sábado, setembro 27, 2003

A brisa do Tejo...


Já por diversas vezes participamos em trocas de ideias motivadas por sugestão do Nuno P., da Janela para o rio. Até agora, porém, excepto direccionamentos nas entradas que lhe dizem respeito, ainda não existia uma ligação para o seu blog, nem nos Links Gerais d'A Sombra - o que foi um lapso.

Pois bem.
Não só entra na lista geral, como passa a constar em permanência da nossa lista de Blog Links, nesta página. Já não era sem tempo.
Em jeito de desculpa, e com uma ironia que sei irá compreender, aqui fica um poema dedicado à Janela para o rio.


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


(Alberto Caeiro in Athena, n.4, 1925)

Um abraço ao Nuno P.

Pel'A Sombra,
RS

Quais propinas, qual quê!


Traduzido de e-mail enviado por Spencer Cruz
(yrhkrd92qm@friendlysams.net)

--- quote ---

Graus académicos disponíveis em
pretigiadas universidades não reconhecidas.


Tem o conhecimento e a experiência, mas faltam-lhe as qualificações?
Tem sido recusado uma e outra vez ao concorrer ao emprego dos seus sonhos por não ter a sigla certa junto ao seu nome?

Obtenha hoje mesmo o prestígio que merece!
Promova a sua carreira desde já!
Bacharel, Master e PhD disponíveis para a sua área!
Sem exames! Sem aulas! Sem livros!
Telefone para se registar e receba o seu grau académico dentro de dias!
24 horas por dia, 7 dias por semana!
Confidencialidade assegurada!

203-286-2187 - USA
44-207-681-2635 - INTERNATIONAL

--- end quote ---


Pronto.
Agora sim, o PhD ao alcance de todos.
Power to the people...

Princess of Darkness


Só visto.
A Pedra e a Espada e PJF continuam a surpreender.

Blogosphaera magnificat.


nota:
Por sugestão do autor, foi alterado o género do substantivo masculino do anterior título, passando a ler-se "Princess" onde se lia "Prince".
E, realmente...

Years...


Um lapso de escrita, fruto do ano corrente, adulterou este texto. Já está corrigido, embora me pareça que devem os leitores ter dado pela gralha.
De facto, era de 2001 que falava, não deste ano de 2003.

:)

(referente à entrada "Amostra")

Tintin por Tintin


A semana passada, junto com o Público, recebi o álbum "Rumo à Lua", de Tintin. A qualidade de impressão era muito má, faltavam cores, o papel era péssimo, quase transparente, mas volumoso, quase não cabendo na capa, deformando a lombada.
Ontem, decidi ver se a minha desconfiança estava certa. E estava.
O papel era bem melhor, e a qualidade de impressão também. Só que ontem não me ofereceram o álbum "Explorando a lua". Custava 4 euros.

Como amante de BD, cheguei a pensar em fazer todo o Tintin com o Público, mas a má qualidade geral desta edição, principalmente a tradução e colocação de legendas (péssima) levam-me a permanecer fiel à versão original em língua francesa. Escolhas.

O que lamento não é isso, mas o facto a que me referi no início. Fazer uma colecção em que o primeiro número, por ser gratuito, vem impresso em papel higiénico não parece ser uma boa forma de cativar leitores.
Ao menos, para os que a vão fazer, que reeditem "Rumo à lua" nas mesmas condições dos álbuns seguintes.

Às vezes, esqueço que o Público é português...
Mas o Público parece não se esquecer.


Rui Semblano
Vila Nova de Gaia

(carta enviada ao jornal Público a 27-09-2003)

In the words of the virgin Mary: Come again?

(*)

Lido em O Comprometido Espectador:

--- quote ---

(...) Noutros blogs também apareço em geral classificado ou na “santa aliança”, ou no “lado direito” ou noutros sítios igualmente recomendáveis.
Eu juro que nunca me classifiquei a mim mesmo dessa forma. E se alguma vez o fiz foi só para chatear. Sem querer intrometer-me demasiado nos vossos princípios editoriais, bem gostava de perguntar: afinal que critérios presidiram à vossa classificação? Obrigados.

