sexta-feira, janeiro 23, 2004

Driving


Sobre a prevenção rodoviária é preciso ter a coragem de assumir de uma vez por todas que ela não existe. Ponto.

As alterações recentes ao código da estrada visam, principalmente, aumentar de forma exponencial o tipo, o número e o valor das multas. Muito pouco mais. O que é que isto significa? Que vamos ter menos acidentes? Que vamos ter condutores mais conscientes? Que vai deixar de morrer tanta gente na estrada? Nada disso. Significa apenas que todos teremos de pagar mais para andar na estrada.

Vou ser o mais sincero possível: não concordo com limites de velocidade fora das localidades. Para mim, é exactamente o mesmo que limitar os quilómetros que cada um pode fazer por ano. Já pensaram nos acidentes que se evitavam se cada condutor fosse obrigado a respeitar um limite de 10.000 quilómetros por ano? Cada qual é responsável por si e pelo estado de conservação da sua viatura. Por exemplo, em lugar de multar o excesso de velocidade da forma que tal tem sido feito, que tal uma inibição de conduzir por um ano quando se conduzisse sem a última revisão feita à mais de 5.000 quilómetros? Ou de três anos quando o veículo excedesse em mais de dois meses o limite da última inspecção? Porque multar o excesso de velocidade não evita acidentes; mais ainda, do modo como a multa é obtida, é um factor de potenciação de acidentes.

O que fazem a GNR/BT e a DT/PSP? Escolhem um sítio onde existe limitação de velocidade, montam uma emboscada, deixam que o excesso tenha sido cometido e, mais à frente, lá estão a causar um engarrafamento com os infelizes que foram apanhados na armadilha... Isto não tem nada de prevenção, caros amigos.

Em primeiro lugar, se existe uma limitação de velocidade, ela deveria ser aplicada a cada local segundo a sua especificidade, isto é, existem sítios onde a velocidade não é limitada só porque "está escrito", mas porque circular a mais de x km/h nesses locais pode ser realmente perigoso - ou existem obras, ou escolas, ou atravessamento de máquinas ou veículos agrícolas, ou a própria estrada é particularmente traiçoeira nesses troços. Tal só é aplicado em poucos casos. De resto, mesmo vias com quatro faixas ou mais e separadores podem estar limitadas a 50 km/h se "encostadas" a localidades. Isto é pura e simplesmente estúpido - mas uma benção para os agentes da autoridade!

Um exemplo na primeira pessoa:
A aproximação a Tomar, vindo do IC3, é feita por uma via de quatro faixas com separador central e boa visibilidade, possuindo mesmo zonas de segurança laterais para autocarros ou emergências. É uma zona industrial e deserta, mas existem passadeiras em determinados pontos; porém, tais passadeiras são bem visíveis à distância e encontram-se quase todas (arriscaria todas, mas não tenho a certeza) junto das rotundas existentes ao longo da via, que funcionam como um limitador de velocidade natural e onde não existe prioridade para quem nelas entra.
Faço esta estrada frequentemente, pois vou várias vezes a Tomar, sempre que estou em Alvaiázere, local que visito quase mensalmente, e nunca reparei a que velocidade circulava nesse sítio. Existe espaço e campo de visão, ultrapasso pela minha faixa esquerda, dado que tenho duas à disposição, e sou forçado a abrandar a cada rotunda, o que acontece a intervalos curtos da estrada. Pois essa zona (nunca tinha reparado, confesso, apesar da sinalização que é pouca mas existe) é considerada localidade e, como tal, limitada a 50 km/h. Nunca encontrei um peão numa passadeira, nunca lá vi um acidente, nunca vi um aviso de radar ou de zona de acidentes. É uma zona de condução muito fácil e tranquila, depois das curvas manhosas da EN110, antes do IC3, para quem vem de Condeixa.
Conduzia nessa via, com a Lina a meu lado, quando vi um flash, vindo de uma das áreas de segurança laterais. Nem me passou pela cabeça que fosse um radar, mas ela achou que sim. Estava a ultrapassar um automóvel que seguia na faixa da esquerda, pelo que tinha acelerado um pouco para o fazer. Logo após era a rotunda. E o pandemónio!

Era, de facto, um radar. Estava camuflado na berma da estrada, ocupando uma das áreas de emergência, num veículo preto de grande cilindrada (ou tamanho, pelo menos). Nem um aviso antes. Mas o melhor foi quando chegámos à rotunda. Adivinharam. A PSP de Tomar tinha montado um verdadeiro circo na própria rotunda, que não é muito larga, de modo que os automóveis infractores amontoavam-se por metade dela, encostados à berma em dupla fila! Havia mais carros parados que agentes para os multar (só enquanto estive parado, o rádio do agente que me multava anunciou mais três que não foram mandados parar por "falta de condições"! - depois mandavam a multa pelo correio...) e o polícia que me mandou encostar teve de saltar para o meio da rotunda para me fazer sinal, quase sendo atropelado pelo carro que seguia à minha frente! Uma festa autêntica!

Pois fiquei a saber que circulava a 90 km/h, ao ultrapassar o tal carro na tal via com quatro faixas e separador... Um autêntico perigo... Ao agente, só disse isto: "Ainda bem que conheço bem a zona e sei que é perfeitamente segura, pois caso não o fosse, bem me podia ter despistado e morrido ou matado alguém só para ficar bonito na vossa fotografia." Ele encolheu os ombros e disse, olhando para o verdadeiro batalhão de colegas: "Não posso fazer nada... Se a foto ficar bem, vai receber a multa..." Pois. O que importa é a porcaria da foto. A minha segurança e a dos outros que se dane.

No dia seguinte lá passei de novo, sem olhar para o velocímetro, como sempre. Tudo normal, nenhuma velocidade excessiva para o local, para o veículo que conduzo e para mim. Os 80, 90 do costume, digo eu, agora que já sei o que mede o radar quando passo... Numa estrada assim, diga-se a verdade, é impossível conduzir pela segunda faixa (a da direita) em segurança a menos de 70 ou 80 km/h. Se era para ir sempre a 50, que não fizessem quatro faixas, nem separador, nem áreas de paragem nas bermas. Mas que é um rico sítio para passar multas é; e este nem ao menos é perigoso, excluindo o circo montado na rotunda quando há operações daquele tipo.

A última multa que tive por excesso de velocidade foi em 1991, antes de Moledo. Conduzia a boa velha GS500 e fui mandado encostar da mesma forma. Eu, um BMW M3 e um Ferrari GTO (lindo de morrer!). Apesar de tirada numa "emboscada", não protestei. Foi bem passada. Que me tirem a foto a mais de 180 numa nacional, por muito seguro que eu e o meu veículo sejam (hoje já não faço estas coisas...), aceito perfeitamente. Agora o que não aceito é outra coisa: para além de ser multado da forma ridícula como fui em Tomar, não aceito que seja obrigado a conhecer todos os milímetros das estradas portuguesas e os seus pontos perigosos ou onde acontecem acidentes por excesso de velocidade. Tenho o direito de ser avisado antes e as autoridades não têm o direito de, nesses locais, jogarem com a vida das pessoas só para conseguirem "boas fotografias".

A solução?
Mesmo em sítios como o que descrevi em Tomar, onde o limite é uma parvoíce, é realizar operações frequentes com avisos prévios e de rotina sem existência de operação, mas com a presença dos avisos. Ninguém arriscaria ser "flashado" depois de ter visto que - por vezes - a PSP está mesmo lá. Bastaria isso para todos, mesmo estupidamente, reduzirem a velocidade. Isto seria particularmente eficaz em locais verdadeiramente perigosos. Mas não.
Claro que prevenir custa dinheiro, quase não dá uma única multita e exige muito trabalho da parte das autoridades. Deste ponto de vista, concordo plenamente que uma operação "emboscada" por mês enche o cofre, fica barata e não dá trabalho nenhum. Prevenção para quê? Mais vale investir em boas lentes e câmaras! A segurança na estrada que se dane.

Qualquer dia, ainda vou estar parado a falar com um agente da PSP naquela rotunda cheia de carros parados e me vai entrar um Subaru pelo carro dentro, a travar como um doido, para aí a 80 ou mais. Estou mesmo a ver a cara do agente, aos berros para o rádio!
"Diz-me que este cabrão ficou na fotografia!!"

E espero sobreviver, claro, para vos contar como foi. :)


nota:
Sobre uma entrada da Beatriz, no Divã de Portugal, sobre fumar e conduzir, apenas sugiro menos fundamentalismo. Qualquer dia somos todos obrigados a conduzir com reflectores na roupa, para o caso de termos de parar na estrada, à noite...
Pessoalmente, decidi adoptar a mesma postura de automóvel que tinha de moto: quando quero fumar, encosto e dou um giro ao ar livre. Nunca ninguém fumou neste automóvel, nem fumará em qualquer outro que venha a ter. Resultado: ainda hoje, quatro anos depois da sua compra, me dizem que "cheira a novo". ;)

quarta-feira, janeiro 21, 2004

The Boot


O Fabien tem razão.
Eu é que tenho de descalçar "a bota"...

