quinta-feira, setembro 18, 2003

Free at last


Verificamos com agrado que o Tolentino transferiu o link d'A Sombra da sua lista geral de links para o que denomina por "Zona Libertada", onde ele próprio se inclui.

Ora aqui está um exemplo de como, sem rótulos, se pode classificar a nossa atitude face à vida e, necessariamente, à blogosfera, por oposição aos que tantas etiquetas e carimbos teimaram em nos colocar... sem êxito.

nota:
O Nicolau, julgo que por opção, não disponibiliza o identificador de cada entrada que faz, pelo que não nos é possível direccionar os interessados para aquela a que nos referimos, neste caso publicada a 18Set2003, com o título "À sombra da sombra".

quarta-feira, setembro 17, 2003

Ídolos


A propósito do artigo de Joaquim Fidalgo, no Público de hoje,
intitulado "Ah!, Valentes...":

1.
Uma vez perguntaram-me quem eram os meus ídolos.
Assim, de repente, talvez o Lancelot, talvez o Ajax... - respondi, que nunca tive dos de carne e osso. Olharam-me como se fosse um extraterrestre e revidaram: O Lancelot é um clube inglês?

2.
Hoje, por acaso, encontrei o Joaquim Castro Caldas num café onde param Siza Vieira e Gustavo Bastos (que também lá encontrei e me atirou um isqueiro aceso em resposta à minha mão estendida!). Nem de propósito, pois ainda hoje o referi aqui, por falar em poesia.
Digo-lhe para se sentar e tomar um café comigo, ao que ele sorri, respondendo que, certa vez, em Paris, Samuel Beckett fez-lhe idêntico convite.
Eu não sou o Beckett, mas o Joaquim será sempre o Joaquim.
(E, desta vez, talvez o vá ver ao "Maus Hábitos", no Porto, dia 23)

RTS

(*)

Não metapolemizemos, Fab. :)
Mas quase te via escondido, prestes a saltar! Assim como à espera que acabasse de o fazer para atacar. Daqui não levas nada (lol) - se é uma batalha virtual o que procuras, tenta aqui.

Estou certo que encontrarás no "periférico sem fios" descrito pelo Pessimista um adversário à altura. Quanto a mim, vou descansar.

À demain.

(*) RTS, Real Time Strategy - Estratégia em Tempo Real

Bendito Tolentino


Já há muito não me acontecia ficar agarrado a um blog e como este, embora de outra forma, só mesmo "O meu Pipi". O Tolentino fez a gentileza de colocar o link para A Sombra entre os que constam da sua longa lista; como prometido, preparava-me para retribuir a gentileza em sede própria, para já, quando comecei a ler.

Mas o que eu fui fazer!
O que me valeu foi ser o Nicolau um recém-nascido em termos blogosféricos, apesar dos seus vetustos 263 anitos; caso fosse mais velhinho neste campo, ainda lá estaria a esta hora, em vez de estar aqui a escrever que decidi, após óptimos momentos lá passados, colocar o Tolentino na nossa lista permanente de Blog Links, aqui ao lado.

Um abraço de boas vindas ao Nicolau Tolentino!
A blogosfera satírica entra em outra dimensão!

nota:
Sempre desejei escrever sobre um pintor português do século XVIII!
Obrigado, Nicolau.

nota2:
Claro que tudo isto pode ser para evitar que o Tolentino caia sobre A Sombra com a sua pena afiada, mas, como sei que o faria de qualquer modo, optei pela fórmula habitual: dizer o que penso. ;)

Lucky Luke


O Pedro Mexia entendeu dar uma resposta à minha entrada "Assobios", ao fazer uma nova ronda pelos blogs que comentaram a sua decisão de alterar o rumo do seu Dicionário.

O modo como escolheu responder demonstra que, afinal, o "Diabo" permanece, o que, junto com a promessa de "diabruras" condignas no novo formato do seu blog, parece indicar que existirá "vida para além da morte" do Dicionário a que estava habituado. Continuo a lamentar a decisão do Pedro, pois se tudo é política, falar de política ela mesma continua a ser um dos temas que apaixona a blogosfera, como oposto à apatia do "mundo exterior". Nesse sentido, reafirmo que estamos perante uma perda.