--- end quote ---


Espero que não seja uma pergunta de retórica...
Espectemos.


(*) in Snatch (claro!)

Flying Snow...


Maggie Cheung Man Yuk

E, sim, o Cinema para Indígenas tem uma nova entrada.
Lose the popcorns this time. :)

sexta-feira, setembro 26, 2003

Public Enemy


F-A-B-U-L-O-S-O!

Todas as sextas, a partir de hoje,
"rumo ao orgasmo vertical".

'Bora lá!

Jornalismo e preconceito


A propósito de uma entrada de Pedro Mexia, no Dicionário do Diabo, em que se fala do preconceito inerente ao jornalista e de como ninguém é isento.

Por isso me mato a rir com o Valete Fratres! e o seu trabalho hercúleo ao recolher a informação que mais lhe convém como mais lhe convém, acrescida, ocasionalmente, de alguns enfáticos comentários. Mas continuo a ler o Valete. Sempre que posso. É importante.

É claro que sim, Pedro, jornalismo e preconceito andaram sempre de mãos dadas, mesmo se apenas, e claro que todos devíamos ter disso consciência. Carlos Fino não é isento; José Manuel Fernandes não é isento; Fátima Campos Ferreira não é isenta (bom... antes ela que o "presunto com olhos - essa não é isenta; é Alberta, mesmo!)... Nenhum jornalista o pode ser. Nós não o podemos ser. Ninguém o é.

Por isso é tão importante cruzar informação extraída de diversas fontes de carácter oposto. Porque a informação é dada de bandeja, mas o conhecimento procura-se. E por isso é tão importante saber ler nas entrelinhas como nas linhas. Por isso é importante saber ver as imagens para além do comentário que as acompanha. Por isso são importantes os espaços de pura observação, como o "No comments" da Euronews, que todos podemos recriar em qualquer canal com um toque no telecomando ou um girar do volume de som. E sim, até as imagens sem comentário não são isentas.

Isenta deverá ser a nossa análise da informação, mas nunca o será, na verdade; pois os nossos olhos vêem e lêem sempre o que aprenderam a ver e ler. Por isso é importante entender, que toda a procura do conhecimento é aprender.

Mais um Graal para buscar... Entre tantos.

Truth as an Art form


We must never forget that art
is not a form of propaganda;
it's a form of truth.


John Fitzgerald Kennedy
Amherst college, 26 de Outubro, 1963

Hard on


Em uma troca de e-mails com múltiplos intervenientes, a propósito da chamada de atenção de um blogger, também via correio electrónico, para algo que não nos mereceu cuidado, a Rata Maluka considerou a resposta que enviei a esse blogger "um pouco dura".
Aqui reproduzo o que escrevi à "Rata" (salvo seja!), para benefício dos que seguiram o "caso" por e-mail; porque lhe achei graça, à "maluca da rata", e porque o humor nunca se deve afastar muito da blogosfera.

----- Message -----

From: Semblano, Rui (gsm)
To: Rata Maluka
Sent: Thursday, September 25, 2003 3:04 PM
Subject: Hard on


Cara Rata Maluka,

Apelando ao seu sentido de humor, não é meu costume ser "um pouco duro", mas "muito duro" (desculpe, o seu nick é irresistível) - mas o reparo ao [blogger em questão] era um misto de humor e liminar recusa de fazer propaganda a um blog que não a merece. Nothing more.

Um grande abraço,
RS

----- End of message -----


Agora; não sei como, este e-mail foi parar ao Pipi...
Resultou daí que tenho a honra de ter recebido um valente e-mail do dito, com um teor que me coíbo de transcrever aqui e a que respondi, assim o recebi. (Xiii...)

