sábado, setembro 09, 2006

Take it like a lady.


(Ok, passei-me. Prometo que retiro este tema as soon as the point is taken!)

And the clock is ticking...

Descubra as diferenças.



É um "expert" no 11 de Setembro de 2001?
Então indique entre um e quatro erros no talão de embarque de Mohammed Atta que aqui é reproduzido. Soluções a publicar oportunamente.

Atenção:
Apontar o facto de Mohammed Atta não ter voado a 11 de Setembro de 2001 não conta.
É demasiado óbvio!

(faça click na imagem para ampliar)

nota:
Isto feito com o pêlo do cão em alguns minutos!
Agora imaginem o que não dá para fazer com os meios da CIA, da NSA ou da DARPA!

imagem: "Ghostboarding" © A Sombra 2006

Wag that dog, George! Wag it good!



Uma comédia sobre a verdade,
a justiça e outros efeitos especiais.

Um filme de Barry Levinson,
datado de 1997, com música de
Mark Knopfler.

Altamente recomendado aos que entendem que o "anti-americanismo primário" existe (ou que é um exclusivo europeu!).
Isto foi feito quatro anos antes do
11 de Setembro de 2001.

Site oficial do filme na imagem. (click)


Mark Knopfler - Wag The Dog - Wag The Dog (ost)

sexta-feira, setembro 08, 2006

É hoje.


O documentário "Loose Change", presumo que na sua segunda edição (já existe um "recut" desta e está em marcha a terceira edição!) vai ser transmitido hoje pela RTP 2, às 23:30, legendado em português, naturalmente.

Como já aqui escrevi, este documentário é importante por, mais que colocar possibilidades "alternativas", nos fazer pensar nos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 e nos levar a fazer (ou a repetir!) perguntas nunca (ou muito mal) respondidas.

Note-se que a reacção do público norte-americano (incluindo das famílias das vítimas do 9/11) não tem sido de rejeitar este trabalho, mas de o discutir e de levantar as questões que aborda. Exactamente o pretendido.
Queremos respostas!

( faltam três dias! )

Monami





Panorâmica do café Monami...
Hoje.


Quantas horas, quantos dias... Quantos anos passei eu neste café?
Também aqui cresci, a dois passos da minha Alma Mater liceal, o Colégio de Trancoso, mais conhecido por Colégio de Gaia. Era um daqueles sítios onde sabem o nosso nome e o que costumamos tomar. Um café "café", com o seu engraxador, o seu vendedor de cautelas, o seu quiosque, o balcão, os seus recantos e encantos...

Aberto até às duas da manhã, era aqui que começavam invariavelmente as noites longas dos meus vinte anos. Aqui começaram também viagens de férias e terminaram outras. Aqui começaram amizades, terminadas em outros lugares ou em lugar nenhum. Aqui começaram romances... Aqui fumei o meu primeiro cigarro "em público". Aqui estudei e desenhei e escrevi.
Deus, muito escrevi aqui!...

Ao terminar o Colégio, fui ficando mais longe, regressando a espaços. Agora, apesar da fachada quase inalterada e do velho neon cujas cores dividem o nome Monami em "meu amigo", o lugar mudou muito, mas o ambiente conserva ainda alguma da sua magia e, para mim, será sempre o Monami.
Ainda no final do mês passado, quando está fechado para férias como todos os anos, ia a passar e, vendo a porta aberta, entrei. Era apenas alguém que organizava o serviço do quiosque para a reabertura próxima.
"Ainda não está aberto", disse-me. Eu sabia, mas aquela porta aberta fez-me entrar sem pensar. Sorri. Parece ontem. E ontem parece hoje, às vezes, quando aqui estou a escrever e levanto os olhos e vejo o Chico ou o Zé. Apesar dos seus cabelos brancos, estão na mesma. E é como se os visse há vinte anos, a engraxar os sapatos de um cliente ou a vender a sorte grande.

Setembro. Agosto acabou.
Ao sair, cruzo-me com o sr. Armando, a quem sorrio e cumprimento. Está na mesma.
O tempo parece não passar, mon ami...

