sexta-feira, dezembro 16, 2005

Acordo Ortográfico (é assim que se escreve?)

"Portugal pode pedir adiamento para aplicar Acordo Ortográfico"
(in Público, 16-12-2005)

E quando eu pensava que isto já estava esquecido e enterrado, eis que alguma alminha iluminada decide colocar a questão na ordem do dia, talvez por via de alguma obscura e perversa relação com a polémica prova de Português do 12º ano.

No artigo do Público de hoje, da autoria de Kathleen Gomes, uma das melhores descrições das reais consequências de pôr em prática este infeliz acordo:

“Quinze anos depois, os portugueses continuam a escrever "óptimo" e não "ótimo", "factura" e não "fatura" - uma das mudanças mais radicais previstas no projecto era a eliminação das consoantes mudas, "brasilificando" assim o vocabulário português.”

De facto, é disso que trata este famigerado acordo (perdoem-me, mas não me canso de o adjectivar); por muito respeito que me mereça o Brasil, até por ser filho de uma espantosa senhora que nasceu no Rio de Janeiro e ter família em Porto Alegre e Florianópolis, acho que Brasileiro é brasileiro e Português é português. O seu a seu dono. Os brasileiros não ganham nada com a meia dúzia de palavras que seriam “convertidas” para Português e nós, o que teremos nós a ganhar com as 2600 que seriam adaptadas a formas usadas noutros PALOP (a maior parte do Brasil)?
Talvez esteja na hora de ressuscitar o velho Movimento Contra o Acordo Ortográfico. Até porque é no silêncio dos povos que os déspotas encontram forças.

Que raio de país, onde os professores de Português consideram má a decisão do Ministério da tutela em voltar atrás no retirar do exame de 12º ano a essa disciplina e onde os neonazis acham que Marlene Dietrich era amante de Adolf Hitler (para além da Eva e de Blondi, claro!).
Será a ignorância mesmo uma benção?

Edmonton vs Canadiens

Como é que me chamou a atenção um jogo de hoquei no gelo entre os Edmonton Oilers e os Montreal Canadiens? Bom, tudo aconteceu porque era o jogo que a Émilie estava a ver quando escreveu a sua primeira entrada de sempre num blog. Esta jovem franco-canadiana deu o primeiro passo na blogosfera e caíu logo n'A Sombra, vá-se lá saber porquê!

O mundo blogosférico tem destas coisas, mas eu sempre tive uma queda para as mulheres francófonas (desde a primeira vez que vi "Os Pequenos Vagabundos"!) ou não fosse casado com uma francesa! (Aliás, ela já me descascou por ter dado dois erros nos comentários que escrevi à Emy!)

É o segundo blog estrangeiro a constar da lista de Bloglinks d'A Sombra, à direita, em Blogosphere. Bienvenue, Émilie!

nota: Montreal perdeu o jogo por 5-3. Dommage. :)

X-Post






SCULLY: We open doors with the X-Files, which lead to other doors.
THE X-FILES Requiem (7x22) Posted by Picasa

Operações Especiais

No âmbito da entrada anterior, sobre o tipo de missões a desempenhar pelos militares do EUA num Iraque controlado pelos próprios iraquianos, é o próprio Senador Kerry que, de forma leve e irreflectida, sugere as Operações Especiais como o mais indicado. Esta sugestão implica uma drástica redução do número de militares no terreno; de facto, quase todos os efectivos dos fuzileiros, do exército e da Guarda Nacional, restando algumas unidades de protecção às bases de apoio das forças especiais, geralmente Rangers ou Deltas, por vezes SEAL's.

O que Kerry não explica é como resultaria no Iraque uma táctica que, no passado distante como no recente (Vietnam e Afeganistão) não apenas se revela errada como conduz à escalada do nível de intervenção para as forças regulares.