Nunca li o "outro" Pedro Mexia, embora seja apaixonado pela poesia.
Fica a promessa de o fazer em breve, pois não é sempre que se dispõe de um meio assim para se conhecer alguém um pouco melhor. Mas, se o tivesse lido antes, teria sido mais ou menos incisivo com ele?
Do pouco que o conheço, reconheço uma das características do poeta: a paixão. Nesse aspecto, seremos mais parecidos do que eu próprio julgo. Desse parco conhecimento, porém, me pareceu claro que a minha abordagem dos seus textos não seria interpretada como insultuosa, mas sim como conflituosa. Penso que foi assim.

(A julgar pelo calibre de algumas das suas entradas, Pedro, convirá que, sendo eu como sou, não poderia ser de outra forma.)

A sua resposta, por si, não valeria uma radical mudança de atitude da minha parte, embora valha o meu reconhecimento da dignidade do Pedro, mas existirá algo mais, talvez. Existirá uma mudança que confirma a regra que apontei na entrada a que Mexia respondeu, que fala de "primeiras impressões". Essa mudança encontrar-se-á, porventura, num texto "muito longo, sim" que o Pedro publicou há pouco, motivado pelo passar de onze meses sobre o fecho da Coluna Infame.

Nesse texto se encontra um pouco do "Diabo" que Mexia quer mudar, mas em vão. E é nele que encontro um bom pretexto para lhe colocar um epíteto novo, demitindo o de "demissionário". Tem ele a ver com uma característica que aqui lhe atribuí há tempos: a de fazer "click" em "publish" muito rápido.

A partir de hoje, n'A Sombra, O Dicionário do Diabo tem uma nova qualificação nos nossos Blog Links. Um caso típico de epítropia! :)

Ao "Diabo" (que, afinal, parece não será nunca um "diabito") envio um abraço desde A Sombra, assegurando-lhe que de mim nunca merecerá nada abaixo de "embirração", pois não o merece.
A ser assim, já há muito teria deixado de o ler.

Rui Semblano
Vila Nova de Gaia, 17 de Setembro de 2003

Os Vizinhos


A chegada do Barnabé à Blogosfera tem merecido a atenção de variados blogs e, agora, merece a nossa, já iniciada com a entrada de Fabien, mais abaixo. Avessos que somos a contagens de espingardas ("canhotas" ou "direitas"), aqui deixamos um abraço de boas vindas (embora tardio) aos "Barnabés". Em boa hora - e não por serem assumidamente "de esquerda", mas pela mais valia que, do pouco que conhecemos, trarão a este universo; pelo que trarão de enriquecedor, no sentido lato de liberal.

E agora, a minha primeira "turra" (em "linguagem felina"):

Não direi os "Barnabés", embora seja natural, do que conheço deles, assumir que partilham a mesma opinião, mas pelo menos o Daniel Oliveira advoga o equilíbrio da política internacional apoiado em outros meios que os militares (ver "Europa, uma potência?", no Barnabé).

Estou plenamente de acordo que assim deveria ser.
A diplomacia deverá encarregar-se de repor o equilíbrio e a ordem no sistema político mundial. Além de refrear os ímpetos pseudo-imperialistas de algumas nações (os EUA são o caso mais flagrante e preocupante, mas existem candidatos a "mini-imperadores" em quase todos os cantos da Terra), a diplomacia deve impor o respeito pelo Direito internacional e arbitrar e julgar as inevitáveis tendências desviantes da globalização, eliminando o "Neo" e retomando o "liberalismo" no verdadeiro sentido, retirando o excessivo interesse de alguns em favorecer os países ricos, que sempre irão lucrar mais do que os pobres - numa fase inicial - com qualquer modelo de globalização. Entre muitas outras coisas, a diplomacia deverá solucionar estes conflitos de interesses, interferindo nos respectivos processos, seja qual for o campo em que se desenrolem.

Os problemas encontrados pela diplomacia nestas áreas, e ao falar em diplomacia a este nível é da ONU que falamos, estão nas acções que dela são exigidas e que atrás menciono, com destaque para as de "repor", "refrear" e "impor".
Isto porque o ser-humano é muito mais que imperfeito; é torpe, mesquinho, egoísta e, sobretudo, essencialmente malévolo. É esta a nossa natureza - e, desde logo, a minha e a dos "Barnabés", por mais que a reneguem com o máximo de sinceridade, afirmando a sua civilidade e bom senso. Tretas.
Nas condições certas, qualquer ser-humano é tentado a ser Deus.