Rui Semblano
7 de Setembro de 2006







Paul Simon - Still Crazy After All These Years

nota post(erior):
Para onde foram os últimos 25 anos?
Alvíssaras a quem os devolver.

quinta-feira, setembro 07, 2006

The Tower




A Torre


Mudança súbita,
libertação,
queda,
revelação.





Jacques Brel - La Valse à Mille Temps

...
...
Setembro é Paris para uns
e Guantanamo para outros
Setembro é o regresso ao quotidiano morno
e a extradição do sonho para o pesadelo
Setembro é um animal de estimação comprado
e um bebé abandonado
Setembro é o quilómetro zero de um Mercedes
e o amontoar das redes no cais
Setembro é o pôr do sol na foz do Douro
e nos olhos sem esperança de um menino
Setembro é um brinquedo usado
para uma criança morta
Setembro é um estádio cheio de alegria
e uma jangada triste à deriva
Setembro é um mês
como outro qualquer...

Setembro, aqui,
é só Setembro.
...
...
Rui Semblano
...
A Torre seria uma carta de Setembro, forçosamente...
...
...
Os Dias do Tarot n'A Sombra: INDEX.

quarta-feira, setembro 06, 2006

"Is that you, Jack?"


Não sei por quanto tempo vou manter este toque no telemóvel.
O Stress aumenta a cada chamada que recebo.




Please press "stop"!

Posted by Picasa

terça-feira, setembro 05, 2006

Está confirmado.


Sexta-feira, 8 de Setembro, 23:30.
Aqui mesmo.

( e faltam cinco dias para o início da série 5 / 911... )

(in)Adaptado





Campo de Auschwitz I

inscrição no portão:

"Arbeit Macht Frei"
(O Trabalho Liberta)











Campo V Delta

inscrição no portão:

"Honor Bound to Defend Freedom"
(Compromisso de Honra
na Defesa da Liberdade)






......."Liberta"... "Liberdade"... O 'café' será diferente, mas o sabor...

nota:
Inspirado numa conversa com Manuel da Cerveira Pinto,
depois de vermos "The Road to Guantanamo".

nota 2:
Como habitualmente, existem Links nas imagens.


One more taste of Reality. (Really, really)

A indescritível Ann "Bitch" Coulter ou como diria um desses
subprodutos da sociedade neoliberal lusófona:
"aie keu ja naum seie kumu t deskrever rikexa..."
(seja lá o que isso for...)
...
A realidade (mesmo, mesmo) é tão ou mais incrível
que o meu "mundo alternativo".
Não é, Mário?
(Desta vez incluindo a ilustração sonora da entrada. Mas mesmo, mesmo!)


(Mesmo, mesmo, mesmo!...)

( faltam seis dias)

A taste of Reality!

A propósito disto, o Mário, do Purgatório, diz-me que além do "mundo alternativo" em que vivo há quem diga que a realidade (mesmo, mesmo) "até tem coisas interessantes" (sic).
Pois tem. A que ilustra esta entrada, por exemplo.
PEACE, bro.


You know it.

( faltam seis dias)

segunda-feira, setembro 04, 2006

Interposição.



A UNIFIL II, que agora começa a ser visível no Líbano, terá uma componente aérea que regule os movimentos da IDF/AF?
Não me parece.
Israel pode, assim, sobrevoar todo o Líbano impunemente.

Entrada completa abaixo. 6



Com tantas forças militares sob a bandeira da ONU espalhadas pelo mundo, a UNIFIL permaneceu esquecida de quase toda a gente até as circunstâncias exigirem a sua reformulação.
No terreno desde 1978, a sua utilidade tem sido reduzida. Algumas acções, como a protecção de refugiados ou organizações humanitárias, serão pertinentes e até muito importantes para os que delas usufruem, mas no quadro geral do que deveria ser a UNIFIL são insignificantes, pois os seus objectivos nunca chegaram a ser atingidos.