Não vou recorrer ao Case Study vietnamita (francês ou norte-americano), para não ser acusado de comparar o incomparável. Vou referir-me ao Afeganistão, país islâmico, no qual a intervenção militar da OTAN está em pleno curso. De facto, nesse país, o contingente militar norte-americano é muito menor que no Iraque (uma proporção aproximada de 1 para 10), sendo a maior parte dele constituído por forças especiais, desempenhando as tais missões para as quais estão vocacionadas e deixando as operações de "rotina" para as forças da coligação. Resultado? Infelizmente, o exemplo melhor do fracasso da intervenção militar no Afeganistão é português. Um elemento dos Comandos portugueses, destacado para um perímetro que nada tem a ver com o teatro das forças especiais dos EUA, foi vítima de um engenho explosivo. Sem efectivos regulares que controlem eficazmente um país sem capacidade própria para o fazer, as forças especiais apenas "incomodam" o suposto inimigo, sem lhe causar grande dano. Daí o crescente apelo dos EUA à OTAN para um maior envolvimento. E por via do Iraque, claro.

No Iraque, à falta de carne para canhão europeia, são os miúdos dos Marines e os "weekend soldiers" da Guarda Nacional que cobrem as acções das forças especiais, e estas têm mais impacto, mas nem por isso a situação é melhor que no Afeganistão. É até bem pior, embora a proporção de norte-americanos mortos em combate seja de 10 para 1 em relação àquele país; exactamente o inverso das tropas em presença nos dois teatros. Porém, a esmagadora maioria destas mortes dá-se entre as forças especiais no Afeganistão e entre os regulares no Iraque.

Já devem ter chegado à mesma conclusão que os generais do Pentágono: não há modelos certos para situações deste tipo. Só os afegãos e os iraquianos podem resolver os seus problemas. A ajuda que G. W. Bush diz levar a esses países, a tal injecção de democracia, só causa problemas. Os europeus ocidentais, no geral, já estão mal preparados para lidar com a realidade islâmica, mas os EUA ainda o estão menos; sobretudo sendo um país tendencialmente contra tudo o que é árabe (entenda-se anti-israelita, que é o que eles entendem por árabe, na grande maioria).

Alternativas?
Agora não resisto, desculpem lá, mas talvez bombardear Meca. Já tentaram o mesmo em Hanói e deu no que deu...

Bottom line?
A retirada é inevitável. Resta saber quando vai G. W. Bush admiti-lo. A julgar pelo tempo que demorou a admitir que o enganaram quanto às ADM iraquianas, aí uns dois anitos. Esperemos que menos. E o Afganistão não vai ser diferente.


Fight the future...
(the X-Files)


nota de actualização:
Sobre os militares portugueses no Afeganistão em A Sombra ver também aqui.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Dubya vs Kerry




G. W. Bush na CBS e J. F. Kerry na CNN.
Dois olhares sobre o Iraque no dia das eleições nesse país.

Com o passar do tempo, mais óbvia se torna a dificuldade que os norte-americanos têm em compreender o mundo árabe e, em especial, a rua árabe. Desde o "missão cumprida", de 1 de Maio de 2003, a bordo do USS Abraham Lincoln, G. W. Bush continua convencido que a sua causa é das mais nobres que existem, quer os árabes o reconheçam ou não. Quanto a J. F. Kerry, desde aquele Novembro triste de 2004 que se recusa a falar sobre a retirada das tropas norte-americanas do solo iraquiano.

O presidente, finalmente, reconhece o quanto estava errada a informação que lhe foi passada (ou é o que dizem) sobre as ADM no Iraque, mas persiste no lema "ficaremos no Iraque até cumprirmos a missão e nem um dia mais" - mesmo que esse dia seja daqui a vinte anos.
O senador, timidamente, vem apontar o dedo à forma como são empregues as forças norte-americanas no teatro de operações iraquiano, realizando missões de alto risco, como patrulhamentos e buscas casa a casa, que já deveriam estar a ser feitas pelas forças de segurança iraquianas ou pelas suas forças armadas.

Ao presidente: já vens tarde, filho.
Ao senador: a ser como diz, que missões cumpririam os soldados norte-americanos?

Parece que, adaptando, continua a ser mais o que nos separa do que aquilo que nos une, falando da UE e dos EUA; seja um republicano ou um democrata a residir na Casa Branca...