MAS UMA AJUDINHA VINHA A CALHAR! (grrr...)

Clap Clap Clap


Nem me vou dar ao trabalho de comparar o State of the Union Address de 2004 com o de 2003, mas esta selecção serve às mil maravilhas para ilustrar o que vai pelos lados do Congresso dos EUA e o calibre do discurso deste ano...

--- quote ---

(...)
Key provisions of the Patriot Act are set to expire next year. (Applause.) The terrorist threat will not expire on that schedule. (Applause.) Our law enforcement needs this vital legislation to protect our citizens. You need to renew the Patriot Act. (Applause.)
(...)

--- end quote ---


extraído de WhiteHouse.gov

Ou seja...
W. Bush diz que partes fundamentais do Patriot Act vão expirar em 2004 e o Congresso aplaude... Logo a seguir afirma que a ameaça terrorista (A ameaça) não expira em 2004 e é aplaudido de novo... E mais aplaudido é ao afirmar em jeito de conclusão que é necessária uma renovação do Patriot Act...

Mas afinal o que aplaudiam os congressistas? Se a explicação para estes aplausos for a dos sectores de onde vieram (o primeiro dos democratas, o terceiro dos republicanos e o segundo de ambos, por exemplo) ainda vá lá, mas a julgar pelas imagens televisivas parece que toda a gente bateu palmas a tudo, não importa o quê... E ainda nos queixamos do nosso parlamento...

Resumindo, o autor da animação que ganhou o prémio do spot de 30 segundos dedicado a G. W. Bush acertou em cheio na previsão deste discurso. Terrorist-Terrorist-Terrorist-9/11-9/11-9/11-GodblessAmerica. Tadaa!!...

nota:
E gostei de saber que nada mudou com os resultados da invasão do Iraque. Afinal, os EUA não precisam de pedir autorização a ninguém para se defenderem. Na perspectiva de se defenderem outra vez na Indochina, se preciso for - mas na Coreia não! Não generalizemos, please!

Extraído da mesma fonte insuspeita:

--- quote ---

(...)
From the beginning, America has sought international support for our operations in Afghanistan and Iraq, and we have gained much support. There is a difference, however, between leading a coalition of many nations, and submitting to the objections of a few. America will never seek a permission slip to defend the security of our country. (Applause.)
(...)

--- end quote ---


Deixei o aplauso nesta, também. Achei giro. :)
Onward, Christian soldiers, marching as to war,
with the cross of Jesus going on before... Tralala...

The Rush


Pois é... Como diz uma amiga minha, quando a vida real aperta é a virtual que paga! O certo é que este meu lado da vida, a blogosfera, nada tem de virtual e não me agrada não ter podido publicar o que vou escrevendo nos meus cadernos... Mas o tempo não dá para tudo e este ano vai ser complicado!

Apesar disso, as próximas entradas falarão das primárias do partido democrata nos EUA, de prevenção rodoviária e, claro, do discurso do Estado da Nação de 2004, pelo "presidente" W. Bush.

Ainda me falta actualizar o CpI (que desgraça!) e as ligações nos Links Completos d'A Sombra, pois há novidades! - Isto tem a ver, também, com aquele "enigma" a que me referi antes. Vai ser um ano de mudança! E que mudança!

Obrigado a todos pela paciência!

Um abraço,

RS


nota:
Logo agora o Fabien decidiu entrar noutra das suas fases contemplativas...
Hey! Give us a hand here! :)

sábado, janeiro 17, 2004

Dark Side of the Moon


George W. Bush tem mais uma prioridade?

O objectivo de colocar de novo norte-americanos na Lua não deve ser confundido com o dispersar de recursos necessários à "Guerra contra o Terror". De facto, fontes próximas do Pentágono afirmam que Washington tem provas irrefutáveis do envolvimento da Al-Qaeda no financiamento da agência espacial chinesa. Fala-se mesmo de fotografias de Osama Ben Laden em testes na base de Dongfeng, a cidade aeroespacial também conhecida por Shuang Cheng Tzu ou Base 20, que teriam sido autenticadas pela análise de uma amostra de urina conseguida no mercado negro de Beijing por agentes secretos norte-americanos, alegadamente contrabandeada de Dongfeng por elementos do clube escatológico local, que provou ser idêntica a várias outras encontradas em diversas cavernas do Afeganistão onde as forças especiais dos EUA chegaram demasiado tarde para capturar o terrorista, mas a tempo de recolher a sua urina para testes.

Não se trata de uma nova prioridade, portanto. É apenas um plano de contingência, para o caso de Osama Ben Laden ser o próximo Taikonauta...

Monstros


Lido no Público de 16Jan2003:

--- quote ---

(...)
Em suma: nenhuma solução baseada na força bruta, no "apartheid" ou nas retaliações indiscriminadas garantirá algum dia a paz a Israel. Ora o drama de Israel é que Ariel Sharon nunca aprenderá tal lição elementar.

--- end quote ---


(extraído do editorial de José Manuel Fernandes, intitulado "A Mãe-Bomba" - ver versão on line aqui)

Não é que o texto esteja mau, nem sequer que não exprima o tipo de ideias a que José Manuel Fernandes nos habituou, usualmente baseadas na bitola norte-americana - ou talvez seja o seu modo de imitar as "condenações" de Washington à política israelita para a Palestina; o certo é que não tem nada a ver com quem o escreveu.

Reem Raiyashi, a jovem palestiniana suicida, de 22 anos e mãe de dois filhos, optou pelo mesmo método bestial de retaliação contra Israel que tem vindo a ser usado um pouco por todo o mundo islâmico. Mas o seu alvo, ao menos desta vez, era legítimo. As vítimas mortais eram militares ou para-militares israelitas.
Como já aqui referi, uma coisa é fazer explodir um autocarro civil em Telavive, outra é fazer explodir uma coluna militar, um veículo militar ou... um posto de controlo.

Os postos de controlo são particularmente odiosos.
Através deles, Israel sufoca o futuro Estado palestiniano. São, quanto a mim, não só um objectivo militar legítimo como um dos que importaria eliminar de todo.
Não é raro que militares israelitas detenham ambulâncias palestinianas por mais tempo que o necessário nesses postos. Se o doente transportado estiver mesmo mal, pode morrer ali mesmo, perante a fleuma dos israelitas. Já aconteceu.

Apesar da natureza deste alvo e das vítimas mortais do atentado de Reem Raiyashi não serem civis, a sua razão de ser é a mesma dos que optam por alvos mais "suaves". E o catalisador desses ataques é exactamente o mesmo. Daí que ache estranho, no mínimo, que José Manuel Fernandes venha agora "explicar" a origem deste ódio, socorrendo-se desta jovem mãe infeliz.

Caro José Manuel Fernandes,

O ódio dela foi alimentado pelo mesmo monstro que alimenta os animais que se fazem explodir no meio de mulheres e crianças judias. E nem mesmo existe a certeza de ter sido escolhido o objectivo como militar. O mais certo, aliás, era que Reem Raiyashi se fosse fazer explodir num qualquer autocarro israelita, tendo accionado os explosivos no posto de controlo por ter sido exposta pelos militares.

E se quer que lhe diga, na Palestina, como em Israel, como em todo o lado, não existem bons monstros ou maus monstros. Apenas monstros. O que foram antes de se tornarem bestas é irrelevante.

Um cão pode ter sido o mais dócil e carinhoso animal do mundo, mas uma vez enlouquecido, é abatido da mesma forma que outro que sempre foi raivoso. As diferenças entre ambos estão no passado, não no presente. No presente, essas diferenças são simplesmente inexistentes.

Rui Semblano
Porto, 16 de Janeiro de 2004

sexta-feira, janeiro 16, 2004

The Movement


Lido na Tribuna Socialista:

--- quote ---

(...)
Será que não existem razões de sobra para dizermos NÃO! para lançarmos uma GREVE GERAL que mande este governo às urtigas?

Porque espera TODO o movimento sindical?

--- end quote ---


Apesar de concordar plenamente com a ideia expressa pelos exemplos de governação dados antes da formulação destas duas questões, não resisto a perguntar ao João Freire:

Mas, TODO qual?...

quarta-feira, janeiro 14, 2004

Made in USA


Um dos indicadores sobre a situação interna dos EUA que mais prezo são as palavras que me chegam das terras do tio Sam na primeira pessoa. Eis dois bons exemplos (e fresquinhos):

De um português residente no Texas:

(...)
Eu entretanto ja não sou engenheiro e estou a viver no Texas (a terra
daquele chimpanzé que vive agora na Casa Branca!) e resolvi comecar um blog
com poemas sobre o mar e sobre navios, etc.
(...)


