segunda-feira, agosto 25, 2003

Carretero


Yo trabajo sin reposo
Para poderme casar
Y si lo llego a lograr
Seré um guajiro dichoso.


(excerto da guajira(*) "El Carretero",
in "Buena Vista Social Club", World Circuit 1997)


A felicidade é tão simples e tão complexa...


(*) Guajira: lamento camponês oriundo de Cuba oriental com tradições que se estendem à música africana da costa ocidental, também conhecida como "Cuban Blues".

Entendimento


O embaixador de Israel em Lisboa, Shmuel Tevet, não consegue entender "como é que alguém consegue entrar num autocarro, olhar para estas crianças, ouvir o seu riso e explodi-las" (sic). Na faixa de Gaza ou na Cisjordânia, existirão palestinianos que não entendem como é possível alguém ter uma criança de doze anos na mira de uma espingarda e premir o seu gatilho.

É por isto que não há roteiro possível para paz alguma no Oriente Próximo. Porque não existe este tipo de entendimento, quer de uma quer de outra parte. Pior, existe uma recusa desse entendimento. O israelita entende que uma criança palestiniana é um terrorista em potência, mas não o que o palestiniano entende - que uma criança israelita é um soldado em potência. Eu entendo os dois, mas não sou israelita ou judeu, palestiniano ou muçulmano, apesar do sangue árabe e semita que me corre nas veias.

Nunca saberei se, fosse eu um ou outro, conseguiria ter o entendimento das duas causas e a compreensão dos seus efeitos; se também me faltaria o reconhecimento das duas atitudes como criminosas, tomando uma delas como legítima. O que sei é que existem israelitas e palestinianos que entendem isto perfeitamente e que apenas neles reside a ínfima esperança de resolução deste dilema.

(ver "Mais dúvidas de morte", por Adeodato)

A Deusdado


Daniel Deusdado assinava o seu último editorial no Público, a 24Ago2003, intitulado: "Sérgio, Annan e esta dor" (reprodução integral abaixo).

Esta dor é partilhada por milhões de pessoas em todo o mundo, entre as quais me encontro, assim como partilham, também, a sua esperança na recuperação da ONU, catalisada por eventos que, pela tragédia que encerram, mais parecem destinados a terminar de uma vez com as Nações Unidas. Essa esperança é, para mim, ténue, abafada que está no meu subconsciente pela aparentemente inexorável caminhada da História em sentido oposto.

Contrariamente a Deusdado, não consigo encontrar entre as qualidades inequívocas de Kofi Annan as que seriam necessárias para recolocar a ONU e os seus membros nos lugares devidos - os de quem não apenas deve, mas tem de respeitar o Direito internacional. Oxalá me engane.

Como Daniel Deusdado, porém, tenho plena certeza que os que fazem do terror a sua arma jamais conseguirão eliminar todos os que amam a paz. Tenho para mim, ainda, outra certeza: a de que saberemos permanecer livres ante a investida brutal dos que pretendem usar o medo que emana desse terror para nos intimidar e convencer a prescindir dos nossos direitos em troca de nada.
Acredito que uns e outros, ambos agentes activos do terror, nunca nos conseguirão eliminar a todos, os que amamos a paz, sim, mas os que não hesitam em lutar pela sua liberdade, seja quem for o inimigo.

Daniel Deusdado deseja que os leitores do Público o continuem a preferir como jornal diário e parte para realizar projectos pessoais. Daqui lhe desejamos boa sorte. Assim perde o Público um dos seus elos mais fortes...
... Adeus.

E até sempre.