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quarta-feira, dezembro 14, 2005

Cat

Cara Catarina (100nada),

Manda a boa educação que não passe despercebida uma lisonja, mesmo imerecida, pelo que agradeço o gesto e assim retribuo, a propósito de uma fresca troca de "galhardetes":

O 100nada foi um dos primeiros blogs que descobri, ao dar os primeiros passos na blogosfera. Com ele confirmei a minha noção de blog; um espaço privado aberto ao público, onde nem sempre o que parece é, mas onde sempre é o que parece para os que conhecem o autor (ou a autora) do dito. Um dia, ao entrar num daqueles sítios onde me conhecem pelo nome e me trazem o que quero sem eu pedir nada, trouxeram-me feijoada fria. Como o Poeta, paguei a conta e saí.
Afinal, eu apenas frequento aquele espaço. E tenho cozinha em casa.

Um grande abraço (cheio de saudade) para a Catarina.

RS

nota: no link acima, para os Arquivos d'A Sombra, descer na página encontrada até ao post "Mais nada".

Motivos 1


O principal motivo do afastamento d'A Sombra durante todos estes meses... Vida nova, casa nova, problemas novos e alegrias renovadas.

Foi a 31 de Julho de 2004.
Igreja templária de Santa Maria do Olival.
Tomar.

Porquê Tomar?
Porque, pelo meu lado, teria sido no Porto e, pelo lado da noiva, teria sido em St. Dié des Vosges...

Vive la France!


nota:
Esta tinha de ser a primeira imagem a surgir n'A Sombra.
Posted by Picasa

terça-feira, dezembro 13, 2005

Relembrar

Para os que entretanto, e muito naturalmente, se desabituaram do MO d'A Sombra, convém relembrar alguns aspectos relativos ao funcionamento deste blog:

A Sombra é um blog editorial, isto é, a interacção processa-se via e-mail e são editados os comentários aprovados pela "gerência" (quem me conhece sabe que isto não significa só publicar o que é lisongeiro para A Sombra - basta ir aos arquivos para o comprovar).
Assim, se quer desancar n'A Sombra, use o nosso e-mail (a-sombra@netcabo.pt) fazendo copy-paste do endereço no cabeçalho ou na coluna da direita.

Por falar em arquivos, para além do automático do Blogger, A Sombra dispõe de arquivos manuais com as entradas por títulos ordenadas semanalmente e links para cada semana.
Procurem na coluna da direita em "Arquivo Ano I" e "Arquivo Ano II".

Quanto aos nossos blog links, são extremamente selectivos. Se um blog lá está é por ter merecido a minha atenção e é um sítio que visito regularmente. Os históricos, hoje inactivos, estão mais abaixo. Espero que alguns ressuscitem, como A Sombra.

That's all, folks.
For now...

Oops...

O e-mail actual é a-sombra@netcabo.pt.
Por lapso, no regresso, esqueci-me de alterar o e-mail d'A Sombra no cabeçalho, embora o tenha corrigido na coluna da direita, em "faça sombra", e nos dados pessoais do Blogger. Agora está bem.

Aos que tal possa ter induzido em erro, as minhas desculpas.

nota:
Deus... Até dos posts técnicos como este tinha saudades!
Good to be back home. :)

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Line of fire

"Morte violenta de quarto agente num ano abala PSP"
(in Público, 12/12/2005)

A razão para o nível a que chegou a criminalidade violenta (leia-se armada) não se resume ao deficiente equipamento das forças de segurança, muito embora tal facto seja incontornável na análise do problema. Também atirar a culpa para o bombo de festa "educativo" não é razoável, apesar de, como em todas as vertentes da vida social, a educação de qualidade estar na base de uma sociedade próspera, tranquila e justa. O que pode ser feito, então, para além do óbvio empenho na educação dos jovens e no reequipamento das forças de segurança? É que nem uma coisa nem a outra vão tirar as armas aos delinquentes que já as possuem ou tão pouco os farão encarar a sociedade de modo civilizado.