O que nos impede de sermos assim, todos terríveis, uns para os outros?
A educação, em primeiro lugar, quando é bem dada, pois aqui ou nos confins da Galáxia, religiões à parte, deve ser baseada no respeito pelo outro como condição de se ser respeitado. Mas as educações variam (e "avariam") e, ainda que todos fossemos bem formados, os "feitios" também. Não existem duas personalidades iguais, mas existe um mínimo denominador comum a todos os seres-humanos: o egoísmo. No outro extremo, já não comum a todos, encontrar-se-á o amor, talvez.

Em condições normais, do quotidiano, o que impede o meu vizinho de colocar o seu lixo à minha porta? Duas coisas: a sua boa educação e, no caso desta não existir, a minha "cara de poucos amigos" (as pessoas acham que tenho "cara de poucos amigos"... é a minha sina).
Um vizinho meu poderá ser muito mal educado, mas quando olha para a minha porta, com o saco do lixo na mão, e se recorda da minha cara e do que ela pode significar, pensará que o melhor será dar mais uns passos e colocar o lixo no seu devido lugar.
O mundo é feito de vizinhos; uns bem educados, outros nem por isso. Aos bem educados serve a diplomacia, aos que não o são, não.

Nada nos garante, aliás, que um vizinho outrora civilizado mude de atitude, transformando-se num meliante - e pouco importa se foi por causa da esposa, do patrão ou de outro vizinho - se o deixarem, ele vai infernizar a vida dos que nele depositaram a sua confiança, anteriormente. Se sentir que o pode fazer, passará por cima de tudo e todos para conseguir o que quer (seja lá o que isso for) e melhor o conseguirá se puder abusar dessa confiança dos tempos de "bom vizinho".

Existem muitos "maus vizinhos" neste mundo. Sempre existiram. Neste momento, o pior de todos eles chama-se Estados Unidos da América. E é o pior porque tem todas as razões e os meios para ser o melhor vizinho de sempre, mas usa-as de forma menor, transformando-as em instrumentos de discórdia e deixando-se embriagar pela soberba. A humildade nada acrescenta aos fracos, pois é sua condição. Apenas aos fortes ela assenta como o coroar da magnanimidade e da sabedoria.

O Daniel Oliveira parece-me ser um verdadeiro pacifista, no sentido que uma vez o Adeodato se referiu a mim. Não o sou. Manifestei-me publicamente contra a invasão do Iraque (quem sabe ao lado do Daniel), mas não contra "a guerra". Compreendo e respeito a atitude, mas nela residem perigos graves e, por isso, não a defendo. Porque ser contra a guerra, em si mesma, implica ser contra os exércitos, contra o serviço militar, contra o investimento na Defesa (que, n'A Sombra, sempre será apenas e só a Defesa), contra todo o tipo de violência, seja porque motivo for. Talvez a diferença entre a postura de um verdadeiro pacifista e a minha seja que ele vê em Ghandi a libertação da Índia e eu vejo a criação do Paquistão.

O ser-humano não é um anjo azul, nem cor de rosa. O ser-humano é um demónio negro mal contido por uma ou duas (por vezes três) camadas de envernizada civilidade. Confrontados com a morte, com a oportunidade de subir na vida (seja de que modo for) ou, de um modo geral, com uma situação limite em que se tem de escolher entre "eu" ou "o outro", principalmente se este outro for anónimo, poucos seres-humanos revelam... humanidade.
O 11 de Setembro de 2001 revelou o que de melhor existe em nós, através do sacrifício dos que deram a vida tentando salvar completos desconhecidos, mas temos que ser realistas. Foi uma excepção, como o foram outras poucas, no meio do turbilhão de egoísmo e barbaridade que antecedeu e que se seguiu a esse momento.

Imaginemos isto:
Que os EUA não têm ambições imperiais; que não querem a supremacia económica e financeira; que as suas forças armadas são apenas razoáveis e aptas à sua defesa ou nem isso; que são os primeiros a apoiar a ONU e a defender o Direito internacional; que ratificaram Kyoto e o TPI e implementam ambos mais a não proliferação de armas nucleares.
Imaginemos agora:
Que o presidente "desses" Estados Unidos pede a Israel para alterar a política que vem seguindo para os territórios ocupados desde 1967 e regresse às suas fronteiras como definido pela ONU.
E, nesse caso, não precisamos de imaginar:
O Knesset em peso a rir à gargalhada durante semanas...