Pel'A Sombra,
RS

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Último editorial no Público de Daniel Deusdado
(texto integral):

Sérgio, Annan e Esta Dor
Por DANIEL DEUSDADO
Domingo, 24 de Agosto de 2003

1. Há uma dor que nos toca fundo quando olhamos para a urna que transporta Sérgio Vieira de Mello e o "vemos" pela última vez, e com ele perdemos um novo pedaço de uma certa ideia de que a Paz vence.
Aos ombros daqueles soldados brasileiros pesa não apenas um corpo mas a nossa derrota planetária, como se ali estivesse figurada a impossibilidade de acreditar nos outros ou a incapacidade da ONU em evitar que poderes extremistas tomem conta do mundo.
Mas depois de se olhar - mesmo não se querendo olhar - para Sérgio Vieira de Mello, resta-nos limpar a face e pensar que mesmo assim é possível vencer a desordem alienada no Iraque, a agonia do Médio Oriente, a fome de África, o aquecimento global ou o cansaço de entregar a vida dos nossos melhores às mãos dos cada vez mais numerosos líderes de orgias de sangue e terror. Mesmo que não tenhamos grande certeza disso. Mas estas são causas que não dependem de optimismos ou de pessimismos, mas de convicções, como ontem demonstrou Ramiro Lopes da Silva, o português indigitado para o lugar de Sérgio. A nossa vida é tanto melhor quanto mais livre for para seguir um ideal.

2. A morte de Sérgio Vieira de Mello e as notícias que vão acompanhando a escalada de violência obrigam-nos a mudar. Para conseguirmos evitar uma dilaceração permanente da alma - em que cada notícia é como uma pedra na confiança num mundo melhor -, temos de nos ir transformando em pessoas-com-carapaça-de-tartaruga. No mais profundo do nosso interior é difícil resistir à espiral de loucura global sem se construir uma sólida barreira contra todas as notícias que quotidianamente empurram os limites do nosso espanto para mais longe.
O nosso novo marco civilizacional, o 11 de Setembro, pulverizou a nossa capacidade de "confiar" nos outros homens - confiar no sentido de "humanidade" que nos transcende a todos, unidos pelo respeito a esse ténue véu, inultrapassável, que é a vida.
Depois do 11 de Setembro, a noção de que o "alvo" somos todos nós, desde que possamos ser contados como vítimas, foi-nos tornando protagonistas de cada notícia. Se vai pelo ar um autocarro em Jerusalém, ou um grupo de pessoas junto a uma qualquer embaixada, ou se falha a luz numa cidade como Nova Iorque e a multidão é tomada pelo terror do atentado, somos nós. Mas é deste terror que vivem os terroristas, e é contra estas causas que temos de nos manter firmes na convicção de que somos muitos mais os que amamos a Paz. Não nos conseguirão eliminar a todos.

3. Talvez como nunca, Kofi Annan apareceu nos últimos dias de semblante dilacerado. Devemos reconhecer que, dia após dia, com grande sentido de equilíbrio e procura de consensos, Annan tem sido o garante de milhões de vidas. Também ele faz parte do grupo dos melhores que o mundo tem e é, talvez, a nossa maior esperança.

PS - Para dar continuidade a projectos pessoais, este é o último editorial que assino neste jornal. Aos leitores, o meu profundo obrigado por continuarem a preferir o PÚBLICO, um espaço ímpar de informação em Portugal.


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(extraído de http://jornal.publico.pt/2003/08/24/EspacoPublico/OEDIT.html)

Regressos (um)


A Espada retoma o seu lugar na Pedra.
Para meu espanto - e orgulho - A Sombra está entre os seus links.
Um privilégio imerecido, pela qualidade da companhia, mas que agradecemos.

Bem vindo de volta, PJF.

Amadeo II


Duas situações me chamaram a atenção, pela negativa, no 4º Prémio Amadeo de Souza-Cardoso (ASC). (ver Amadeo I, abaixo)

Uma delas foi a forma como as obras foram examinadas pelo júri de selecção. Uma ceramista que conheço, Sofia Beça, enviou uma peça grande, modular, que foi eliminada. Ao recolher o trabalho, verificou que não a montaram, sequer; a maior parte dos módulos estava nos seus invólucros originais. Que critério de selecção é este? É por foto? Então para que desembrulharam alguns módulos? E se basta olhar para a fotografia, porque obrigam (está no regulamento) os concorrentes a terem o trabalho e a despesa de carregarem as peças para Amarante?