De uma norte-americana residente na Georgia:

(...)
At the risk of being put on some Ashcroft watch list, I am forwarding this link.
http://www.bushin30seconds.org/index.html
(...)


nota:
Ambos os remetentes enviaram as mensagens como privadas, de onde omitir as suas identidades, não se tratando de correio para A Sombra.

nota2:
Quanto ao comentário da minha amiga, sobre a lista Ashcroft, há muito que ela, eu e muitos outros devem estar a ser lidos pelos rapazes do Carnivore!
Seguindo o exemplo de um dos spots de 30 segundos sobre "Dubya" (na ligação que mantive na sua mensagem), aqui vai uma achega:
Terrorist, nine-eleven, airport, uranium, target and, of course, George sucks!
(hello boys!)


:)

God bless America!

O Passado Imperfeito - Parte 2


O ano que passou não foi muito bom para a Europa, mas o que esperar de 2004? Os que se opuseram à invasão do Iraque chegam a regozijar com a posição do eixo franco-alemão, como eu o cheguei, expressando-o publicamente nas páginas do Público em carta ao director, "Valha-nos a Velha Europa", datada de 30Jan2003 e publicada a 01Fev2003, se não me falha a memória... (ver Anexo abaixo). Não era tanto pelos Governos de França e Alemanha que me regozijava, antes por estes reflectirem acertadamente a opinião das suas opiniões públicas, pois quanto aos motivos de Chirac e Schröder a conversa é outra. Os interesses de ambos no Iraque, desde contratos petrolíferos à indexação do petróleo iraquiano ao euro, foram determinantes para a oposição do eixo franco-alemão à política norte-americana para o Golfo Pérsico. Não fosse isso e existisse um "entendimento" quanto à partilha dos despojos de guerra e hoje teríamos a Legião Estrangeira em peso em Tikrit e uma Divisão Panzer em Falluja.

A agenda escondida de franceses e alemães é cada vez mais aberta e tem como principal objectivo a obtenção de mais poder e influência no plano interno (UE) e no externo (ONU, OMC...). A visão da Europa perfilhada um dia pelo Europeu comum, enquanto espaço agregador de diferentes realidades e culturas com a mesma identidade geográfica sob uma só bandeira, começa a esbater-se neste jogo perigoso. E tão perigoso é que arrisca o desmembramento da UE, tal como a conhecemos, sendo o cenário mais certo o limitar da Europa dos 25 a uma mera Hansa, enquanto se cria um núcleo duro com real significado político, económico e, porventura, militar - embora esteja na estrutura militar futura da UE uma das possíveis plataformas de entendimento e salvação, já que uma UE militarmente forte depende de todos os seus membros em termos de efectivos.

Rumsfeld não estava completamente enganado ao falar de duas "europas", mas eu não lhes chamaria "velha" e "nova", além de que, aparentemente, existem bem mais que duas. Desde o grupo original que fundou a UE ao Reino Unido orgulhosamente só (mas "remando" para Oeste); dos países mediterrânicos (entre os quais Portugal não se encontra, por mais líricos que queiramos ser) aos países de Leste; e não nos esqueçamos dos "não alinhados" como a Suíça e a Suécia ou os euro-wanna-bees como a Turquia.

A Europa como entidade una a nível político, que exceda a mera organização económica, é cada vez mais uma miragem. A integração das economias da zona euro é uma anedota de que o PEC foi o paradigma; o respeito por cada um dos Estados membros é exaltado no papel para ser espezinhado na prática; assinam-se cartas atrás das costas uns dos outros, hoje a favor, amanhã contra... As presidências rotativas vão esgotando a sua razão de ser e produzindo diplomas de circunstância e regulamentos internos que a poucos mais dizem respeito para além dos eurocratas de serviço, enquanto passam as batatas quentes de umas para as outras, como no caso da Constituição Europeia, que acabou por se tornar num calhamaço que ninguém lerá por completo (a começar pelos cidadãos comuns...).
Seria razoável que uma estrutura como a Europa se construísse de cima para baixo, isto é, harmonizasse e simplificasse, passando o conceito às estruturas dos países membros. Nada disso. As tentativas de criação de um espaço coerente em termos políticos resultaram num projecto de Constituição que não se compreende e em que ser holandês, belga ou espanhol é ainda mais importante que ser europeu.

A minha identidade, enquanto portuense, nada me impede de sentir a nacionalidade portuguesa. No entanto, a minha cultura é muito diversa da de um lisboeta ou de um algarvio, mas considero qualquer um deles tão português como eu e com os mesmos direitos e deveres que eu - e reciprocamente.
Do mesmo modo, apesar das ainda maiores diferenças culturais, a que se juntam as linguísticas, considero-me tão europeu como um polaco ou um grego e, da mesma forma que ser português não me retira em nada a identidade portuense, ser europeu nada me tira da identidade portuguesa. O resto é política e democracia. Bem usadas, transformarão a Europa num espaço federal em que teremos orgulho de viver e ter como compatriotas gentes tão diversas como as eslavas e as mediterrânicas. Se mal usadas, como têm sido, dá nisto. Cada um a rezar ao seu santinho, esquecidos de Deus.

Continuo a pensar que o futuro nos reserva uma Europa Federal, primeiro, e um Mundo Federal, depois, quando os grandes espaços (como África, o Médio Oriente, a Ásia e a América do Sul) se estruturarem de modo similar. Pura futurologia, sem dúvida, e nada que os meus bisnetos venham a ver, mas talvez os seus vejam, se ainda existir um Mundo para unificar quando viverem.
O que acredito é que mesmo o primeiro passo nesse sentido, a Europa Federal, não será para os meus dias. Para os dos meus filhos? Não sei. Talvez nem para eles. Mas existirá. E será uma entidade homogénea, delimitada a Oeste pelo Atlântico e a Leste pela Grande Rússia. A Turquia, apesar da herança da NATO, nunca será Europa. Nunca o foi. Ou o Líbano será Europa. E Israel, já agora. Ainda sobra espaço para o Zimbabwe e para a Coreia (do Sul, claro!), a não ser que os EUA a metam na NAFTA, junto com a Turquia, que já convidaram.

A Europa é, antes de mais nada, um espaço geográfico, ponto final. Se vamos pelas afinidades culturais, laços históricos, traços sociológicos, qualquer dia teremos todos os países que já foram colónias europeias a pedir a adesão. Aliás, qualquer país da Commonwealth tem mais afinidades com a Europa do que a Turquia... Exceptuando o "Eurofestival" da Canção!

Quem tem mais responsabilidades no falhanço do projecto europeu? Quanto a mim, dois países partilham a maior parte delas - e em doses quase iguais: a Alemanha e o Reino Unido. E não vale a pena desancar nos franceses, pois estes agarraram-se à Alemanha para não perder a boleia e o eixo franco-alemão é mais uma operação parisiense de controlo de danos que outra coisa qualquer.

A Alemanha procura claramente o que o Japão procurou (e ainda procura) após a Segunda Guerra Mundial: conquistar pela economia o que falhou pelas armas. O mal-estar provocado em Berlim pelas posições de Varsóvia quanto à guerra no Iraque e à Constituição europeia tem em si as sementes do Pangermanismo. A integração da Polónia na UE é uma vitória que os polacos não querem dar à Alemanha; uma vitória que, porém, os alemães já obtiveram, conscientes do que é o euro, na realidade, somado com uma herança cultural que nunca deixou de ser prussiana. A procura de mais poder económico - e, por sua via, político - é uma constante da política alemã desde a queda do muro de Berlim. Lentamente, a Grande Alemanha reconstitui-se sob os nossos olhos. Para o caso de não terem reparado, existem já muitos mais europeus que falam alemão e trazem euros nos bolsos que quaisquer outros - e em breve serão muitos mais!

Quanto ao Reino Unido, a sua vocação sempre foi claramente Atlântica (De Gaulle é que tinha razão...) e não nos devemos esquecer que o seu império cobriu, um dia, um quarto da superfície deste planeta e que a Commonwealth não é miragem nenhuma. A ligação de Londres a Washington excede em muito a partilha dos mesmos "ideais democráticos e liberdade para todos" e a distância que vai de Portsmouth a New York é muito menor que a que separa Southampton de Callais... Embora não pareça.

Temos assim o país europeu sem o qual não é viável uma estrutura militar coesa e digna de nota mais interessado em alianças externas à Europa e o país europeu sem o qual não é possível um espaço económico forte mais interessado na glória nacional de antanho... De facto, nenhum deles está muito interessado na Europa - no que a Europa poderia ser. Restam as "humanidades" e os pequenos-burgueses. Os outros vêem passar navios. Como nós.