Dada a natureza humana, a diplomacia será sempre apoiada em relações de força - económica e militar (garante da primeira, não esqueçamos).
Pensar o contrário é compreensível, é um desejo bonito, é sinónimo de tolerância e maturidade moral, é simpático... e é irresponsavelmente perigoso.

Durante as conferências que decorreram este ano na Cooperativa Árvore, sob o título "O desconserto no Mundo", tive oportunidade de confrontar o professor Adriano Moreira (15Mai2003) com uma questão que agora escolho para fazer ao Daniel Oliveira (e a outros dos "Barnabés" que queiram responder-lhe, naturalmente):

Acha bem que sejam os EUA, ou qualquer outro terceiro, a garantir a segurança da União Europeia? Não acha que a União Europeia deveria ser capaz de se defender sem depender de terceiros? E continuando a depender de terceiros para esse fim, não acha que não faz sentido falar de soberanias dos Estados da UE, que tendem para a soberania da própria UE nas suas questões internas?

Após receber notícias do Barnabé, revelarei as mesmas junto com a resposta que mereceram de Adriano Moreira.

Ao Daniel e a todos no Barnabé um abraço.

Pel'A Sombra,
Rui Semblano


nota:
A entrada de Fabien, que menciono acima, peca por excessiva paixão, um defeito que revela na análise dos textos ditos "de esquerda" e que em mim se revela mais na análise dos ditos "de direita" (que o diga o Pedro Mexia...).
Foi, no entanto, graças a ela que descobri o Barnabé e a entrada que ele refere e que motivou esta da minha parte. (Espero não iniciar uma nova metapolémica sombria com FJ)...

terça-feira, setembro 16, 2003

Novidade


Ao longo da existência d'A Sombra, temos merecido a atenção de outros blogs que, infelizmente, ainda não exploramos o suficiente. Também temos referido blogs que mereceram a nossa atenção, mas não o suficiente para destronar algum dos que constam na nossa lista de Blog Links permanentes.
(à direita)

Uma vez que a reciprocidade, embora simpática, não diz nem com qualidade nem com conhecimento, dois factores essenciais à colocação de um novo link na nossa lista de permanentes, o facto de nos colocarem um link em outro blog não implica (nem implicará) um gesto idêntico da nossa parte.

Dada a apertada grelha dos nossos links permanentes (onde não entra mesmo toda a gente) foi criada uma página onde estão listados todos os blogs que, de algum modo, estão relacionados com A Sombra, independentemente dos seus outros méritos (ou deméritos). Para nós é útil; para os que nos visitam pode ter interesse; para os que nos referenciam será uma forma de retribuição, sem alterar o nosso código de conduta na blogosfera.

O link para esta página encontra-se em último lugar na nossa lista permanente de Blog Links, com a denominação "Relações Sombrias" - umas boas outras nem tanto, mas todas relativas à Sombra.

nota:
Dado o trabalho que esta novidade deu, não colocarei mais entradas n'A Sombra, esta noite; mas durante o dia de hoje haverá tempo para isso.
Bem mais logo. :)
Boa noite a todos.

segunda-feira, setembro 15, 2003

Refutações augustas


Já esperava que, um dia, me chamassem de "direita", mas não estava à espera que lhe adicionassem "extrema", nem tão pouco que o fizessem nas páginas de um jornal, no caso o Público.

--- quote ---

Seria ingénuo inferir da longevidade de Leni Riefenstahl, que 58 anos sobreviveu ao seu amado Hitler, que as questões extremas que a sua vida e obra suscitaram estivessem apaziguadas. São questões cinematográficas, imagéticas, políticas e talvez sobretudo éticas cruciais - não se lhes pode ser indiferente. E por mim não consigo também ficar indiferente quando verifico que a circunstância da morte é razão de um elogio tão apaixonado e "branqueador" das conexões nazis como a carta de um leitor no PÚBLICO de sexta-feira. E por isso também não posso ficar indiferente a dois textos: o de José Manuel Fernandes no PÚBLICO de quarta-feira e o de João Lopes, no "Diário de Notícias" de ontem. (...)