A outra é muito pior.
Um amigo que foi seleccionado com um tríptico apercebeu-se que a organização se preparava para imprimir o catálogo da exposição do prémio não com o seu heterónimo, com que assina todas as telas, mas com o seu nome verdadeiro, com o qual nunca assinou uma tela na vida - nem vai assinar!
O caso foi detectado por acaso, pois o MMASC (1) estranhou que o seu e-mail com o currículo e a descrição do trabalho, já enviado por duas vezes, não aparecesse... Estavam à procura do nome verdadeiro no remetente, não o do artista, e foi por isso que a anomalia se detectou.
Motivos?
Apesar de, no acto de inscrição, ser indicado o nome artístico, a grelha de participantes que serve para o catálogo e para a exposição é feita com os nomes verdadeiros destes!
Evidentemente, o caso do meu amigo não é único. Todos os pseudónimos artísticos dos pintores seleccionados, nomes que assinam as obras, seriam trocados por nomes que não têm relação nenhuma com os trabalhos!

Assim, uma concorrente de nome Ana Lopes, que sempre assina o seu trabalho como Andrew Clark, por exemplo, teria como recompensa pela sua selecção nunca ligarem o nome Andrew Clark ao seu trabalho, ao mesmo tempo que o nome Ana Lopes permaneceria, inexplicavelmente, ligado a uma única peça, premiada com o Amadeo, que consta do catálogo daquele importante evento bienal.
Dir-se-á, a propósito, no meio artístico: "aquela Ana Lopes era interessante, mas nunca mais pintou nada"... Lindo. Um belo início de carreira...

nota:
Por pedido do amigo pintor a que me refiro, não revelo aqui a sua identidade, apenas menciono a sua máxima: ars est celare artem (arte é esconder a arte)... Chama-se a isto ironia do destino.

nota2:
Apesar de alertada para a situação, a organização do Prémio ASC não conseguiu garantir que as correcções sejam efectuadas a tempo! Isto é, pode ser já tarde para impedir a impressão dos catálogos cheios de ilustres desconhecidos. Este 4º Prémio Amadeo ainda vai ficar para a história como o "Salão dos Fantasmas".

4º Prémio Amadeo de Souza-Cardoso
13 de Setembro a 2 de Novembro de 2003
(1) Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso (MMASC) - Amarante

Ver Amadeo I, n'A Sombra.

Amadeo I


Alguns amigos e amigas que concorreram ao 4º Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, no MMASC (1), em Amarante, receberam a notificação oficial da sua eliminação do prémio. Felizmente, até para preservar o carácter idóneo do prémio em questão, um amigo meu foi seleccionado, mesmo sendo um ilustre desconhecido.

Já o calibre de alguns jornalistas permanece duvidoso... No Diário de Notícias, de 19 de Agosto, no sector de Artes, p. 37, podia ler-se, sob o título:

"Júlio Pomar vence Prémio Amadeo de Souza-Cardoso",

"O pintor Júlio Pomar foi ontem distinguido com o Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso (segue-se uma análise sucinta da vida e obra do consagrado pintor) (...). A pintora Ana Vidigal venceu o Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, o outro galardão atribuído na mesma bienal, que visa premiar um novo valor das artes contemporâneas portuguesas.
O prémio atribuído a Júlio Pomar foi o mais concorrido de sempre, com a inscrição de 705 telas de 475 artistas. (...) A exposição com as obras seleccionadas para o concurso decorrerá de 13 de Setembro a 2 de Novembro, em simultâneo com uma exposição retrospectiva da pintura de Júlio Pomar."