Ser europeu é ainda uma ideia demasiado abstracta. A última fronteira, o que nos poderia identificar como europeus, esbate-se com a proposta de adesão da Turquia, de que já se disse ser óptima para os turcos! Pudera! Até para o Burkina Faso! É o vale tudo, uma vez mais, e já quase ninguém vê aqui Europa alguma.
Existe a Europa de alta velocidade (à qual nem de TGV lá chegaremos), a de média velocidade e a de baixa velocidade, mas existe pior! Existe a Europa virtual, que vai de Portugal à Mongólia!... Começa a ser ridículo.
Os instrumentos criados para harmonizar as relações políticas e económicas entre os membros da UE resultam todos ao contrário. Chega a parecer que quantos mais existem, menos nos entendemos uns com os outros. É a morte lenta da consciência europeia; já não pensamos como europeus. Justamente quando pensamos sê-lo surge um Chirac a quebrar o PEC ou um Portas a clamar pelo Império e pela cristandade...

Não sei o que se seguirá à UE que hoje conhecemos, mas sei que a única coisa que a segura, neste momento, são as moedas que trago no bolso e nada mais.
E é muito pouco.


Rui Semblano
Porto, Dezembro de 2003


ver O Passado Imperfeito - Parte 1


Anexo:

From: Rui Semblano
To: Público
Sent: Thursday, January 30, 2003 1:24 PM
Subject: Carta ao Director


Valha-nos a "Velha Europa"

Depois do discurso do Estado da União parece cada vez mais evidente que os EUA farão a guerra com o Iraque por motivos que nada têm a ver com a intenção de desarmar Saddam Hussein ou sequer com o objectivo de "libertar" o povo iraquiano. A não ser assim, em lugar de agendar para 5 de Fevereiro a apresentação nas Nações Unidas das alegadas "provas" contra o Iraque, teriam não só revelado esses dados, publicamente e de imediato, como passado a informação aos inspectores da ONU mais cedo, para que actuassem em conformidade.
Sendo assim, a hipocrisia desta Administração norte-americana torna-se clara. Dizem saber quais as faltas de Saddam Hussein, mas não usam essa informação para permitir à ONU que a use no terreno de forma expressiva, antes a guardando como trunfo para "justificar" a sua guerra.
Só lamento que, quando se tornam evidentes estes factos, Portugal alinhe com esta posição do governo dos EUA. Se o tivésse feito mais cedo, ao menos poderia alegar que, por princípio, não voltaria atrás. Agora, a posição de Portugal torna-se tão hipócrita como a da Administração norte-americana, com a agravante de tomarem partido contra o eixo franco-alemão num momento particularmente significativo, em matéria de União Europeia. Parece que Durão Barroso tem pressa de se juntar à "Nova Europa", segundo Rumsfeld.
Valha-nos a "Velha".

Time flies...

(*)

Não estive muito cinéfilo estes dias - a que um PC particularmente não cooperante não ajudou nadinha (grrr...) - pelo que a actualização do CpI, que mencionei abaixo, ainda não foi efectuada.

Pelo facto, aos que a procuraram, as minhas desculpas.
A ver se em breve fica resolvida a questão - até porque já é quase quinta-feira outra vez (o novo dia de estreias!) e os bilhetes vão-se amontoando!

nota:
A minha inveja vai direitinha para os felizardos que operam em Mac! Sortudos! :)

(*) Time flies..., o tempo moscas (trad. livre)

domingo, janeiro 11, 2004

Updating...


Estão actualizados os blogs de apoio d'A Sombra:
Os Arquivos Manuais e os Blog Links Completos.

Resta a actualização (bem precisa!) do CpI, com:

LOTR - The Return of the King;
Master and Commander;
The Last Samurai.


(a ver se amanhã estamos cinéfilos) :)

sexta-feira, janeiro 09, 2004

A Armadilha Diabólica...


"A honestidade, a responsabilidade e o respeito pela palavra dada, a ética profissional, serão valores em extinção, em conflito com o progresso e as mudanças inerentes?"
António Baeta in Honestidade e Pragmatismo

Changes...

A pergunta do amigo António Baeta é daquelas que, desde a aurora do Século XIX (pelo menos), assalta o espírito humano a cada ano que passa.

(pausa para acender o Montecristo, como prometido... Continuando:)

Veio-me à memória o início de um álbum de Edgar P. Jacobs, da série "Blake & Mortimer"; mais precisamente "A Armadilha Diabólica".
Blake aguarda Mortimer no salão de fumo de um hotel parisiense e, enquanto espera, ouve um diálogo que se desenrola numa mesa adjacente à sua. Era este:

- ... Ah! Que tempos estes! Veja estes jornais!... Ameaças de guerra! Perigo atómico! Revoluções! Convulsões sociais! Catástrofes!... O mundo parece possuído pela loucura... Decididamente, os nossos antepassados eram mais sensatos! A vida calma e disciplinada que levavam punha-os a coberto destas aventuras... Eram bons tempos!...
- Ora, ora! Obscurantismo e tirania é o que eram os "seus" bons tempos!... Pelo meu lado, prefiro virar-me resolutamente para o futuro!... Assistimos à criação de um novo mundo! Amanhã, graças aos extraordinários progressos da ciência, a humanidade, liberta das servidões materiais, poderá finalmente consagrar-se com toda a liberdade aos prazeres do espírito!...
- Teoria sedutora, mas que, receio bem, lhe faz ver o "seu" hipotético futuro a uma luz demasiado idílica!... "O meu passado", pelo menos, já deu as suas provas!...
- ... Ora! É com um desprezo piedoso que o "meu futuro" julgará o "seu passado" ignorante e bárbaro!...


No álbum, Blake comenta, para si mesmo:

- Hum!... Passado!... Futuro!... quem sabe se os "bons tempos" com que sonham não serão simplesmente o tempo presente, gentlemen!...

Este episódio foi editado pela primeira vez um ano antes do meu nascimento, em 1962. Hoje, não estaria assim tão seguro como Blake, embora já concordasse com ele antes...
De facto, estes tempos presentes, de bom têm quase nada. Ainda hoje recebi um e-mail enviado por João Pedro Freire (Tribuna Socialista) que criticava - e muito bem - a iniciativa do PSD e do CDS-PP que visa limitar a liberdade de imprensa, com o pretexto de que os recentes acontecimentos relacionados com as fugas de informação no processo Casa Pia são inadmissíveis e, limitando e regulando a actividade jornalística, assim poderem evitar que tal se venha a repetir.

Este exemplo é apenas um de muitos em que, nas sociedades ditas desenvolvidas e democráticas, as liberdades e direitos individuais são sacrificados para proteger o "bem comum".
"Amanhã podes ser tu!" é o lema desta gente (a élite, os especialistas de que João Pedro Freire me dizia serem os manipuladores exclusivos da democracia - esse bem demasiado precioso para ser deixado nas mãos do povo...).

"Amanhã podes ser tu a morrer num atentado; amanhã podes ser tu a ser enterrado vivo num terramoto; amanhã podes ser tu a ver o teu nome nos jornais como pedófilo ou coisa pior... A não ser que nos deixes proteger-te!..." - dizem-nos.

Os valores de que nos fala António Baeta (honestidade, responsabilidade, respeito pela palavra dada, ética profissional) deveriam ser intemporais, mas a sua conotação com o passado é inevitável quando se pergunta se não estarão a ficar gastos pelos ventos da mudança que trazem o futuro... E aqui reside a gravidade da pergunta. O diálogo que transcrevi acima, datado de 1962, refere-se a modos de vida que, ambos, integrariam os valores postos em causa na pergunta de António Baeta. Agora, no "nosso" presente, verificamos que não temos as vantagens com que sonhava o defensor do "futuro" na obra de E. P. Jacobs, mas verificamos mais. Verificamos que nele estão a desaparecer os valores amorais, aqueles que são independentes de qualquer moralidade.

A razão é simples.
A moralidade que nos é imposta pelos que supostamente elegemos, sejam poder ou oposição, não se compadece de valores amorais. Tudo o que não possa ser catalogado ou referenciado (como A Sombra, por exemplo) é considerado perigoso, subversivo, desestabilizador e nefasto.

Um dos nossos bloggers "fantasmas", como lhes chamei um dia, o Fernando Granjo, chama a isto a "Teoria do Centrão"; isto é, a normalização da sociedade democrática, a uniformização das tendências, a ilusão da alternativa.

Os nossos Senadores esqueceram-nos...
A sua razão de ser são eles próprios.
De tal modo se perverteu o conceito de democracia que as suas manobras, isentas de qualquer honestidade, responsabilidade, palavra e ética, parecem absolutamente normais ao cidadão comum. Recordem-se do povinho que defende Fátima Felgueiras! O erro dela não foi ser desonesta, irresponsável, não ter palavra ou ética. Foi ser apanhada. Relembrem o caso Paulo Pedroso e a reacção do PS antes e depois da sua acusação formal. Já ninguém percebe mais nada. É o caos? Ainda não. Nem sei se chegará tão cedo, mas uma coisa é certa: é o vale tudo em ambiente fechado. Isto é, para "eles" vale tudo, para "nós" nada vale.