Se vos surgirem, portanto, palavras "menos recomendáveis" a vogar pela blogosfera, por mim assinadas, não se admirem. Como poderia ter respondido de outro modo? Em Roma como os romanos. No Pipi dele como no nosso. :)

O homem da motorizada está vivo


Durante uma "reunião secreta" no Sul do Afeganistão, o mullah Omar apelou à Jihad contra os norte-americanos e os afegãos que com eles colaboram.
Rumores de fontes credíveis levam a crer que, após ter proferido a sentença, Omar montou na sua motorizada e desapareceu... Outra vez.

Rats...

Amostra

As sondagens valem o que valem (vejam a amostra). *

Wesley Clark.
O tempo dirá se estou certo, ao pensar estar encontrado o próximo presidente dos EUA. O "actual" está condenado há muito. O 11 de Setembro de 2001, mesmo nas mais mirabolantes teorias da conspiração, nunca foi desenhado para o preservar, mas sim para o fazer "colaborar" ("play ball" - como lhe chamam). Se interesses havia a preservar, eram os que ele tão mal defendera até essa data.
"Dubya" cairá. Mas não sem que os que o animam tentem evitar a sua queda.

Resta saber até que ponto Wesley Clark será reformador; até que ponto será "democrata", não apenas de partido, mas de facto, pondo um fim à perfídia do USA/PATRIOT Act, entre outras coisas, como Guantanamo. Veremos se estará à altura do que lhe é exigido ou se será, apenas, um Bill Clinton mais.

Se, de facto, pretender ir até ao fim, espero que a sua segurança seja melhor do que a de Jack Kennedy. Vai precisar dela.

(também no Público, 25Set2003, p.16,
"Americanos preferem Wesley Clark ao actual presidente")

* sim, é um trocadilho.


nota:
JFK não é um modelo de virtudes, pessoais ou políticas. A sua obsessão com os "comunistas", na tradição de Truman, e os seus vícios privados, não permitem que se diga: aí está um paradigma da humanidade.
Era, simplesmente, um homem, não um super-homem.
As suas atitudes políticas devem ser analisadas à luz do que era o mundo de então. Para mim, com todos os seus defeitos, era um modelo de humanidade. Todos somos humanos. Ele não foi excepção.

Faço eco das palavras que ficaram gravadas a fogo no meu cérebro, desde a primeira vez que as ouvi deste modo, ditas por Jack Kennedy, abatido por cobardes seis dias antes do meu nascimento:

"What kind of peace do I mean? What kind of peace do we seek? Not a Pax Americana enforced on the world by American weapons of war. (...) For, in the final analysis, our most basic common link is that we all inhabit this small planet. We all breathe the same air. We all cherish our children's future. And we are all mortal."

"De que tipo de paz falo? Que tipo de paz procuramos? Não uma Pax Americana, imposta ao mundo por armas de guerra americanas. (...) Em conclusão, o nosso elo comum mais elementar é todos habitarmos este pequeno planeta. Todos respirarmos o mesmo ar. Todos prezarmos o futuro dos nossos filhos. E todos sermos mortais."

American University
Presidente John F. Kennedy
Washington, D.C.
10 de Junho, 1963

Terror & AIDS


José Pacheco Pereira não considera o terrorismo comparável à SIDA.
(Público, 25Set2003, p.8, "Terrorismo e sida não são comparáveis")

Presumo que ainda não se encontrou frente à agulha de uma seringa empunhada por um infeliz seropositivo que nem sonha quem ele é...

quinta-feira, setembro 25, 2003

[a]Creditar


Recebemos 22 e-mails do Descrédito.
Em todos eles, porém, o mesmo texto.

--- quote ---

Para os que ainda não conhecem, apresentamo-vos o blog DESCRÉDITO !

O blog onde, entre outros, Pedro Sá e Mário Garcia comentam a actualidade
política nacional e internacional, numa perspectiva de esquerda moderna para o século XXI, não virando costas à polémica se for caso disso !

--- end quote ---


... Vezes 22. We ARE impressed. Chama-se a isto acreditar no seu valor.
Já antes tinhamos reparado no Descrédito. Continuaremos a acompanhar, sempre que possível, o seu estado.
Entretanto, lançamos os seus e-mails a... creditar.