Soluções de reacção, como a política Sarkozyniana, criando distanciamento entre a polícia e os cidadãos (incluindo os cidadãos delinquentes), só agravam o problema. Soluções de prevenção, como as de policiamento de proximidade em regime de assistência social, só resultam se apoiadas por unidades policiais "sombra" de intervenção rápida e eficaz; de outro modo apenas vão enxovalhar a imagem já quase desautorizada por completo do uniforme azul escuro. A solução será, em todo o caso, uma junção sensata de ambas, e não a proacção musculada do tipo "esquadrão da morte" brasileiro.

A polícia não existe para incutir o medo nas pessoas todas, nos cidadãos comuns. Quando somos abordados por um agente da polícia não devemos sentir-nos ameaçados. Mas não podemos passar daqui para a generalização (leia-se bandalheira total), em que um agente da autoridade incute menos respeito que um lixeiro. A polícia deve incutir medo, sim, e muito, mas apenas nos que têm motivos para a temer.

Resumindo: o policiamento de proximidade, de alto risco em qualquer circunstância, feito por agentes levemente armados e "em mangas de camisa", que conhecem os seus locais de giro e as pessoas que neles se encontram, só resulta em respeito pela autoridade se apoiado por agentes anónimos fortemente armados, capazes de resolver qualquer situação com o máximo de impacto e o mínimo de força no mínimo de tempo possível sem deixar rasto. E a acção destes últimos só será eficaz se a Justiça funcionar com mão pesada e impiedosa para os prevaricadores.

Se continuarmos a soltar os delinquentes que os agentes prendem, umas horas após a detenção, nem a polícia ganha respeito nem os criminosos ganham medo. A impunidade é hoje generalizada e ganha terreno. Aos que, tendencialmente, vêem em cada delinquente um "cidadão com dificuldades de integração" e aos que consideram cada agente policial um "porco fascista", lembro que quando os agentes forem subjugados pelos delinquentes seremos nós, os cidadãos comuns, que estaremos na linha de fogo.

Fotos, Motos e Piano...

Por ter referido A Sombra na sua lista de blogs "a visitar", o que agradeço, descobri o Ernesto Esteves.
Se uma palavra vale um milionésimo de imagem, imaginem ao som do Concerto para piano nº 1 de Tchaikovsky (Lang Lang? Uma interpretação melhor que a única que possuo, em todo o caso). Só para ouvir esta peça vale a pena a visita, mas as fotos são óptimas e os títulos a condizer. Tudo isto em
"Fotos de Ernesto Esteves", que passa a figurar entre os blog links permanentes d'A Sombra.

Ao Ernesto, um abraço motard! V

domingo, dezembro 11, 2005

Assim...

... sem sobressaltos, como alguém escreveu um dia sobre a sua partida, escrevo eu sobre o meu regresso. Foram longos meses afastado deste local de encontros (e desencontros) até conseguir alguma estabilidade, sem a qual o manter d'A Sombra seria impossível.

Mudou muita coisa na minha vida, a maior parte para melhor, mas não mudou o meu prazer de partilhar ideias neste espaço em constante mutação que é a blogosfera e as saudades de alguns velhos amigos eram já muitas. Como aqui começa um novo ciclo, arrumei a casa, apenas mantendo o romântico Fabien como blogger, além de eu próprio. Os antigos residentes d'A Sombra seguiram outros caminhos, dos quais destaco o de Manuel da Cerveira Pinto, então blogger fantasma e relutante, hoje entusiasta da blogosfera e assíduo colaborador do blog "Boassas", que passa a constar da lista de blog links permanentes d'A Sombra.

A todos os que continuaram a sua jornada por estes trilhos me junto, não onde os deixei, mas onde estão hoje. Como uma sombra que regressa com o Sol... ou a Lua.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

At last...

... my love has come along
My rainy days are over
And life is like a song...

(god I missed this...)

