quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Backtracking n. 3/06



Sequência de comentários sobre
a chegada de Vasco Pulido Valente
a
O Espectro, editadas numa das suas entradas,
mas não a propósito dela:



(quote)
1.
RS said...
E, de repente, o singular no nome deste blog perde sentido.

Ou o sentido do seu singular nome ganha uma nova dimensão.
nota:
Quanto a providenciar o "previdente", estamos esclarecidos, ou melhor, providenciados.
:)

2.
Unreconstructed said...
Caro rs: o nome deste blog é tão singular quanto a sua ignorância do Rodrigues Sampaio.


3.
RS said...
Caro unreconstructed,
Sinceramente, o espectro do Rodrigo (1) Sampaio (e entenda-o romanticamente, se conseguir) não me parece inspirar este blog, o que não significa que tenha inspirado o seu baptismo.

Mas pronto. Serão singularidades desreconstrutivistas (um neoneologismo rival do seu pseudónimo) que nos ultrapassam a ambos, não tenha dúvida.
E nem o Rodrigo (1) nem o seu espectro ou, já agora, o seu Espectro, têm nada que ver com o meu comentário mais acima.

Descomplique; que é como quem diz: Desreconstrua.
:)
Um abraço,

RS

(Unquote)

nota:
Era o que faltava, ser só o "unreconstructed" a tratar o Rodrigo (1) por tu!
E, quanto a vpv, o "Estado-Previdência" mantém-se. Direitinho.


nota 2:
(1) Ora bolas... Logo havia de estar a pensar num Rodrigo (se calhar pelas Cruzadas) quando respondi ao "unreconstructed"... mas "as coisas são como são". E aqui não há rolhas. Fica o registo com a sua gralha, bem marcada, para a posteridade. :)

nota 3:
Já tentei imaginar o "unreconstructed" de lingerie, mas não. Deve ser gajo, mesmo. :)

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Dog(tag)Mood

Posted by Picasa

De acordo com o Credo, a disposição
alterou-se significativamente.
Também tem a ver com a digestão
do Estado da União de hoje de madrugada...

3Aqui mesmo.

Kanye West - Jesus Walks With Me - Jarhead Soundtrack

State of the Union . 2006 . GWB


Os Republicanos aplaudem de pé a proposta
de tornar os cortes nos impostos permanentes,
enquanto muitos Democratas torcem o nariz...

Claro que há o Iraque, o Hamas e o Irão, mas hey, vamos ter carros a hidrogénio, fusão nuclear e mais Segurança Social. Que tal?

WTF?...


Entrada actualizada abaixo. Posted by Picasa


Os EUA são um país em guerra.
Não a dita "guerra contra o terror", mas uma guerra real, tanto como o foram a Coreia ou o Vietname. Sem confundir o Iraque com a Indochina, as semelhanças, ou as diferenças, podem ser encontradas não na frente de batalha, mas na interna. O discurso de hoje de madrugada de George W. Bush sobre o Estado da União é o espelho dessa relação. Basta pensarmos nos discursos de Truman e Johnson para vermos que, para G. W. Bush como para grande parte dos norte-americanos, a guerra é algo distante e aborrecido, que apenas demora mais do que o previsto a resolver, mas cujo desfecho é inequívoco ("we are in this fight to win and we are winning!"). Wishful thinking...

O discurso foi feito em duas partes e meia, sendo a "meia" estrategicamente colocada "a meio", como transição da guerra/plano externo para a situação interna dos EUA.

Na primeira parte, a análise optimista do conflito no Iraque a que a administração de G. W. Bush já nos habituou; salpicada de lamechice desnecessária quando a causa de uma guerra é nobre, mas tão abusada quando é perversa. A presença de veteranos desta guerra na sala, a leitura (teleponto/s) de uma carta escrita por um soldado antes de morrer, com os respectivos pais e irmã na sala... Foi demasiado baixo. Mas passa. Sobretudo nos EUA, onde é preciso, acima de tudo, não desmoralizar as tropas.

Na "ponte", um breve referência à "democratização" dos países árabes, sem mencionar a Palestina, que mereceu um parêntesis onde também coube o Irão. Ambos "têm de desarmar-se"; o primeiro convencionalmente e o segundo... Bom, preventivamente.

Na segunda parte, a situação interna. Toda a gente sabe como esta administração desbaratou o superavit herdado, transformando-o no pior déficit de que há memória nos EUA. Apesar disso, G. W. Bush anunciou um série de medidas que, a serem confirmadas, agravarão ainda mais a situação económica dos EUA; embora produzam desmesurada riqueza, esta não será pública, mas muito, muito privada. O pedido da manutenção dos cortes nos impostos foi expresso com uma satisfação no rosto de G. W. Bush que só o vazio no seu olhar igualou... Foi patético.
Estas medidas, porém, não são concretas, isto é, o que foi proposto - para a Educação, a Juventude, a Energia, a Segurança Social, etc. - foi a formação de comissões especializadas, constituídas por membros dos dois partidos, Republicanos e Democratas. Nesse aspecto, o nosso Sócrates nada tem a aprender, bem pelo contrário.

