de G. W. Bush, era já público e notório que os EUA nunca permitiriam no Iraque o que agora sucedeu na Palestina: a chegada ao poder de uma organização islâmica radical (no caso shiita) via eleições livres.
O único desígnio da suposta "distribuição" do poder pelas diversas componentes sociais iraquianas (shiitas, sunitas e kurdas) só tem este objectivo.
Esta exportação de valores à baioneta está patente em todas as acções dos EUA e da GB no Iraque e está condenada ao fracasso. Mas se o público, especialmente o norte-americano, pode ser acusado de desconhecimento ou ignorância, o mesmo não é válido para os respectivos governos, que sabem muito bem o que fazem e porquê.
Washington e Londres sabem exactamente onde estão metidos, mas a parte da equação que lhes garantiria a continuidade desta política foi mal definida; não se trata de uma constante, mas de uma variável.
Essa variação começou há muito a ser-lhes desfavorável e, em breve, tornará o lucro da operação inferior ao prejuízo. Nesse dia, abandonarão o Iraque à sua sorte.

Conclusão:

Para que a guerra no Iraque fosse ganha, seriam necessários mais apoios internacionais, mais tropas, mais dinheiro e mais apoio interno (em especial da opinião pública). Não existe a mínima esperança de que os EUA e a GB consigam uma só dessas condições.
Por consequência, a guerra no Iraque está perdida.

Rui Semblano


nota:
Sim, existe a filosofia de que o Islão pretende destruir a Europa e tudo o que representa e subjugá-la. Se pretendermos tal doutrina como prova suficiente, real casus belli, então não existe outra alternativa que a de fazer a guerra, subjugar ou destruir 1.3 biliões de pessoas. É a única maneira de ter a certeza de preservar a nossa identidade, caso o Islão pretenda, de facto, destruir-nos.
É esse o caminho?
Boa noite e boa sorte...

2 comentários:

  1. Excelente análise.
    Só se esqueceu de dizer que o ignóbil Bush, par além de não ter sido deposto, ainda foi sufragado nas urnas para mais um mandato.
    Enfim…

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  2. PiresF:
    Pois foi. Mas não era a vez de J. F. Kerry. Agora veremos se Hillary Rodham lá vai (de Clinton não tem tanto como parece - aliás o marido é que devia chamar-se Bill Rodham).

    Até mais,
    RS

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