:)

sábado, fevereiro 14, 2004

O fim como meio


--- quote ---

texto com pedaço de carta
(a noite)


(o autor saudando o leitor)

E emudecemos
muito
pois era a única direcção
dançável se e quando insondável
E passamos pela palavra secreta
pela imagem secreta
E pelo segredo comum

o fim não é o fim
o silêncio não é um fim
pois há uma vela acesa
E um epitáfio ainda
assim façamos nossa vida um dia
a vida é tudo, posso amar-te no degredo,
Em toda a parte há céu e flores e deus,
se viveres um dia serás livre,
a pedra do sepulcro é que nunca se levanta

E emudecemos um pouco
pois era a direcção
dialéctica
E passámos pela física
pela metafísica
e pela pedra

(o autor definindo a noite)

--- end quote ---

Poema extraído de "o fim não é o fim",
por Pedro Ludgero
(Amores Perfeitos, Vila Nova de Famalicão, Janeiro de 2004)

Porque...
... nem todos somos "escritores frustrados" na minha família!
Parabéns, Pedro, pelo teu segundo livro!
Venha o terceiro, já que o tens pronto!


nota:
Por ocasião do lançamento do livro, na Academia Musical de Vilar do Paraíso, em Vila Nova de Gaia (onde o autor lecciona), sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2004.

nota 2:
Há quanto tempo não se falava de poesia ou se escrevia um poema, n'A Sombra... E o Joaquim que também está prestes a editar mais um livro. "E tu?" - perguntaram-me, no lançamento do livro do meu primo Pedro - "Quando é que editas os teus escritos?", ao que estive mesmo para responder que editava outros, mas num blog. "Num quê?" - pois. Por isso é que "só" estive mesmo. :)

nota 3:
A propósito de poesia, registo o simpático convite do Vamos Lixar Tudo para traduzir o poema Aubade, de Philip Larkin, desafio lançado originalmente pelo 3 tesas não pagam dívidas, mas dadas as actuais circunstâncias tenho de declinar a gentileza. Um abraço para o Carlos e para o Rui. ;)

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

Agora, amigo?!


José Pacheco Pereira, no Público de ontem, vem dar o dito por não dito e "acha" que "se calhar" tinha sido preferível "não fazer nada" no Iraque a fazer o que foi e está a ser feito...

Ó amigo! Agora?
Agora Inês é morta, homem.

Olhe, fale das europeias ou das nossas presidenciais, ou faça uns haikuzitos; agora do Iraque, faça um favor a si próprio e não diga nem escreva mais nadinha.

(enviado por e-mail para o abrupto JPP...)

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Já sabia...


Quando acabaram os trinta e veio a segunda série, estava a ver que ia sair uma terceira. Hoje, com o número 89 da colecção Mil Folhas, do Público, lá veio a esperada notícia: quem edita 90 edita 100!

A colecção de livros editada pelo Público é simpática, pois além de proporcionar grandes obras da literatura a um preço muito acessível (e com capa dura!), os títulos seleccionados são interessantes, na sua maior parte. As edições especiais, como o Eça e os volumes de Natal, também foram uma boa ideia, embora a tradução dos Contos de Dickens que já tinha (de João Costa, edição Círculo de Leitores) vaporize a desta colecção, mas enfim...

O problema é que já gostava de ler antes de o Público editar a colecção, de onde já ter muitos dos livros que comprei - são os números... se não fossem numerados, ainda saltava os repetidos, assim, cedo ao marketing coleccionista -, embora os considere uma boa compra. Ler um livro traduzido por dois tradutores diversos é como ouvir uma mesma peça musical dirigida por maestros diferentes. Agora, 100?

Ok. Já tinha prometido que, nesta eventualidade, compraria mais dez, mas nunca mais trinta! Se depois dos 100 vierem com a cantiga dos 200 (o que duvido), a mim não me apanham! Mas já conheço o ditado... Never say never...

Quanto à colecção, espero que chegue aos mil, como as folhas. É que muito boa gente começou a ler "a sério" por causa destes livros a 5 euros "mais o jornal".
Um verdadeiro serviço... Público.

Parabéns!
Venham os 100.

quarta-feira, fevereiro 11, 2004

Something Old, Something New...


É um recorde absoluto.
Dez dias sem publicar nadinha e o Fabien "na reserva" (sim, que dos restantes nem falo!). Dada a assiduidade a que A Sombra habituou os seus leitores (que aqui continuaram a vir todos os dias! - obrigado) penso que uma explicação é devida.