Objectivo?
Fazer passar uma imagem de solidez e confiança, de um governo apostado no bem estar dos seus cidadãos, aberto ao diálogo interno e externo.
Resultado?
Promessas, promessas e mais promessas.
Como diria um norte-americano: Bulshit.

O pior discurso do Estado da União que me lembro de ter ouvido. E visto (*).

Rui Semblano

(*)
Os dois telepontos fizeram com que o presidente parecesse seguir um jogo de ténis. Pior que isso, foram inúmeras as vezes em que... perdeu a bola. O homem deve ser o maior pesadelo do serviço de Relações Públicas da Casa Branca desde Ronald Reagan...

Credo.



This is my rifle.
There are many like it, but this one is mine.
My rifle is my best friend. It is my life.

I must master it as I must master my life.
My rifle without me is useless. Without my rifle, I am useless.
I must fire my rifle true.

I must shoot straighter than my enemy who is trying to kill me.
I must shoot him before he shoots me. I will...
My rifle and myself know that what counts in war is not the rounds we fire,
the noise of our bursts, nor the smoke we make.
We know it is the hits that count. We will hit...

My rifle is human, even as I, because it is my life.
Thus, I will learn it as a brother.
I will learn its weaknesses, its strengths, its parts, its accessories,
its sights, and its barrel.
I will ever guard it against the ravages of weather and damage.
I will keep my rifle clean and ready, even as I am clean and ready.
We will become part of each other. We will.

Before God I swear this creed.
My rifle and myself are the defenders of my country.
We are the masters of our enemy. We are the saviors of my life.
So be it, until there is no enemy, but peace.


My Rifle . The Creed of a United States Marine

terça-feira, janeiro 31, 2006

Fantasconto 2000 . The Exorcist




Fantasporto 2000
Inspirado em
The Exorcist
e depois de ver Three Kings (encerramento Fantas 2000)


Rivoli teatro municipal
4 de Março de 2000
terceiro fantasconto


Foto: RS / Cheia no Douro . Porto/Gaia



Os fantasmas que habitavam o seu quarto regressavam para a ocasião; podia senti-los, não só a sua presença, como sentimos a presença das pessoas que partilham connosco um mesmo espaço, mas o seu cheiro. O cheiro dos espectros.

Havia um particularmente curioso acerca da sua máscara fluorescente do Scream, pousada sobre a cómoda, e outro tentava sem sucesso colocar a luva de Freddy Krugger, com lâminas de plástico. Outro, não tirava os olhos das chaves do automóvel. Ele já tinha descalçado um sapato e observava-os, sentado na cama. Ok. Vamos lá. Calçou-se de novo e ergueu-se, agarrando o maço de Luckies, o Zippo e as chaves do carro. Saiu de casa, desceu as escadas e chegou à rua. Havia nevoeiro, denso, como sempre era naquela zona da Serra do Pilar. Como tantas vezes acontecia, só na sua zona havia nevoeiro; a mortalha preferida dos seus fantasmas.

O alarme do carro deu sinal, assinalando a sua presença pelo brilho alaranjado dos piscas por entre a névoa. Quando se sentou ao volante, os outros já lá estavam, cada um no seu lugar.
- Buckle up, fellas.
Eles obedeceram sem hesitar. Quando alguém como ele, no lugar do condutor, diz para pôr o cinto de segurança obedece-se sem pestanejar - e reza-se; mesmo que se seja um fantasma.
A chave rodou na ignição e o 16 válvulas roncou. Saíu do estacionamento. Sabia exactamente onde terminava o manto de nevoeiro. Desceu até à avenida, entrando nela sem ligar ao sinal vermelho, calmamente, no meio da neblina, depois acelerou em direcção à ponte D. Luís. A entrada na ponte é sempre complicada com nevoeiro cerrado, e há sempre a possibilidade de um autocarro vir em sentido contrário um pouco fora de mão, de mínimos acesos.

Tocaram o asfalto do tabuleiro superior da ponte D. Luís às quatro horas e vinte e dois minutos da manhã, envoltos em névoa espessa, a cento e cinquenta quilómetros por hora. O fantasma que seguia no lugar do morto já estava com o pé dentro do motor, de tanto carregar no travão imaginário.
E era só o início.
As duas marginais. Desde sempre eram o seu circuito preferido àquela hora da madrugada. Alguns dos fantasmas conheciam bem o trajecto. Um deles mexeu-se um pouco no assento.

A marginal do Porto.
Infante-Foz. Complicada, escorregadia, trilhos de eléctrico, paralelo, asfalto, buracos, curvas cegas, rails, o rio. Seria a primeira. O automóvel saíu do nevoeiro exactamente à entrada no Porto. Saída da ponte, os oitenta cavalos do inferno resfolegando, os cascos faiscando no alcatrão da Invicta. Atingiram o Infante em três minutos. Seleccionou o CD autografado por Danny Elfman e rodou o volume até ao 17. Iam rolar cabeças.

Na Alfândega da Ribeira apanhou um Golf GTi cheio de macacos com uma cassete de Ana Malhoa aos berros. Varreu-os com os máximos e quase roçou retrovisores ao ultrapassá-los. Uma olhadela ao espelho interior confirmou o que esperava. Um gingar de luzes indicava uma redução do Golf. Os grunhóides, claramente, aceitavam o desafio. Ainda se mantiveram colados a ele por um bocado; até à primeira curva cega. Dois pneus sobre os trilhos do eléctrico, redução falhada, slide, atravessamento, rails - Bang! - rotação sobre o eixo horizontal e queda invertida no rio. Artistic impression: 200 points.