Nos últimos tempos, desde o confronto entre Israel e o Hezbollah, uma nova palavra entrou no léxico dos políticos e, em especial, dos jornalistas: "Robusto" (ou no feminino, conforme o caso).
A UNIFIL como existiu até aqui é manifestamente incapaz de actuar, entre os guerrilheiros do Hezbollah e o Tsahal, na sua missão pacificadora. O seu mandato limitado, no papel como nos meios disponíveis, apenas fez com que quase 250 dos seus soldados perdesse a vida desde que existe. Na prática, não serve para nada.

A UNIFIL II, que agora está a ser lançada, precisa de ter outra composição, em quantidade e qualidade de efectivos e meios, e um outro tipo de mandato. Terá de ser uma força "robusta" (aí está!) e com capacidade de resposta, em que "resposta" também significa tomar a iniciativa para prevenir qualquer acção hostil que coloque em perigo a paz.
Desde que Israel e os EUA perceberam que a guerra contra o Hezbollah nunca seria ganha nos prazos originalmente previstos que a insistência do Governo israelita numa força de interposição da ONU tem ido neste sentido, mas com uma agenda própria, isto é, uma força cuja missão principal seja "proteger Israel" e "desarmar o Hezbollah".
A cara de pau de Olmert e da sofista Tzipi Livni, sua ministra dos NE, ao quase exigirem estas condições à ONU foi espantosa, mas nada surpreendente. No entanto, para a maior parte da opinião pública mundial, em especial no chamado mundo ocidental, o papel da UNIFIL II será exactamente o de proteger os israelitas do Hezbollah, embora não necessariamente desarmar o Hezbollah, sobretudo depois dos atoleiros afegão e iraquiano.

Pouco importa que esta ideia seja tão descabida como teria sido a de colocar, em 1939, uma força multinacional entre a Polónia e a Alemanha para proteger os alemães. É uma ideia que não se discute. É esta a percepção comum do que se passa no Médio Oriente; mesmo após Israel ter destruído um país em 30 dias, são os israelitas que precisam de protecção. E não é que não precisem, note-se, mas quer-me parecer que os libaneses precisam muito mais que os protejam de Israel... Isto fica subentendido, mas não se diz em voz alta. Parece mal. É como se fosse pecado dizê-lo.

No entanto, uma força como a que pretende ser a UNIFIL II só será eficaz se mantiver em respeito os dois campos, isto é, o Hezbollah e a IDF. No caso das Forças de Defesa Israelitas, isso só poderá acontecer com o controlo do espaço aéreo libanês. De outra forma, os israelitas serão tentados a usar a UNIFIL II como escudo contra ataques terrestres do Hezbollah enquanto usam os seus caças-bombardeiros para atingir "posições inimigas" (com ou sem aspas), apesar do cessar-fogo vigente.

Vejo os governantes e os diplomatas a discutirem sobre o número de homens a enviar e sobre navios de guerra, mas nada dizem sobre interdição aérea - como a que ocorreu sobre a ex-Jugoslávia, por exemplo. A razão é bastante simples:
O Hezbollah não tem força aérea. Enviar aviões de combate para o Líbano seria uma grave ofensa aos israelitas. Hitler teria adorado a ONU...

Rui Semblano
Agosto de 2006

Loose Change na RTP
























Pelo jornal Público, fiquei hoje a saber que o documentário de Dylan Avery, Jason Bermas e Korey Rowe, "Loose Change", vai passar na RTP 2 na próxima sexta-feira à noite (suponho que em horário decente), sendo repetido no domingo à noite, mas a altas horas (cerca das 3:00, já segunda-feira, portanto), na RTP 1. Nada mau, hein?

Já enviei a notícia a Dylan Avery, para que possa incluir Portugal e a RTP na lista de países e de estações de televisão que passaram "Loose Change". The times they are a changing?...

A NÃO PERDER (oportunidade fantástica para gravar uma versão legendada em português)!

( faltam sete dias... )

sábado, setembro 02, 2006

The Star



A Estrela


Esperança,
inspiração,
generosidade,
serenidade.