Quem são "eles"?
"Eles" são os que criaram uma ilusão que tomamos por realidade para que nos possam controlar e explorar (The Matrix); "eles" são os que nos fizeram crer que a honra é um adereço de opereta (The Last Samurai); "eles" são os que tentam rescrever o passado e nos prometem um futuro radioso para que esqueçamos o presente (1984)...

"Eles" são os arquitectos desta armadilha diabólica a que chamamos democracia... Mas durmam, que sei eu? Durmam descansados. Afinal, amanhã é outro dia... Pragmático.

nota:
Previsão meteorológica para 9 de Janeiro de 2004 em Portugal Continental:
Chuviscos ou chuva. (o trânsito vai estar péssimo...)

quinta-feira, janeiro 08, 2004

Estava-se mesmo bem!


Enigma actualizado... :)

A estadia em Terras do Falcoeiro (Al-Baiaz, Alvaiázere) durou bem mais que o previsto. Ao regressar, verifico que as visitas se mantiveram, o que é sempre digno de registo e merecedor de agradecimento aos que procuram as palavras nesta Sombra.

Os dias de silêncio ficaram a dever-se a uma inesperada, mas já devida, demanda por descendentes dos Senhores do Templo, suas quintas e igrejas, bem como por um padre Borga (não esse, mas o seu irmão), pároco da igreja de Santa Maria do Olival - um dos mais interessantes monumentos Templários -, na região de Tomar. Um enigma a desvendar aqui, num futuro já bem próximo.

De relance, algumas notas:

1. Ao amigo Baeta, fica prometido um comentário à sua entrada Honestidade e Pragmatismo; e não estava a brincar quando disse que o faria fumando um cubano (State & Main)! O novo ano mal começou e, de facto, continua a primeira em queda e o segundo em alta... À portuguesa, mas não só.

2. Ao João de Rezende, que iniciou uma interessante meta-discussão ainda no "ano passado", também a promessa de meta-discutir um pouco, no seu seguimento.

3. Um apontamento (e agradecimento) ao Henrique Sousa, que tornou Deus visível, e que me apelidou de Serrano (o que, apesar de nado e criado junto ao mar, considero elogioso!). Passaremos a visitar o seu blog, que já conhecíamos "de nome". Mais um ponto de passagem a explorar na Blogosfera Lusa! Como disse há uns tempos, isto complica-se... E ainda bem! ;)

4. Um abraço ao Triplo Bek pela simpatia! Pirates rule!

5. E, finalmente, a publicação da segunda parte de O Passado Imperfeito, bem como de um resumo do trabalho realizado sobre a reconstrução de casas na Palestina.
E não me esqueci de Camelot 2003!

That should get things started this year. :)
Hey, we're back in the game.

sexta-feira, janeiro 02, 2004

Está-se bem


Et me voici!
As Terras do Falcoeiro permanecem tranquilas. A viagem desde o Porto, entre a uma e as duas e trinta da manhã do primeiro dia do ano, nunca correu tão bem. Faz três anos, estava uma tempestade de respeito - de onde o título da entrada anterior.

Passado o primeiro dia do ano em paz e sossego, cá estou no Web.Café, a dar uma vista de olhos pela escrita da rapaziada (e das meninas, claro). Confesso que não consigo afastar-me demasiado da blogosfera. Um curioso campo magnético parece envolvê-la! Não é preciso investigar muito para determinar a sua origem: é gerado pelos que nela escrevem.

O ano começou mal, como diz o editorial de Nuno Pacheco, no Público de hoje. De facto, não sei porquê, parece que todos os nossos desejos para 2004 vão sair furados. Espero que não, mas pela amostra... Enfim, aguardemos a prisão preventiva de Jorge Sampaio, assim ele deixe de ter imunidade, assim como de Teresa Guilherme, João Baião, Cinha Jardim, Manuela Moura Guedes, Manuel Monteiro, Paulo Portas e outros cromos. Ah, esqueci-me de mencionar o porquê desta afirmação: é que enviei uma carta anónima a Rui Teixeira implicando-os a todos no processo, na esperança que ele os prenda por um ou dois anitos. Junto com o conteúdo desta entrada, espero que a carta seja anexada ao processo! :)

Uma coisa parece ser certa: 2004 será mais um ano "casapiano", pelo menos até ao começo do Euro. E por falar em Euro, já repararam que em inúmeras publicações estrangeiras e algumas nacionais (como o Público) o local de abertura do campeonato é apontado como sendo Lisboa? Passou-me alguma coisa ao lado ou o jogo de inauguração ainda é no Porto? Ainda vamos ter turistas à procura do estádio do Dragão em Sintra...

Antes que me esqueça, deixo uma sugestão para 2004: não se esqueçam de entrar nas auto-estradas com os depósitos cheios e a mala a abarrotar de bidões de gasolina, para o caso dos assaltos que se estão a preparar nas áreas de serviço se virem a verificar. Be prepared!

Enfim... Esta entrada já vai longa e a conversa está cada vez mais curta. Um fenómeno, n'A Sombra: uma entrada verdadeiramente nonsense. Deve ser da televisão estar sempre ligada, em casa dos pais da Lina. Não posso deixar passar este ano sem os convencer a instalar TV por cabo... É que hoje fui apanhado desprevenido e lá estava a Teresa Guilherme outra vez!! Eu a pensar que aquilo já tinha acabado! Espero que o Rui Teixeira tenha lido a minha carta - o nome dela aparece várias vezes! :)

Bom fim-de-semana a todos.

nota:
O Sol brilhou, hoje! Não está tudo perdido!
Até por ter sido dia de Inimigo Público!
(Seria do Scolari, um daqueles esqueletos?)

Edição e publicação: Web.Café, Alvaiázere.

quarta-feira, dezembro 31, 2003

Stormrider


Como já vem sendo hábito, desloco-me para Alvaiázere no Ano Novo. É uma tradição que espero poder manter por muitos anos e que me dá prazer; começar o ano na tranquilidade das Terras do Falcoeiro.
Para mais, este ano calha bem, pois aproveito o fim-de-semana e permanecerei mais uns dias. Como é costume, sempre que lá me encontro, actualizarei A Sombra desde o Web-Café local. Inch' Allah!

Para todos, votos renovados de entradas de arromba. Até então, um grande abraço desde A Sombra. See you next year! (*)

(*)
E isso não significa dentro de três quartos de hora! :)

terça-feira, dezembro 30, 2003

All Blog Stars 2003


A Sombra tem cumpridos quase seis meses de existência. A nossa primeira entrada data de 04Jul2003 e, na altura, pretendia ser um blog colectivo. Desde então, porém, os bloggers "de serviço" foram apenas três: o Pedro Couto (PC) - com o estonteante total de uma entrada publicada (!), que já se converteu no objecto do nosso "desporto" oficial: descubra a entrada de PC n'A Sombra! -, Fabien Jeune (FJ) e eu próprio.

Desde o início que os arquitectos Manuel da Cerveira Pinto (MCP) e Helena Ricca (HR) andam arredados da Web por razões de manifesta falta de tempo a que se tem somado, diga-se em abono da verdade, falta de pachorra!, enquanto Fernando Granjo (FG), companheiro de outras lutas e bom amigo, ainda não encontrou forma de conciliar a participação activa neste espaço com um período particularmente invulgar da sua vida, que espero seja ultrapassado de largo em 2004.

Há alguns dias, o próprio Fabien chamava a atenção para este facto insólito, em termos diplomáticos que, traduzidos, significavam "se-isto-é-um-blog-colectivo-vou-ali-e-já-venho", mas, para mim, A Sombra será sempre um blog colectivo, até porque muitos dos temas aqui retratados foram objecto de conversas com os restantes amigos, activos ou não neste espaço, o que é uma forma de colaboração, afinal.
Por esse motivo, apenas realizarei uma pequena, mas significativa, mudança estrutural no cabeçalho do blog, onde passará a existir uma distinção entre os bloggers permanentes, que já publicaram entradas, e os que ainda não encontraram o momento adequado à sua estreia.
Esperemos que 2004 seja propício às suas intervenções - em especial por se tratar de personalidades fortes de convicções precisas (e polémicas!), o que traria um gosto especial a este espaço. A ver vamos.

Quanto à Blogosfera em 2003... Talvez alguns esperassem ver nesta entrada um ranking de blogs, uma indicação das nossas preferências ou algo assim. Mas não se trata disso.