130 Km/h à entrada do Passeio Alegre, puro slide show, contrabrecagem perfeita, 180 antes da curva do Twin's, redução semidirecta 5ª-4ª-2ª (ai! - entrou), 90, curva, 3ª, 120, curva contracurva, o forte, relevé invertido, 4ª, 145, opção: marginal ou interior, marginal ou interior, 3ª, 120, marginal, fundo, relevé invertido dois, paralelo para asfalto, tracção. Menos fantasmas dentro do automóvel. Ganhar a Boavista e a Arrábida. Passou para Gaia e desceu à Afurada.

A marginal de Gaia.
Afurada-Ponte D. Luís. Estreita, manhosa, altos no pavimento, 3/4 em paralelo, uma discoteca, uma zona de piso molhado permanente, rails, 70% dois sentidos à rasca, 30% só passa um, curvas de 95 e 100 graus. Muito interessante. O rio a dois palmos. Sem margem de erro. Ninguém na rua, uma olhadela ao retrovisor e um só espectro no banco de trás, mais branco que o usual. 5 minutos e 17 segundos ponte a ponte.

Subiu General Torres até à avenida, mergulhou de novo no nevoeiro, entrou na sua rua e estacionou exactamente no lugar que há pouco deixara. Estava só. Accionou o alarme e foi para casa. Sentou-se na cama, pousando o maço de tabaco e as chaves do carro na mesinha de cabeceira, e descalçou um sapato. Olhou o Lucky. Tirou o "Our Century" da bolsa de couro que trazia no cinto, e olhou em volta. Não cheirava um único fantasma. Ainda com um sapato calçado, acendeu um cigarro, pousando o Zippo de 1901 a 2000 sobre o maço. Eram quatro horas e cinquenta. Aspirou o fumo profundamente.

Não fumara no automóvel.
Queria manter o cheiro a novo o mais possível.
Ghost free.

Rui Semblano
The Exorcist - Fantas 2000


Nota:
Daqui até ao Fantas deste ano, editarei uma selecção dos meus Fantascontos, que escrevo a cada edição que vou, um por ano. Todos seriam demasiados. :) Poderão encontrar a lista dos Fantascontos n'A Sombra à direita, em Selecção Fantascontos.

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Roma by HBO



Graças ao amigo Baeta, não perdi.

Mais uma caixa de DVD's a juntar a
Band of Brothers...
A HBO continua a marcar pontos.
E a 2 também. Apesar de tudo.

ROME . HBO / na 2: às segundas, 23:00.


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segunda-feira, janeiro 30, 2006

Meanwhile, back in 'the world'...



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Stephanie, 18 anos.
Miss Teen California 2006.

Para quando a Miss Teen Baghdad?

O contraste com a entrada anterior (Chew it.)
não podia ser maior. Surfin' USA...

domingo, janeiro 29, 2006

Chew it.








Opening: The End









Algures a Noroeste de Bagdade.
Já deixei de tentar memorizar os nomes destas aldeias... São todas iguais. Recordo-me de algo assim, contado pelo meu tio que serviu mais a oriente... Também ele perdeu a conta às aldeias e esqueceu os seus nomes. Hoje sei que alguns deles se tornariam difíceis, impossíveis de esquecer, se os soubesse. Por isso prefiro esquecê-los antes mesmo de os saber... São todos iguais.

Do alto, a deslocação do ar levanta a areia à nossa volta. É o pássaro que esperávamos. De repente, vindo da minha direita, um rocket. Isto é um pesadelo. O helicóptero é atingido em pleno rotor central. Corremos para as respectivas máscaras, longe da LZ, dando-lhe espaço e rezando para que não nos caia em cima. O piloto é bom. Consegue pousar. Um dos atiradores laterais está caído lá dentro. Espero que esteja vivo. Ou talvez não. Não penso mais nisso. O sargento envia-me com o Terrence e o Hawkins para a zona do disparo. Corremos envoltos numa cortina de fogo de cobertura.

Sou o mais novo dos três, aqui, mas o mais velho em idade. Sou negro. Estou na 101ª desde o tempo em que estava a estudar, em Atlanta. Safei-me da primeira vez, mas não agora. Agora ninguém se safa. Nem na Guarda. Terrence é um mulato de Los Angeles. Nunca percebi como veio aqui parar e acho que, para ele, o mistério é ainda maior; mas anda na boa. Parece que em South Central as coisas não são muito diferentes e, ao menos aqui, é pago para usar uma arma, em lugar de ser preso. Hawkins é um WASP puro, se é que existe tal coisa. Vive em Boston. Nunca imaginei que houvessem tantos republicanos em Boston. Que raios quer ele? Está na ponta e acena para Terrence. Dois... 30 jardas... Em movimento... Norte... Aponta para mim. No fim... Terrence pela direita... Ele segue. Ok.

