quarta-feira, setembro 10, 2003

O Mestre parte sem remorsos...

... mas voltará.

Francisco José Viegas faz uma pausa por quinze dias.
Antes de partir, teceu alguns comentários ao dilema abordado pelo NunoP. (Janela para o rio).
Ao comparar as suas reflexões sobre este assunto com as minhas, não posso deixar de me sentir feliz pela existência da blogosfera, assim, tal como é.

Espero que o Nuno faça um roteiro blogosférico dos que aceitaram participar na abordagem do tema por ele proposto. O mosaico das diversas formas de explorar o tema será interessante de examinar, permitindo uma vista mais bem definida que a proporcionada por um mero debate entre dois ou três blogs/bloggers, e escapando aos acréscimos próprios dos "diálogos" que, tantas vezes, mais prejudicam a transmissão de ideias que a auxiliam.
Um bom exemplo disso foi o meu episódio com o João, do Jaquinzinhos, a propósito da Palestina. Acontece.
A ideia do Nuno mostra não uma nova face da blogosfera, mas a sua face original e, quem sabe, fundamental.

Boas férias ao Mestre de Aviz e um abraço ao NunoP.

nota:
A propósito de FJV, acabo de comprar a Grande Reportagem 150, um número histórico por se tratar do último de periodicidade mensal - a GR regressa ao semanal - e, em breve, tecerei alguns comentários às participações nesta edição da GR de José Pacheco Pereira, Gonçalo Ribeiro Telles e Pedro Mexia (de quem já não comento nada há bastante tempo!).

nota2:
Como em tempos já me aconteceu com JPP, ao abrir o Dicionário do Diabo encontro Pedro Mexia em pleno exercício onanista - neste caso oblíquo e entalado entre o vertical de Eduardo Prado Coelho (que, por sinal, ainda não reclamou o seu blog) e o horizontal de Bénard da Costa - não menciona as avózinhas de nenhum dos dois, nem a sua.
Quer isto dizer que aquela história da Carla Bruni deu em nada? Isto é...
Nada que se veja?

terça-feira, setembro 09, 2003

The Lone Ranger


No cartoon desta semana da revista
"The Economist" (Setembro 6, n. 36, p.9):

França, Alemanha e Rússia avisam os EUA
prestes a entrar no pântano do Iraque:
"Vais ficar atolado!"
Ao que os EUA respondem:
"O quê? Não se ouve nada!! Isso é connosco?"
Uma vez atolado até ao nariz, os EUA gritam:
"Estou atolado!!"
Ao que França, Alemanha e Rússia respondem:
"O quê? Não se ouve nada!! Isso é connosco?"


nota:
Apesar de inúmeros exemplos de como a política norte-americana "deu para o torto" (doméstica como internacionalmente), a "The Economist" ainda se agarra à ideia de "guerra justa" nos casos do Afeganistão e, sobretudo, do Iraque.
Como se escreve no artigo "de capa" desta semana ("The hard road ahead", p.11): "Esta revista foi uma apoiante incondicional da guerra no Iraque". Pois. Uma vez penhorada a credibilidade torna-se complicado voltar atrás sem perder nada.
Ao ler a "The Economist" e as suas críticas à Administração norte-americana, porém, torna-se claro que este "voltar atrás" existe, só que é um "sapo" demasiado grande para ser engolido de uma só vez. Possivelmente, só após as eleições de 2004 nos EUA ele será engolido na totalidade.
Resta saber quanto tempo durará a "digestão".

Reflexo


Em resposta a um convite do Nuno P., do Janela para o rio, aqui fica a série de considerações suscitadas pelos "motivos de reflexão" por ele propostos num simpático e-mail enviado à Sombra - e aproveito para, publicamente, agradecer ao Nuno o ter-nos envolvido neste debate.

Então vejamos,

Janela para o rio:

Porque não pode um comunista ser católico praticante? A igualdade entre todos é incompatível com a fé em Deus?

A Sombra:

Não posso evitar o velho chavão de ter sido Jesus Cristo o "comunista original"; um cliché que nunca foi bem visto "à direita" como "à esquerda". E é neste "como à esquerda" que se situa a questão colocada pelo Nuno.
De facto, em termos estritos, nada impede um comunista de ser católico praticante, mas se considerarmos as raízes humanistas e materiais dos grandes movimentos "de esquerda", como o comunismo e o socialismo (de Sartre a Marx a Breton - sim, ele também), verificamos que o "factor Deus" não é equacionável em ambos os esquemas - muito menos no anarco-surrealismo de Breton, tão do agrado de muitos "teóricos de esquerda avançados", mesmo "reformados", como José Pacheco Pereira, por exemplo.

Apenas por uma questão de princípio, e de coerência com a filosofia existencialista e materialista de base, um comunista (como um socialista) "não poderá" - notem-se as aspas - acreditar em Deus, por definição. A não ser que seja um porco. Deus, não o comunista. (1)
Esta é uma ideia que incluo no rol dos dogmas que acorrentam os que adoptam rótulos. Ser comunista ou socialista convicto e, ao mesmo tempo, acreditar em Deus (já nem falo, para já, de ser católico praticante) é tão absurdo como ser vegetariano e comer omeletas. O preço a pagar pela aposição da "etiqueta" é sempre alto - e quase ninguém o paga, apesar de muitos a ostentarem.
Por isto prefiro os termos "liberal" e "conservador" a "de esquerda" e "de direita" (ver entrada "O liberal conservador", n'A Sombra). Apesar de permanecerem rótulos, a sua amplitude é bem mais vasta e chega para descartar certos falsos axiomas que a "esquerda" e a "direita" não conseguem iludir - sendo o papel da religião (o "factor Deus", se quisermos) um deles.

Aliás, como muito bem sugere o Nuno, retoricamente, na segunda parte da sua questão, a igualdade entre todos é condição indispensável do comunismo como da fé em Deus, seja ele qual for, mas, neste caso, o da religião católica e apostólica (acrescentar o "romana", como tantas vezes se faz, seria redundante - Papa há só um).

Janela para o rio:

Como é que as estatísticas demonstram que mais de 75% da população é católica, mas pelo menos metade da população vota à esquerda? Quer isto dizer que a abstenção é quase toda crente?

A Sombra:

Aqui está um bom exemplo de como a religião católica tem poucos adeptos reais em Portugal. Por definição, tanto o comunismo como o socialismo são a antítese do Vaticano. Pactuar com Roma e ser comunista ou socialista é daquelas coisas que não se compreendem - mas existem!