(destaques a bold da responsabilidade d'A Sombra)

Primeira impressão: Júlio Pomar, um dos grandes valores da nossa pintura, concorreu a um prémio destinado a valores emergentes, ditos novos ou mesmo desconhecidos, prémio esse "indivisível no valor de 7.500,00 €" (2).
Segunda impressão: Um novo valor, Ana Vidigal, ganha um suposto prémio paralelo destinado a essa classe de artistas. Mas, afinal, quantos Prémios Amadeo existem a concurso?

Pois só no Público do dia seguinte, 20Ago2003, se leria a notícia correcta. Afinal, a vencedora do ÚNICO Prémio Amadeo a concurso foi mesmo Ana Vidigal que, além do prémio monetário, terá a obra premiada no espólio do MMASC.
Quanto a Júlio Pomar, foi distinguido com o Prémio de Carreira, que indiscutivelmente merece, a propósito do qual se realizará a referida retrospectiva.

Conclusão: Júlio Pomar não está a tirar o lugar a nenhum novo valor, mas o mesmo já não se pode dizer do "jornalista" (anónimo) que realizou a peça do DN. Haja paciência.


4º Prémio Amadeo de Souza-Cardoso
13 de Setembro a 2 de Novembro de 2003
(1) Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso (MMASC) - Amarante

(2) Transcrito do regulamento do Prémio ASC.

Ver, ainda, Amadeo II, n'A Sombra.

sábado, agosto 23, 2003

Há blogs assim...

Lido em Eu vou mas volto:

--- quote ---

(...)

--- end quote ---


Um giro pelo blog deste senhor, José Carlos Soares de seu nome, e decidi:
Caro amigo, pode crer que fui, mas acredite: não vou voltar.

nota:
A ausência de links activos nesta entrada, bem como da transcrição acima, não é uma falha; nem técnica, nem humana. É, aliás, precisamente por humanidade que se verifica.

Not fair...

... since it's poetry.

A Sombra nunca coloca blogs nos seus links permanentes sem que exista uma razão forte; de facto, a razão principal é serem esses blogs visitados mais ou menos regularmente por nós - o que implica, subjectivamente, que lhes reconhecemos mérito. Normalmente, o número de blogs que são destacados desta forma é estável. Os mais atentos terão reparado na remoção de alguns links, pela inclusão de novos.

Pensava ter encontrado o número aproximadamente certo de blogs com este estatuto, mas existem sempre excepções. Foi o caso do blog do Luís, que escreve no Musana. Já trocámos palavras em privado, já visitei o seu blog, nascido a 18 de Agosto deste ano. Um "bebé" pouco mais novo que A Sombra.

O Luís escreve poesia e continua, regularmente, a publicar entradas. Esperava incluí-lo nos nossos Blog Links mais tarde, quando se confirmasse a sua perseverança, mas reparei que ainda não aparece referenciado em nenhum blog, através de link. Nenhum poeta merece tal sorte, ainda que péssimo, o que nem é o caso!

O Musana passa a constar em permanência da nossa lista de Blog Links.
Ao Luís, um renovado abraço desde A Sombra.

--- quote ---

Ninfeta
Jovem eterna

Musana

--- end quote ---

2003


Achei piada.
Só esperava voltar a referir as visitas muito mais tarde, mas este número é significativo. Pena já não ir a tempo de saber quem foi o ilustre 2003º visitante d'A Sombra.

Seja ele/ela quem for, um abraço.
RS

Elementar


Roselyn Sanchez...
Diz-lhes algo? Não?
Well... Time to go back to basics, then.

sexta-feira, agosto 22, 2003

A Cat Affair


Mais dois blogs que merecem visitas.

1. Pegada na Areia
A Valentina despertou-me a curiosidade e fui ver a sua pegada na areia.
As ondas ainda não a tinham apagado. Espero que nunca a apaguem.

um exemplo: "Os gatos do lixo"
(Ainda há gente que ama os bichos. Bem haja tal gente.)