Tem a ver com a "bota" que o Fabien disse querer ver como descalçaria... Pois bem, no que toca à Sombra e ao Cinema para Indígenas, muito mal. O tempo não tem dado para nada e o trabalho aperta. Mas isto não diz muito a quem não sabe o que faço e o que este ano tem de diferente.

Walk with me...

Sou um daqueles felizardos que conseguiu a ocupação ideal. Trabalho no meu tempo e, na prática, até quando não faço nada ganho dinheiro. (Não, não sou piloto de fórmula um, nem corretor da Bolsa, nem advogado - não resisti, que me desculpem os advogados!)
Sou pintor.
Esta afirmação é, em si mesma, espantosa, pois não é uma ocupação simpática. A maior parte dos pintores que conheço, sobretudo os que têm formação académica, fazem tudo menos pintar. Eu tive sorte, pois a minha formação académica é gráfica, ainda por cima, mas vem daí o ter-me tornado pintor. A minha cara metade, a Lina, que os leitores habituais d'A Sombra e do Cinema para Indígenas (tão esquecido...) já "conhecem", é licenciada em pintura e, felizmente, consegue viver da pintura, também. Por sua vontade, fiz umas experiências com os meus velhos aerógrafos (que tinha encostados numa gaveta desde que encontrei os Macintosh - em 1985...) e a aceitação superou todas as minhas expectativas - a tal ponto que coloquei a minha empresa gráfica em suspenso e só faço serviços gráficos em situações especiais - como a edição do Panorama, por exemplo.

(A propósito, o número um, seguinte ao zero, saiu a semana passada, o que também contribuiu para o meu afastamento da blogosfera. Nem tempo tive ainda para o colocar on-line... Adiante.)

Tenho uma exposição individual marcada para 5 de Março e ainda algum trabalho para fazer, mais catálogo e convites e... (claro que sou eu que trato disso, uma das excepções em que volto a ser designer gráfico - permaneço o meu cliente mais exigente).
Normalmente, estaria folgado a esta altura, mas no fim do ano passado vendi alguns trabalhos que pensei não me fazerem falta e, entretanto...

Entretanto já fui a Tomar umas quatro vezes desde o fim-de-ano e... mas isso é para a entrada abaixo, publicada em ordem inversa para benefício da leitura!
(...)

(ver Something Borrowed, Something Blue..., abaixo)

Something Borrowed, Something Blue...


(Se começou a ler aqui, "está mal!"
- ver Something Old, Something New..., acima)


(...)
Pois é.
Já andávamos a pensar nisso desde o ano passado e, de repente, a 2 de Janeiro deste ano, demos por nós à procura de Igrejas e Quintas em terras dos Senhores do Templo.
No início do ano, eu e a Lina decidimos casar.

Os que passaram por isso, já sabem como é o "tornado". Neste momento, estou no seu interior e tudo é mais calmo - à excepção da preparação da exposição de pintura - mas a entrada foi tremenda! Datas, locais, confirmações, padres, caterings... You name it.
Agora, até Abril, será mais calmo. Depois é a saída do centro do tornado para a tempestade, de novo - papéis, casa, pormenores, convites... e o CPM (don't ask...). :)

Assim aproveito para comunicar "blogosfericamente" o meu enlace com a Lina, que jamais poderia perder e me dá a força que por vezes não tenho, a 31 de Julho deste ano, na igreja de Santa Maria do Olival, onde estão sepultados nada menos que 21 mestres templários (!), em Tomar (na falta da Charola, em restauro vai para catorze anos...).

E uma vez que vos revelei o meu mister, aproveito para vos convidar para a inauguração da exposição, que ocorrerá no Auditório Municipal de Gondomar, a 5 de Março, pelas 21 horas, que se intitula "Ars est celare artem".
A Blogosfera estará representada. :)
Quanto ao pintor, bem, não uso o meu nome real, mas um heterónimo.
Trata-se de Aguiar (João Pedro) e, um dia, também teve um blog.
Alguns convites seguirão por correio, para alguns de vós, outros por e-mail, mas fica a sugestão, desde já, a todos os que passam por esta Sombra.