Na realidade, o "católico português" não é nada católico - mas pensa que é. Assim, como se ser católico em Portugal fosse patológico, de origem congénita.
Veja-se o que sucede com os baptismos.
Para mim, como diria um amigo meu, faz tanto sentido baptizar uma criança como filiá-la num clube de futebol ou num partido político. Cada um, atingida a maturidade, deve decidir por si esse tipo de coisas - como fez Cristo, aliás. Em Portugal, porém, tal não é decidido por cada um, mas antes pelo binómio aditivo família-sociedade, sendo que a maior parte se acomoda ao resultado, paradoxalmente subtraindo-se da equação, enquanto indivíduo.
Mas, atenção, que isto não é só em Portugal, embora excelemos neste tipo de relação entre a sociedade e a religião.

(Ainda a propósito de "votos" e de "abstenções", veja-se a entrada
"A Democracia, esse mito", n'A Sombra.)

Janela para o rio:

E as outras religiões, alguém que é budista, judeu, muçulmano, protestante ou outra religião qualquer, também é tendencialmente de direita?

A Sombra:

Penso que já ilustrei a resposta a esta questão ao responder às anteriores, mas cabe aqui uma chamada de atenção para o papel fundamental (literalmente) da religião nos Estados islâmicos.
Quanto ao factor "direita", direi que as ideias de "esquerda" e de "direita", como definidas inicialmente pela Revolução Francesa, são europeias (e, por arrasto, americanas - não "norte-americanas", apenas, mas americanas, mesmo), tendo sido exportadas virtualmente para outros continentes e "coladas" a outras culturas.

Na prática, isto não funciona, mas para o chamado "ocidental médio" ajuda imenso a "compreender" o pouco que lê nos jornais.

Janela para o rio:

Sendo assim, como enquadramos os terroristas de inspiração fundamentalista islâmica? Serão eles todos de direita?

A Sombra:

Cá vamos nós...
Ao "colar" as nossas referências a culturas que pouco ou nada têm a ver com as nossas (pelo contrário, as referências deles foram as nossas durante séculos - uma espécie de vingança nossa? - talvez...) corremos o risco de exorbitar.
Do ponto de vista dito "ocidental" pode fazer sentido considerar, por exemplo, o Hamas como de "extrema-direita", mas tal coisa não sucede. No que respeita ao Médio Oriente, a especificidade cultural árabe tem sido preservada, neste aspecto, fruto do seu confronto com um opositor "pró-ocidental" que assimilou por inteiro os nossos valores seculares de "esquerda" e de "direita".
Será a excepção que confirma a regra? Pode ser...

Janela para o rio:

E os grupos terroristas com base no separatismo (como a ETA ou o IRA)? Se querem a independência, são partidos nacionalistas, valores que são da direita, certo?

A Sombra:

Certíssimo!
Parece uma incongruência, não parece?
Tendo em conta o que antes escrevi, deveria existir um raciocínio idêntico para os movimentos e organizações extremistas de raiz europeia, mas não é assim. E tal não acontece porque esta lógica não é linear.
No caso da ETA-milis e do real-IRA, por exemplo, apesar da sua ideologia e do que, supostamente, pretendem atingir (tantas vezes conotado com o socialismo), as suas acções tendem a demonstrar um comportamento que podemos "classificar" como "reaccionário", "segregacionista" e, logo, "extremista", podendo ser identificado com a "direita", neste caso, como com a "esquerda", em outros, mas analiso, apenas, a componente de "direita", dada a presença do "factor Deus", em especial no Ulster.

No caso do IRA, e do real-IRA em particular, existe uma componente religiosa tão ou mais fanatizante e fanática como a das células mais encardidas da Fatah. Esta componente é impossível de conotar com a "esquerda" - conforme a minha resposta à primeira questão do Nuno demonstra.
Já no caso do País Basco, embora a religião seja um factor de menos peso, comparado com a Irlanda do Norte, são mais os objectivos que aproximam a ETA-milis da "direita", em termos formais, mas pode sempre argumentar-se que, assim, também os métodos do Che se aproximam da "direita".

Mais que "direita" ou "esquerda", convém referir a classificação "extremista" como padrão, independentemente da fé. Como nenhum outro, foi esse factor que permitiu que organizações terroristas de ideologias opostas partilhassem os mesmos campos de treino, no auge da "internacional terrorista" dos anos 70 do século passado.


Conclusão:

Numa sociedade em que ser católico é uma consequência natal não se pode relacionar religião e política.

Quanto a ser uma imposição familiar ou/e social o ser-se católico em Portugal, como em outros países de tradição apostólica, trata-se de uma falsa questão.
Os meus pais optaram por me baptizar em criança, o mais cedo possível após o nascimento, "como manda a regra"; tenho todos os sacramentos católicos até ao Crisma (inclusive). Na altura de atingir o patamar seguinte, porém, tornei-me apóstata.
Demorei "algum tempo", mas "desertei" com profundo conhecimento de causa e muito consciente - o meu trajecto excedeu o comum, tendo chegado a ser responsável por grupos de jovens católicos. A "imposição" é, portanto, uma questão pessoal, não familiar nem, tão pouco, social. Cada um é livre de optar em consciência. Como alguém disse, um dia, "os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo, trata-se, agora, de o transformar" (2). A cada um decidir como o fazer. Pelo menos até ao regresso das fogueiras.

E esta sim, é uma questão que nada tem de falsa e que não pode ser iludida, sob pena de as vermos chegar de novo mais depressa do que algum dia julgámos ser possível.
E essas chamas, caríssimos, serão "de direita" ou "de esquerda"?


Pel'A Sombra,
Rui Semblano

Porto, 8 de Setembro de 2003



(1)
"Deus é um porco!" - André Breton, in Le Surréalisme et la peinture, Paris, Gallimard, 1965

(2)
Karl Marx in Theses on Feuerbach (Última tese)


nota:
Ambos os excertos acima foram extraídos não dos respectivos originais (I wish...) mas de "Textos de Afirmação e Combate do Movimento Surrealista Mundial", tradução de Mário Cesariny de Vasconcelos (Perspectivas e Realidades, Lisboa, Novembro de 1977). (*)

(*) Uma obra que JPP conhece bem, assim como a Livraria Utopia, na Rua da Regeneração, no Porto, já lá vão uns anitos...
(yes, it's a very, very small world...)

O liberal conservador


É interessante ver como se dá a volta a certos conceitos.
Tomemos "liberal", como exemplo.

Liberal, para mim, sempre significou "abertura de espírito", "procura de novos caminhos", assim como Conservador sempre foi o "apego à tradição", o "manter do estabelecido".
É por isso que acho graça aos que se intitulam de "liberais" ao mesmo tempo que demonstram um conservadorismo feroz e demolidor. Ainda dizem que a propaganda morreu...