New American Orchestra - Blade Runner Blues (Vangelis)

...
...
Temo de novo não te dizer adeus
Ao preço da minha alma
Temo o que antes vi nos teus olhos
Outra vez
E outra vez
Temo o teu corpo tremendo
Junto ao meu
Temo de novo o afastar da tua boca
Os teus lábios fugindo dos meus

Temo todas as lágrimas choradas
Toda a falta sentida
Renovadas em dobro
Temo as sentir hoje assim
Sem o saber
Temo que o sejam já
...
...
Rui Semblano
...
Embalado pelos dois blues. O de Blade Runner e o de Bombay Saphire...
...
...
Os Dias do Tarot n'A Sombra: INDEX.

sexta-feira, setembro 01, 2006

Um fim que não o foi.

Quando A Sombra desapareceu do mapa blogosférico, a entrada que ficou no topo intitulava-se "O fim como meio". Não foi propositado; calhou assim. Foi escrita pouco depois do lançamento do livro de poemas com o título "O fim não é o fim", da autoria de Pedro Ludgero Guedes.

Alertado pelo seu irmão, também ele blogger, fui dar com o Cabo da Boa Tormenta.
As primeiras entradas prometem; vindo de quem vem, este blog poderá tornar-se uma referência para os amantes dos livros, do cinema e... da vida. Espero que haja lugar para um pouco de música, ainda! Apesar de se estrear como blogger, o Pedro há muito que navega nestas águas e desde logo lhe surge a dúvida que a todos nos assalta, em um ou outro momento da existência de um blogger:

Pois pretende-se, por mercenário desejo de sucesso, que o blog seja um cabo por onde os nautas sejam obrigados a passar. Mas não se garante que cheguem a bom sítio, ou que cheguem seja onde for. (um)

Caríssimo Pedro, não resisto a pagar-te na tua moeda: O fim não é o fim.
Bom vento, primo.



Léo Ferré chante Verlaine - Chanson d'Automne
(a sonhar com o Inverno)

nota:
O Cabo da Boa Tormenta passa a constar da nossa lista permanente de Blog Links, na secção especial, naturalmente - famille (et mérite) oblige!

A partir de dia 11...


Setembro chegou.
E o prometido é devido.

5 perguntas
5 anos depois.



.... 555 (click na imagem acima para o índice da série)

A partir de 11 de Setembro e até 15 de Setembro de 2006, A Sombra vai fazer CINCO perguntas sobre o ocorrido há CINCO anos. Nesse espaço de tempo, não foram dadas respostas claras e convincentes para nenhuma delas.

Não espero encontrar essas respostas nas caixas de comentários dessas cinco entradas, nem as tenho eu mesmo. Não vou tentar responder-lhes, nem de leve, pois não teria como provar cabalmente essas respostas. A verdade é que estou farto de hipóteses. Tão farto de hipóteses como os que, ao longo destes cinco anos, não resistiram a elaborá-las como fruto das suas investigações.

Investigar é algo que compete às autoridades.
O livro onde supostamente se encontram as conclusões da comissão nomeada para investigar o 11 de Setembro de 2001 não fornece uma única resposta clara e convincente para o que sucedeu nesse dia. Eu sei. Estou a olhar para ele. Já o li diversas vezes. Nada.

Se faço estas perguntas é porque não tenho as respostas.
Se as exijo é porque continuo a sentir-me nova iorquino. Porque já estiveram militares portugueses no Iraque, ainda estão no Afeganistão e seguirão em breve para o Líbano.
Hoje, mais de 60% dos habitantes de Nova Iorque manifestam-se insatisfeitos com as conclusões da comissão que investigou o 11 de Setembro de 2001.

Por tudo isto me sinto hoje mais nova iorquino do que nunca.
E exijo respostas.



Dimitri Shostakovitch - Jazz Suite n2, Waltz n2

Andam todos com os olhos bem fechados... É altura de os abrir.

Rui Semblano

quinta-feira, agosto 31, 2006

KILL KILL volume 1






Hey, I'm back.

Reiniciamos com um detalhe de uma página do meu Moleskine corrente.



No Comments.





.... A visão total da página:




KILL KILL
A matter of will

soon near you
only in selected societies




Rui Semblano, 30 Agosto 2006







.... nota: Eu disse que o regresso era em Agosto. Hoje AINDA é Agosto. (hehehe)

quarta-feira, agosto 02, 2006

Shalom...