Já não os vejo, mas acredito que estejam lá. São doidos o suficiente para isso. Também sei que o tenente já deve ter enviado um grupo de apoio. Nós somos os cães. Não podemos largar as presas até que eles cheguem. Continuo para norte. A vegetação é escassa nos espaços entre as casas de lama seca. Lá estão! Dois. Serão eles? Hawkins... Não o vejo. Entraram numa casa. Paro. À minha esquerda, Hawkins. Terrence, ali está. Indico a casa e faço sinal para virem a mim. Segundos depois estamos juntos.

- Terrence, vai buscar o tenente. - sussurra Hawkins.
De binóculos, inspeccionamos a casa e os arredores. Nem vivalma...
- Hawkins...
Ele não tira os olhos dos binóculos
- Hawkins.
- Que foi?
- Não tenho a certeza se eram eles.
- Têm de ser eles. Não vimos mais ninguém.
- Eram dois miúdos.
- E então?
- Não estavam armados.
- Devem ter largado o lança-rockets... Mas qual é a tua?
Deixo-o em paz. Já sei o que vai acontecer a seguir. Lentamente, começo a programar-me para esquecer mais um lugar deste fim do mundo...
Antes que se torne impossível.

Rui Semblano - 29 de Janeiro de 2006

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Reciprocity



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Cortesia de um visitante turco d'A Sombra,
que deve ter ficado a perceber o mesmo que eu, depois de o visitar a ele!

:)

Um abraço para Deniz Tunçalp
autor do blog
Bulunduğum Yerden Manzara...
(para ele também!... em dobro!)

(Now who's burning bridges, huh?)

sábado, janeiro 28, 2006

Requiem, mas não só...

Um dia depois do dia em que se comemoraram os 250 anos do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart, a prova da existência de Deus (para os mais cépticos), aqui fica uma versão do Requiem, acompanhada de um Dhikr e da canção Golgotha, extraído ainda de Mozart in Egypt.

"Durante uma cerimónia Dhikr, os participantes repetem o nome de Allah usando um sistema de respiração hipnótico que os coloca numa espécie de transe, enquanto o Sheikh declama um poema que pode ser sagrado ou profano. Neste caso, é a canção da paz, que o Sheikh, inspirado pelas primeiras linhas de Mozart, continua numa improvisação vertiginosa, até à entrada do coro do Requiem. O solo da jovem rapariga búlgara, Vanina (10 anos de idade), é respondido pela canção copta da pequena Mónica (8 anos de idade). A tradição copta preservou as canções faraónicas. Esta melodia, dizem-nos, é a que acompanhava o processo de mumificação. É agora cantada a cada Sexta-feira Santa, e o texto reproduz as últimas palavras de Cristo aos dois ladrões."

(da descrição do tema em Mozart in Egypt, Virgin Classics, 1997)

Este tema é dedicado à Joana e ao António Baeta.
A sua duração é de 11 minutos, pelo que se exige um pouco de paciência em horas de ponta!



Dhikr/Requiem/Golgotha (Mozart, Trad. e arr. Teg, H. de Courson, N. Dalil) - Mozart in Egypt

Now what?...









Miúdos "apoiantes" do Hamas.
Gaza, Janeiro de 2006.



As reacções externas ao mundo árabe à maioria conquistada pelo Hamas nas urnas dividem-se em vários níveis, sendo todos eles, porém, gradações do mesmo sentimento: a inquietação.
Enquanto a UE manifesta "preocupação", os EUA avisam que não estão dispostos a "abrir o diálogo com terroristas" e, em Israel, há quem apele ao assassínio selectivo de "todos os membros do Hamas eleitos" (nada menos que 76).

Estas são diferentes fases da mesma ignorância relativamente à realidade árabe. Quem sempre afirmou que a democracia seria fundamental para que se estabelecessem pontes com o mundo árabe vem agora chorar sobre os resultados dessa democracia.
De facto, os europeus e os norte-americanos nunca pretenderam que os países árabes fossem democráticos, mas que fossem estáveis. Para um leitor de jornais em Lisboa, Moscovo ou Los Angeles, essa estabilidade traduz-se em democracia, no conjunto de valores que, nas nossas sociedades laicas e ocidentais, garantem a vida que conhecemos, no seu quotidiano relativamente tranquilo e no desenvolvimento que sustenta. Adaptar isto ao mundo árabe não é um erro. O que é um erro é esperar que o resultado seja o que esperamos. O erro, aliás, começa logo no "esperar" um resultado qualquer.

A democracia é o resultado de si mesma. Pretender com ela atingir outra coisa que o atingido pelos votos de quem a faz é querer algo que nada tem a ver com as nobres intenções de "levar a liberdade" aos "pobres árabes", seja no Iraque, no Afeganistão ou na Palestina.

O voto árabe não mudará tão cedo no sentido de uma estabilização como nós a vemos, isto é, na essência, no estabelecimento de relações diplomáticas com todo o mundo, incluindo os EUA e... Israel. Na Palestina, de todos os locais, é onde essa "normalização" custará mais a acontecer. Sobre os motivos que fazem com que assim seja já quase tudo se disse, mas nunca é demais sugerir uma boa fonte como introdução ao olhar ocidental e, especialmente, norte-americano ao desenvolvimento do Estado de Israel e, paralelamente, ao da Palestina, enquanto nação.