Love is Hate!
Peace is War!

Branco é Preto!
Liberal é Conservador!

Pois é, George... Pois é.


Liberal, adj. 2 gén. Que gosta de dar; generoso; franco; livre; independente; que é partidário da liberdade política, económica, religiosa, etc.; diz-se da profissão de carácter intelectual e independente; s. m. aquele que professa opiniões liberais. (Lat. liberale)

Conservador, adj. e s. m. Que ou aquele que conserva; funcionário público encarregado do registo predial ou do registo civil; o que se opõe a reformas políticas; empregado superior de museus ou bibliotecas. (Lat. conservatore)

nota:
Destaques nos significados da responsabilidade d'A Sombra.

segunda-feira, setembro 08, 2003

Trash

Lido em Abrupto:

--- quote ---

(...) Qd¾ïžÊŒ$j¼ôlLq©RoêWge¬Y]ŘV–§˜£Ê<Ò„C§Þ¬`ëÐò§Éùñ$KÅÍâ5c±…hú‹‚õ³Kl=9Ž)L,j]5”`œgœÑ…ðte3I 3VÇ(šIìÇÌď*#Ž î`–ÉÓŸúºLsÑ‚ÒWEwúʉ=õ6p÷üÂË8r;—´í*ÕÑ~ªG|R`:!II%- 'ò ¶ç²K—ä´©1"šQË^úrH‘‰U(•Zb‘aœR'Š"ÎߟÃ-Y{šô(‹Jì\ß¿.ÿöUás*àV÷“ïCßœ‰×5vw–\VÌ4«xXK=Q½b¢æ²Üªñå]ôÞwÅ‚M½º“D&E,™E,XWgÓÅz$²îïk™ï)-‘°@/äÇ{23rÇ”×=/’Jþ¶_~€/«GdÀè¯ý s¸€Í‘ÂóÁôȆò£2Q§âþC6\9¦K_ÑsÈ“–S,£¾œÂ±†«4ÑÇÒ*üɉ8¡}’Î®ÄØÁMr‹I`”{åàr²µ(ˆDÈGòÒ²QÄäã|%Ì}éãÞ§g0#‡þ-¼ ù`ÇLœ­¼/¼Ì½8Õûr&(UnœÁŸÑ |Y1øú›ZføóO/D Þk}ð%ò‘°ÞÖ ‡õv¶wWW6ÖVv7w¶¶vnGãÌ?sÆY[¹¿ºz£çäàéþáéþ¿RÅÈÞN_#\»¶ÝÖ3[++·`ìlml­Êœ­íìloÝ’u0ÿÌE¶íÖýÕ•]«‡GÏÜß¿Øæï=Ý{vt"ÿØ;|tÿ)}°x%Ý¡Wo§ª¬;rÍfÇ2sWúR¶YVÌ’¬Ü?iŒ£YZdº \4.Gãó ې”ëßÃvº‹P Í?Ÿ_fiE¤3aazöbòA%H,qµŽ|0‹½/Äaþ!Ü—Qú«A-ÓøÛßjXÖµ\$#_2@¥OLL¸ØLT&I4jÍ€Šã„‘Óïž ñÛ¹GûnÿDÄõñ£½î×&2,Ï3¿üŒ §µR8=Ä âŒíévçÁþ]Ol\Ù'bÿy5Å‹ ‘ᑨ-,œÏãÞQ".7br,¦+ŒGŸ!1¢{i¨±jmö¾ÂäièÞn&cÊV;iŠp¶Xž›åE“Ex'®Ú^|€¸„¶ßì3üìèOá33*—¾Áa.rÇ0ÍyQ(bߎ¯i)5&ü𤫘ÚñãI—UK™\«°üLèØ7!–Wu²ÏÔ”õÀ %¾lÉIáìGÌ·…ékú³lårì­ „tŽ2ÄKŸ©¥ô€ù§?ÉÛÎôma)„dܦ>pZ3©’œ‹*ç.íEÿ²9<8zDÐ="byline" href="2003_09_01_abrupto_archive.html#106294180272263650">

Posted 13:36 by Jos?

--- end quote ---


Põem-se a dizer que o Big "Breda" é "muito bem feito", , que têm "imensa pena de não ter oportunidade de ver tudo", , e depois dá nisto.
O Trash pode ser contagioso, mas nunca tinha visto uma estirpe tão rápida a actuar.

I am impressed!

Eco há só um?


O Posto de Escuta já fazia parte da lista de links d'A Sombra quando surgiu o Ecos. Ambos eram excelentes indicadores, dando-se ao trabalho de recolher alguns excertos de entradas de variados blogs e publicá-los. Dessa forma, prestavam um verdadeiro "serviço público" na blogosfera lusa.

Os bloggers que faziam o Posto de Escuta, porém, ficaram aborrecidos com a forma como o Ecos surgiu, parecendo ter aproveitado as suas ideias, desde o tipo de blog (mas isso nem foi o pior, segundo eles) até ao globo terrestre. Mas o pior foi o Ecos soar aos "Ecos da blogosfera", subtítulo do Posto de Escuta.

Vai daí, "por tudo, por nada", segundo os seus autores, o Posto de Escuta fechou as portas a 27 de Agosto de 2003. Quanto ao Ecos, está intermitente, tendo perdido os arquivos, ao que parece. Esperemos que não desapareçam ambos...

nota:
Este tipo de blog, que publica material de outros blogs sem o comentar, é muito positivo - contrariamente aos que vivem exclusivamente de comentar os outros - e há lugar para muitos ecos destes na blogosfera.
Foi pena terem desistido os amigos do Posto de Escuta... A blogosfera fica mais pobre sem eles.

nota2:
Esperei até colocar esta entrada, a ver se o Posto de Escuta retomava o serviço... Mas nada. Como ainda não perdi a esperança, mantenho o link activo.
Quem sabe?...

domingo, setembro 07, 2003

Aqui não se aprende nada

Lido em Abrupto:

--- quote ---

5.9.03
Posted 22:53 by Jos?
PROPAGANDA

A RTP 2 passa nesta altura um típico filme de propaganda política sobre os zapatistas, um movimento militar e para-militar mexicano, chefiado por um intelectual que se apresenta tradicionalmente com a cara coberta com um passa-montanha, com um cachimbo, armado e que se intitula “subcomandante Marcos”. O filme é completamente acrítico, pura propaganda, mas, como se trata dos “últimos guevaristas”, está tudo bem.
Uma das últimas cenas vê-se uma montagem em que Marcos começa a tirar o passa-montanha e depois aparece uma cara de um menino e a seguir um velho e depois uma rapariga indía, ou seja, todo o povo é … o subcomandante. Ás vezes fica-se com a impressão de que ninguém aprendeu nada nos últimos quarenta anos.