2. Icosaedro
O bom gosto é, para mim, como um magneto.
Para mais tive uma experiência interessante que só não durou mais porque sou gato.

ver e ouvir: "A deambular pelo Google"
(Um gosto. Tentem responder ao desafio do Pedro antes de abrir a janela dos comentários, ou a Insensatez pagar-se-á cara!)

A Pegada na Areia e o Icosaedro (a ordem inversa justifica-se por ser dada primazia às senhoras) passam a estar disponíveis em permanência nos Blog Links d'A Sombra.
Um abraço para a Valentina e outro para o Pedro.

(Já agora, um beijinho à querida Insensatez!)

nota:
Por uma questão de gestão de espaço, o blog A Oeste nada de novo já não se encontra em Blog Links, mas continua disponível n'A Sombra através do link da Periférica, em Links Geral.

Luto pela ONU...

... Luto por todos nós.

(A) Actualização em rodapé

A tristeza do actual papel da ONU é tão grande quanto isto:
Nem um esboço de vontade de enviar de imediato uma equipa de especialistas independentes para investigar o atentado de dia 19 de Agosto de 2003 no hotel Canal. É patético. A morte trágica e inglória de Sérgio Vieira de Mello ainda corre o risco de ficar para a história como a morte da ONU, apesar de esta ter morrido a 19 de Março de 2003. (*)

(*) A "janela de oportunidade" que iniciou o conflito com o Iraque (a tentativa de "decapitação" do regime Baath, a 20 de Março de 2003) abriu-se exactamente cinco meses antes de se ter fechado outra, bem mais importante de permanecer aberta: a da esperança na oportunidade de um mundo melhor, aquele em que Sérgio Vieira de Mello ainda acreditava. Espero que se reabra em breve. Nada mais.


(A) Actualização:

Outra reacção que compreendo, mas não aceito, é a do Governo brasileiro.
Quando um filho nosso, ainda por cima um dos mais excelsos, morre em circunstâncias extraordinárias e trágicas, seria de esperar que fizéssemos tudo para saber o que sucedeu, mas nada. Lula da Silva limita-se, como tantos outros, a imitar com os lábios as falas do seu ventríloquo. Uma triste sombra de outros tempos, este Lula...

(actualização a 22Ago2003, 11:32)

Masturbações

Nem só de virtualidade vive a blogosfera.
Uma amiga disse-me hoje, cara a cara: "Estou a estranhar que ainda não te tenhas referido ao Pacheco Pereira (JPP), desde que morreu o Sérgio Vieira de Mello." Por um momento não soube o que dizer. Desde dia 19, pelo menos, que não faço visitas "abruptas". Porquê? Talvez por, inconscientemente, já saber o que ia encontrar. Desde a defesa do "Ocidental Civilizacionista" por JPP que não tenho dúvidas quanto à sua posição no que respeita ao Iraque.

Concedendo que, apesar disso, estamos sempre a aprender, mesmo com quem aparenta nada ter a ensinar, fui ver como tem escrito o homem, por estes dias. Nada de novo.
Estava em plena masturbação. (1)


(1) a propósito da entrada "A Masturbação da Dor" in Abrupto

quinta-feira, agosto 21, 2003

Excepto Hebraico...


Se existe uma "democracia" que melhor ilustra o que escrevi no início da trilogia "Da Liberalização, da Democracia e dos seus Espelhos" é a israelita.
(ver "A Democracia, esse mito")

Como exemplo recorrente de como temos de "estar com os bons contra os maus" há muito que leio em vários suportes, da imprensa à literatura aos blogs, que Israel é "a única democracia do Médio Oriente" - significando isto, sibilinamente, que "a comunidade das nações livres" (como diria George, perdão, José Manuel) não pode "tomar partido" (idem) pelos palestinianos (leia-se "árabes").