Na sua ideia, a paz nunca existira.
Era um conceito abstracto, utópico, quase mitíco. O sol nascente iluminaria de novo um cenário de guerra; a mesma que existira na noite anterior. A mesma que sempre existira. Do outro lado da frágil e cada vez mais irreconhecível fronteira, um clarão rivaliza por um instante com o despontar do dia. É um míssil. Com o olhar, acompanha o projéctil na sua trajectória, passando sobre ele na direcção de Israel...
Não sente nada.
Já não existe raiva, ódio, desejo de vingança. Crescera com esses sentimentos e sem sentir verdadeiramente nenhum deles. Nascera em 2006, numa cave que servia de abrigo em Kiryat Shmona, perto dali, num dia de Julho em que uma criança libanesa mais era retirada dos escombros do que fora Qana.

A tripulação restante do canhão autopropulsionado a que pertencia estava a dançar uma canção hebraica, as mãos dadas numa roda, indiferentes ao míssil que acabara de cruzar os céus sobre as suas cabeças. Alheio à dança, ergueu os binóculos e olhou através deles na direcção do disparo do míssil. Os outros canhões da sua unidade ganhavam vida, como se os homens que os operavam fossem o seu sangue...
Em breve começariam a disparar contra a posição inimiga que, entretanto, desapareceria como todas as outras, deixando para trás os que não podiam desaparecer. Uma rotina macabra e vazia sem outro sentido que ela mesma.

O canhão que comandava mantinha-se imóvel, a tripulação dançando e cantando ainda, como crianças grandes em uniforme. Vendo-os assim, decidiu não os chamar. Hoje, a sua arma não dispararia contra os libaneses. Hoje não. E sobre ele passou um grupo de Apaches, imperial, voando para Norte, onde era suposto estar o Hezbollah.
Aos primeiros disparos da bateria de canhões, o seu comandante aproximou-se dele.
- Então, David? Porque esperas?
Os seus homens pararam de dançar e ficaram em silêncio, olhando-os. Aguardavam uma ordem que não seria proferida. David olhou nos olhos do seu superior e disse, simplesmente:
- Yesh Gvoul.
Sim. Há um limite.

Rui Semblano
Porto, 2 de Agosto de 2006






Agosto chegou
mas as armas não se calaram.
Existe tanto para dizer e,
no entanto,
o silêncio que sinto e faço
é o que melhor significa o meu espanto.
O silêncio dos mortos
e do seu pranto.

RS / Ago2006


nota:
"Yesh Gvoul", literalmente "há um limite", em hebraico, é o nome da organização formada pelos militares israelitas que se opõem ao papel cada vez mais agressivo do Tsahal no Próximo Oriente. É verdade; existe um outro Israel.

quarta-feira, julho 19, 2006

O distante Próximo Oriente... (segunda parte)


Se não leu a primeira parte,
pode encontrá-la aqui.






Criança vestida como bombista suicida
durante um comício islamita.
Abril de 2006.

Foto FLICKR/www.flickr.com



Quando hoje alguns falam de Israel como uma ilha de democracia num mar de árabes radicais, esquecem convinientemente que o Estado judaico é tão ou mais fundamentalista que muitos Estados árabes; é um Estado segregacionista e a separação de Estado e religião não é assim tão evidente - Israel foi fundado com base num direito divino, pelo que a religião está na sua génese e orienta e inspira as suas políticas. Israel permanece tão fechado em si mesmo como os países islâmicos, encontrando as mesmas justificações para os seus actos, arrancadas à raíz do tempo e, deturpadamente, aos textos sagrados - tal como fazem os islamitas.

A grande diferença é que, aos poucos, Israel transformou-se no bastião "ocidental" do Próximo Oriente; uma cultura mista de valores ditos "ocidentais" (menos do que se imagina) e de judaísmo (mais do que transparece). No subconsciente europeu e norte-americano, onde estão mergulhadas as noções distorcidas de cristianismo e das cruzadas, de islamismo e de "Jihad", de judaísmo e de Holocausto, um judeu israelita nunca será comparável a um branco sul-africano dos tempos do Apartheid, assim como um palestiniano, árabe e muçulmano, jamais terá a simpatia e a compaixão que de nós obteve o negro sul-africano de então.