--- end quote ---


"Às vezes fica-se com a impressão de que ninguém aprendeu nada nos últimos quarenta anos."
E eu à procura de uma frase simples que definisse José Pacheco Pereira...

nota:
Gostei do "militar e para-militar".
O Nuno Rogeiro que se cuide!

nota2:
Que saudades de Marte e daqueles Haiku tenebrosos...
Só em 2287 é que há mais? Não pode ser mais cedo? Please?

Carmen! Vira-te ao contrário!


No momento em que Carlos Fino regressou a Bagdad, o que mais se leu pela blogosfera foi a condenação do seu trabalho anterior, quando esteve no Iraque durante os primeiros tempos do conflito. Disse-se, a esse propósito, que foi "subjectivo", querendo dizer "tendencioso". Daquilo que vi e li, na altura, não me pareceu nada tendencioso, quando comparado com as pérolas da Fox ou da CNN, por exemplo, ou da Al-Jazeera, para completar o quadro. Subjectivo? Com toda a certeza.

Ajudou-me a perceber o que, realmente se estava a passar, quando visto em conjunto com as outras fontes. Era um dos que estava "do lado de lá".
Como todos os jornalistas, principalmente os que estão sujeitos a condições extremas, as suas transmissões eram um reflexo de si próprio. Tendo isto em mente, pode afirmar-se que o seu trabalho foi exemplar.

O mesmo já não se pode dizer de outros profissionais portugueses que, na altura, estiveram em Bagdad. Um exemplo, tirado do meu diário de guerra pessoal, a que chamei "Diário de uma guerra ilegal":

--- quote ---

09 de Abril - dia 22

(...)
A repórter da TVI em Bagdad, uma Carmen "qualquer-coisa", afirmava que os "colegas" da RTP (Carlos Fino e Nuno Patrício) haviam sido atacados por homens do partido Baath (!!!) enquanto que o jornalista da SIC, Pedro Sousa Pereira, que conseguiu escapar (do mesmo incidente) nada sabia e tudo se "deitava a adivinhar", como diz o povo...

Estávamos nisto quando o primeiro tanque norte-americano chegou ao hotel Palestina.

Carmen! Vira-te ao contrário!

nota:
No meio da confusão que descrevo no fim do volume I deste diário, relativa à chegada de uma coluna blindada norte-americana à zona dos hotéis Palestina e Sheraton, a tal Carmen "qualquer-coisa" falava ao telemóvel para a TVI enquanto eram postas no ar as imagens do local recolhidas em directo pela Al-Jazeera, a Al-Arabyia, a CNN, etc.
O que ela relatava já não era nada de especial, para dizer o menos, como o exemplar:
"Está um soldado americano a passar junto a mim!! Deve ser um reconhecimento!",
mas o pior foi o papel da pivot de serviço que, nos estúdios da TVI em Lisboa, guiava a emissão. Cada vez que a tal Carmen aparecia na imagem, ela interrompia-a aos gritos, como por exemplo:
"Carmen! Carmen! Estou a ver-te! Estás de costas! Vira-te ao contrário!!",
ao que a própria Carmen se mostrava incapaz de reagir antes que o
cameraman da Al-Jazeera (que se estava a borrifar para a Carmen!) mudasse de plano.
Então, inconsolável, a apresentadora da TVI em Lisboa dizia:
"Deixa lá... Já não estás na imagem. Podes continuar." (!!!!)
(...)

--- end quote ---


Prefiro o Carlos Fino, mesmo com o Rodrigues dos Santos a ouvir sirenes por todo o lado!

nota:
Claro que sei o apelido da Carmen, mas desde aquele dia não consigo chamar-lhe outra coisa que... "qualquer-coisa".

Há cruzes e cruzes


Pergunta Manuel Alegre no Expresso (06-09-03):
"Se [Ferro Rodrigues] é assim tão mau para o PS, para a oposição e para a esquerda, por que carga de água é que a direita está tão interessada em crucificá-lo e substituí-lo?"

Resposta:
A ideia é crucificá-lo, mesmo. Mas apenas.
Para o Governo actual, melhor que uma oposição mal liderada, só uma oposição sem liderança. Sim porque "substituí-lo", Manuel Alegre? Por quem? Por si?

Ana, darling...


Num artigo de opinião de página inteira ("GNR no Iraque ao serviço de quê?", Público, 07Set2003, p. 8), Ana Gomes faz uma ronda por muitos dos factos que fazem com que milhões em todo o mundo e em Portugal considerem a invasão do Iraque um atentado à ordem mundial e à ONU.

Na sua ânsia de não parecer "antiamericana", porém, termina por não questionar o envio da Guarda na sua essência, mas apenas na forma.

--- quote ---

"(...) A presença no Iraque de GNR, polícia, Forças Armadas ou técnicos portugueses deve ser considerada e apoiada no quadro de uma missão com um mandato claro das Nações Unidas. Se o Governo prosseguir o envio da GNR nas presentes condições estará mais uma vez a colocar Portugal no estatuto de valete menor ao serviço de interesses questionáveis, cuja natureza e dimensão ainda estão por averiguar.

Não está em causa a preparação e a motivação dos soldados da GNR que se voluntariam para o Iraque e que escolheram uma profissão que supõe arriscar as vidas. Está em causa, sim, a legitimidade do Governo para pôr em risco as vidas desses cidadãos, comprometendo forças nacionais numa ocupação ilegal. (...)"

--- end quote ---


Ou seja, para Ana Gomes, o envio da GNR para uma zona de guerra aberta não constitui um problema se for realizado sob a bandeira das Nações Unidas em lugar da norte-americana.
Estou esclarecido.


nota:
Ainda vamos ouvir Ana Gomes a propor a extinção do Exército português.
E, realmente, com uma GNR assim...

Wishful thinking

(*)

A propósito da notícia:
"Rumsfeld fala de um "início maravilhoso" da reconstrução do Iraque"
in Público, 07Set2003, p. 16


"Início maravilhoso" e "está muito melhor do que estava há quatro ou cinco meses atrás" - assim vê (ou nos quer fazer ver) Donald Rumsfeld o Iraque de hoje.

A formulação destas ideias, acompanhadas de sorrisos e de uma postura arrogante e despótica, no mesmo local onde a memória de um Sérgio Vieira de Mello ainda está ao rubro é um insulto a todos nós.
Assim são os que pensam "governar o mundo".
Assim são os que, segundo José Pacheco Pereira e outros como ele, sabem o que é melhor para todos nós.
Assim são os "maravilhosos inícios" que nos aguardam.
Deus nos proteja.