--- end quote ---


(Augusto M. Seabra in Refutação de Riefenstahl, Público, 14Set2003, p.8)

Caro Augusto M. Seabra,
(Posso tratá-lo assim, não posso? É que não me soa bem chamar-lhe "um colunista do Público" como equivalente ao seu gentil "um leitor (do) Público" com que me identificou no seu artigo)

Antes de mais, costumo estar no seu comprimento de onda, pelo que fiquei desapontado pela forma como escreveu e, sobretudo, intitulou o seu artigo.
Refutar Riefenstahl?
Esperava outra coisa de si, que o refutar de algo que (quase) todos refutam vai para mais de 58 anos. Sim, mais. O Augusto M. Seabra sabe tudo sobre Leni Riefenstahl e como amava o seu Fuehrer, mas escolheu ignorar que o mítico "Triumph des Willens" ganhou uma medalha de ouro na Feira Mundial de Paris de 1937. Claro que os franceses acordaram em 1939 e mais ainda em 1940. Como vê, Leni é refutada vai, pelo menos, para 63 anitos. Mas faltava a sua refutação. Claro.

Recusa-se a comparar televisão a arte cinematográfica?
Faz muito bem. Mas olhe que comparar "Triumph des Willens" ou "Olympia" ao "Big Brother" ou à "Volta a Portugal em bicicleta" não abona muito em favor da sua afirmação.
A sua afirmação de outro génio, Serguei Eisenstein, e a invocação da sua obra máxima (para mim) "Aleksandr Nevski" - feito uns três anos depois de "Triumph des Willens" - como exemplo de... de quê?, só revela que é incapaz de dissociar Arte de política.
A "senhora intentou o embelezamento do mal"? "Do Mal absoluto"? Não devemos estar a falar da mesma Leni Riefenstahl. Aquela de quem eu falo não intentou embelezar o mal. Conseguiu-o. E conseguiu-o de forma superior e absolutamente inatingível.

Um artista, Augusto M. Seabra, não é um político. Em boa verdade, um artista está-se a marimbar para tudo o que não seja a sua arte, mesmo que isso signifique um pacto com o Diabo. Ou entende a Arte como um serviço público? Se assim é, desengane-se. Um artista trabalha para si mesmo. O que busca não é a satisfação dos que observam o seu trabalho, mas a apaziguação - ou a exaltação - dos seus demónios interiores. Veja a Maria Callas, por exemplo, que nunca teria lido uma linha escrita por si sobre ela nos jornais, caso tivesse sido seu contemporâneo e colunista da altura.

A verdadeira arte não tem compaixão por terceiros. Vive. Augusto M. Seabra não gosta de Leni Riefenstahl; é legítimo. Mas que exalte esse desgosto em página inteira no Público é mais complicado. Deveria escolher alvos mortais para as suas crónicas, normalmente bem apanhadas.

É que, francamente, no Olimpo ninguém lê jornais.
Sabia, Augusto?

Rui Semblano
Porto, 14 de Setembro de 2003

nota:
Diz do meu texto que é "apaixonado" e "branqueador". Não está mau. Percebeu metade do que leu. A mim saber qual delas corresponde ao espírito com que o escrevi. A si, se quiser, descobrir a metade que percebeu mal.

(carta enviada ao jornal Público em 15-09-2003)

domingo, setembro 14, 2003

Amadeo 2003


4º Prémio Amadeo de Souza-Cardoso
Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso (MMASC)
Amarante - 13Set2003 a 02Nov2003

Vista a selecção exposta no MMASC, o que pensar?
Em primeiro lugar, dada a qualidade dos trabalhos expostos, que nem tudo vai mal na Arte em Portugal. Podia sempre ser muito pior, pelo que não faz sentido ir por aí. Mas faz sentido fazer algumas perguntas.

Porque motivo nomes como António Drumond, António Quadros Ferreira ou Jaime Isidoro, entre outros, concorrem a este prémio?
Recorda-me a dúvida sentida perante a notícia inicial do DN, que entregava o prémio deste ano a Júlio Pomar. A procura de novos valores é incessante, mas inclui a procura de mais valor em valores já confirmados? Ou não serão eles valiosos que baste?

Que a escultura tenha lugar neste prémio é razoável, mas a fotografia? E a serigrafia? Os processos mecânicos como método de realização artística são considerados ao nível da pintura e da escultura? Em 2005, posso concorrer com uma impressão digital de um trabalho feito em Photoshop? É que não percebo nada de pintura, mas a minha impressora percebe.
(E, sendo assim, em caso de prémio, é ele para mim ou para a Adobe ou para a Hewlett Packard?)