Sugiro, portanto, "Perceptions of Palestine", de Kathleen Christison, ex-analista da CIA, uma obra que analisa friamente a atitude dos EUA face aos palestinianos, de Woodrow Wilson a Bill Clinton (University of California Press, 2001 - paperback), incluindo as relações israelo-palestinianas durante o mesmo período.

Quanto ao Hamas, a sua vitória ilustrará, como escreveu Marc Semo no Libération (reproduzido no Público de ontem), como a questão é hoje a de islamizar a modernidade e já não de modernizar o islão; isto é, a bola está do lado de lá. E quanto à Europa e aos EUA, quanto mais depressa perceberem que não é possível esperar nada de um mundo árabe democrático a não ser o resultado de eleições livres, mais rápido compreenderão que a velha forma de "estabilizar" o mundo árabe não encontrará nunca a correspondência que desejavam na democratização do mesmo. E nem "dando uma mãozinha" para "ajudar" ao processo se conseguirá outra coisa que a radicalização de cada vez maiores grupos políticos, outrora minoritários ou clandestinos.

Veremos como os EUA e a UE descalçam esta bota.
Sem tirar os olhos de Telavive e de Gaza, naturalmente.

Rui Semblano

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Weapon of choice



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Já devem conhecer, mas podem rever.
Se não conhecem, melhor!

Ladies & Gentlemen,
Mr. Christopher Walken. :)
Have a nice weekend.

8 PARA VER, USE ESTE LINK!

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Backtracking n. 2/06

Comentário deixado no Blasfémias a uma entrada de jcd,
intitulada Hamas:

(quote)
diabinho: Anda lá! Dá-lhes!
anjinho: Calma.
diabinho: Calma o c**a**o! Então?
anjinho: Mantenhamos o nível.
diabinho: F***-s*! Escreve!
anjinho: Bem... Assim não.
diabinho para o anjinho:
Cala-te de uma vez, f*l** d* *u...
BOOOOM!!!!!

O anjinho repondeu preventivamente com um míssil ar-terra.
Ok. Não digo nada.
(unquote)

Com anjinhos apaches não se discute. ;)

There is a god...



Amadeus...


Wolfgang Amadeus Mozart - As Bodas de Fígaro (abertura) - Royal Philharmonic / Jane Glover

Nota: O Local & Blogal não costuma falhar estas efemérides. A ouvir!

Onze


The Fog Of War
Eleven Lessons From The Life Of
Robert S Mcnamara

An Errol Morris Documentary
2003

Music by Philip Glass



Lição n. 01 - Criar uma empatia com o inimigo
Lição n. 02 - A racionalidade não nos salvará
Lição n. 03 - Existe algo mais para além de nós
Lição n. 04 - Maximizar a eficiência
Lição n. 05 - A proporcionalidade deveria ser uma das leis da guerra
Lição n. 06 - Obter as informações
Lição n. 07 - Impressões e observações estão muitas vezes erradas
Lição n. 08 - Estar preparado para reexaminar raciocínios
Lição n. 09 - Para fazer o bem, pode ser necessário fazer o mal
Lição n. 10 - Nunca dizer nunca
Lição n. 11 - A natureza humana é imutável

Foi sob a janela do escritório deste homem que um cidadão norte-americano se imolou com a filha ao colo, em protesto contra a guerra do Vietname. A criança foi salva.
A sua relação com JFK e LBJ são mostradas a frio. As suas palavras valem mais se o olharmos nos olhos, enquanto as diz. Os olhos não mentem.
E só para o ouvir admitir que ele e muitos outros estariam sentados no banco dos réus para responder por crimes de guerra, caso os EUA tivessem sido derrotados na Segunda Guerra Mundial, vale a pena ver este documentário. Mas todo ele é um documento, na mais pertinente acepção do termo.
A não perder.

Nota:
A música deste documentário foi composta por Philip Glass, num registo que já tinha usado para Koyaanisqatsi.
A fotografia é excelente e o estilo irrepreensível.

Nota 2:
Se não sabe como obter este documentário, use o nosso e-mail. Our pleasure. :)

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One is much much worse than two...

Depois das duas últimas entradas, claro que a disposição tinha de mudar. Até o Blogger parece ter ficado afectado!... E prometo tentar não acusar mais o Fabien de esoterismo. É no que dá.



Aimee Mann - One - Magnolia Soundtrack

nota:
O tema escolhido por Fabien para ilustrar o Sonho Recorrente (entrada anterior)
é da banda sonora de "The Last Samurai", composto por Hans Zimmer.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Fantasconto 1998 . The Smoker


Fantasporto 1998
Inspirado em
Alien Ressurrection

Carlos Alberto
23 de Fevereiro de 1998
primeiro fantasconto




Os restos de vários sonhos ganham uma dimensão estranha, mal se acende a luz da mesa de cabeceira. Suava copiosamente, ainda. Afastou a roupa da cama e sentou-se, apoiando a cabeça entre as mãos.
Havia uma antiga namorada que regressava, apesar da mãe. Havia um rosto novo e uma voz reconfortante. Restava uma sensação insuportável, não havendo uma memória precisa dos detalhes, como quando se regressa de umas férias bem passadas e se retoma a realidade do quotidiano.
Maquinalmente, estendeu o braço, agarrando o maço de Luckies. Vazio.
- Fuck...