(*) Wishful thinking: Tomar o desejo pela realidade.

Peace? What peace?

Editorial de Nuno Pacheco e o artigo a que ele faz referência, publicados a 06Set2003, no Público.

Sem comentários.

--- quote ---

Sepultar a Paz
Por NUNO PACHECO
Sábado, 06 de Setembro de 2003

Imagine-se o seguinte episódio, meramente hipotético: um dia, o governo de Aznar dá luz verde para perseguir e isolar um dirigente da ETA num prédio urbano numa qualquer cidade espanhola. Ao cercar o edifício, a polícia é atacada a tiro pelo líder etarra e perde um dos seus homens; não conseguindo fazê-lo sair, os guardas mandam retirar do prédio todos os inquilinos. Depois, accionam um mecanismo de implosão. O prédio desfaz-se e o etarra, procurado por vários crimes, morre com ele. Os inquilinos olham, incrédulos, para as cinzas de onde já não poderão salvar os seus haveres. Os polícias, perante as acusações dos populares, respondem: "esta guerra foi-nos imposta." Imaginam possível este cenário na Europa sem desencadear um monumental escândalo internacional? Isto apesar da ameaça que o terrorismo ainda constitui para um país como a Espanha?

Não, ninguém imagina. No entanto, foi isto mesmo que aconteceu ontem em Nablus, na Cisjordânia, sem escândalo nenhum. Protagonistas: um líder do Hamas, em fuga; o exército israelita, em acção; e o governo de Telavive, no lugar das decisões. A fotografia (ver página 16) mostra um edifício a implodir, acontecimento banal em processos de reorganização urbana. Mas trata-se de um edifício a implodir com um homem lá dentro, propositadamente lá dentro, para que morra e com ele desapareça (crêem os seus executores) a ameaça que representa. Sim, é verdade que ele disparou contra os guardas. Mas não foi abatido em nenhum tiroteio "legítimo", foi sepultado sem misericórdia pelos perseguidores. Tamanha sede de sangue tem o seu contraponto nas bárbaras incursões terroristas do Hamas em Israel, quando suicidas fanáticos fazem explodir autocarros com civis inocentes e os matam sem qualquer piedade. Mas quando um Estado recorre, e com orgulho, aos mesmos métodos que os seus opositores, algo vai mal nesse Estado. Foi Dore Gold, conselheiro do primeiro-ministro israelita Ariel Sharon, quem afirmou que "a guerra que [Israel] enfrenta foi-nos imposta", para justificar a insólita operação. Mas, como ele bem sabe, por cada líder do Hamas abatido em "missões" como esta, novos fanáticos caminharão silenciosos para Israel para cumprir a sua parte na vingança.

Com o chamado "road map" para a paz no Médio Oriente já na gaveta das recordações inglórias, assiste-se agora ao enterrar progressivo das suas esperanças. Como o prédio ontem feito cinzas, também elas se desmoronam a cada passo acéfalo dos que (Hamas ou Sharon) não enxergam mais do que um método assente na força e na vingança. Enquanto não houver coragem para não ceder à chantagem do sangue, mantendo na mesa a paz a todo o custo, o futuro da Palestina estará sempre do lado dos sanguinários. O primeiro-ministro palestiniano Abu Mazen pode vir a ser, na sua credulidade genuína, mais uma das vítimas políticas deste eterno morticínio. O bom senso, ninguém duvida, já implodiu.




Israel Mata Dirigente do Hamas e Destroi Prédio em Nablus
Sábado, 06 de Setembro de 2003

(...) O Exército israelita matou ontem o líder da ala militar do Hamas em Nablus, a principal cidade da Cisjordânia, prendeu outros três membros do grupo, e destruiu o prédio de apartamentos, de sete andares, onde estes estavam escondidos. A operação visava Mohammed Hanbali, de 26 anos, que, segundo Israel, planeou vários atentados suicidas que mataram dezenas de israelitas, e recrutou novos membros para o movimento islamista, ensinando-os a fazer explosivos. Hanbali, que se encontrava no cimo do elevador, tentou resistir disparando contra as tropas israelitas e provocando um morto.

"A minha família está na rua", dizia Baker Sobeh, um menino palestiniano de oito anos, que procurava os livros da escola no meio dos escombros do prédio, que os soldados fizeram explodir ao fim de várias horas de confrontos. Os habitantes tinham recebido ordens para saírem das suas casas, mas, pensando que iriam voltar, não levaram consigo os seus haveres. No fim da batalha olhavam estupefactos para as ruínas do edifício. Dore Gold, conselheiro do primeiro-ministro israelita Ariel Sharon, reconheceu mais tarde que a operação tinha prejudicado as famílias que moravam no prédio, mas afirmou que "a guerra que [Israel] enfrenta foi-nos imposta".

A acção de ontem é o mais recente episódio na campanha militar israelita para travar os grupos militantes palestinianos, que desde meados de Agosto romperam a trégua acordada com Abu Mazen, o primeiro-ministro palestiniano. Abu Mazen, que na quinta-feira perante o Parlamento afirmou que vai continuar a política de diálogo com estes grupos radicais, voltará a ser ouvido hoje pelos deputados, numa sessão à porta fechada, onde irá apresentar a sua versão do conflito que o opõe ao presidente Yasser Arafat. Possivelmente ainda no mesmo dia, os deputados irão ouvir Arafat, e tentar estabelecer um acordo entre os dois homens, que disputam o controlo dos serviços de segurança palestinianos. (...)


--- end quote ---

in Público, 06Set2003, ps. 4 e 16

Aquele outro 11 de Setembro


No dia 5 de Setembro escrevia que, para mim, usar a expressão "11 de Setembro" como equivalente de "nine-eleven" não fazia sentido (ver "Nine-Eleven"). A ilustrar a minha ideia, apontei um ano: 1973.
Nesse ano, a 11 de Setembro, "choveu em Santiago".
A revista "The Economist", no seu número 36 deste ano, veio "defender" o meu ponto de vista. Fá-lo, nada menos, através de dois artigos: "Memories of a coup" e "That other September 11th" (6 Setembro 2003, ps. 14 e 48).

Pode argumentar-se que o Chile de Allende não era um paraíso; pode mesmo afirmar-se (correndo o risco de fazer concorrência à "astróloga" Maya) que Allende teria transformado o Chile num caos, tivesse permanecido no poder e que, dando-lhe tempo, teria sido pior que dez Augustos Pinochets.
Pode dizer-se não importa o quê sobre o Chile de Salvador Allende, mas nada disso apagará o 11 de Setembro de 1973.