Um abraço para Pedro Sá e Mário Garcia.

Picket fences


Lido em publico.pt:

--- quote ---

Grupo de Observação do Iraque
Iraque: primeiro relatório sobre armas de destruição maciça
revela-se inconclusivo

Um primeiro relatório elaborado pelo norte-americano David Kay, chefe do grupo de peritos que investigam a existência de armas de destruição maciça no Iraque, "não chegou a conclusões definitivas", revelou hoje um porta-voz da CIA.
"O doutor Kay continua a receber informações do terreno. Este será apenas o primeiro relatório provisório e por isso não terá conclusões definitivas, nem irá excluir quaisquer hipóteses", afirmou Bill Harlow.

--- end quote ---


(notícia completa aqui)


"(...) Este será apenas o primeiro relatório provisório
e por isso não terá conclusões definitivas (...)" ?????

Com este já não se metem.
(vá saber-se porquê...)


nota:
Imaginem que numa emissão antiga do Forum da TSF o tema era "Quem deve dirigir a reconstrução e democratização do Iraque?" e que, continuemos a imaginar, 1.689 ouvintes ligavam a apontar a ONU ou os iraquianos e apenas 189 apontando os EUA, restando 366 que entendiam que os EUA devem assegurar a presença militar enquanto que a ONU a transição para um governo iraquiano e outros aspectos civis.
Que rádio mais facciosa que era a TSF...

Pois era. E estes resultados não são imaginados; são os da última sondagem publico.pt, à hora de publicação desta entrada.
Um jornal tendencioso, este Público.
Só aceita os votos dos que lhe interessam.
Bolcheviques...

O moço da jorna


Hoje encontrei o Barman. Não um, mas o.
Curiosamente, por este ter mencionado a publicação da Pedra Filosofal (pelo Fabien) n'A Sombra. Uma referência à música de Manuel Freire a propósito de uma polémica em torno da sua eleição para a direcção da SPA e de... João Hugo Faria (JHF).

Para o Barman, tudo indica (o que verifiquei) que o moço da jorna está para JHF como Herman José para o infeliz deficiente mental que enxovalhou um dia. Não gosto de enxovalhos.

Nunca tinha visitado o blog de JHF.
Ao ir até lá, encontrei isto:

--- quote ---

teste
Wednesday, September 24, 2003

este blog foi cancelado
- posted by joao @ 6:54 AM

--- end quote ---


Não sei se tal facto se fica a dever ao mísero trato que lhe foi dado por vários blogs de que o moço da jorna fez eco e entre os quais se inclui. Sei que não me agradou o tom com que JHF foi tratado. Não conhecendo o João Hugo Faria, nem o conteúdo prévio do seu blog, não sei ajuizar do valor de ambos, mas graças ao Barman, pude ver aqui (nos comentários) algo da sua natureza, como este lhe chamou (e bem).

A julgar por extractos descontextualizados (é um neologismo...) de escritos de JHF no blog do moço da jorna e em outros por ele citados, tratou-se de uma embirração gratuita, desprovida de outro sentido que o de enxovalhar. Porque não se trata de discordar de algo que foi escrito, mas de gozar com o que foi escrito e como o foi.

Não imagino porque tomaram JHF de ponta.
Existem muitos, mas mesmo muitos blogs com problemas de semântica e/ou de expressão, para não falar de estilo. O moço da jorna não é um deles e este, por exemplo, também não. Por isso é impossível atribuir a uma dessas lacunas o modo infâme como trataram João Hugo Faria.

Não adianta, portanto, o verniz da semântica e do estilo com que o fizeram.
A expressão do ordinário, do vulgacho que escondia, torna-se visível quando e onde menos se esperaria. Assim; numa palavra solta; num dito distraído.
Numa cobardia.

Esta minha entrada tem um nome preciso; chama-se desprezo.
Não a considerem uma picardia.

quarta-feira, setembro 24, 2003

Reminiscência

Lido em Miniscente:

--- quote ---

"Mas não me venham agora com essa fantasia absurda de que a nossa comunicação social é dominada pela direita. Para além disso, eu não sou de direita."