Quem assim fala não é gago, mas isto é tudo o que se pode dizer sobre quem fala assim - e nada mais. Estes "connaisseurs" do Oriente Médio, porém, escolhem ignorar factos que demonstram que se a nossa "democracia" já é uma caricatura a israelita é um cartoon completo. (nota1)

Dois exemplos específicos: (nota2)

I. Ortodoxia

A política sionista israelita (não é um pleonasmo) é um reflexo do pensamento ortodoxo judaico, que acalenta mais que qualquer outro o ideal do "Grande Israel" e faz a apologia da segregação entre judeus e não judeus.
Esta élite judaica condiciona, em grande medida, o modo de fazer política em Israel, de uma forma semelhante ao verificado nos países árabes com as classes islâmicas ortodoxas - não esquecer que "ortodoxo" é um eufemismo para "fundamentalista".

Esta classe ortodoxa judaica encontra-se no topo da "cadeia alimentar" israelita, detendo privilégios medievais, negados ao comum cidadão judeu não ortodoxo, como a isenção completa de serviço militar.
Não deixa de ser ridículo que os israelitas que mais odeiam os árabes e fomentam o racismo se arroguem o direito, consagrado em lei, de ficarem isentos de os combater, nem que seja em legítima defesa.
Um privilégio de casta que pode estar na origem de tantas recusas no cumprimento do "dever militar" por parte dos que fazem parte de castas inferiores. Nada mais pungente para rebater o mito do "povo em armas", tantas vezes atribuído aos israelitas, quando são um povo apenas parcialmente em armas.

Estes privilegiados não têm o menor pejo em permitir o alistamento de mulheres nas Forças de Defesa Israelitas, mas quanto a ombrear com elas na "defesa" (preventiva q.b.) de Israel... Népias.


II. Racismo

Num elucidativo artigo de opinião publicado hoje no jornal Público, António Vilarigues (nota3) chama a nossa atenção para um facto que a comunicação social preferiu ignorar (com algumas excepções, incluindo o Haaretz), bem demonstrativo da "democracia" existente em Israel e de quem a controla (não tanto a extrema-direita laica, como dá a entender o artigo, mas mais a religiosa ortodoxa e xenófoba).

Um excerto:
"Israel: a extrema-direita de freio nos dentes
(...) A história é curta e brutal: o parlamento israelita, o Knesset, aprovou a 2 de Agosto uma lei que nega a cidadania israelita a palestinianos que se tenham casado com israelitas. Racismo é racismo, mesmo quando defendido por judeus. (...)"
(texto integral aqui)

De facto, o sistema político israelita é semelhante, por exemplo, ao português, e nada impede o nosso parlamento de fazer aprovar uma lei que, por hipótese, negue a cidadania portuguesa a brasileiros casados com portugueses.
Basta que tal lei seja "democraticamente" proposta e "democraticamente" votada pela maioria dos deputados. Fica à consideração de cada um se tal coisa é democrática (não "democrática", note-se). Quanto à sua legitimidade, não a deixaria ao cuidado de cada um, já que só quem não tem escrúpulos poderá ter dúvidas.

(a propósito de israelitas e palestinianos em Israel, ver "Camelot 2003 . 1")



nota1:
Digo "escolhem ignorar" pois se, de facto, são conhecedores do Oriente Médio não os desconhecem. Se não são tal coisa, não deveriam escrever como se o fossem.

nota2:
Apenas dois casos, correndo o risco de desapontar os "jaquins", que acham que A Sombra "toca sempre três vezes" como o outro - o das cartas.

nota3:
in Público, 21Ago2003, p. 6 (link no texto acima)

VSOP


Encontra-se disponível, à direita desta coluna, uma selecção de entradas d'A Sombra, que mereceram destaque pela blogosfera lusa e/ou que destacamos pessoalmente. Encontram-se sob o título: algumas Sombras.