No relógio, eram quatro e dez da manhã. Vestiu-se. Ao apertar os cordões das botas olhou para a Smith & Wesson automática, sobre a cómoda. Levantou-se e pegou nela, verificando se estava carregada e abrindo ligeiramente a câmara. Perfeito. Ao enfiá-la nas calças, junto às costas, o polegar sentiu a posição da segurança. Ajeitou a camisola de lã, agarrou o casaco e apagou a luz, saindo do quarto. Momentos depois estava na rua.

Não havia luar, mas o céu estava limpo. Frio. Voltou os olhos para o fim da rua, levantando o colarinho do casaco de couro negro. Ninguém. Havia uma estação de serviço perto que tinha uma máquina de tabaco. Não ter um cigarro para fumar enquanto se dirigia até lá era enervante. Fez a distância que o separava da bomba de gasolina em passo acelerado. Não era bem a estação que recordava, estava algo mais limpa, mas estava lá. A máquina de tabaco também.

Ignorando o gasolineiro, enfiado no seu aquário a ver as televendas, dirigiu-se a ela, enfiando os dedos no bolso das moedas das 501. Faltava dinheiro. Puxou da carteira e foi até ao guichet do aquário. Havia um aviso. "Vidro à prova de bala".
- Boa noite. - saudou.
- Boa noite...
- Pode trocar-me dinheiro para a máquina de tabaco, por favor?
- Não tenho.
- Como não tem?
- Lamento.
- Escute, a próxima bomba de gasolina aberta a esta hora fica a cinco quilómetros daqui. Veja lá se não tem moedas.
- Já lhe disse. - ignorou-o o homem, sem tirar os olhos do pequeno televisor.

Guardou a carteira. Talvez se alguém viesse meter gasolina pudesse trocar o dinheiro que precisava. Voltou a olhar o homenzinho do outro lado do vidro.
- Por acaso não tem um cigarro?
- Não fumo. - replicou o gasolineiro, indiferente.
- Não fuma... - murmurou, olhando a avenida deserta. Então, um ruído familiar aproximou-se. Era um A4 que descia a avenida. Fez pisca na direcção do posto de gasolina e entrou, parando junto das bombas. O homenzinho saiu do aquário, talvez por verificar a natureza do condutor recém-chegado, dirigindo-se ao Audi. O fumador acompanhou-o. Antes que se aproximassem, a porta do automóvel abriu-se e uma morena de feições duras e uma beleza fora do comum ficou frente a eles. O depósito já estava aberto.
- Cheio, por favor.
O gasolineiro foi cumprir a sua obrigação e o fumador acercou-se da jovem exótica.
- Winona, por acaso não me trocas quinhentos paus?...
Ela mostrou o cartãozinho verde que tinha na mão, sorrindo friamente.
- Só o Amex. Lamento.
- Por acaso...
- Não fumo. - interrompeu ela, adivinhando o pedido.
- Não fuma... - murmurou, olhando a avenida.
Entretanto, o gasolineiro terminou de encher o depósito e chamou a mulher para ir ao terminal dos cartões. O fumador olhou para o interior do A4. As chaves estavam na ignição. Uma voz dura arrancou-o dos seus pensamentos.
- Nem penses, menino.

Olhou na direcção dela. Winona apontava-lhe uma ZW20 automática, uma arma pessoal de tiro rápido e munições perfurantes antiblindagem que é o armamento padrão dos andróides daquela série.
- OK, código, OK... - disse o gasolineiro, como que anestesiado, os olhos colados na arma e a consola ATM esticada; e acrescentou: - Menina?
Ela continuava com os olhos postos no fumador, alinhado com a mira da ZW20. Ele teve um movimento descontraído, voltando a olhar para as chaves e levando as mãos à cintura. Quando baixou os braços, a 45 automática apareceu-lhe na mão direita, e apontou-a na direcção da andróide.
Era bom. Foi muito rápido.
- Oh, estou a pensar nisso, sim. - retorquiu então.

Era um impasse. Ficaram assim uns segundos. Ele sorriu.
- A próxima bomba fica a cinco quilómetros. Não me estou a ver a fazer dez klicks a pé com este grizo, metade dos quais sem tabaco... Agora, nesta beleza, podia ir e vir em cinco minutos.
- Já te disse. - repetiu ela, impassível - Nem penses.
- Suponho que uma boleia está fora de questão.
- Absolutamente fora de questão.
Ele levantou a Smith & Wesson, abrindo a mão, e continuou:
- E este calibre não te fará mais que um buraquinho...
- Estou a ver que tens ido ao cinema. - finalmente, um sorriso.
O fumador, aparentemente resignado, baixou o braço. Ela fez o mesmo, baixando também a sua arma. O gasolineiro suspirou de alívio, e repetiu:
- Menina? OK, código, OK.