Está explicada a minha ausência.
Envio aos que me escreveram, estranhando a situação, um abraço bem forte; obrigado, do fundo do coração. Vocês estão sempre comigo, pois continuei a ler-vos aos pouquinhos, mesmo não tendo tempo (e inspiração) para escrever.


Duas chamadas particulares:
- Para o amigo Baeta,
Aqui estarei sempre. Quanto às melhoras, depende do teu ponto de vista! :)
"A vida é sombra que foge..."
- Para a querida LU,
Obrigado pelas palavras e nunca, mas nunca peça desculpa por me escrever. Estarei sempre aqui, de uma forma ou de outra. Prometo tentar publicar nem que seja um Haiku de vez em quando, enquanto o tempo aperta! ;)


Sempre,

Rui Semblano e João Pedro Aguiar
Vila Nova de Gaia, 11 de Fevereiro de 2004


nota:
Abaixo está uma entrada que já deveria ter sido editada.
Vamos ver se resisto a voltar "a sério" antes de o poder fazer verdadeiramente! Que saudades d'A Sombra - e só foram dez dias!!
(ver I love you just the way you are...)

I love you just the way you are...


É inacreditável, mas esperado.
Agora que ficou demonstrado que não havia qualquer perigo eminente que justificasse a invasão do Iraque e que a memória ainda fresca dos piores anos de Saddam Hussein impedem que a desculpa dos direitos humanos seja invocada em sua substituição de forma credível (nessa altura, Washington e Londres suportavam o esforço de guerra iraquiano), devemos ser condescendentes com os governantes que nos atiraram para um conflito a que a ONU não deu o aval. Devemos condescender porque não nos mentiram ao afirmar que o Iraque possuía armas de destruição em massa prontas a usar, pouco importa se em 45 minutos ou em 45 dias. Não nos mentiram porque foram enganados.

Os culpados, dizem-nos, são as fontes que lhes forneceram informações falsas por verdadeiras e essas fontes são os serviços secretos norte-americanos e britânicos, pois têm obrigação de verificar as informações que obtêm e não podem, portanto, atirar a culpa para as fontes originais (sejam lá quais forem...).
A isto se chama atirar areia para os nossos olhos.
É que, se bem se lembram - e os próprios responsáveis dos serviços de informações dos EUA e do Reino Unido já o reafirmaram -, os serviços secretos norte-americanos e ingleses sempre afirmaram que não possuíam dados relevantes sobre a presença de ADM's no Iraque. Sempre que lhes perguntaram, claro. Os relatórios que Colin Powell e Tony Blair apresentaram eram baseados nessas informações, sempre consideradas exageradas por Hans Blix, que pretendia tempo para as confirmar.

Agora sabemos porque não lhe deram tempo.

Mas condescendamos; condescendamos...
Admitamos que os serviços secretos dos Estados Unidos e do Reino Unido nunca aconselharam prudência e contenção aos seus governantes e que nunca foram pressionados para "espevitar" os meros indícios ou pistas, transformando-os em provas (as tais que Durão Barroso afirmou ter visto com aqueles olhinhos que a terra há-de comer...); que fabricaram do nada a tese dos 45 minutos (RU) e a dos camiões-fábrica de armas químicas e biológicas (EUA), por exemplo. Admitamos que foi assim.
O facto de nos terem dito uma mentira convencidos de que esta era verdade diz-nos o quê sobre estes homens, cada um dos quais com poder para desencadear um ataque nuclear, com base nas informações de que dispõem?

Pobres W. Bush e T. Blair... Afinal, como diria José Manuel Fernandes, não são mentirosos, são apenas estúpidos. Já podemos estar mais descansados. É que começar uma guerra com uma mentira é criminoso, mas fazê-lo por estupidez é perfeitamente aceitável.