E como é possível que uma obra vencedora, a de Ana Vidigal, seja apresentada com evidentes sinais de deterioração e estrago? A artista sabe? Foi ela que estragou? Foi o museu? Foi por isso que ganhou? Porque já lhe teriam de pagar a peça de qualquer modo?

E como se explica a impressão de apenas 500 exemplares do catálogo da exposição? E como se explica que não esteja um único disponível para consulta, não existindo outro modo de o visitante conhecer os artistas em presença? Tem de comprar o catálogo? Estarão à espera de 500 visitantes? Perdão! 500 não! 140 catálogos são para os artistas (2 a cada), pelo que só 360 felizardos (com possibilidade de dar os 25,00 € que ele custa) conhecerão o percurso dos autores dos trabalhos expostos - partindo do princípio que a organização não oferece nem mais um exemplar a ninguém! Assumo que sou elitista, mas não exageremos!

E quem era aquele pintor cujo nome aparecia junto de um tríptico mas não encontrava correspondência, nem no folheto com os artistas seleccionados, nem no catálogo?

Claro que nem só de aspectos negativos viveu esta inauguração do prémio Amadeo - esteve bem concorrida, Júlio Pomar foi um digno consagrado e a exposição de Amadeos é um gosto de se ver (principalmente os desenhos!) - mas se criticar apenas positivamente ainda acusam A Sombra de querer fazer sombra à memória do Acontece. Além do mais, um Prémio destes merecia melhor tratamento organizativo.

Postas as dúvidas, fica a sugestão:
A visita ao MMASC vale a pena. E um jantar na rua do Covelo, numa das varandas sobre o rio, também.

nota:
O tríptico que menciono acima é do meu amigo que foi seleccionado, e a organização insiste em chamar-lhe "A.R.S." (mesmo, como se fosse uma sigla daquelas usadas em Bruxelas).
Será que a palavra "Ars" não lhes diz nada?

Olha...


E eu a pensar que o Fabien não tinha ido de férias para as Bermudas...
A julgar pela rentrée, se calhar foi a imprensa que se enganou no nome e trocou o "e" pelo "a".

Bienvenu, Fab.

sexta-feira, setembro 12, 2003

Assobios


Lido em Dicionário do Diabo:

--- quote ---

Decidi, há dois dias, encerrar o Dicionário do Diabo. (...)
Depois das últimas trocas de mimos, e sobretudo da última, achei melhor fechar a loja.
Mas pensei que A Coluna Infame tinha acabado, para a maioria dos que seguiram o facto, por razões supostamente «políticas» (na verdade, acabou apenas por razões pessoais). (...)
Porquê perder horas e paciência com os conflitos alheios, quando os conflitos próprios já me dão bastante trabalho?
Por essas razões, e mais outras, o Dicionário do Diabo vai continuar. (...)
Como também anunciei, terei uma crónica semanal de tema mais político em breve (julgo que a partir de Novembro), e guardo para aí esses temas, (...)

--- end quote ---


É pena.
Afinal, acabo por verificar que Pedro Mexia decidiu mesmo "assobiar para o ar". O Dicionário passa de ter sido de um "Diabo" a ser de um "Diabito", em alternativa a "fechar a loja".

Tudo o que tinha a fazer seria reflectir um pouco mais antes de escrever certas coisas, como a generalidade básica que motivou as "últimas trocas de mimos" que o amuaram. Não resiste a apontar o dedo aos bloggers "de esquerda" que de "fascistas" apelidam "todas as pessoas de direita – sobretudo as que vivem em Lisboa ou a sul" (esta fez-me lembrar o outro, ó Pedro, que é do Norte e não é elitista), quando os outros quatro (dedos) apontam uma entrada sua, mais abaixo desta, em que apelida de "fascista" Ana Sá Lopes ("As suas ideias podem ser de esquerda, mas os seus métodos seriam bem-vindos num blog fascista." - sic).

Às vezes pergunto-me se não será melhor clarificar o epíteto que Mexia me mereceu, sob o nome do seu blog, nos Blog Links d'A Sombra. Mas é ele próprio quem o esclarece, periodicamente.
E ainda dizem que as primeiras impressões não são nada de especial...