Ao longo destes seis meses, A Sombra foi destacada por alguns blogs, destacou outros, foi colocada nas listas de ligações de outros... Enfim, estabeleceu ligações de vários tipos e a variados níveis com parte da blogosfera a que pertence e alguma da que se vai fazendo por todo o mundo, que, aliás, a julgar pelo nosso tracker, tem seguido também o nosso trajecto, da Nova Zelândia à Irlanda, do Japão à Bélgica, do Brasil a Taiwan - embora tal facto, caso os internautas oriundos dessas paragens não dominem o português, seja estranho, no mínimo (além de que a aplicação de software de tradução automática a páginas com o tipo de conteúdo d'A Sombra deve ser qualquer coisa de surreal!). E, naturalmente, fomos visitados pelos amigos com domínio norte-americano dot-gov. Just in case...

Neste curto período da nossa existência, conhecemos pessoas fantásticas, algumas almas quase gémeas, estabelecemos relações curiosas, fomos protagonistas de polémicas... Muito aconteceu, de facto.
Seria injusto criar um sistema de classificação de todos os blogs que se relacionaram connosco, premiar ou destacar alguns ou atribuir categorias. Não o faremos. Em condições normais, já existem os que destacamos "por mérito", com presença nos nossos Blog Links, na coluna da direita - e mesmo esses são ordenados alfabeticamente, sem ordem de preferência. O que fazemos, nesta entrada, é colocar por uma vez na nossa página principal todos os blogs que, de alguma forma, passaram por esta Sombra ou sobre os quais ela pousou. Sem distinção, sem outra ordem que a alfabética, sem os cognomes que atribuímos a alguns ou as suas classificações internas, como a pour le mérite, sem os códigos próprios da nossa lista completa de ligações.

Estes são, assim, aqueles que À Sombra disseram respeito ou da parte dela mereceram atenção. Aqueles de entre os presentes que atingiram um patamar superior na nossa consideração, incluindo os de algumas pessoas em que gosto de pensar como amigas, não precisam de o ver expresso aqui. Sabem-no bem.

Eis, portanto, os All Blog Stars de 2003, n'A Sombra. Alguns são já apenas uma memória, outros estão em pleno, outros ainda agora mesmo começaram... E há aqueles que jamais poderão voltar. Mas todos aqui se encontram.
Que a eles, sem excepção, 2004 traga fortuna, paz, bom senso e, afinal, felicidade. E que para o ano cá estejam todos, acompanhados por mais alguns!
Bem hajam por partilharem deste espaço. Boas entradas.

Pel'A Sombra,

Rui Semblano
Vila Nova de Gaia, 31 de Dezembro de 2003


  • 100nada

  • 500.000

  • A Aba de Heisenberg

  • A Origem do Amor

  • A Pedra e a Espada

  • Abram os olhos

  • Abrupto

  • Aviz

  • A Coluna Vertebral

  • A pente fino

  • A Praia

  • AANES

  • Absurdo Testamento

  • Acanto

  • Ai jasus!

  • Algarveglobal

  • Almocreve das Petas

  • amonarquiaemportugal

  • Analiticamente incorrecto

  • Anarca constipado

  • Assembleia

  • Avatares de um desejo

  • Blog de Esquerda

  • Barnabé

  • Bekbekbek

  • Blog sem nome

  • Blogdemocracia

  • Bomba inteligente

  • Brandos costumes

  • Castelo de Cartas

  • Cataláxia

  • Crítico

  • Cruzes Canhoto!

  • Cabo Raso

  • Castor de Mármore

  • Cidadão livre

  • Citador

  • Conversa da teta

  • Conversas de Café

  • Crónicas matinais

  • Dicionário do Diabo

  • Daedalus

  • Descrédito

  • Dunhill King Size

  • Eis o Triumvirato

  • El Coronel

  • Encapuzado extrovertido

  • Eu Vou Mas Volto

  • Extravaganza

  • Faccioso

  • Gato Fedorento

  • GANG - Grupo de Arquitectos No Gang

  • Glória fácil

  • Grande Superfície

  • Hora Absurda

  • Homem a dias

  • Icosaedro

  • (Indis)Pensáveis

  • Janela para o rio

  • Jaquinzinhos

  • João Hugo Faria

  • Little Black Spot

  • Local e Blogal

  • Lamentos de um pessimista

  • Leitura partilhada

  • Lugar Efémero

  • Método Eleitoral

  • Musana

  • Maizumpomonte

  • Mephistopheles

  • Miniscente

  • O meu diário

  • O meu pipi

  • O País Relativo

  • O Projecto

  • O Bisturi

  • O Carimbo

  • O Comprometido Espectador

  • O Divã de Portugal

  • O Jumento

  • O Merdas

  • O Mundo da Rata Maluka

  • O Proletário Vermelho

  • O quarto do pulha

  • O Suspeito do Costume

  • Oliveira de Figueira

  • Ouvido de Barman

  • Pegada na Areia

  • Ponto Media

  • Pequena superfície

  • PickPocket

  • Pintainho

  • Ponto e Vírgula

  • Probabilidade subjectiva

  • Professorices

  • Quarta Vaga

  • Reflexos de Azul Eléctrico

  • Resistência Islâmica

  • Realidade Virtual

  • Retorta

  • SolidariedadeBlog

  • Santa Ignorância

  • Sem Certezas

  • Semiramis

  • Terras do Nunca

  • Textos de Contracapa

  • The Serendipitous Cacophonies

  • Tolentino

  • Ter voz

  • Trezentos mil

  • Universos Críticos

  • Valete Fratres!

  • Vamos lixar tudo

  • Vastulec

  • Ver

  • Viva Espanha

  • Zapping


  • nota:
    Blogs em que participo de forma directa ou indirecta
    e páginas auxiliares d'A Sombra:

    Arquivo Manual d'A Sombra . Ano I
    Links Completos d'A Sombra

    Cinema para Indígenas (CpI)
    Fantasblog (Jason's Blog)
    Panorama (Blogarquivo do suplemento do Miradouro)

    A Sombra © Rui Semblano, 2003/2004

    Efeméride...


    Já há muito tempo não me acontecia dar com um blog fresquinho, acabado de nascer. Aconteceu-me hoje com o Lugar Efémero. E soube bem encontrar um pequeno lugar assim, como um dia todos nós fomos, a terminar 2003; que, afinal, em Portugal sempre teve um acontecimento político e social digno de nota bem positiva: o estabelecimento de uma Blogosfera Lusa sem Papas (desses e das outras) e viveiro/reserva de ideais democráticos que há muito julgava perdidos no remoínho do quotidiano em que a maior parte de nós está mergulhada.

    Do Lugar Efémero, nascido na noite de Natal, à 1:49 da manhã do dia 25 de Dezembro, retiro este pensamento do seu blogger, de quem desconheço a identidade:

    --- quote ---

    Não tinha sido assim
    que tinha pensado começar este blog. Aguardou tanto tempo, tantas hesitações da minha parte, e na noite de Natal teve de ser,
    es muss sein!
    O início está! O que virá não sei, nem quero saber neste momento. É um percurso efémero... quão efémero? who knows...

    --- end quote ---

    Ninguém sabe, de facto. Mas espero que esta efeméride seja asinalada para o ano, por esta altura. Porquê? Não sei explicar. É como quando simpatizo com alguém antes mesmo de trocarmos palavras.
    Para mim, no que toca à blogosfera, chama-se isto terminar o ano with a cherry on top... Que a este novo Lugar, de Efémero lhe baste o nome e a ideia de como é efémera a nossa própria existência, como seres-humanos.

    Suerte!


    nota:
    E agradecidos estamos ao Lugar Efémero por nos ter dado a honra de pertencer à pequena lista de "Blogs Perenes", como lhes chama, com que iniciou a sua listagem de ligações permanentes. :)

    segunda-feira, dezembro 29, 2003

    Professorices...


    A propósito de um blog que descobri recentemente, feito por um docente a pensar nos problemas da docência, o Professorices, de João Vasconcelos Costa - a quem aproveito para agradecer a gentileza da colocação d'A Sombra entre as suas ligações -, aproveito para dedicar aos professores algumas palavras, em jeito de "fim de ano".

    Dos professores que tive, muito poucos me merecem o tratamento de Mestres, aqueles cuja vocação para o ensino e o gosto de ensinar e, especialmente, de formar eram visíveis para além de qualquer dúvida. Era como se o respirassem numa manhã fria...
    Desses, felizmente para mim, o mais excelente foi o meu professor da escola primária, então assim designada, que me acompanhou da primeira à quarta classe, na hoje ainda existente escola da Serra do Pilar, a dois passos da casa de meus pais. Chamava-se Valentim Ferreira Almeida, para mim (e para tantos outros) o professor Valentim.