Que os países como Portugal, sem meios suficientes para verificar as informações desta natureza que lhes são apresentadas, tenham confiado em dois aliados tradicionais e amigos de longa data, ainda se compreende - embora hoje fosse de esperar alguma indignação, mas não; nadinha -, mas já não se compreende que os responsáveis pelas informações tenham sido enganados a tal ponto pelas suas fontes que transmitiram uma ideia totalmente errada aos seus Governos. Isso é o equivalente a passar um atestado de estupidez à CIA e ao MI5, mas afirmar que essa é a desculpa para justificar a guerra mais injustificável desde a invasão da Polónia, em 1939, é um atentado à inteligência de qualquer um.

Mas se pensarmos, concretamente, na reacção da sociedade portuguesa - e dos seus políticos - a este escândalo, talvez não seja um atentado significativo. Se calhar, para a maioria dos portugueses, a idiotice "Enganos não são mentiras" até é capaz de colar. A mim, desde o princípio, nunca me enrolaram, mas, também, quando fiz o 9º ano tive de passar nos exames para aceder ao 10º. Sou uma espécie em vias de extinção. Acho que não conto para a estatística.
Talvez para a National Geographic, quem sabe...


Rui Semblano
Porto, 1 de Fevereiro de 2004

sexta-feira, janeiro 30, 2004

Miklos Fehér (1979-2004)


Alguns vêm lembrar os desconhecidos que morrem todos os dias de forma semelhante à de Miklos Fehér e que não tiveram o destaque que este mereceu. Quererão com isso dizer que se sobrevalorizou a sua morte ou as suas circunstâncias por se tratar de uma figura pública, de um jogador profissional de futebol de um grande clube.

Eu não senti nada disso, apesar de o meu pai ter morrido no seu trabalho, de forma semelhante à de Fehér, vítima de um problema cardíaco totalmente inesperado. A morte do meu pai, como a de tantos outros cidadãos ditos comuns, não foi primeira página de jornais ou notícia de abertura, meio e fim de noticiários televisivos; não foi nem tinha nada que o ser.

A infeliz forma como Miklos Fehér morreu (e sim, existem formas felizes de morrer) teve a triste circunstância de ser gravada em imagens, transmitida em directo para milhões de pessoas e recolocada em emissão nos noticiários... Assistir à morte "ao vivo" causa uma emoção mais forte do que saber, simplesmente, a sua ocorrência. Ao ver aquelas imagens, emocionei-me até às lágrimas. Miklos Fehér era um jovem alegre e simpático que gostava de jogar futebol e que sonhava com grandes feitos - como devem sonhar todos os jovens. Ver uma vida assim ceifada, em directo na televisão, emocionou todos os que viram as imagens e transformou essa morte em algo mais que a de um mero futebolista. De repente, podíamos ser nós. Ninguém disse que a vida era justa, mas custa muito quando somos forçados a lembrar-nos disso.
O estatuto de Miklos Fehér somado com a forma como a sua morte foi transmitida, geraram um fenómeno natural de interesse superior ao normal por parte dos Media; e se alguns, como a própria Sport TV, se mostraram dignos, outros houve que se aproveitaram da situação de uma forma a que, infelizmente, já nos habituaram, explorando-a e transformando-a de acontecimento trágico em circo.

Desde os "jornalistas" que entrevistaram qualquer um que lhes aparecesse à frente para saber "o que sentia", passando pelos intermináveis directos e pela inserção das imagens da morte em spots inenarráveis que passavam a toda a hora, até à autêntica novela que foi seguir o caixão até à Hungria... Assim se transforma uma última homenagem mais do que merecida numa pantomina - a que os familiares de Miklos Fehér foram poupados por não falarem português e porque os nossos "repórteres" não falam húngaro - graças a Deus!

Pelo caminho, as insinuações de dopping de alguns "jornalistas" (que "acharam que deviam dizer aquilo", apesar de confessarem ser "totalmente infundado e irrelevante" - !!!), o "desfribilizador" de Valentim Loureiro, o Secretário de Estado que trocou a Hungria pela Turquia e tantos outros casos tristes que acontecem quando se fazem horas e horas de directo televisivo em que é preciso dizer sempre "mais qualquer coisita" e que transformaram este evento em motivo de chacota pelos cafés de Portugal...

Miklos Fehér merecia mais.
Mais respeito e mais dignidade.

Adeus, Miki.