Com o apoio efectivo de Washington, foi violentamente deposto um assumido marxista eleito democraticamente e, no seu lugar, colocado um déspota que se manteria no poder por 17 anos.
Citando a "The Economist", a manutenção de Pinochet no poder exigiu a morte de cerca de 3.000 chilenos (um número que ilude os incontáveis e inexplicados "desaparecimentos" ocorridos nesse período) e a prisão e tortura de, possivelmente, "centenas de milhar" de outros, segundo o historiador Alfredo Jocelyn-Holt.

A "The Economist" aponta duas conclusões paradoxais sobre o Chile de 1970 a 1973; a primeira diz que "apesar de [Salvador Allende] aparentar ser um salvador para muitos [dos seus compatriotas], os Estados Unidos não podiam tolerar um marxista no poder, no seu hemisfério"; a segunda afirma que "o principal erro de Allende foi forçar a mudança a um ritmo mais alto que o suportável por muitos chilenos".

A cada um determinar qual dos dois argumentos melhor ilustra a "chuva" de 11 de Setembro de 1973, em Santiago do Chile.

sábado, setembro 06, 2003

Nine Eleven


Em breve chegará o dia 11 de Setembro de 2003.
Nessa data serão recordados os atentados de Nova Iorque e Arlington e um certo campo no Estado da Pensilvania. Nessa data serão recordadas as pessoas que pereceram nesses atentados. Nessa data serão cumpridos minutos de silêncio por todo o mundo.
É uma data infame. Nada existe a comemorar. É a evocação de um desastre. Deveria ser um dia de completo silêncio, para reflectir sobre as suas consequências, dois anos volvidos ainda imprevisíveis...
Por isso não espero pelo 11 de Setembro de 2003 para escrever sobre o 11 de Setembro de 2001. Por isso escrevo hoje.

A repetição ad nauseam das imagens dos aviões a percutir as torres gémeas do World Trade Center naquela manhã de Setembro ficará gravada para sempre na minha memória. Não as imagens, simplesmente, mas a sua repetição, uma e outra vez... Uma e outra vez...
A compensar o gosto por sangue das televisões, no seu "melhor estilo" vampiresco, estiveram a abnegação e a coragem de bombeiros, polícias, paramédicos e simples cidadãos anónimos que elevaram, de novo, a raça humana ao seu ponto mais alto.
Hoje, passados dois anos, fica o saber amargo - sim, o saber - de que esse momento se esgotou em si mesmo.

De nada adiantou a onda de solidariedade sem precedentes que se ergueu a favor dos Estados Unidos; de nada adiantaram os pedidos dos familiares das vítimas dessa trágica manhã para que mais inocentes não fossem mortos em actos de vingança; de nada adiantou, afinal, o heroísmo dos que souberam estar à altura do momento e que com os seus últimos minutos de vida nos recordaram o que é ser-se humano. Foi tudo em vão.
Como resultado do 11 de Setembro de 2001, quantos mais milhares de inocentes morreram em todo o mundo nos últimos dois anos?

Como um raio olímpico, a espada norte-americana abateu-se sobre o Afeganistão, que acolhia a Al-Qaeda de Osama Ben Laden e os Taliban do mullah Omar.
Resultados: o regresso ao poder dos senhores da guerra que fizeram os Taliban parecer anjos quando estes tomaram o poder; o retomar da produção de ópio; a divisão do país em feudos; mas, também, a ocupação de pontos geo-estratégicos pelos EUA e um envolvimento efectivo da NATO como reforço das tropas enviadas por Washington, numa lógica distorcida e pervertida de "defesa" mútua.
Objectivos alcançados: nem um único - a mudança de regime resultou num pior que o existente; o "Governo" afegão é uma anedota que mal se tem em pé; Osama Ben Laden anda a monte; o mullah Omar escapa de motocicleta por entre os dedos do mais poderoso exército do mundo...

Isto dura há quase dois anos e ninguém imagina quanto tempo mais será necessário para estabilizar o Afeganistão. Não importa. Para os EUA, o país está estabilizado o suficiente (como outrora esteve o Iraque de Saddam Hussein). Um exemplo perfeito de como dividir para conquistar, sendo essa divisão assegurada pela multiplicação dos dólares pagos aos diversos "senhores" afegãos.
E a Europa - toda a Europa - embarcou alegremente neste logro, quer para não parecer insensível ao "legítimo" desejo de vingança norte-americano como sensibilizada em excesso pelo "humilde apelo" do "presidente" G. W. Bush: "Connosco ou contra nós!".

O Afeganistão um caos? Não importa. Os desígnios de Washington não podiam esperar mais, sobretudo quando as suas reservas petrolíferas mal davam para os próximos vinte anos e quando o Iraque de Saddam Hussein indexava o seu ouro negro ao euro, incitando os vizinhos a fazer o mesmo. Seria, portanto, o Iraque a próxima conquista do Império. Os resultados são os que se conhecem.

E do 11 de Setembro de 2001? Alguém se lembra? E a memória dos que perderam a vida nesse dia? Alguém a honra? E o resultado das investigações aos atentados? Alguém o conhece?
Com um milionésimo dos custos das campanhas do Afeganistão e do Iraque seria possível construir uma réplica exacta da ala do Pentágono destruída a 11 de Setembro de 2001 e fazer um Boeing teleguiado entrar por ela dentro. Seria muito interessante de observar. Talvez, mesmo, demasiado interessante.

Mas tudo isso esquece.
Tudo pertence a um passado que há muito começou a ser convenientemente reescrito a cada dia que passa, até que não haja memória do que realmente sucedeu nesse trágico dia; até que as pessoas já não lembrem como a mesma organização que ignorou todos os indicadores de potenciais atentados e terroristas nos EUA foi capaz de produzir em dois dias uma lista detalhada de 19 nomes "e estamos seguros que todos estavam a bordo dos aviões e que foram eles quem provocou os incidentes"; até que ninguém recorde o patético agente governamental que brandiu um passaporte novo em folha com o nome e a foto de Mohammed Atta, exclamando: "Esta é a prova! Encontrámos este passaporte nos escombros do WTC!"; até que se esqueça aquela página no site da Casa Branca em que o "presidente" George W. Bush afirma ter visto o primeiro avião embater no WTC, em directo (1), na televisão... Já ninguém quer saber disso para nada.