--- end quote ---


O Abrupto citado pelo Luís Carmelo citado pel'A Sombra.
Porque esta frase vai valer muito e nós adoramos antropologia.

Ooops...


Reunidos os amigos para o que seria um reencontro poético, partimos rumo aos "maus hábitos" de outrora. Lá chegados, para nossa surpresa, demos com o nariz na porta.
"Fechado?!" - exclamei - "Como, «fechado»!?"
Com infinita paciência, o funcionário de serviço da garagem Passos Manuel, no último piso da qual fica o "Maus Hábitos", explicou que o bar só funciona de Quinta a Domingo. E eu que tinha a certeza... A não ser...

23 de Setembro? E porque não de Outubro? Ou de Dezembro, já agora! Um telefonema confirmou-o. É 23 de Outubro... Daqui a um mês. Possivelmente, certamente, o Joaquim não me enganou. Disse-me a data certa. Eu é que a antecipei, inconscientemente; talvez por ser de um tempo em que a poesia e o jazz e a música portuguesa e muito mais, aconteciam distribuídos por todos os dias da semana, ora aqui ora ali.

Quando o "Realejo" ainda não tinha caído em cima do "Luís Armastrondo"... Quando o MEC ainda não andava a pastilhas e caía no Porto de pára-quedas e me perguntava: Sabes onde é o "Bacalhau"? (Lembras-te? Não; é impossível.) Quando o "Pinguim Café" ainda tinha o Palolo na parede e um livro de visitas onde deixei pedaços da minha alma, escritos com sangue negro... Onde andará esse livro...
Todos esses sítios desapareceram, excepto o Pinguim.
Todos esses sítios deixaram de existir. Principalmente o Pinguim.

Existem outros, claro. Mais? Certamente. E depois?
Agora temos noites de poesia com dois meses de marcação prévia...
Parece que vamos a um concerto dos Stones ou coisa assim...
Extraordinário.

nota estranha (ou talvez não):
Nunca entrei no "Maus Hábitos". Não sendo cliente "habitual", não fazia ideia do seu funcionamento, mas o que faziam mais pessoas à porta, procurando entrar, como nós? Foi coincidência?
Sem pretenciosismos, se porventura alguém foi à procura de poesia nesse local por via das palavras d'A Sombra, na noite de 23 de Setembro, e encontrou o mesmo que eu, as minhas sinceras desculpas.
Mea culpa.

Mas que esta noite não passe sem poesia.

M'en vaig a peu


Devo esquecer o telhado vermelho
e a janela com flores.
A escada escura e a imagem velha
que se escondia num canto,
e a cama de madeira negra e velha
e os teus lençois tão limpos,
e a chegada suave da manhã
que te desperta mais velha.

Mas não quero que os teus olhos chorem:
diz-me adeus.
O caminho é a subir
e eu vou a pé.

Devo dizer adeus à porta que se fecha
e que não quisemos fechar.
Devo encher o peito e cantar uma canção
se o frio de fora me faz tremer.

Devo ignorar este cão que agora ladra
atado a um poste seco,
e esquecer de repente a tua imagem
e este pequeno lugar.

Mas não quero que os teus olhos chorem:
diz-me adeus.
O caminho é a subir
e eu vou a pé.

Devo levar a guitarra às costas
e voltar a fazer o caminho
que uma tarde escura subindo ao cabeço
me trouxe até aqui.
As ondas apagarão as pegadas
que deixo no teu porto.
Vou a pé, o caminho é a subir
e dos lados há flores.


Joan Manuel Serrat - "M'en vaig a peu"
("Vou a pé" - tradução de Manuel de Seabra)
in:
Antologia da Novíssima Poesia Catalã
Editorial Futura, Lisboa, 1974

nota:
Para que não se diga que hoje à noite não houve poesia.
(Paulo, se passares por aqui, sabe que o tenho e que é teu.)