Obrigado


O Público entendeu publicar a minha entrada sobre Leni Riefenstahl.
Na íntegra.
(Cartas ao Director, 12Set2003, p.4)

Aqui fica o meu obrigado, não pela edição da carta, embora me sinta sempre honrado quando vejo um escrito meu nas suas páginas, mas pela forma como tal serve de reparação ao erro gráfico que cometeu e a que me refiro inequívoca e amargamente no meu texto.

Formidável


A Ana, do Crónicas Matinais, acredita em "D-us".
Formidável.

Formidável, adj. 2 gén. Muito grande; terrível; espantoso; temeroso; que infunde respeito. (Lat. formidabile) (*)

(*) Também:
A classificação da Ana para isto.

PC, my main man!


Estou pasmo! :)
O Pedro Couto (PC) publicou uma entrada!

Do Fabien (FJ) e do Granjo (FG) é que nada...
(Sortudos! Férias grandes, hein?)

nota:
A "ocupação" da embaixada portuguesa no Chile, mencionada pelo Pedro, terminou por ser noticiada no Público de ontem (11Set2003), no artigo principal sobre o 11 de Setembro de 1973. Mais vale tarde...

Os Príncipes Rectos


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



(Poema em linha recta - Álvaro de Campos)

A palavra 22

ou 1026 palavras... para justificar 21.

Foi o que Pedro Mexia fez, demonstrando estar em grande forma; isto é, continua a não pensar duas vezes antes de publicar as suas entradas.

E tudo isto por uma palavra? A palavra 22, a saber "alguma" antes de "esquerda", teria alterado a indignação que a sua "precipitação" suscitou da parte de alguns bloggers?
Só me apercebi do caso agora, via Cruzes Canhoto, mas caso fosse um dos que imediatamente reagiram, a palavra 22, a existir, não faria diferença.

A intenção seria a mesma e o tom igual. Há coisas que mesmo escritas num blog não se conseguem disfarçar. A perfídia é uma delas.

Caro Pedro,

Nem me venha com a história de não se ter justificado coisa nenhuma, que não vale o esforço. Acaba de me impedir de comentar o seu artigo na GR 150 antes de falar do Dicionário do Demo, mas não pense que me surpreendeu ou que tal coisa me levará a assobiar para o ar e não lhe dedicar umas palavrinhas (ainda não sei quantas) sobre o seu ensaio impresso na última Grande Reportagem mensal.
Se não o faço já é porque vou comentar os três ensaios pela sua ordem de edição, JPP, GRT e o Pedro, por fim.
Mas nada perde pela espera.
Entretanto... Olhe! Vá assobiando para o ar.


As 21 palavras de Pedro Mexia:

"COMPREENDI-TE:
Aqui fica a previsão: na quinta-feira, 11 de Setembro, a esquerda vai assobiar para o ar e evocar o Chile."


entrada de 09-09-03, 11:23:57 pm (aqui)

As 1026 (incluindo a 22ª supostamente em falta, acima) estão aqui.


nota:
Obliquamente, talvez se encontrasse uma justificação válida entre as apontadas por Pedro Mexia, mas, segundo o próprio, essa aproximação já não a usa há muito tempo, pelo que não se aplica.

nota2:
Os blogs que comentaram as 21 palavras e a que o Pedro respondeu:

A Praia
Barnabé
Cruzes Canhoto
Glória Fácil

observação:
Por ordem alfabética, incluindo artigos definidos, e não por "seriedade".

quinta-feira, setembro 11, 2003

Hoje, nada mais.







Leni Riefenstahl (1902-2003)


Perdi a Leni.
Soube-o apenas hoje. Não penso em mais ninguém. O mundo perdeu uma artista genial; eu perdi o meu anjo azul.
Digam o que disserem sobre Leni Riefenstahl, nada manchará o seu génio ou a sua arte, e nada fará esquecer o crime que foi terem proibido esta mulher de filmar.