Ela olhou-o e, nesse instante, o fumador apontou e disparou um só tiro.
Na mesma fracção de segundo, a andróide elevou a ZW20 na direcção do atirador, mas era demasiado tarde. O seu vestido ficara cheio de sangue. Vermelho sobre negro.
- Fuck me! - exclamou ela.
O fumador levantou os braços, sorridente.
- Noutra altura. - e colocou a 45 atrás das costas, enfiada nas Levi's.
Aproximando-se, ajoelhou junto ao gasolineiro que tremia de uma das pernas, estatelado no chão. Abriu a bolsa de dinheiro que ele trazia à cinta. Estava cheia de moedas.
- Eu sabia. Cabrão de merda.
Tirou a quantia exacta para o Lucky Strike, dirigiu-se à máquina de tabaco e comprou um maço, que abriu de imediato, colocando um cigarro na boca. Ao fazer estalar o Zippo, olhou Winona, a chama nos olhos. Continuava na mira dela.
- OK, duas vezes. Suponho que é a crédito, não? - disse, acendendo o cigarro.
Ela escondeu a arma na sua bolsa e apanhou a consola, meio pegajosa do sangue do infeliz gasolineiro. Fez o pagamento e deixou cair o aparelho sobre o cadáver. Depois olhou o fumador. A chama desaparecera.
- Essas coisas vão matar-te, um dia. - disse ela.
Ele teve um esgar de complacência.
- Possivelmente. - e acrescentou - Sorry about the dress.

Voltou-lhe as costas e regressou a casa, saboreando o cigarro, sem pressas.
Ao chegar à porta do prédio, atirou a beata para o chão; entrou e subiu até ao seu andar. Em casa, dirigiu-se ao seu quarto, colocou o maço de tabaco na mesa de cabeceira com o Zippo em cima, despiu-se e deixou-se cair na cama. Adormeceu de imediato, mas não por muito tempo.

Acordou. Acendeu a luz. Os restos dos sonhos ganham uma dimensão estranha quando se acende a luz, a meio da noite. Suava. Maquinalmente, estendeu a mão na direcção do maço de Luckies sobre a mesa de cabeceira. Agarrou-o. Nem um cigarro.
- Fuck...

Rui Semblano
The Smoker - Fantas 1998

Este é dedicado à Cat, no seguimento deste outro. Estava prometido. ;)

Nota post(erior):
O Picasa tem destas coisas. A imagem foi carregada às 20h de dia 25, mas a entrada completa só foi editada por volta da uma e meia de 26. Raramente altero uma data, mas esta tem de ser. ;)
Além disso, fiz umas alterações ligeiras no texto. Já não o lia desde 98 e parece-me melhor assim.

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quarta-feira, janeiro 25, 2006

Stretching...



Tenho a impressão que o Alan Parsons (79.7%) ainda vai ganhar ao Mcnamara (90.6%). Deve ser do nevoeiro... Já o Totoro (9.3%) está fora da corrida, encostado a uma árvore qualquer... Enfim.
Também nunca esperei de uma mula o andamento de uma égua.


Nota:
Sim, que o exclusivo das entradas esotéricas não é do Fabien.



Ilustração de Alberto Vargas (1940) Posted by Picasa

Vícios & Virtudes - Channel no. 5

Resta-nos o quê, quando tudo o resto falhou?
Quando deixamos de ter dinheiro para pagar o fundo de garantia que nos aumentaria um pouco a parca reforma?... Quando passamos do T2+1 para um quarto sem janelas, deixando de poder pagar o primeiro e mal tendo com que alugar o segundo?... Quando percebemos a quantidade de meias que deitámos ao lixo por uns borbotos e o estado em que estão as que restam?... Quando o único emprego que arranjamos, apesar de digno, não chega para satisfazer as necessidades mínimas, quanto mais fazer esquecer a formação que temos ou o que gostaríamos realmente de fazer?... Esperar um milagre?

Resta-nos o quê, quando nos estendem uma folha de papel que, uma vez assinada, nos vai enviar para longe, onde tudo será ainda pior, porque lhes seria demasiado caro dizerem-nos, simplesmente, "acabou"?... Quando somos forçados a tirar os filhos da escola ou do infantário, hipotecando o seu futuro a troco de nada?... Quando uma ida por mês ao mais paupérrimo dos minimercados para encher meio frigorífico é tudo o que conseguimos?... Quando os anos que passámos a trabalhar para alguém que deveria pensar no nosso futuro, como nós pensávamos no desse alguém, do qual dependíamos, se transformam em pó no fundo de um balão de vidro... Que nos resta, então?

Do alto da arrogante burra que conhecemos por Sabedoria, mas que tem outro nome, desviamos o olhar desses desgraçados, tão diferentes de nós que mal parecem merecedores de respirar o mesmo ar.
Às vezes, quando um deles tem a infelicidade de tocar as nossas vidas, a repulsa é de tal ordem que o nosso olhar, se pudesse, o transformaria ali mesmo num monte de cinzas, que o vento se encarregaria de fazer esquecer.
São gente menor, sem fibra, sem vontade e sem força. Dejectos. À razão pela qual o Governo permite que as suas imagens passem nos telejornais, de longe a longe, chamamos tolerância. Quanto à caridade, isso era no tempo da outra senhora; agora somos democratas, não temos pachorra para esses tiques reaccionários.