    O seu exemplo como mestre ficou marcado para sempre na minha memória e as suas lições de disciplina e método, o respeito que nos incutia pelo próximo, fosse ele o próprio professor ou o colega da carteira ao lado, e o rigor, o gosto e clareza com que nos passava os conhecimentos não seriam nunca esquecidos - nem ultrapassados.

    Ao longo do tempo, verifiquei, consternado, como o nível de qualidade pedagógica dos docentes por quem fui passando diminuía à medida que aumentava o grau de ensino. Fiz todo o secundário num Colégio privado, o que me deu em academismo o que perdi em experiência de vida durante esses anos, ou melhor, o que me proporcionou uma experiência de vida muito diferente do comum estudante liceal. Pagaria mais tarde com uma inusitada rebeldia a "libertação" do rigoroso ambiente em que passei os que, ainda assim, vejo hoje como os melhores anos da minha vida. Dessa rebeldia resultaria um intervalo razoável entre o Secundário e a Universidade, mas isso são outras histórias.

    Certo é que esse tempo "de espera" fez com que entrasse na Faculdade com uma maturidade diferente dos que transitam para a Universidade directamente; o que somado à educação clássica que tinha me deu uma capacidade de avaliação pedagógica que eles simplesmente não possuíam. Demais, o Secundário começava a estar saturado de professores "de ocasião" ou, pior, "de necessidade", pelo que os termos de comparação dos meus jovens colegas não eram nada de especial... Para mais, entrando a destempo, fi-lo percorrendo o longo caminho dos exames Ad-Hoc, que incluíam uma prova de Português mais os exames específicos ao curso que pretendia, estes orientados e avaliados por um júri de docentes que, em alguns casos, encontraria depois nas salas de aula. Foram dias de provas, da História da Arte ao Desenho Gráfico, da Geometria à Figura Humana. Algo que os meus colegas não precisariam de fazer para entrar e que, caso o necessitassem, impediria a maior parte de ter entrado, como depois constatei. Os bons resultados das minhas provas de acesso, assim obtidos, mais autoridade me davam para exigir o melhor dos que me ensinariam. Eu não precisava do curso, verdadeiramente, mas estava ali para aprender e, supostamente, com os "mestres". A desilusão foi imediata e demolidora.

    Salvo raras e honrosas excepções, os docentes universitários que conheci deviam ser tudo menos professores, do ponto de vista estritamente pedagógico e não pondo nunca em causa a sua competência científica. O que me impressionou mais, foi o número de recém-licenciados que começava imediatamente a dar aulas, por vezes aos 4º e 5º anos! Num ano eram finalistas, no outro estavam a ensinar finalistas. Reconheço que pode acontecer semelhante coisa, em circunstâncias verdadeiramente excepcionais, mas não era o caso. Para mim, aliás, ser docente numa Faculdade implica um trajecto de ensino e uma experiência pedagógica prévios, por mínimos que sejam. Mas nada disso acontecia e, ao que vejo, nada disso acontece. A mediocridade derrotou a excelência em toda a linha, seguindo o trajecto inverso ao que experimentei; isto é, degradando o Ensino Superior, depois o Secundário e, finalmente, o Básico... É o pandemónio instituído, para mais com a benção do Estado, incapaz de pôr fim a esta situação.

    Não é raro encontrar textos escritos por professores cheios de palavras como "próssimo" ou "assima". Os livros editados com anedotas sobre a sapiência dos nossos estudantes deviam dar mais vontade de chorar que de rir, pois muitos deles serão os professores dos nossos filhos. Até no recente "Ao correr da memória", de Diogo Freitas do Amaral, existe um episódio deste tipo, datado de 1984, em que um estudante universitário respondia por escrito à pergunta "Qual foi a Revolução que derrubou o Estado Novo?" da seguinte forma: "Foi a Revolução do 25 da Bril."
    Onde estará a dar aulas este cromo?
    Um parêntesis é aqui necessário para evidenciar a fraca qualidade da pergunta, pois o que aconteceu a 25 de Abril de 1974 foi um golpe de Estado e não uma revolução, mas dá-se o desconto dos meros dez anos volvidos sobre a ocorrência para justificar a forma como foi feita a questão - embora acredite que ainda hoje se ensine isto nas escolas...

    A avaliação docente é extremamente necessária e poder-se-ia iniciar por aí mesmo, pela avaliação dos conhecimentos de Português falado e escrito. Tenho a sensação que metade dos docentes em actividade dariam a vaga. Depois viria a avaliação pedagógica - e esta é a mais complicada, pois exige uma fiscalização independente da própria escola e fiscais idóneos... A depender das próprias escolas, com o recente e escandaloso exemplo das colocações de última hora "a dedo", como podem os docentes confiar no processo? E como será o perfil do inspector? E como excluir ou diminuir o papel do número de alunos com sucesso na forma de avaliação? Uma equipa de inspectores é necessária, actuando em conjunto. Um grupo de pessoas é mais difícil de corromper que uma só, além de que ajuíza melhor.
    De qualquer forma, é como as inspecções automóveis. Todos sabemos que existem casos de corrupção e que passam na inspecção alguns veículos que deveriam ir direitinho para a sucata, mas alegar que seria melhor não existir inspecção de todo é fraco argumento.

    Olha; ponham a Maria José Morgado a controlar o processo de inspecção dos docentes e das escolas - pode ser que funcione!

    Caros professores,

    Se não têm vocação para dar aulas, ponham a mão na consciência e tentem arranjar a breve trecho uma ocupação menos prejudicial para o país. Eu sei que todos temos de comer, mas a continuar assim, estarão a impedir os meus filhos de comer um dia...
    Quanto aos inconscientes, que são a maioria dos que nunca deveriam ser professores e ainda gozam com isso, façam de conta que não leram nada. Mesmo que tudo corra pelo pior, as hipóteses de irem parar a uma "sucata" não são tão poucas como isso. O que é uma boa notícia, apesar de tudo.

    To be continued...
    (ou como diria uma candidata a docente: "continuédê"...)

    nota:
    O Professorices passa a estar referenciado nos Links Completos d'A Sombra, sendo outro dos fortes candidatos a ligação permanente nesta página. Mérito já o tem, espaço é que não há muito. Fica a promessa de rever os blogs que actualmente fazem parte dos nossos Blog Links permanentes, à direita. Talvez haja surpresas em Janeiro!
    Ao João Vasconcelos Costa, que não me parece um dos que anda a exercer uma profissão que não condiz consigo, um grande abraço!

    domingo, dezembro 28, 2003

    O Passado Imperfeito - Parte 1


    Não me desagrada o politicamente correcto "Person of the year" que desde há alguns anos vem substituindo a designação típica "Man of the year" na revista Time. De facto, o último "Homem do ano" na Time foi Andrew Grove, um dos fundadores da Intel, em 1997; em 1998, a distinção foi atribuída a dois homens: Bill Clinton e Kenneth Starr, protagonistas do evento do ano: as aventuras extraconjugais do presidente dos EUA. Foi o último ano em que a designação foi usada, dessa feita no plural, "Men of the year", sendo o contexto quase insultuoso para o género em causa e transformando a adopção do título assexuado, no ano seguinte, numa anedota. Aliás, a informática regressaria em 1999, com Jeff Bezos, administrador da Amazon.com, como primeiro detentor do título "Person of the year".

    É uma designação mais lógica, dado estar em causa a personalidade que mais destaque mereceu no ano que passou, do ponto de vista da Time, seja ela masculina ou feminina ou... uma máquina, como em 1982, ano em que o Computador Pessoal levou o troféu e foi usada a designação "Machine of the year" (Time, January 3, 1983).

    A decisão da Time, ao atribuir a distinção de 2003 ao soldado norte-americano, apanhou-me de surpresa, mas suponho que a sua razão de ser é clara, tanto mais que, em termos de individualidades, em especial ligadas à política, este ano foi muito mau. Para além dos cromos repetidos, como o de 2000, no que respeita aos EUA as figuras de proa da administração do Estado encontram-se em "low profile mode", à espera de melhores dias - e a essas, a captura de Saddam Hussein não foi suficiente para fazer surgir à luz dos media como protagonistas de coisa alguma. São demasiado experientes para isso.
    Quanto à ONU, estamos conversados. Desde 1993 (o ano de Rabin, Arafat, de Klerk e Mandela) que a cena internacional não tem estadistas ou diplomatas que se destaquem pelo seu papel positivo - e mesmo nesse ano, Arafat foi à boleia, para equilibrar a foto. Hoje como ontem, apesar da "abertura" da administração Clinton e do "multilateralismo" que o actual Governo dos EUA diz perfilhar, inclusivamente na pedra de toque da sua política: a Estratégia de Segurança Nacional, de 2000, a ONU atravessa um período apagado, inglório e humilhante, reduzida a um simbolismo tão deprimente quanto evidente.