Ao falar da realizadora de "Olympia", falamos de arte - aquela mesma que em si se esconde e que é A arte. Neste campo, mas não só, sou demasiado exigente; comigo e com os outros. Neste campo não existe lugar para "jeitosos" - apenas para artistas. Não há montanhas de tratados teóricos para tentar explicar a posteriori o que nunca existiu anteriormente à obra. Neste campo apenas existem imagens - e não se fazem prisioneiros.
A arte de Leni Riefenstahl é o paradigma da pureza do olhar cinematográfico, da depuração estética levada a um limite nunca alcançado antes ou após este registo. E que não me falem em Resnais e Pontecorvo, nem encham a boca com "belezas" ao falar das realizações da brilhante cineasta alemã. "Nacht und Nebel" e "Kapo" são documentários frios sobre trágicas realidades; nunca foi intenção dos seus realizadores transformar o "horror" em "beleza". E "beleza" não é definição adequada ao trabalho de Leni Riefenstahl, bem como não é compreensível que ainda hoje se confunda a inversão, pela sociedade nazi, dos valores atrás citados como caracterização da obra artística da cineasta.
Antes o é o "belo", enquanto fim estético inatingível.

"Triumph des Willens" é belo sem que chegue a roçar esta "beleza" torpe, afilhada do "bonito" e da "bizarria". Não existe "beleza" em nenhuma das obras-primas de Leni. Apenas o belo existe. O impossível.
Da sua obra apenas pode dizer-se o mesmo que dela própria, de quem nunca se diria ser "uma beleza". Era bela. E basta. O génio desta mulher incrível é a manifestação de um fenómeno raro na Sétima Arte: o registo do impossível em filme. Tornar real o que não pode ser.
Em "Triumph des Willens" transforma o ordinário em fenomenal - a tal ponto o consegue que é considerado "o melhor filme de propaganda" de todos os tempos. Em "Olympia", faz correr sangue nas veias de mármore de David. É impossível, mas existe - sem truques ou efeitos. Está ali. Foi realizado por Leni Riefenstahl.

"Não tenho medo de nada e sobretudo não tenho medo da morte.
Para mim, a morte é o que há de mais belo."


A morte encontrou-a dormindo, em sua casa, em Munique. Eram 22:50 de segunda-feira, 8 de Setembro de 2003. Tinha 101 anos.
É o triunfo da vontade sobre os medíocres.
Começou a sexta vida de Leni Riefenstahl. Imortal, por fim.

Rui Semblano
Porto, 10 de Setembro de 2003


nota amarga:
No Público de hoje (10Set2003), em primeira página como no artigo que lhe é dedicado, o nome de Leni Riefenstahl aparece sempre errado nos títulos...
Que lástima.
Que tristes somos...

nota2:
Entrada editada a 10 de Setembro de 2003.

(carta enviada ao jornal Público a 11-09-2003)

Bella Domini

(*)

Lido em "El Mundo Medieval" (Julho, 2003, n.14)

--- quote ---

Ricardo I
um rei para uma cruzada

Há ocasiões em que se tem a sensação de que a história não serve para nada, que os seres-humanos fazem tábua rasa dos seus ensinamentos. Assim parecem demonstrar os últimos acontecimentos da política internacional relativos ao Iraque, à guerra preventiva e ao que certos ignorantes do outro lado do oceano, levados pelo seu fanatismo religioso (igual ou pior ao que tanto criticam) e pelo seu poder militar, qualificam como "cruzada".

Cruzada foi, também, a grande empresa em que embarcou o principal protagonista do presente número da nossa revista, Ricardo Coração de Leão, e acabou num fracasso completo, ao qual não faltaram, aliás, algumas acções de inusitada crueldade, inerente a qualquer guerra, por muito que se tentem disfarçar as mortes civis com o que é, hipocritamente, denominado pela expressão "danos colaterais".

Não tratamos de estabelecer paralelismos simplistas (Saddam Hussein não se considerava o novo Saladino, o grande rival do monarca inglês?), mas sim de salientar a deliberada ignorância por tudo aquilo que a história nos ensina. De resto, que mais se pode esperar de indivíduos que permitem, impunemente, a perda dos tesouros do Museu Arqueológico e da Biblioteca Nacional de Bagdad?
Lamentavelmente, nada de bom. (...)

Juan Carlos Moreno
(Editor)

--- end quote ---


juancarlos-moreno@rba.es
mundo-medieval@rba.es

(*) Bella Domini: Guerra Santa

nota:
Entrada editada a 10 de Setembro de 2003.

quarta-feira, setembro 10, 2003

Embaixada ocupada

Como é que "...tres grupos de personas pertenecientes a organizaciones de defensa de los Derechos Humanos ocuparon ayer las embajadas de Suecia, México y Portugal en Santiago de Chile..." (visto aqui) e por cá não houve notícias de tal? Já terão cortado o telefone à embaixada por falta de pagamento?