Embora as duas situações sejam rigorosamente paralelas (os Boers expulsaram o Império e criaram o seu Estado sobre os direitos e as terras dos africanos - ocupante substitui ocupante), não é assim que entendemos o Médio Oriente. Na África do Sul, os negros e os brancos descendentes dos Boers vivem juntos sob uma só bandeira, tentando resolver os seus inúmeros problemas partindo de um ponto de vista comum e não reescrevendo a História, negando o direito aos que nasceram nesse país a viverem nele. No Médio Oriente, judeus e árabes procuram ainda a supremacia: uma Palestina livre uns dos outros. Nestas circunstâncias, e sem o necessário espírito de sacrifício, os que ainda teimam ser possível viver em conjunto são cilindrados pelos extremos, a cada suicida palestiniano e a cada míssil israelita.

Na nossa visão do problema, distorcida pelas lentes do Holocausto e do radicalismo islâmico, o valente povo israelita continua a sua luta legítima pela sobrevivência contra os ignóbeis e terroristas árabes, e uma foto de um grupo de adolescentes judeus, saudáveis e vestidos de Calvin Klein ou Lacoste, gritando de medo ao som das sirenes que anunciam mais um míssil do Hezbollah, vale mais do que cem fotos dos bairros de Beirute ou de Gaza destruídos pela aviação israelita. No nosso subconsciente, é contra nós, "brancos", "ocidentais" e "democratas", que são lançados os mísseis do Partido de Deus - um Deus terrorista, como todos ficámos a saber desde os cartoons dinamarqueses...

Para mim, porém, não existe diferença alguma entre islamismo e sionismo (ser islamista é diferente de ser muçulmano como ser sionista é diferente de ser judeu). A prová-lo estão as imagens das crianças árabes de armas em punho e as de crianças judias escrevendo mensagens nos obuses que serão disparados contra o Líbano. E sorriem, umas e outras. Ousam os adultos sionistas e os islamitas convencer o mundo de que é por e para estas crianças que fazem a guerra. Os mesmos adultos que recusam, de um e de outro lado, admitir que essas crianças brincariam juntas e em paz se não fossem ensinadas a odiar. A odiar em nome de Deus, naturalmente.
O do Hezbollah ou o de Israel. Dá no mesmo.

Rui Semblano
18 de Julho de 2006

O distante Próximo Oriente... (primeira parte)

terça-feira, julho 18, 2006

O distante Próximo Oriente... (primeira parte)







Criança israelita escreve mensagens nas munições de uma posição de artilharia pesada do exército israelita perto de Kiryat Shmona, no norte de Israel, perto da fronteira com o Líbano.
17 de Julho de 2006.

Foto Sebastian Scheiner/AP




Israel era um sonho.
Depois dos terríveis anos do nazismo, a Terra Prometida era mais do que uma esperança para milhões de judeus europeus deslocados; era a sua única esperança. O porquê deste facto é um mistério - existem muitas explicações para ele, mas nenhuma é suficiente. Terminada a Segunda Guerra Mundial, seria de esperar a reintegração das comunidades judaicas nas suas anteriores localizações, no que se poderia chamar "o regresso à normalidade", mas nada disso aconteceu. Antes do nazismo, existiam pessoas de muitas nacionalidades que partilhavam a religião judaica. Depois do nazismo, passaram a existir judeus sem nacionalidade alguma. Em última análise, Israel é uma criação da ideologia nazi. Talvez isto ajude a perceber a sua forma de ser.