RS

Desejo


Espero que Filomena Mónica nunca descubra como fazer um blog.
Ainda lhe chamava "os sentimentos de uma ocidental"...

Lamento

Lido em avatares de um desejo:

--- quote ---

Lamentável
Palavras de Durão Barroso, no discurso de pesar da morte do diplomata Ségio Vieira de Mello (tiro de memória): ... "em relação ao terrorismo, temos que estar de um lado ou do outro" ... "a comunidade das nações livres"...
Este uso dos slogans que Bush celebrizou na propaganda americana, aquando da preparação da guerra do Iraque, parece-me um pouco infeliz. Nas circunstâncias em que Durão Barroso fala é bem mais que isso: é deplorável.

--- end quote ---


O lamento do Bruno não foi assimilado pelos Jaquinzinhos.
É uma perspectiva lamentável.

Existem tantas pessoas que vêem o Mundo a preto e branco...
E tantas mais que, não fazendo ideia do que falam, enchem o peito com preconceitos.

nota:
A "única democracia do Médio Oriente" só pode ser uma piada.
(ver link acima, para "Jaquinzinhos")
Vou terminar por me rir mais ao ler os Jaquins que o Valete!
(O humor negro devia imperar na blogosfera, mas temo que seja outro algo...)

O arabista e o kuffiyeh


Arabista, s. 2 gén. Pessoa que conhece ou estuda a língua, literatura ou costumes árabes.

O António Baeta recusou, modestamente, o epíteto de "arabista" que lhe atribuí, mas continuo a pensar que o seu amor à nossa herança árabe o justifica. Afinal, os portugueses, mesmo os que o desconhecem, têm mais sangue árabe nas veias que outro qualquer.

Kuffiyeh, lenço árabe; o padrão palestiniano é branco e negro, ou negro e branco. (também "kaffiyeh" ou "kufiyyeh" ou "keffiyeh")

Há bastante tempo que uso um Kuffiyeh palestiniano. Começou um dia, por solidariedade com o povo da Palestina, e ficou. Desde então que o acto de o colocar se tornou tão natural como calçar os sapatos, embora seja algo bem mais significativo que os sapatos.
No dia 19, na baixa do Porto, mais olhos se voltaram para mim que o habitual. Interrogar-se-iam, porventura, se transportava comigo uma carga de Semtex ou um cinto com barras de C4... Somos iguais aos árabes.
Eles vêem em cada "ocidental" um demónio, nós vemos em cada "árabe" um terrorista. Quando é que isto muda? Mudará algum dia?

Liberal - só

Lido em Jaquinzinhos:

--- quote ---

Tenho lido e ouvido um ódio concentrado na Conferência da Organização Mundial de Comércio porque esta tem como objectivo "eliminar as barreiras alfandegárias à circulação dos produtos agrícolas no contexto da liberalização do comércio mundial. "

Ser contra a OMC neo-liberal e a favor de liberalização anti-neo-liberal é anti-globalizante ou alter-globalizante? (Jaquinzinho Confuso).

--- end quote ---


Mais uma vítima da propaganda...
Caro Jaquinzinho, parece ser mais um "confundido" por tanta desinformação. Um dano colateral.
Ou então, o que me recuso a acreditar, é um agente dessa desinformação, como os "de negro" que se juntam aos que protestam contra a globalização (um fenómeno neoliberal inequívoco, mas a que a omissão do "apelido" causa problemas - existe a globalização do terrorismo, por exemplo, ou a globalização das comunicações) para destruir restaurantes e incendiar automóveis.
É que bombardear a blogosfera com tanto "alter", "anti", "anti-neo", "neo" e "anti-anti" só pode significar uma dessas duas coisas: ou deu mesmo "tilt" ou está a ver se alguém dá "tilt". :)

nota:
Recomendo a leitura atenta desse campeão da luta contra a globalização neoliberal, que foi Adam Smith.