Se ao menos acabasse o rendimento mínimo... Se aquele preto do Bangladesh não se tivesse lembrado do microcrédito (e ainda lhe deram um Nobel, quando lhe deviam era ter dado um tiro!)... Isso não serve para nada. Só lhes permite arrastarem-se um pouco mais, enlameando os passeios por onde andamos.
Devia era haver um engano qualquer num daqueles laboratórios de garagem, a ver se ao menos os drogados iam todos de vela. Qualquer dia já nem podemos sair à rua...

Enfiaram-nos em condomínios fechados, é verdade, mas que podemos fazer? Viver na Baixa? Sem polícia que se veja? A mesma que é incapaz de espantar um simples arrumador? Não. E o Estado só empata, só empata... Talvez agora mude alguma coisa; um pouco de autoridade consegue prodígios, mas não nos entusiasmemos.
Seria preciso um milagre... Um murro na mesa; resolver o problema de uma vez por todas... Ou, pelo menos, arranjar um sítio qualquer onde enfiar essa gentinha. Longe.
De onde não viesse o cheiro.

Rui Semblano

(Perdoem-me o tom em que acaba esta trilogia, mas
estava farto de estatística, planeamento e filosofia...)



Leonard Cohen - Waiting for the miracle - The Essential Leonard Cohen

Outras entradas do mesmo grupo:

Introdução:
Safety first!
Trilogia Vícios & Virtudes:
1.
O Combústivel
2. Sociopatia
3. Channel no. 5

terça-feira, janeiro 24, 2006

Filosofando



"Quem nesta sala tem cartão de crédito?" (1)


Para concretizar a questão (tentando não a eternizar), tomemos o caso da Filosofia.
Se a razão de ser do ensino superior da filosofia é a manutenção do quadro docente das respectivas faculdades do Ensino Superior Público (ESP), está muito mal. Acredito que assim seja, infelizmente. Venho de uma faculdade onde se passa o mesmo em relação a algumas das suas cadeiras, mas adiante.

Que assim seja não significa que não devia existir o curso em causa, nem nada nos garante que o sector privado esteja mais apto a desenvolver o ensino do mesmo. Tendo em conta a saída profissional da Filosofia, o mais certo era que o sector privado nem lhe tocasse - por muito que outras áreas de ensino pudessem cobrir as despesas com este tipo de filantropia, ela nunca será objecto de outro interesse privado que a fuga aos impostos.

Que existam Universidades privadas que são consideradas o padrão máximo do ensino nas suas áreas é óptimo. O que é mau é que o Estado não tenha por princípio basilar a excelência em qualquer dos níveis de ensino que ministra.
Usar a constatação do facto mencionado acima para argumentar a favor do fim do ESP é que não colhe, pelo simples facto de ser o Ensino uma pedra de toque do Estado, na medida em que possibilita aos seus cidadãos o acesso a todas as áreas do conhecimento; todas, e não apenas as mais rentáveis, as de maior saída profissional ou as da moda.

Como todos os serviços prestados pelo Estado, na perspectiva do Estado Social, da Saúde à Defesa, da Energia à conservação do património e ambiente, o Ensino não depende de interesses individuais e destina-se ao benefício de todos. A forma como este serviço é prestado não é indiferente porque nenhum empresário no seu perfeito juízo permitirá ao Estado ou a quem quer que seja determinar a sua área de intervenção, o que, no entanto, é diferente da imposição das regras do jogo, mais conhecidas por "leis".

Como quase todos os sectores essenciais que referi, o Ensino, por si mesmo, não gera outra riqueza que a potencial, a ser concretizada individualmente pelos seus beneficiários em qualquer área que escolham, privada ou pública, no que se conhece por nível de vida (em todas as vertentes: cultural, económica, profissional, etc.). É um investimento verdadeiramente desinteressado do ponto de vista do lucro imediato.

Se estabelecermos um paralelo com o ambiente, é fácil perceber como é estúpida a assimilação dos valores empresariais privados pelo Estado; basta ver quanto tempo demoram a crescer um eucalipto, um pinheiro e uma oliveira ou um sobreiro.
Nas áreas de interesse público, apenas o Estado pode garantir a continuidade de um padrão elevado de serviço, pois a maioria delas não deve, nem pode, ter por objectivo a rentabilidade directa e, muito menos, imediata ou a curto prazo.

Por esta razão, a combinação dos sectores públicos e privados é essencial, mantendo em cada um dos campos o que lhe é devido. Como em tudo o mais, a promiscuidade entre sectores é nociva, a complementaridade é benéfica.
Resulta daqui, portanto, que não é uma questão de atribuição de tarefas, mas antes de execução das mesmas. E voltamos às pessoas, aos seus interesses e aos seus anseios. Por mim, nem gostaria de ter um Ferrari no meio do lixo, nem de possuir uma ilha paradisíaca à custa do entulho que deixei para trás. Mas ainda há muita gente que não se importa de viver à grande e à francesa no meio da miséria ou que, para iludir a sua consciência, consegue viver luxuosamente longe da pobreza que criou.

Chacun à son goût... comme à son mettier.

No seguimento das entradas:
Acquisto, ma non troppo!... e Universalidades

(1) Pergunta de um insigne docente da FBAUP aos alunos, numa aula de apresentação.

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