Por um lado, as comunidades judaicas foram de tal modo desenraizadas que pouco ou nada restou das suas estruturas seculares enquanto integrantes das sociedades em que costumavam viver. Por outro, o leste da Europa, dominado pelos soviéticos, tornou-se um lugar pouco menos agreste para os judeus que a Europa sob ocupação nazi, provocando um êxodo que os países do oeste não desejavam. O problema judaico sofria uma metamorfose irónica e algo inesperada. Com base em Londres, a élite sionista preparava há muito o "regresso" à Palestina. Esta pretensão do "regresso" é o equivalente a, digamos, uma hipotética pretensão árabe de regresso à Península Ibérica, o que, aliás, seria mais defensável. A História está cheia de gente que a procura reescrever ao mesmo tempo que a ignora.

O sionismo, "regresso" à Terra Prometida, baseou-se inicialmente em princípios religiosos, mas cedo se tornou claro que existia uma miríade de interesses que convergiam nesse sentido e pouco ou nada tinham a ver com a religião. Aos sionistas que sonhavam com o Eretz Israel, o final da Segunda Guerra Mundial deve ter recordado um certo senhor Sykes e um certo senhor Picot e estimulado a imaginação de um mundo árabe feito de tendas, tapetes e camelos em movimento perpétuo, encarregando-se estas noções deturpadas de amplificar o mito de uma Palestina deserta, à espera dos israelitas. À espera do grande Israel. A reintegração dos judeus na Europa nunca foi seriamente tentada. A bem ou a mal, o destino de milhões de pessoas estava traçado.

Mas será que pessoas nascidas e criadas na Europa (em especial a ocidental) encararam com naturalidade a emigração em massa para a árida, desconhecida e maioritariamente árabe Palestina? Não me parece. Do leste, os judeus mais ortodoxos e menos cosmopolitas seriam um alvo fácil para os inventores da teoria da Terra Prometida, mas aqueles que fizeram as suas vidas em França, na Holanda e em outros países que sofreram a ocupação nazi - e na própria Alemanha! - então livres do nazismo, o motivo para a emigração para a Palestina só poderia transformar-se no salto de fé que, de facto, foi por lhes ter sido demonstrado que essa Europa já não tinha lugar para eles. Afinal, os judeus europeus foram para a Palestina por duas razões: a crença no seu destino (o "regresso" à Terra de David) e a ausência real ou induzida de alternativas (a destruição da sua estrutura social na Europa, em especial nos países do leste).

Os serviços de (des)informação que serviam os interesses sionistas fizeram um trabalho exemplar, no que tratou de convencer os judeus do seu direito à Palestina, convencendo-os até de que esta estaria à sua espera. Estabelecido este princípio, não é de admirar que os judeus chegados à Palestina tenham encarado os árabes que lá se encontravam como aberrações - como invasores, mesmo! - iniciando desde logo planos para contrariar as pretensões destes àquele território que era, afinal, só aquele em que viviam há séculos.
A inegável luta dos judeus contra o Império Britânico, que ocupava a zona como administradora herdeira do senhor Sykes, criou as fundações do que é hoje uma nação em permanente estado de guerra, em contínua luta pela sobrevivência. Isto porque, na realidade, não se tratou da expulsão de um ocupante estrangeiro, mas de um confronto entre dois ocupantes estrangeiros, a que os palestinianos (cristãos, muçulmanos ou judeus) apenas assistiram, com raras excepções, aliás prontamente neutralizadas ou reduzidas pelos sionistas.

Não imagino o que os palestinianos (de todas as origens e credos) pensaram que ia suceder a seguir, mas o certo é que permitiram, em grande parte, que os sionistas recolhessem os créditos pela expulsão dos ingleses e, com isso, quando a bandeira de Sua Majestade foi recolhida pela última vez na Palestina, foi a de Israel que surgiu no seu lugar. Uma bandeira que não deixava lugar a dúvidas: aquela terra era dos judeus. Estava criada a verdadeira aberração: um Estado judaico na Palestina. Então, só faltava expulsar dele todos os árabes.
A estrela de David na bandeira israelita não significa o mesmo que a cruz de Cristo na bandeira norueguesa. Que eu saiba, na Noruega, um muçulmano é um cidadão de pleno direito, não se podendo dizer o mesmo de um que resida em Israel.

(fim da primeira parte)

Rui Semblano
18 de Julho de 2006

O distante Próximo Oriente... (segunda parte)