Um dia, existirá um muro de mármore negro onde estarão gravados os nomes dos que morreram em vão no 11 de Setembro de 2001. Quanto aos muitos mais que os seguiram, como resultado da sua "vingança", nunca terão os seus nomes em memorial algum. Permaneça a memória de uns e de outros nos nossos corações, assim como a vontade e a coragem que a outros falta (2) e que gostariam não tivéssemos. A de os honrar lutando por um mundo justo onde não haja lugar para a violência gratuita - seja ela terrorista ou preventiva.

Aqui fica - hoje, já - o que tenho a escrever sobre o 11 de Setembro de 2001. A 11 de Setembro próximo nada escreverei. Nesse dia não haverá palavras. Apenas o insuportável silêncio em memória de uma humanidade perdida.
Ou quase.

Rui Semblano
Porto, 5 de Setembro de 2003



nota:
Porque não apenas "11 de Setembro"? Porque apenas 9-11 ("nine-eleven") o significa assim. Porque "11 de Setembro" é muito mais. Porque em 1973 também existiu um "11 de Setembro". Porque escrito assim, o ano não é redundante. É mesmo necessário.


(1) Excerto original seguido de tradução:

"(...) I was in Florida. And my Chief of Staff, Andy Card -- actually, I was in a classroom talking about a reading program that works. I was sitting outside the classroom waiting to go in, and I saw an airplane hit the tower -- the TV was obviously on. And I used to fly, myself, and I said, well, there's one terrible pilot. I said, it must have been a horrible accident. But I was whisked off there, I didn't have much time to think about it. And I was sitting in the classroom, and Andy Card, my Chief of Staff, who is sitting over here, walked in and said, "A second plane has hit the tower, America is under attack." (...)"
(George W. Bush, Orange County Convention Center, Orlando, Florida, USA, December 2001)

"(...) Eu estava na Flórida. E o meu chefe de gabinete, Andy Card -- na verdade, estava numa sala de aulas falando sobre um programa de leitura que funciona. Estava sentado fora da sala à espera de entrar, quando vi um avião embater na torre -- a TV estava ligada, obviamente. E eu próprio costumava voar e disse, bom, aí está um péssimo piloto. Disse, deve ter sido um acidente terrível. Mas fui levado dali, não tive muito tempo para pensar sobre aquilo. E estava sentado na sala de aula, e Andy Card, o meu chefe de gabinete, que está ali sentado, entrou e disse, "um segundo avião embateu na torre, a América está a ser atacada." (...)"
(George W. Bush, Centro de Convenções do Condado de Orange, Orlando, Florida, EUA, Dezembro de 2001)

in www.whitehouse.gov

(2) ver "À baioneta", n'A Sombra.

sexta-feira, setembro 05, 2003

Back to the old drawing board...


É com satisfação que assinalo o regresso do amigo Lourenço (LAC) e do seu excelente "O Projecto", um dos blogs favoritos d'A Sombra.
Bem vindo de volta!
Também a Catarina regressou há alguns dias e o 100nada está de volta em "(almost) full swing"! Um abraço de boas vindas para uma autora que se confessa incapaz de escrever um livro, mas que excela no blogging (ainda que isso possa significar passar de um cigarrinho aqui e outro acolá para dois packs por dia! - Easy, Cat!).

São sinais, entre outros regressos, de que o Outono se aproxima da Blogosfera. Não penso esperar pelo 11 de Setembro de 2003.

quinta-feira, setembro 04, 2003

À baioneta


José Pacheco Pereira (JPP) "volta ao Iraque" (Público, 04Set2003, p. 5, "Voltando ao Iraque") para assinar - outra vez - a certidão de óbito da ONU. Não posso deixar de a subscrever - outra vez. Como aqui escrevi, a ONU morreu - outra vez - com Sérgio Vieira de Mello.
Já se tornou evidente que as Nações Unidas serão irrelevantes enquanto os EUA persistirem na sua actual estratégia de Segurança Nacional, como definida publicamente por G. W. Bush em Setembro de 2002 (há um ano atrás):

"Hoje, a humanidade tem nas suas mãos a oportunidade de ampliar o triunfo da liberdade sobre os seus inimigos. Os Estados Unidos aceitam de bom grado a sua responsabilidade na liderança desta grandiosa missão."

(The National Security Strategy of the United States of America (versão integral), in New York Times, 20Set2002)

Pouco importa se tal responsabilidade é assumida unilateralmente, em total desrespeito pelo Direito internacional e desprezo pela ONU. JPP e muitos mais entendem que os EUA sabem o que é melhor para todos nós. E se cometem erros - e a ocupação do Iraque é um deles - temos de viver com isso, pois, como explica JPP, não existe alternativa. Entre os EUA "irresponsavelmente interventivos" e a ONU "responsavelmente ponderada", que venham os primeiros!

A vertigem da História, para JPP, não se compadece com pausas para reflexão ou atrasos para reunir consensos - é preciso avançar "e em força!"; avançar sempre, contra tudo e todos, nem que seja irreflectida e irresponsavelmente. Qualquer coisa é preferível a ficar parado - incluindo o uso de armas nucleares tácticas de baixa potência, como pretende o Governo norte-americano.

JPP coloca a lápide no túmulo da ONU com a afirmação:
"As Nações Unidas já não têm a capacidade política, nem a vontade, de defrontar os muito complexos problemas iraquianos (...)".
Mas os EUA têm ambas. Aliás, foi precisamente por os EUA terem relegado a ONU para plano "terciário" que a ONU as perdeu - é o que se subentende desta espantosa afirmação de JPP.
Pode ele dormir descansado. Algures no mundo, um marine norte-americano monta guarda à sua liberdade.

A manifesta relutância da Europa, ou de alguma Europa, em seguir de olhos fechados a "cavalgada heróica" dos EUA na sua "cruzada pela democratização do mundo" terá como resultado, segundo JPP, a explosão de autocarros "no meio de Paris ou Berlim". (Vá-se lá saber como estas cidades lhe ocorreram como exemplo!...)
E termina o insigne eurodeputado:
"Os americanos já não têm essas ilusões, porque os aviões do 11 de Setembro as resolveram de forma trágica."
Antes do 11 de Setembro de 2001, os EUA também, como a Europa de hoje, se mostravam "relutantes" em interferir nos assuntos internos de países terceiros, do modo que o fez, desde então, no Afeganistão e no Iraque. Por essa "inactividade e relutância" pagaram com o 11 de Setembro de 2001.
Se a Europa não começar já a agir "à americana", levando a "democracia" na ponta das baionetas aos "ignorantes do mundo árabe", o "nosso 11 de Setembro" há-de chegar!

Realmente, José Pacheco Pereira, só à baioneta...