    Quanto a figuras europeias, os sucessivos escândalos relativos ao dossier iraquiano eliminaram Tony Blair da corrida ao título muito cedo, ao passo que os restantes protagonistas da Europa nunca poderiam fazer parte dela - os "amigos" dos EUA por demasiado apagados e os seus opositores por isso mesmo, para além de nada de realmente relevante terem feito, no sentido positivo.
    Do resto do mundo, que personalidade política destacar? Ninguém com real impacto no "mercado ocidental" fez nada digno de nota, pelo menos que mereça um destaque como o dado à "Pessoa do ano".
    Pensando bem, politicamente, 2003 foi um ano para esquecer; desde o peru de G. W. Bush ao autismo paranóico de Kim Jong Il, passando pela actuação de Paris e Berlim na (des)constituição da Europa. Quanto ao Oriente Médio, neste momento a competição entre Arafat e Sharon é mais para "Asno do ano" que para "Pessoa do ano"...

    Para mim, aliás, o homem do ano seria Michael Schumacher, pelo seu feito desportivo sem precedentes. Mas é alemão, além de que atribuir uma distinção a um desportista profissional num ano de guerra e de tensões seria fugir ao problema - e de que a Fórmula Um permanece uma curiosidade conhecida de meia dúzia de norte-americanos, num país onde fazer um circuito com mais de duas curvas é um delírio.
    A opção da Time não foi fruto desta pobreza em matéria de destaque individual político e/ou empresarial positivo. Ao ver a capa da sua edição de 29 de Dezembro, já à venda, não consegui lembrar-me de outra ocasião em que tal se tenha passado, isto é, em que o destaque fosse para o G.I. Joe (ou será G.I. Person?). Não me recordava de tal coisa com razão; a única outra vez que tal sucedeu foi em 1950, a propósito da guerra da Coreia. Não precisei de fazer nenhuma pesquisa; a própria Time esclarece este ponto nesta edição, numa pequena nota em que faz eco da notícia de há 53 anos.

    Hoje, a capa tenta ser politicamente correcta, representando dois homens (um deles negro) e uma mulher no uniforme dos Old Ironsides, a 1ª Divisão Blindada dos EUA. Chamam-se Whiteside, Buxton e Grimes; fazem parte dos Tomb Raiders, um pelotão de Old Ironsides que a Time acompanhou em detalhe no artigo "Portrait of a platoon" - a escolha de um pelotão com este cognome, aliás, demonstra que os norte-americanos continuam tão subtis como elefantes numa loja de porcelanas. O fantasma do resgate da soldado Lynch percorre-me a espinha, mas ao ler o artigo, parece-me legítimo e verdadeiro. Mas esta é apenas uma secção da parte da revista dedicada à "Pessoa do ano". Antes, uma introdução justificativa da escolha e uma série de fotos dramáticas; depois... Donald Rumsfeld.

    A tentação de colocar Donald Rumsfeld como "Person of the year" deve ter existido. É a única forma de explicar a presença de um artigo tão exaustivo como o dedicado aos soldados, com o secretário da Defesa norte-americano, incluído na secção dedicada à "Pessoa do ano". Depois de ter sido chamado de "herói dos nossos dias" nos jornais, chega a consagração na Time. Uma consagração tímida, mas uma consagração. Os Tomb Raiders estão ali apenas para preparar o terreno, como tantas vezes o fazem, mas desta vez é para o próprio "patrão".

    De um modo geral, o conjunto é uma peça banal do ponto de vista jornalístico, sendo os artigos dedicados aos soldados uma mera introdução a Rumsfeld. O artigo dos Tomb Raiders podia até encontrar-se em qualquer uma das edições da Time, com um título do género "Um dia na vida dos Old Ironsides" ou coisa parecida. Claro que a maior parte das pessoas, incluindo os soldados norte-americanos, simbolicamente representados pelos Old Ironsides, "agraciados" pela distinção, jamais conhecerá o interior desta revista, isto é, será a capa que lhes ficará na memória. Por esse motivo, o fim é parcialmente atingido: elevar o moral das tropas e, em particular, das suas famílias.

    Se a invasão do Iraque se justificasse, tendo Saddam Hussein atacado um país vizinho ou se fosse provado para além de qualquer dúvida (e não apenas da razoável) que estava a desenvolver um arsenal de armas nucleares ou biológicas ou químicas com intenção de as usar ou vender a potenciais terroristas, talvez fizesse sentido colocar na capa desta Time capacetes azuis, dando-lhes o título de "Pessoas do ano".
    Demais, se pensarmos no número de missões ainda existentes que envolvem capacetes azuis e mesmo nos casos em que soldados europeus e de outros continentes estão envolvidos em missões de estabilização - como é o caso da NATO nos Balcãs e no Afeganistão, por exemplo, a capa e a distinção da Time chegam a ser insultuosas.

    Para os países que envolveram tropas no Iraque - em especial para o Reino Unido - a Time "Person of the year" chega a ser uma bofetada na cara. Em Itália, as famílias dos Carabinieri que morreram no Iraque também devem ter achado imensa graça à capa desta Time. De facto, internacionalmente (e convém não esquecer que é uma distinção internacional), esta escolha da Time é descabida, arrogante e insultuosa.
    Já nos Estados Unidos ela vem mesmo a calhar, numa altura em que existiram já muitas centenas de cadeiras vagas ao redor das mesas de "Thanks Giving" - é preciso não esquecer os feridos, cujo número não é publicitado. Nem a captura de Saddam Hussein elevou o moral, pois as mortes continuam, como esperado. Já Miguel Sousa Tavares, no Público, avisava que só um imbecil esperaria o contrário...

    O unilateralismo dos EUA não consegue disfarçar-se. A visão do mundo que é hoje a de Washington, condensada de forma evidente no parágrafo da Estratégia de Segurança Nacional que escolhi para ombrear com o que define o porquê da escolha da Time (ver entrada "Strategy makes the Person", abaixo, já traduzida), permanece messiânica e tão autista como a de Kim Jong Il que, se fosse governante da única megapotência à face da Terra, já se encontraria às portas da Europa, no seu esforço para levar o culto do pai (e o seu) aos "ignorantes infelizes" do resto do mundo...

    Há muitos anos, via os EUA como bastião da democracia e da liberdade. Havia saído de uma ditadura e encontrava na junção dos ecos ainda fortes da Normandia com a inegável abominação soviética uma boa razão para os ver assim. Depois cresci. Veio o Vietname que encontrei nos livros, fossem eles escritos por adeptos fervorosos da veracidade do incidente do Golfo de Tonkin ou pela mão de Bertrand Russel, e nas imagens, fossem elas protagonizadas por John Wayne ou por Martin Sheen. Veio a América Latina de Che a Allende, de Fidel a Pinochet, de Roosevelt a Kennedy... Veio a Palestina, de Golda Meir a Rabin, de Arafat a Darwish.
    As ilusões foram ficando para trás; romances desfeitos por uma realidade impiedosa que fui encontrando sozinho, sem guias iluminados, em textos escritos por muitos punhos e ditados por variadas cabeças. E é a realidade que hoje se impõe ao sonho, ironicamente apoiada em imensas fábricas de miragens... Como a Time, precisamente.

    Se o mundo não abrir os olhos, a começar pelos próprios norte-americanos, agora apostados no desenvolvimento de armas nucleares tácticas e plataformas militares flutuantes gigantescas, em breve não restarão outras opções que as de escolher viver sob a Stars and Stripes... ou não. O problema é que nesse "não" se encontram, desgraçada e inevitavelmente, todos os que se opõem à "democratização" do mundo pelos EUA - desde o fanático muçulmano mais empedernido até eu próprio. Assim, como já é apanágio de alguns intelectualóides da nossa praça, acabaremos todos por passar de "antiamericanos primários" a "fanáticos terroristas". Já faltou mais.

    Para trás ficarão as tentativas egoístas de alguns para adquirir mais poder para si mesmos, como é o caso da Alemanha; o encolher de ombros dos que pensam ainda poder viver isolados nas suas fortalezas, como a Suíça; os que desenvolveram um instinto de sobrevivência apurado e se tentam enganar com processos de segundas intenções que nunca serão atingidas, como a Líbia...

    O que nos resta, então?
    Talvez a "esperança dos loucos"... A única que existe para lá da de Pandora, que essa já há muito se perdeu. Mas continuo um romântico, apesar de tudo. Continuo convencido que, globalmente, estamos condenados ao entendimento, sob pena de não sobreviver.

    A isto estamos reduzidos, portanto.
    A única esperança de entendimento da humanidade está no seu instinto mais básico, alimentado pela mais vã das ilusões: a de que, como ela, também nós sobreviveremos. Nós, que estamos condenados a morrer desde que nascemos.


    Rui Semblano
    Porto, 28 de Dezembro de 2003


    ver O Passado Imperfeito - Parte 2