Desatinos


PCP e Bloco de Esquerda
O outro lado da cegueira


Regressado de mini-férias, vejo que na "esquerda" nada mudou.
Já Augusto M. Seabra "me dizia" no Público de domingo último ("A mentira e a cegueira", p. 6, 31Ago2003) como fora triste a prestação de Miguel Portas no Diário de Notícias (21 e 28Ago2003), que perante o infame atentado contra a sede da ONU em Bagdad nada mais encontrou para dizer que o estafado "Yankees go home!".

Já quase a partir para as terras d'O Falcoeiro tinha lido no Público um artigo intitulado "PCP está contra a GNR no Iraque" (p. 9, 27Ago2003), em que é citada uma carta aberta dos comunistas a Figueiredo Lopes, protestando contra o envio da Guarda para o Iraque, alertando para a possibilidade de os 130 elementos destacados serem "um alvo natural da resistência patriótica" iraquiana. Nada como arquitectar um argumento pertinente de forma impertinente para o deitar por terra.

Pois hoje, no mesmo Público, Fernando Rosas assina um artigo intitulado "A intifada iraquiana" (p. 5, 03Set2003), onde nos brinda, entre outras barbaridades, com expressões como "onusinos", para definir os funcionários das Nações Unidas que pereceram no atentado em que morreu Sérgio Vieira de Mello.
Só o calibre do título diz tudo. Diz que Fernando Rosas não quer entender (ou dar a entender que entende) o que se passa no Iraque. E, claro, a solução é mandar os "yankees" e os "onusinos" (que termo bestial...) para casa e deixar que os iraquianos celebrem a liberdade "em paz", não se percebendo muito bem se tal significará ver Saddam sair de baixo de alguma pedra, assistir a uma guerra civil entre xiitas e sunitas ou qualquer outra coisa do género.

Definitivamente, confirmo o que já sabia muito antes das manifestações contra a invasão do Iraque em que participei e de alguns contactos mais próximos com elementos destacados do PCP e do BE: o melhor que esta "esquerda" pode fazer para ajudar a causa dos milhares (milhões em todo o mundo) que se batem pela paz e pela justiça no Oriente Próximo é ficar quieta e calada.
Nós agradecemos.

Parafraseando, livremente, uma frase do velho Independente, por altura da visita a Portugal de Mikhail Gorbatchov, ainda a Perestroika era uma miragem, e dos comentários que esse evento mereceu do Avante:
É por estas e por outras que a democracia em Portugal se deve construir não só sem esta "esquerda", mas contra esta "esquerda".

nota:
Para os que tentam "catalogar" A Sombra, esta entrada deverá criar alguns problemas. É que o pobre Ferro Rodrigues já nos mereceu honras de bombo de festa... Será desta que nos colocam no "F"? Hmm...

nota2:
Hoje, apenas à custa do meu inseparável Kuffiyeh, chamaram-me de "bloquista". Gentilmente, sorrindo, recusei a etiqueta (foi a primeira vez que me disseram tal coisa!). "E o senhor será?..." indaguei. A resposta veio pronta: "Católico e de direita!" Acabamos a cantar Bryan Ferry...
Foi interessante.

Promessas


in Diário Económico (01Set2003)

"Há momentos na vida política - e Durão Barroso já percebeu que este é um deles - em que os eleitores estão fartos da realidade e querem promessas."
(Miguel Coutinho)

(citado pelo Público em Diz-se, 02Set2003)

Crónicas d'O Falcoeiro . II


Sobre o Islão em Portugal.

A propósito dos interessantes artigos publicados no Público (Cultura, p. 34 e 35, 31Ago2003). Um memorando assinado por Lucinda Canelas, com o concurso de Cláudio Torres, director do campo arqueológico de Mértola; memorando pois mais não faz que recordar o que hoje todos deveríamos saber, quando seria de esperar que o manto da "herança romana" (e românica!) deixasse de cobrir quase tudo o que ao Islão diz respeito neste país.

Ainda assim, apesar da bem ilustrativa afirmação "Geo-historicamente, o Islão corresponde ao Mediterrâneo. Só vai até onde chega a oliveira.", o mapa publicado junto com este artigo ("O Islão em Portugal") apenas abrange o território português do Algarve até às Beiras, quando o al-Andalus ia muito além de Alfaiates - para Norte (ver Panorama n. Zero, Boassas - Uma aldeia de fronteira no Garb al-Andalus. Cinco Séculos de esquecimento. por Manuel da Cerveira Pinto).

Apesar disso, fico satisfeito ao ver este tema merecer este destaque num jornal como o Público, contribuindo para o desfazer deste equivoco. Existem mitos que servem fins muito pouco recomendáveis. O da "invasão" da Península Ibérica pelos "mouros" é um deles. Acabe-se com ele.
E comecemos a olhar as oliveiras com outros olhos.


Falcoeiro, Alvaiázere (topónimo árabe original al-Baiaz)

(edição: Tomar; publicação: Porto)

segunda-feira, setembro 01, 2003

Crónicas d'O Falcoeiro . I


Sobre o 47º Congresso da União Internacional dos Advogados.

Não é de estranhar que uma classe ligada ao Direito sugira alterações em campos a ele relativos, mas tiro o chapéu aos advogados reunidos em Lisboa por ocasião do 47º Congresso da UIA. Além de proporem o fim do direito de veto como forma de o Conselho de Segurança (CS) da ONU recuperar alguma da sua credibilidade, também eles, como tantos outros no passado, se interrogam se não será já tempo de mudar a sede das Nações Unidas para um país "neutro".

Esta ideia aparece referenciada em "Camelot 2003 . 2 . Anexo b", como eco de um episódio descrito por Diogo Freitas do Amaral, do tempo em que presidiu à Assembleia Geral da ONU.
(Diogo Freitas do Amaral, in Do 11 de Setembro à crise do Iraque, Bertrand, Lisboa, 2003)

Não entendo como "miraculosa" a solução do fim do veto no CS, mas apenas como um passo na direcção certa, ou seja, evolutivo. Já a transferência da sede da ONU para outro local, território dito "neutro", seria "um passo de gigante para a humanidade" (maior, quem sabe, que o dado por Armstrong...). Quando menciono Lisboa como opção (Camelot 2003), faço-o como ligação com o livro de Freitas do Amaral, evocando uma das "propostas" dos diplomatas que com ele conversaram, nada mais.
De facto, a sede da ONU em qualquer país da UE dará no mesmo que nos EUA. Territórios em situação de a acolher não faltam, desde a Suécia à Nova Zelândia, passando pelo Mónaco. É só escolher. Não "fica à mão"? E Nova Iorque "fica à mão" para quem?


Falcoeiro, Alvaiázere (topónimo árabe original al-Baiaz)

(edição e publicação: Tomar)